Letho parecia exausto, seu corpo coberto com pequenos cortes. “O hym está morto.” Ele mostrou sua mão ao anão, revelando a mão cheia de um pó cinza que emanava um leve e desagradável cheiro. Quando Roy reconheceu o cheiro familiar vindo da poeira em sua mão, ele sorriu. Eu sabia, pensou.
“Obrigado, Letho!” Seville pegou a mão cheia de pó e espremeu, desabafando o seu medo. Lágrimas brotaram em seus olhos já que agora ele finalmente poderia descansar. Letho era muito mais forte do que ele pensou, e um arrepio correu pela sua espinha quando ele lembrou do quão intensa foi a batalha. Mas funcionou da melhor forma. O monstro que me assombrou por meses está morto. Eu sou um anão livre.
Ele jogou as cinzas no ar e tirou uma nota de seu bolso. “Essa é a sua recompensa.” Ele entregou ao Letho com gratidão. “Você pode trocar isso por coroas em qualquer banco Vivaldi, Giancardi ou Cianfanelli.”
Letho olhou de relance a quantidade escrita na nota antes de guardar. Ele sabia onde ficavam os bancos dos anões; eles tinham filiais em quase todas as cidades.
“Bruxo, Roy. Nós anões sempre suportamos as rebeliões das sombras. Para equilibrar as forças em Aldersberg. Civis e mercadores podem lucrar igualmente disso. Se qualquer um descobrir que Vernon Ryan, o Líder dos Revolucionários, morreu na minha adega de vinho, todos os anões de Mahakaman seriam vistos como forças do barão. O equilíbrio seria quebrado. É por isso que você deve manter isso como um segredo.”
“É claro”, Letho respondeu. “Eu não vou manchar o nome da Escola da Víbora.”
“Você tem a minha palavra também.”, Roy disse.
Então Seville curvou-se profundamente. “Eu vou me lembrar do que você fez por mim hoje. De agora em diante, vocês serão meus clientes de honra. Minha porta está aberta a qualquer hora. Mas colocando as formalidades de lado, está ficando tarde, então por que não levo vocês para almoçar?”
“Obrigado pela generosidade, Sr. Seville, mas são apenas negócios. Já que você nos pagou, não deve nada.” Letho não aceitou o elogio. “Embora, eu não me importaria se quisesse pagar uma refeição para nós.”
Seville deixou os dois sozinhos por um tempo depois de terem retornado do Grande Salão. Roy olhou para Letho com curiosidade, como se estivesse surpreso que tenha mentira. Ele não fez nada no começo, mas depois ficou irritado já que Roy não tirava os olhos dele.
“Realmente tem um demônio na adega?” Roy sussurrou.
Letho respondeu com um olhar surpreso. “O que você acha?”
“Aqueles não eram os restos de um Hym. Eram fezes de Wyvern, não eram? Eu cheirei durante as noites. Deve ser o que aquilo era.” Roy estava bem seguro de que as ‘cinzas do Hym’ que Letho deu a Seville eram a mesma coisa que ele usava pra caçar animais selvagens por aí quando estavam acampando na natureza – fezes de Wyvern.
“Já que ele quer se livrar de um demônio, eu criei um para ele e o ‘matei’. Isso dá a ele uma tranquilidade, e eu mantenho minha parte do contrato. Ele nunca vai ficar em paz se nós nunca matarmos o demônio.” Letho fez uma pausa. “Você vai entender quando for mais velho. Às vezes, a escuridão no coração de alguém é mais assustadora do que os monstros que caçamos. Agora que completamos o pedido, Seville pode pelo menos dormir bem.” Letho olhou ao teto iluminado enquanto lamentava pela experiência do anão.
Seville realmente pode dormir bem depois de nos livrarmos daquele hym imaginário para ele? Roy tinha suas dúvidas. Mas Letho é o experiente aqui. Ele tem um julgamento melhor que o meu. “Eu tenho outra pergunta. Como você fez aquela sombra de hym? Eu quase fui enganado.”
Depois de ouvir a pergunta, Letho estendeu suas mãos quietamente, seus dedos calejados se entrelaçando juntos, e eles dançaram como uma borboleta atrás da luz da vela.
“Letho, você pode começar uma carreira no teatro quando aposentar-se de ser um bruxo.”
…
Seville, Letho e Roy estavam almoçando no Grande Salão. Depois da ameaça que eles ‘eliminaram’, Seville finalmente tornou-se mais falante, embora tendo dito apenas sobre sua experiência em Mahakam e das coisas interessantes de lá.
A terra natal dos anões se mantinha neutra, não importa o quão séria a guerra do norte ficasse. Por causa disso, eles conseguiram sobreviver por um longo tempo.
Não importava se era Aedim no Leste, Temeria no Norte ou Nilfgaard no Sul, nenhum deles conseguiram conquistar os anões de Mahakaman. Além do vinho, eles também tinham seu minério. Mais da metade dos minérios, fundições e forjas estavam em Mahakam. Eles tinham incontáveis mestres ferreiros que produziam o melhor aço e armas no Norte.
