“GAAAAH…” gemeu o monstro final, um Gigante Zumbi Venenoso Rank 7 que era uma combinação de vários Zumbis Venenosos.
Heinz, o homem que empunhava a espada mágica envolta em chamas azuis que havia aberto o monstro ao meio, suspirou ao confirmar que não havia mais inimigos.
O monstro, cujo núcleo era uma Zumbi de meia-idade, era visivelmente mais poderoso do que os outros monstros.
“Parece que o surto dos monstros acabou. Todos estão bem?” perguntou Heinz.
“Sim, nenhum problema aqui. Mas estou cansado.”
“Eu também não estou machucada… mas também estou cansada.”
O grupo de Heinz estava exausto. A maioria dos monstros que apareceram eram Rank 4 ou 5, e o único monstro Rank 7 era o Gigante Zumbi Venenoso que havia sido derrotado há poucos instantes. O número deles estava pouco acima de mil, uma quantidade menor que a média em surtos de monstros.
Eles não eram inimigos que o grupo das Cinco Lâminas Coloridas, um grupo de aventureiros Classe A, teria dificuldades para enfrentar. Na verdade, eram apenas inimigos fracos que seriam facilmente derrotados de forma unilateral. Mesmo que fossem mais de mil.
Esse é o poder de um grupo de aventureiros Classe A.
Porém, os monstros que avançaram contra a cidade de Niarki não eram monstros comuns.
Setenta por cento do enxame de monstros eram Mortos-Vivos, enquanto os outros trinta por cento eram monstros do tipo planta e insetóides. E os monstros que possuíam partes do corpo necessárias para falar estavam gemendo repetidamente “Mate Heinz”, como se essas palavras fossem algum tipo de encantamento.
Um grupo de monstros liderado por um poderoso comandante com o título de Rei se moveria como uma única criatura, mas essa era uma situação completamente anormal.
Dito isso, isso podia ser considerado um alívio. Os monstros não estavam fixados em entrar na cidade de Niarki. Os guardas, cavaleiros e aventureiros formaram rapidamente uma força defensiva para enfrentá-los, mas os monstros ignoraram a cidade e investiram contra Heinz, que estava na linha de frente da defesa.
Mesmo com cavaleiros feridos e imobilizados e aventureiros completamente exaustos ao alcance deles, continuaram mirando em Heinz.
Mas todos os monstros eram mais poderosos individualmente do que seus ranks indicavam, e por mais vezes que fossem derrotados, atacavam sem parar.
Monstros insetóides derrotados tornaram-se Mortos-Vivos, mofo e fungos cresceram nos restos dos Mortos- Vivos derrotados, gerando monstros do tipo planta como Cogumelos Venenosos e Bolores Tóxicos, e os restos de monstros do tipo planta geraram insetos que viraram monstros.
Graças a essa cadeia interminável de monstros, Heinz e seus companheiros foram obrigados a enfrentar mais de dez mil monstros.
“Ainda assim… parece que eles te odiaram bastante. O que você fez?” perguntou Jennifer, a guerreira humana desarmada.
“Nós aventureiros derrotamos incontáveis monstros, então podem haver vários motivos para sermos odiados,” disse Diana, uma sacerdotisa elfa de Mill, a Deusa do Sono. “Mas isso foi completamente fora do comum, não foi?”
As duas tinham se juntado ao grupo de Heinz depois de se mudarem para trabalhar no Reino de Orbaume.
Antes de responder a elas, Heinz olhou na direção da cidade de Niarki.
Como os monstros só miraram as Cinco Lâminas Coloridas, as muralhas externas da cidade não foram danificadas e, embora houvesse alguns na força de defesa gravemente feridos, apenas alguns realmente azarados haviam morrido.
“Se eu tivesse que arriscar um palpite, diria que foi aquele garoto Dhampir,” disse Heinz.
“Aquele que saiu correndo da Guilda dos Aventureiros? Você se lembra de ter feito algo que o fizesse te odiar?” perguntou Jennifer.
“Não, não há conexão entre aquele garoto e esse surto de monstros, certo?” disse Diana.
Heinz hesitou um momento para encontrar as palavras certas antes de falar novamente. “Eu também não acho. Mas… o nome dele era Vandalieu.”
Jennifer e Diana piscavam, sem entender o que Heinz queria dizer. Heinz mesmo não tinha certeza da sua teoria.
Mas o nome da ‘bruxa’ Elfa Sombria que ele capturou na nação-escudo de Mirg era Darcia. Isso aconteceu cerca de sete anos atrás.
