O sal caiu pelas fendas entre seus dedos, deslizando pela casca do choupo. A luz prateada da lua crescente iluminou a Casa de Cardell naquela noite. Três pessoas estavam de pé em volta do gigantesco choupo no pátio, cobertas com roupas apertadas. Eles se amontoavam em volta da árvore, com tochas na mão.
Pouco tempo depois, uma estranha fenda rachou a casca, e se expandia rapidamente, começando lentamente a parecer um olho aberto. Eventualmente, a fenda se esticou ao longo da borda, formando um buraco elíptico perto do solo. Quando Roy colocou a sua tocha dentro, viu uma inclinação que se estendia para baixo. Estava cheia de videiras, folhas, galhos e terra. Também havia o fedor do solo que saía do buraco.
“Então, e agora?”
Roy se virou para as senhoras com casacos cor de rosa. Ele também estava usando um casaco cor de rosa, o que era engraçado, mas ele não tinha escolha. Havia apenas duas mulheres na escola. Já era gracioso da parte delas dividir um casaco com ele.
Também tinha o lembrete de Letho que ele tinha de seguir.
“Como ninguém tem ideia, eu faço”, disse Roy solenemente. “Não podemos ir todos juntos no buraco. Um de nós tem que ficar lá fora para derrubar o sal em volta da árvore, caso aquela coisa lá dentro saia. E eu tenho que ir lá dentro”. Roy respirou fundo. Ele tinha uma grande arma em seu inventário, e se ele seguisse as notas de Letho, ele tinha uma chance de matar o fantasma da árvore.
Senhora Cardell deixou um aviso solene antes de deslizar pelo buraco. “Esse é o meu território, aquele desgraçado ficou livre aqui durante anos, e levou as minhas crianças embora. Tenho contas acertar”.
“Beleza, então você fica aqui, Vivien”. Roy escorregou para dentro antes que Vivien pudesse. “Não se preocupe, Vivien. Eu trago ‘ele’ de volta para você”.
…
Roy segurou a tocha com uma mão e deslizou pelo túnel escuro com a ajuda da outra, empurrando-o para baixo. Cerca de três metros depois, ele chegou em segurança, e suas botas ficaram molhadas. Haviam poças debaixo da árvore, embora só conseguiam cobrir seu tornozelo. No entanto, ela estava congelante, e Roy suspirou enquanto tremia. Não me admira que Letho me pediu para usar roupas mais grossas. Esse lugar é sete ou oito graus mais frio.
Quando ele balançou a sua tocha, Roy notou Cardell agachada não muito à sua frente. Ela pareceu alerta, e quando o viu, Cardell acenou para ele em silêncio.
Eles estavam num espaço subterrâneo profundo e mofado. As paredes estavam cheias de lama, algas e videiras, enquanto o lago estava cheio de rochas deformadas.
Depois da clareira no meio, havia buracos estreitos na volta do local. Um humano normal teria que rastejar com as mãos e joelhos para atravessar os buracos. Cochichos e sussurros ressoavam dos buracos, ecoando na câmara. Roy perguntou a si mesmo se o espaço existia debaixo do choupo o tempo todo, ou se tinha sido criado pelo caçador de crianças.
Ele atravessou as poças frias, pútridas e subterrâneas e se reagrupou com Cardell. Quando ele escaneou os buracos, uma ideia assustadora surgiu em sua mente. Será que todos os buracos contêm um caçador de crianças? Não, Letho não pregaria esse tipo de piada. Ele ia ter mencionado isso no caderno. Então, o monstro deve estar em algum desses buracos, matando a sua presa mais recente com seu vômito.
Roy e Cardell olharam um para o outro. A senhora apontou para o buraco mais próximo antes de puxar uma adaga que estava manchada com sal do seu cinto. Ela segurou a sua tocha com sua outra mão e mergulhou no buraco.
Roy seguiu-a rapidamente. O buraco era um túnel não mais profundo do que meio metro, e só conseguia caber uma pessoa. Assim que ele começou a rastejar, as suas calças se molharam e a lama nas paredes ficou presa nos seus ombros, impedindo o movimento. Até acalmaram sua respiração enquanto rastejavam, tendo o cuidado de não acordar nada indesejado. De vez em quando, assobios e uivos do vento batiam neles, incomodando Roy. Ele estava tenso e nervoso, preocupado que o mais pequeno som criasse problemas. E se ele nos atacasse por trás desse jeito? Como nós deveríamos lutar?