Qualquer nação que ousasse desafiar a autonomia dos anões iria invocar sua ira. Aquela nação nunca iria conseguir nenhuma arma de Mahakam. Só esse fato ja garante sua prosperidade. Por outro lado, anões não conseguem se reproduzir tão rápido quanto os humanos, e eles só se tornam maduros aos cinquenta e cinco anos. Já que eles não eram o suficiente para conquistar, eles estavam bem vivendo em Mahakam.
Os anões tinham as melhores vidas entre as raças não-humanas, pelo menos naquela era. No entanto, também houveram aqueles que largaram sua terra natal ou entraram no grupo subterrâneo de Scoia’tael. Eles acabaram envolvidos em assaltos ou trabalharam como banqueiros, comerciantes ou ferreiros em assentamentos humanos. Até mesmo seus próprios irmãos os olharam com desprezo, seus talentos trouxeram uma boa vida para eles. Havia um sinal de orgulho e inveja na voz de Seville naquele momento. Como comerciante de vinho, ele tinha menos influência do que um vendedor de armas ou minérios.
Seville não parou de falar assim que ele entrou no clima. Ele ocasionalmente perguntou a Letho sobre sua vida e o elogiou numa tentativa de deixar uma boa impressão. Foi um bom almoço.
“Eu aponto minhas armas aos meus inimigos, mas brindo aos meus amigos. Tomem mais um drink comigo, meus amigos.” Depois da refeição, Seville veio até eles e fingiu hesitar. “Eu tenho um outro pedido.”
“Você não pode estar pensando na gente se livrar daquele corpo pra você, não é?” Roy disse brincando.
Mas os olhos de Seville acenderam. “Eu não esperaria nada menos do assistente de Letho. Isso era o que eu tinha em mente.”
O quê? Se livrar do corpo do líder da rebelião? Roy sacudiu a cabeça incessantemente sem nem pensar. Só porque compartilhamos uma refeição não significa que temos de arriscar nossas vidas por você.
“Eu ouvi que os revolucionários estão indo fazer uma marcha de protesto essa tarde. Eles estão indo forçar o barão a soltar o cara que morreu no seu barril.” Disse Roy, fazer isso nesse momento é suicídio.
Seville não desistiu. Ele olhou para Letho de forma implorante, mas Letho só sacudiu os ombros depois de um momento. “Desculpe, mas não é nisso que nós bruxos somos bons. Receio que não posso ganhar esse dinheiro. Você pode pedir para outra pessoa pra fazer isso. Além de que você é poderoso o suficiente para encontrar um jeito de se livrar do corpo. Nós não vamos interferir.”
Seville acariciou sua barba, parecendo irritado. “Embora o exército do barão tenha vasculhado minha residência, eles podem vir novamente. Honestamente, o barão me listou como alguém a ser mantido sob vigilância. Seus olhos vão estar em mim no momento que eu sair de minha residência, e eu não quero que ninguém descubra sobre esse segredo. Eu não posso confiar em ninguém além de vocês dois.”
“Se é assim tão difícil, por que você não procura um lugar para queimar o corpo?” Roy sugeriu.
Seville sacudiu sua cabeça. “Ele morreu por causa da minha supervisão, se eu profanar os restos de meu amigo, ele nunca vai encontrar a paz. Eu quero compensá-lo devolvendo-o aos revolucionários. Mas vocês não podem deixá-los descobrirem que eu estou relacionado a isso.”
“Não.” Letho disse, recusando firmemente. Enviar o corpo do líder deles de volta a eles não é um ato de caridade; é um insulto. Mesmo se ignorássemos os perigos pelo caminho e os revolucionários que podem aparecer a qualquer momento, como nós deveríamos ir embora depois de fazer a entrega?
O anão olhou pra baixo com humildade, e depois olhou a eles com expectativa. Seu olhar enviou arrepios a espinha de Roy, mas ele pensou e elaborou um plano.
“Me deixe pensar sobre isso, o quão grande é o barril que contém o corpo?”
Seville disse ao Roy as medidas. Ele conhece sua adega de vinho a décadas. Seville sabia a medida de cada barril com seu coração. “Você tem alguma ideia Roy?” Mesmo o Letho não conseguiu pensar em algo, esse simples e jovem homem conseguiria?
Roy ponderou sobre em silêncio. Graças ao conhecimento de matemática de sua vida passada, ele conseguiu calcular o tamanho do barril. Poderia caber no seu espaço de inventário, mesmo que por pouco. Embora, ele ainda não tinha certeza se estava tudo bem intervir, então ele olhou ao Letho, e o bruxo sacudiu sua cabeça.
“Desculpe Sr. Seville. Eu não posso fazer isso.”
Seville estava abatido. “Tudo bem, então eu não vou me impor mais. Mas se você mudar de ideia, você é bem vindo aqui a qualquer hora. E se quiser me ajudar com essa questão, você será como um irmão meu pelo resto da vida.”