E o nome que estava no formulário de registro deixado no balcão da Guilda dos Aventureiros, que agora tinha sido descartado após ser rejeitado, era “Vandalieu” com a idade de sete anos.
“É possível que ele tenha sido—”
“Você está pensando demais, Heinz.”
“Edgar?”
“Não importa como você veja, aquele Dhampir não era filho de nenhuma Elfa Sombria,” disse Edgar. “Com aquela pele branca, não tem como. Você está apenas sendo consciente demais do seu pecado, e é isso que te faz acreditar nisso.”
“Isso… pode ser verdade.”
As características visíveis especiais de um Dhampir são olhos de cores diferentes, um deles vermelho-sangue, além de presas e garras retráteis. Fora isso, suas características são herdadas dos pais. Se um dos pais for uma Elfa Sombria, é impossível que o Dhampir tenha a pele branca, como cera de vela.
E não havia como um bebê com menos de um ano na época ter sobrevivido sozinho na selva. E como teria cruzado a Cordilheira da Fronteira para chegar ao Reino de Orbaume?
“Acho que estou pensando demais. E pensar que cheguei a suspeitar que aquele Dhampir estivesse ligado a essa onda de monstros. Parece que estou mais cansado do que imaginei. Não é como se ele fosse a segunda vinda do Rei Demônio ou algo assim.” Heinz esboçou um sorriso irônico ao mencionar um boato que andava sussurrando na Igreja de Alda.
“É verdade”, disse Edgar. Mas, apesar das palavras, ele fez uma anotação para investigar Vandalieu mais a fundo assim que voltasse à cidade.
Se não me engano, o intermediário de informações na cidade de Niarki é controlado por uma organização chamada Presas das Noites Sombras. Acho que vou procurá-los.
Mais tarde, as ações de Edgar trariam à tona um incidente surpreendente, revelando que a organização continuara operando depois que seu líder e membros de alta patente haviam se tornado Mortos-Vivos.
“O mais importante é que, depois de voltarmos à cidade e descansarmos, precisamos encontrar a Masmorra de onde esses monstros vieram”, disse Jennifer. “Eles surgiram de uma direção totalmente diferente de qualquer Masmorra conhecida, então deve ter aparecido uma nova. Pode ser a Provação de Zakkart.”
A Provação de Zakkart. Uma Masmorra que surgiu pela primeira vez há cem anos. Ela aparece em algum ponto do continente sem aviso e desaparece cerca de um mês depois. É o único labirinto em movimento confirmado no mundo. É impossível classificá-la, e ninguém jamais entrou e sobreviveu para contar a história, exceto o grupo de Heinz, as Lâminas Arco-Íris, que conseguiu escapar ao custo de um dos seus membros. Dizem que um tesouro deixado por Zakkart repousa em sua câmara mais profunda. Segundo outra lenda, a forma Morto-Vivo de Zakkart espera aqueles dignos de desafiá-lo, e o herói que o derrotar se tornará sucessor do campeão Bellwood.
“Se isso for verdade… Vamos limpá-la com certeza desta vez. Pelo bem da Martie também. Mas você está certo. Primeiro, precisamos voltar à estalagem onde a Selen nos espera”, disse Heinz, pensando na garota Dhampir que aguardava seu retorno.
“Não, o relatório para a Guilda vem primeiro… Tá, tá, eu faço. Não reclamem que roubei toda a atenção da recepcionista nee-san para mim”, disse Edgar com um sorriso torto.
“Haah… Entendo… Que terrível… Imperdoável. Merecedor de morte”, disse Vandalieu.
“Vandalieu-sama, o que deu em você de repente?” perguntou Eleanora.
“São os membros do grupo de aventureiros Calma Ocidental, a recepcionista Aria-san, a Hannah-san e o pai da Hannah-san.”
Vandalieu estava cavando um túnel do casarão do Mestre da Guilda dos Magos até debaixo do castelo do Duque Hartner, transformando o solo em Golems e usando Transmutação de Golems para formar a passagem.
Ele deixara os Goblins Negros e seus amantes no casarão, enquanto o Mestre da Guilda e seus subordinados, agora em estado vegetativo, preparavam um “presente de despedida”.
A propósito, o casarão do Mestre da Guilda continha itens valiosos, como cajados de primeira classe, mas Vandalieu ainda estava sem armas. Se ele, que possuía uma quantidade monstruosa de Mana, fosse usar um cajado desenhado para humanos, teria de lançar feitiços com extremo cuidado, ou o cajado poderia explodir, apodrecer ou se desintegrar.