Ele continuava olhando por cima do ombro caso algum monstro aparecesse atrás deles. Não demorou muito para eles terminarem seu rastejamento. No fim do túnel, chegaram a um ninho seco, esférico, cheio de galhos, folhas e ossos de animais pequenos.
O habitante não se encontrava em lugar nenhum, mas era óbvio que era ali que ele se alimentava. O ninho estava repleto de pequenos crânios, espinhos e fêmures. Os ossos eram mais pequenos do que os de um adulto, e eles tinham uma tonalidade estranha e amarela. Os ossos obviamente pertenciam a crianças. Cardell pegou um, e o assassinato brilhou em seus olhos enquanto ela rangia os dentes. Ela tinha a sua agenda quando criou a escola, mas tratou os seus alunos da melhor forma que podia.
Passaram por mais dois túneis e os marcaram com os ossos das vítimas nas entradas. No meio do quarto túnel, ouviram alguém – ou alguma coisa – gargarejar, como se estivesse vomitando. Seguraram suas respirações e colocaram suas tochas para frente, revelando uma figura sinistra na escuridão.
Uma criatura humanoide com membros tão finos quanto galhos estava deitada no canto, seu corpo coberto de lama e algas. Estava cuspindo um fluido amarelo em alguma coisa. No momento em que as tochas o iluminaram, a criatura se virou. O seu rosto era esquelético com narinas profundas, e um par de buracos escuros foi revelado. Os seus olhos pálidos estavam ensanguentados, cheios de raiva e loucura. O monstro não tinha lábios, e as suas gengivas estavam expostas. Fluidos translúcidos escorriam de seus dentes, como ele tinha acabado de vomitar.
Chocado pela luz da tocha, ele se atirou na sombra de seu ninho. O par rapidamente o perseguiu com as tochas na mão, mas foi em vão. Roy permaneceu alerta enquanto Cardell limpava o vômito, revelando uma cabeça com cabelos dourados.
“Criança, consegue me ouvir?” Cardell limpou a sujeira em sua cabeça, revelando um rosto magro, limpo, e o garoto se mexeu.
Enquanto Roy olhava para o garoto, memórias em sua mente voltavam, e a sua mente clareou. Ele se lembrou de quem tinha esquecido. “Oh, eu me lembro agora! Então foi você que desapareceu, Tom!”
Era o garoto que disse olá para ele no seu primeiro dia. O órfão que tinha um sorriso brilhante. Ele tinha aulas extras com Roy depois das aulas todos os dias, e eles acabaram se tornando amigos. “Eu quase me esqueci de você”. Ele deu tapinhas na cabeça do garoto e sorriu, o medo e inquietação de Roy foram substituídos por um humor animado. “Ainda bem que chegamos a tempo, como você se sente, Tom?”
Tom abriu os olhos de forma grogue, a sua voz fraca. “Roy? Senhora Cardell? O-O que aconteceu comigo? C…”
“O que você disse?”
“Cuidado!”
Uma figura horripilante caiu sobre Roy do teto, e eles rolaram para o lado, presos um ao outro. Eles começaram um confronto, mas o monstro tinha a vantagem. O caçador de crianças sentou em cima de Roy, cortando-o. A sua longa e esguia garra brilhava ameaçadoramente sob a luz, visando o pescoço de Roy, mas seu avanço parou.
Roy agarrou a garra com a mão esquerda, suas veias pulsando. Com a mão direita, pegou do ar um virote manchado com sal, apertando-o e o enfiando no fundo do olho do monstro.
O caçador de crianças soltou um grito que soou assustadoramente como o de uma criança, com fumaça se espalhando pelo seu olho ferido, e sangue verde escorrendo pelo seu rosto. Fugiu do aperto de Roy, saltando para o túnel com uma força tremenda, gritando enquanto fugia. O caçador de crianças se esgueirou no túnel como um peixe-gato, desaparecendo da sua vista num instante.
“Tire o Tom daqui, Roy. Eu cuido dele”.