Para usar um cajado de auxílio mágico, Vandalieu precisaria se concentrar como se estivesse escrevendo ideogramas minúsculos, então ele não os utilizava. Será que não existiam cajados feitos para seres mais poderosos do que humanos?
Deixando isso de lado, Vandalieu começara a conversar sozinho enquanto criava o túnel.
Mas os olhos de Zran, que era Morto-Vivo, podiam ver que Vandalieu estava cercado por espíritos em estado trágico.
“Fazem parte dos incontáveis espíritos que se reuniram ao redor dele quando chegamos aqui”, murmurou Zran para si. “Os que estão perto agora parecem todos mortos recentemente, porém.”
Assim como quando chegara à cidade de Niarki, todos os espíritos da capital haviam se aglomerado em torno de Vandalieu ao ele chegar aqui. Eram tantos que Zran não conseguia ouvir o que diziam.
No entanto, os espíritos que falavam com Vandalieu agora pareciam um pouco diferentes.
“Eleanora, Zran, se um homem de cabelos e olhos negros, na casa dos trinta, chamado Kaidou Kanata aparecer, deixem tudo comigo até eu dar novas ordens”, disse Vandalieu.
“Kaidou Kanata?” repetiu Eleanora. “… Será possível?!”
“Um dos canalhas que te matou em sua vida anterior, Filho Sagrado?! Aquele bastardo. Que oportunidade incrível. Vamos matá-lo, transformá-lo em Zumbi e ouvir tudo o que ele tem a dizer!” exclamou Zran.
Vandalieu já havia obtido informações sobre Kaidou Kanata pelos espíritos de suas vítimas.
Segundo eles, Kanata já chegara a Nineland, e embora fosse incerto como soubera onde Vandalieu estava, ele se aproximava.
De acordo com outras informações dos espíritos, por algum motivo espadas, lanças e feitiços não funcionavam em Kanata, enquanto seus ataques atravessavam a armadura deles para atingir o corpo. Ele era usuário da Técnica de Combate Desarmado e da Técnica da Adaga Curta, além de magia de alto nível de atributo fogo e atributo vento.
A capacidade de penetração deve ser aquela habilidade de trapaça que ele recebeu de Rodcorte. Ele deve ter aprimorado sua afinidade com fogo e vento em Origin. Técnica de Combate Desarmado e Técnica da Adaga Curta… deve vir de sua experiência em Origin, suponho? Poxa, então é assim para quem não tem maldições.
Considerando que Vandalieu reaprendera tudo do zero com muito esforço, ele achava meio injusto que Kanata possuísse todas essas habilidades. Mas, por enquanto, ele priorizou acalmar Eleanora e Zran, cujas expressões haviam se tornado sedentas por sangue. As habilidades deles em combate não eram iguais às de um aventureiro ou cavaleiro comum, mas poderes de trapaça eram perigosos o suficiente para superar diferenças de força.
Por isso é que se chamam trapaças, afinal.
“Como eu disse, deixem comigo,” disse Vandalieu. “Se vamos matá-lo… não, ele se entregou a atos de violência imperdoáveis, então eu definitivamente vou matá-lo, mas quero fazer isso eu mesmo.”
“Posso ver que é um verdadeiro canalha só de olhar para esses espíritos, mas… é realmente tão ruim assim?” perguntou Zran.
“É,” respondeu Vandalieu. “A ponto de eu duvidar da sanidade dele.”
Mas Vandalieu sentiu mais perplexidade do que ódio ao saber sobre Kanata. Resumindo seus pensamentos, ele basicamente se perguntava: “Que diabos ele está fazendo?”
Os atos de Kanata eram tão cruéis que não podiam ser considerados humanos; mais importante, eram imprudentes demais. Ele simplesmente matava, estuprava e roubava quando algo se tornava inconveniente ou acreditava que seria mais rápido assim.
Se continuasse fazendo isso, mesmo com um poder de trapaça, seria impossível sobreviver por muito tempo.
Vandalieu estava muito mais curioso sobre isso do que sobre o fato de Kanata ter uma aparência tão adulta, apesar de ter sido o primeiro a morrer em Origin, ou de como sabia onde ele estava.
Rodcorte provavelmente tinha algo a ver com tudo isso, afinal.
“Por enquanto, parece certo que ele veio para me matar, mas… vamos criar o hábito de lançar Detectar Vida periodicamente a partir de agora,” disse Vandalieu.
O “serviço” que Kanata aparentemente mencionou provavelmente era a tarefa de matar Vandalieu.
Vandalieu realmente não se importava, mas por que ele escolhera interferir agora, de todos os momentos? Ao menos era bom que estivesse mirando diretamente nele, em vez de em Braga e nos outros que esperavam no casarão do Mestre da Guilda.
“Se bem me lembro, aquele pessoal estava agindo como aliados da justiça, não é?” disse Eleanora.
“É assim que aliados da justiça são,” disse Vandalieu. “Seriam considerados heróis do ponto de vista dos seguidores de Bellwood ou de Alda, mas do nosso, não são.”
“Realmente, você está certa,” concordou Eleanora.
Enquanto conversavam, Vandalieu e seus companheiros chegaram à parte mais profunda de Nineland.
Havia um corredor de pedra escura à frente, e ao lançar Detectar Vida, não havia sinais de vida humana. Mas o Sentido de Perigo: Morte de Vandalieu estava reagindo.
“É uma armadilha?” perguntou Zran.
“Não, pela forma, deve ser uma barreira,” disse Vandalieu. “Dizem que o campeão deixou uma barreira também.”
Saindo do túnel para o corredor, Vandalieu disparou algumas Balas da Morte fracas à frente.
Uma parede de luz apareceu onde antes não havia nada, emitindo flashes e ruídos ao repelir as balas.
“Essa é a barreira deixada pelo campeão Nineroad…!” murmurou Eleanora.
“Repeliu as Balas da Morte do Filho Sagrado!” exclamou Zran.
“Então, vou removê-la agora,” disse Vandalieu.
“Eh?” disseram Eleanora e Zran em uníssono.
Tão rápido?
Diante dos olhos surpresos de Eleanora e Zran, Vandalieu usou seu mana de atributo morte para remover a barreira do campeão de forma constante.
Não era nada difícil. Ele simplesmente aplicou uma carga enorme que a barreira não suportou, tudo de uma vez, para rompê-la pela força.
A barreira de Nineroad resistiu algumas dezenas de segundos, mas acabou se desfazendo com um estalo parecido ao de vidro quebrando.
“Ufa, foi mais difícil que o gelo da Era do Gelo,” disse Vandalieu. “Usei 300.000.000 de mana também. Ah, me dá um dos obentôs, por favor,” ele pediu.
“C-claro,” disse Zran com uma expressão pasma, tirando um frasco da bagagem. Dentro havia o sangue fresco do guarda-costas protegido do Mestre da Guilda dos Magos.
Aparentemente, ele se beneficiara bastante do fato de seu empregador trabalhar com Vampiros Puro-Sangue, então o sangue estava especialmente saboroso.
“Ufa, beber algo depois de um esforço realmente é bom,” disse Vandalieu.
“Vandalieu-sama, isso—” começou Eleanora.
“Soou como algo que um homem de meia-idade diria?” perguntou Vandalieu.
“Não, foi como uma criança se esforçando ao máximo, então ficou até fofinho.”
“Entendo…”
Com os ombros caindo um pouco pelas palavras de Eleanora, Vandalieu seguiu adiante sem esperar sua mana se recuperar. Ele sabia que Kanata vinha naquela direção, mas graças à Recuperação Automática de Mana, recuperava mais de 10.000 de mana por segundo, então não havia problema.
Passada a barreira, o corredor terminava em um cemitério subterrâneo de proporções inimagináveis. Havia buracos de vários tamanhos contendo ossos e carcaças. Era uma cena que tornava difícil chamá-lo de lugar sagrado.
O ar ali retido era cheio de uma umidade desagradável e trazia uma sensação sinistra. Embora não devesse haver qualquer sinal de vida ali, havia ruídos baixos que pareciam gemidos vindo de algum lugar.
“Hmm, a princesa não está aqui,” disse Vandalieu.
“Ooooi! Levia-sama!” gritou Zran. “Sou eu, Zran! Pode aparecer agora!”
Mas Vandalieu não via fantasmas vingativos nem espíritos malignos. Tampouco via a Princesa Herdeira Levia.
“Pode haver ainda outra barreira. Não é incomum existirem duas ou três barreiras quando algo precisa ficar selado,” disse Eleanora.
Seguindo suas palavras e observando ao redor, encontraram algo que de fato se assemelhava a uma barreira.
Um caixão prateado atado por chicotes. Aquele era provavelmente o núcleo do selo.