Cardell começou a perseguição, o rastro de sangue como a sua pista, sua tocha e adaga em mãos.
“Essa foi por pouco, eu quase morri.” Roy deu um suspiro.
A garra estava a milímetros de cortar a sua garganta. Ele poderia ter morrido.
“V-Você está ferido?” Tom perguntou fracamente.
“Não se preocupe, Tom. Eu estou bem”. Roy limpou o suor de sua cara e tirou o rapaz do vômito grudento. Roy não entendeu a ciência por trás dele, mas o vômito parecia e cheirava como queijo derretido. Ele enrolou um pouco até ficar do tamanho de um punho e guardou no seu inventário antes de sair do túnel com Tom em suas costas. Ele não encontrou nenhum problema no caminho, e Cardell deve estar caçando o caçador de crianças em algum lugar.
Quando ele voltou para o buraco, Roy puxou as vinhas enquanto ele subia e entregava Tom para Vivien. Ela estava agradavelmente surpresa, e Vivien cobriu o garoto tremendo em um casaco. “Roy, você-”
Roy interrompeu-a antes dela terminar. “Sem tempo pra explicar. O monstro ainda não morreu. Eu tenho que voltar e ajudar Cardell. Fique de olho nele.” Roy voltou antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa.
Ele seguiu a trilha de sangue e encontrou eles nas profundezas do quinto túnel. Cardell e o caçador de crianças estavam machucados. A senhora estava segurando seu estômago sangrando com uma mão enquanto balançava a tocha com a outra, mantendo o caçador de crianças longe. Ela estava muito pálida, obviamente no seu limite.
O monstro não estava em um estado muito melhor. Ele estava cego de um olho e aguentou dúzias de outros machucados menores da adaga de Cardell, apesar de eles não estarem sangrando. Aparentemente, o sal na arma não foi o suficiente para matar ele. Roy pensou sobre isso por um momento e pegou a sua besta.
O virote disparou pelo ar, acertando o joelho do monstro. Ele tremeu e quase se ajoelhou, mas não antes de mostrar seus dentes para Roy, soltando um rosnado gutural. Estava pronto para atacar. Roy ignorou-o e atirou em seu outro joelho. No espaço de alguns momentos, Roy deixou o caçador de crianças manco. Mesmo que ele pudesse se regenerar, levaria algum tempo, o que significava que ele não podia se mover rápido nesse momento. “Rápido, Senhora Cardell! Fique atrás de mim! Roy continuou atirando nas pernas do monstro enquanto ele recuava.
Cardell estava confusa sobre o pedido, mas agradeceu. Ela continuou em sua posição defensiva, enquanto recuava lentamente com ele. O par avançou lentamente em direção ao túnel, enquanto o caçador de crianças ficou em seu ninho, mostrando seus dentes ao par que estava a seis metros de distância. Ele balançou as suas garras contra eles, ameaçando cortar eles ao meio. Era como um cão enfurecido e raivoso, mas por causa das tochas e armas que o par tinha, ele não avançou.
Quando o par ficou a 9 metros de distância do monstro, Roy tirou um recipiente verde de vidro e o atirou pelo ar, e acertou bem no caçador de crianças.
Assim que o recipiente foi esmagado em pedaços, todo o túnel tremeu, e o ninho explodiu em uma grande flor chamas, dançando pela esfera. Era como se o próprio ar tivesse acendido, e a temperatura subiu alguns graus.
O monstro no meio se tornou uma tocha humana. Chamas brilhantes e quentes envolviam ele, e ele gritava de dor. A besta tentou se aproximar um pouco do par, mas suas pernas estavam machucadas, falhando. A estrela dançante era uma bomba poderosa. Até suas faíscas podiam acender os galhos em volta dela.
As chamas se espalharam rapidamente, iluminando todo o ninho por um momento. O caçador de crianças vagou pelo seu ninho por dois minutos antes de cair no chão, sua força desaparecendo. No final das contas, não se tornou nada além de um punhado de cinzas.
‘Caçador de crianças morto. Ganhou 100 de EXP.’
Roy suspirou de alívio depois de sair pelo buraco da árvore.
“Nós precisamos pegar os restos mortais das pobres crianças, e rápido!”