“… Quem teve essa ideia, será?” disse Vandalieu.
“Ah, ao que parece Nineroad dominava a Técnica do Chicote,” disse Zran. “Não explica o motivo disso?”
“A propósito, o que vocês acham que há dentro do caixão?” perguntou Eleanora. “Se for um Vampiro Puro- Sangue, pode se tornar um aliado poderoso… ou talvez não. Pode ser um Vampiro que se corrompeu pelos deuses malignos.”
“Realmente seria problemático desfazer o selo e deixar sair alguém que não pudéssemos enfrentar,” concordou Vandalieu, começando cautelosamente a remover o selo, embora não houvesse reação do Sentido de Perigo: Morte. “Será que está vazio por dentro? Parece tranquilo, então vou remover o selo.”
E então ele começou a desfazer o selo da mesma forma que fizera com a barreira externa.
Antes mesmo de terminá-lo, os chicotes estalaram quando o caixão se abriu com força de dentro para fora.
“Vandalieu-sama!” exclamou Eleanora.
Ela e Zran tentaram agarrar Vandalieu para recuarem, mas a coisa vermelha em forma de ameba que voou para fora do caixão ergueu sua cabeça e olhou para Vandalieu, aproximando-se com velocidade incrível, como uma serpente venenosa!
Gorgolejo, gorgolejo, gorgolejo… engole.
Ela foi engolida por Vandalieu.
“… Eh?” disseram Zran e Eleanora em uníssono, boquiabertos.
Vandalieu terminou de beber o conteúdo do caixão, juntou as mãos, abaixou a cabeça e disse:
“Gochisousama.”
“V-Vandalieu-sama? O que foi aquilo?” perguntou Eleanora. “Mais importante, por que você o engoliu?!”
“Por quê, você pergunta… entrou na minha boca,” respondeu Vandalieu.
“Não, normalmente você cuspiria, certo?!” exclamou Zran.
“Mas não acho bom deixar comida pela metade,” disse Vandalieu. “Bem, suponho que não se chame normalmente de ‘comida’ um sangue que um campeão selou cem mil anos atrás.”
“Então pelo menos você sabe — espera, quer dizer que aquilo que você acabou de engolir era sangue?!” gritou Zran.
“Então poderia ter sido parte do Rei Demônio?!” perguntou Eleanora.
Era história conhecida que os campeões haviam derrotado o Rei Demônio Guduranis, desmembrado seu corpo e selado cada parte separadamente. Era só sangue, mas considerando que havia sido selado, não imaginavam a quem poderia pertencer além do Rei Demônio.
De fato, o narrador na cabeça de Vandalieu havia dito: “Você absorveu o sangue do Rei Demônio!”
Ele estava se perguntando se deveria contar a Zran e Eleanora, sabendo que isso os chocaria.
“O nível da habilidade Sugação de Sangue atingiu o nível 10! Transformou-se na habilidade superior, Trabalho de Sangue!”
“O nível das habilidades Trabalho de Sangue, Magia de Atributo Morte, Força Sobre-humana, Cura Rápida, Recuperação Automática de Mana, Resistência Mágica, Secreção de Veneno (Garras, Presas, Língua), Expansão Corporal (Língua) aumentou!”
“Você adquiriu o Título ‘A Segunda Vinda do Rei Demônio!’”
Vandalieu queria protestar veementemente contra a parte final, o Título que ganhara. Quem era o narrador para chamá-lo de Segunda Vinda do Rei Demônio? Mas—
“Cuspa isso, você tem que cuspir, Filho Sagrado!”
“Vandalieu-sama, cuspa, cuspa!”
Zran havia agarrado as pernas de Vandalieu e agora o sacudia, mantendo-o de ponta-cabeça, de modo que ele não tinha tempo para refletir sobre aquilo.
“Não, quero dizer, mas, já, absorvi, ah, olá.” Enquanto Vandalieu era sacudido para cima e para baixo, talvez porque houvesse removido o selo do campeão, ele pôde ver incontáveis Fantasmas. De cabeça para baixo.
Fantasmas. Diferente dos espíritos indefesos que só Vandalieu, Undead e Espiritualistas podiam ver, esses são seres que se tornaram monstros sem corpos físicos.
Eles são Rank 2 e, embora a maioria dos ataques físicos seja ineficaz contra eles, não têm força corporal própria. Ainda assim, a maioria conserva versões incompletas da personalidade e das memórias que tinham em vida.
“Quem é? Um peão da família Hartner?… Não, essa presença que é ao mesmo tempo assustadora e reconfortante, o que poderá ser…?”
“Olhem aquele Titã. É um Undead.”
“Por que um Undead está aqui? A barreira foi quebrada… Vamos ficar livres?”
Os Fantasmas semitransparentes, com contornos borrados e sem as pernas abaixo dos joelhos, sussurravam entre si. Vandalieu não sentia hostilidade vinda deles, apenas medo.
Zran soltou as pernas de Vandalieu sem perceber e começou a gritar na direção dos Fantasmas. “Levia-sama, a Levia-sama está aqui?! Eu sou Zran, de Talosheim!”
Vandalieu, rapidamente segurado por Eleanora, viu um Fantasma feminino de longos cabelos além da cintura flutuar até a frente.
“Levia-sama!” exclamou Zran.
“Zran… eu me lembro de você. Um Guerreiro Explorador, o mais habilidoso no uso de adagas entre nossa raça.”
Zran não fora íntimo da princesa nem servira em posição próxima a ela. Mas em Talosheim, com apenas cinco mil habitantes e hierarquias frouxas, guerreiros excepcionais tinham chance de encontrar a princesa pessoalmente.
Zran era um Explorador, o tipo de lutador que faltava aos Titãs, por isso fora mais fácil de lembrar.
“Você permaneceu em Talosheim com Zandia e os outros até o fim, então por que está aqui?” perguntou Levia. “Ah, mas agora que fomos selados aqui, somos prisioneiros como vocês. Somos forçados a vagar por este lugar, sem poder voltar ao lado da deusa nem nos livrar de nossos arrependimentos –”
“Ah, eu removi a barreira,” disse Vandalieu.
“De fato, enquanto as duas barreiras não forem removidas…” Levia silenciou por um instante. “Foram removidas?”
“Sim. Perdão pela apresentação tardia. Sou Vandalieu, o atual rei de Talosheim.”
E assim Vandalieu se apresentou, ainda de cabeça para baixo na posição em que Eleanora o segurava.
Após ouvir a explicação de Vandalieu e ver o sal de rocha proveniente do Vale de Garan que ele trouxera de Talosheim, Levia acreditou completamente em suas palavras.
Ter recusado acreditar teria sido problemático, então Vandalieu sentiu alívio.
“Entendo,” disse Levia. “Todos que ficaram em Talosheim foram valentes até o fim. Agradeço do fundo do coração por liderar Borkus e os outros e por proteger minha terra natal. Mas, apesar disso, não consegui proteger a todos…”
“Não foi sua culpa, Levia-sama!” exclamou Zran. “Os culpados são esses traidores da família Hartner!”
Quando a princesa Levia e sua pequena escolta fugiram de Talosheim para o Ducado Hartner, foram calorosamente recebidos pelo duque e pelos habitantes da cidade, agora em ruínas.
Mas o duque Hartner envenenou a refeição preparada para os Titãs.
Nenhum Titã, que acreditava que a família Hartner era aliada jurada, desconfiou do duque. Comeram, engoliram o veneno. Embora tenham tentado resistir depois, foram capturados pelos cavaleiros do duque e pelos magos que o serviam, e os guardas de Levia caíram ali mesmo. A própria princesa foi acusada de conspirar para matar o duque e queimada na fogueira.
Então seus restos foram enterrados sob essa barreira subterrânea.
“Soube do que aconteceu com aqueles que foram sepultados aqui como nós e compreendi bem a situação,” disse ela. “Os cavaleiros e magos que nos mataram também foram mortos e enterrados aqui para garantir seu silêncio.”
Aparentemente, o duque da época era excepcional em tramar conspirações; não deixara nenhum cúmplice vivo. Talvez a Velha Lady Milan, de Niarki, tenha ouvido a história dos espíritos errantes que escaparam antes de serem aprisionados aqui.
“Então, sobre o que vem a seguir,” disse Vandalieu, mudando de assunto.
“Não é preciso nem que alguém que já não pertença mais a este mundo diga isso. O direito ao trono de Talosheim é seu. Por favor, salve todos e guie-os.” Levia inclinou a cabeça em direção a Vandalieu. Cada movimento seu era tão elegante que parecia impossível acreditar que não tinha um corpo físico.
E, ainda assim, não havia a menor sombra de orgulho em suas ações.
Então é assim que é uma princesa graciosa, pensou Vandalieu. Ela era um Titã, por isso ainda tinha dois metros de altura, apesar de faltar metade das pernas.
Sua forma agora estava turva, mas certamente fora uma princesa linda quando viva.
“Com isso, todos poderemos retornar ao lado da deusa,” disse ela.
“Ah, por favor, espere.” Vandalieu a deteve, embora sua beleza não fosse o motivo. “Preciso da sua ajuda para salvar todos na mina de escravos,” explicou.
“Minha ajuda?” Levia repetiu. “Mas não sou capaz de fazer nada significativo no estado em que estou.”
“Não precisamos de você para agir diretamente,” disse Eleanora. “O importante é que você coopere com Vandalieu-sama e seja vista fazendo isso.”
Obviamente, os Titãs mantidos como escravos na mina nada sabiam sobre Vandalieu ou o Talosheim atual. E, principalmente, o Encanto de Atributo Morte não teria efeito sobre eles. Mesmo se Vandalieu dissesse “Vim de Talosheim para salvá-los”, havia grande chance de não acreditarem.
Mesmo que titãs Undead como Zran e Borkus convencessem, ainda restariam dúvidas. Poderiam aceitar palavras de familiares ou parentes próximos, mas, sem esse laço, talvez achassem que tinham enlouquecido após se tornarem Undead.
Os ensinamentos da deusa Vida diziam que Undead deveriam ser tratados com mente aberta, mas não que deviam ser aceitos sem questionamentos.
Claro, havia a opção de ignorar os sentimentos dos escravos e arrastá-los à força para Talosheim antes de explicar tudo, mas se resistissem e ocorrêssem feridos… ou mortos, isso deixaria um gosto amargo. Poderia transformá-los em Undead, mas, se fosse possível evitar que morressem, seria o ideal.
É aí que entra a princesa Levia. Ela liderara os Titãs há duzentos anos. Ainda que se tornara um Fantasma, suas palavras provavelmente chegariam até eles.
“Ao menos, você deve conseguir fazê-los nos ouvir,” disse Eleanora.
“Mas por que atenderiam às palavras de alguém que falhou em proteger todos…? E eu já não tenho mais arrependimentos ou rancores que me prendam a este mundo,” disse Levia. “Meu coração já foi salvo. Seu filho certamente será capaz de libertar os escravos e—”
“F-filho?!” Eleanora repetiu. “Não, eu não sou parente de Vandalieu-sama—”
“Isso tudo está bem para você?” interrompeu Vandalieu, dirigindo-se a Eleanora, que o confundira com o filho dele por ele ser um Dhampir.
“O que você… quer dizer?” perguntou Levia.
“Você aceita simplesmente perdoá-los? Aqueles que te mataram, que mataram seus guardas e guerreiros e te aprisionaram aqui por duzentos anos. Aqueles que injustamente levaram seu povo como cativo e continuaram a explorá-los durante dois séculos. Você concorda em não liberar sua raiva, seu ressentimento e seu ódio?”
“Is-isso…” A voz de Levia tremia. Os Fantasmas Titãs atrás dela também vacilaram, estremecendo.
Quando foram mortos há duzentos anos, ao saber que seu povo fora levado à mina de escravos, sentiram raiva, ressentimento e ódio contra a família Hartner, exatamente como Vandalieu dissera.
Eles amaldiçoaram a traição, gritaram que jamais esqueceriam essa mágoa e ferveram de ódio. A ponto de que a ínfima quantidade de Mana do Rei Demônio vazando do selo reagiu a esses sentimentos, transformando-os em Fantasmas.
“Mas a vingança é—” começou Levia.
“Um ato razoável”, disse Vandalieu, interrompendo-a. “Especialmente neste caso. Não estou pedindo que vocês peguem o ódio de duzentos anos atrás e o ataquem hoje”, continuou, fitando Levia e os outros fantasmas. “Quero apenas que usem o ódio que ainda têm e o dirijam às pessoas de hoje.”
Vandalieu transmitiu a eles a raiva, o ressentimento e o ódio que sentia, despertando em cada um sua própria fúria, amargura, rancor e arrependimento.
“É natural sentir raiva, ressentimento, ódio. É normal para qualquer pessoa. Alguém em quem confiaram os traiu, demonstrou desprezo e roubou suas vidas. Pessoas importantes para vocês foram injustamente feitas prisioneiras e exploradas durante duzentos anos. Se não sentirem nada contra quem fez isso, só posso dizer que enlouqueceram”, afirmou Vandalieu.
“Natural… Normal…”
“O que sentiram ao descobrirem que sua comida estava envenenada, quando seus guardas foram mortos, quando foram queimados vivos?” perguntou Vandalieu.
“Eu… Ah! Naquela época, eu senti!”
“Dentro de vocês deve haver ressentimento, raiva e ódio. Deixem que ardam novamente.”
“Dentro… de mim…”
“Nossa raiva…”
“Meu… ressentimento…”
Mesmo fantasmas sem relação direta começaram a se agitar, mas Vandalieu não se deteve.
“Por favor, emprestem-me sua força”, pediu ele. “Para retomarmos o que foi tomado de nós.”
Quando terminou de falar, soou um clique como o de um estalo, e luz e calor se espalharam pelo cemitério subterrâneo, que estivera em total escuridão até aquele instante.
“Lembrei-me da minha raiva, do meu ressentimento!” exclamou Levia. “Seguir em frente sem exorcizar esse ódio é impossível! Não é mesmo, todos vocês?”
A princesa Levia ardia. Não em sentido figurado, mas literalmente.
Seu corpo espiritual, antes turvo e instável, agora brilhava em tons de vermelho, seus contornos e traços faciais estavam nítidos. Ela parecia uma deusa do fogo, com cabelo e vestido feitos de chamas.

『Você adquiriu a habilidade Magia do Espírito Morto!』
“Isso mesmo, exatamente isso!”
“Não podemos desaparecer até desferir uma calamidade contra a família Hartner que nos desprezou e nos atormentou!”
“Eles vão conhecer a minha fúria por brincarem conosco e depois nos descartarem! Não subestimem uma criada! KYIIIIH!”
Havia alguns fantasmas empolgados que não faziam parte das vítimas da família Hartner, mas Vandalieu não deu atenção a eles.
Todos os fantasmas no cemitério subterrâneo ardiam como se estivessem envoltos em chamas.
“Será que os Ranks deles aumentaram?! Mas como…?” perguntou Zran. “Não importa. De qualquer forma, parece que Levia-sama e todos os outros vão ficar para nos ajudar.”
Vandalieu havia usado a habilidade Investida Mental para compartilhar seus sentimentos de derrota com Levia e os demais, incendiando novamente o desespero que eles próprios haviam sentido.
Influenciados por Levia, que foi queimada na fogueira, eles se tornaram Fantasmas de Fogo Rank 3, enquanto Levia ascendeu a Fantasma de Chama Rank 4.
Era um fenômeno que causaria rebuliço entre os magos pesquisadores e estudiosos da Guilda dos Magos.
“Vandalieu-sama se tornou ainda mais grandioso,” disse Eleanora. “Não está bom assim?”
“Acho que sim,” concordou Zran.
E assim o fenômeno foi deixado de lado.
Vandalieu também ficou surpreso com a forma como a princesa Levia e os outros fantasmas se inflamaram. Ele compartilhará sua raiva e seu ódio que ardiam em seu corpo, mas não imaginara que eles realmente pegariam fogo.
Ainda assim, não se esqueceu de nada.
“Agora então, vamos salvar todo mundo!” exclamou Levia.
“Desculpe, mas há um assunto que preciso resolver primeiro.” Em vez de pegar a mão flamejante de Levia, Vandalieu virou-se para o corredor por onde viera.
Lá estava um homem de trinta e poucos anos, cabelos e olhos negros, mãos vazias erguidas no ar.
“Espere! Ouçam o que tenho a dizer! Peço perdão pelo que fiz naquela época, por favor, perdoem-me!” implorou Kaidou Kanata, ajoelhando-se diante de Vandalieu e pressionando a testa contra o chão empoeirado.
| Explicação do Título |
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Segunda Vinda do Rei Demônio Um título que indica a segunda vinda do Rei Demônio. Para obtê-lo, não basta ser reconhecido como tal: é preciso realizar feitos comparáveis aos do Rei Demônio Guduranis, como despedaçar almas, gerar novas raças de monstros e criar masmorras. Também é possível ganhar esse título ao ingerir, absorver ou ser absorvido por uma parte do Rei Demônio. Aqueles que adquirem este título recebem bônus em técnicas consideradas proibidas e conhecimento malígno, bem como nas ações que fazem parte das condições de obtenção. A habilidade de criar e alterar novas raças de monstros recebe um bônus especialmente grande. A transformação de princesa Levia e seus companheiros em Fantasma de Chama e Fantasmas de Fogo é outro exemplo desse poder. Porém, isso não permite a criação e modificação incondicional de monstros; existem condições específicas e afinidades que devem ser respeitadas. |