“Criei uma ilusão ao redor da casa.”, disse Angor a Baal enquanto se sentava em um sofá. “Eu a chamo de ‘armadilha dos demônios mentais’. Ela desperta, das profundezas da sua mente, aquilo que você mais teme.”
Baal estremeceu. Como ele suspeitava, era realmente algo criado por aquele Mago. E… era apenas uma ilusão? Ele ainda não conseguia esquecer como aqueles fantasmas o haviam sufocado, como se tudo fosse real.
“Então, você entrou na ilusão, mas como conseguiu sair?” Angor perguntou curiosamente. Ele adicionou mais alguma coisa naquela simples ilusão para enganar o senso de direção das pessoas.
Angor havia descoberto, algum tempo antes, como maximizar o efeito das ilusões bloqueando os cinco sentidos humanos, e vinha aprimorando essa técnica desde que aprendera a utilizar ilusões do pesadelo.
Tanto a Senhora Espelho quanto Sunders haviam elogiado muito sua teoria. Então, como Baal — um mortal — conseguira escapar da ilusão com tanta facilidade?
“O senhor Dodoro me trouxe de volta, senhor.,” disse Baal.
Dodoro?
Angor não esperava por essa resposta.
Ele podia entender como Dodoro conseguia evitar ser afetado pelos pesadelos, pois tinha uma mente vazia, mas como Dodoro escapava das armadilhas que bloqueavam os sentidos humanos?
Angor acreditava que qualquer mortal perderia facilmente a orientação dentro da ilusão, assim como seres sobrenaturais que possuíssem sistemas de conhecimento ou poderes mais limitados.
Angor decidiu deixar essa pergunta para depois.
“Dê-me um dos seus acessórios.”, disse ele, estendendo a mão em direção a Baal.
Baal ficou um pouco surpreso e rapidamente começou a revistar os bolsos.
Primeiro, ele pensou no anel de ouro em seu dedo, mas, pensando bem, temeu que o Mago desprezasse bugigangas comuns; então, em vez disso, tirou um estojo de aparência requintada.
Quando Angor abriu o recipiente, viu um brinco rosa decorado com uma rosa.
Era um presente que Baal trouxera consigo naquele dia, planejado para sua namorada. Mas, já que o grande Mago o pedira…
“Tem certeza de que vai me dar isto?” Angor examinou o acessório feminino e lançou um olhar estranho para Baal.
Baal assentiu rapidamente. “É uma peça de coleção exclusiva, feita pelo melhor ourives da cidade. É toda sua, senhor!”
“Bem, não vou aceitá-la. Ela é para você.”
Angor injetou um pouco de mana no brinco e aplicou uma microilusão sobre ele.
“Para… para mim?” Baal estava confuso.
Angor devolveu o objeto a Baal com um sorriso. “Coloque-o e você poderá evitar aquela ilusão mental. Vamos, experimente. Você vai fazer a guarda de Trusan e Dodoro amanhã.”
Por que você não disse isso antes?! Baal rugiu em sua mente.
“Mas…, mas eu pensei…”
“Nada de ‘mas’. Devo dizer que não esperava que você tivesse um gosto tão… peculiar.”
“Posso guardá-lo no bolso? Senhor, eu… não tenho furos nas orelhas, como pode ver.”, disse Baal, quase chorando. O anel em seu dedo teria sido uma escolha muito melhor!
“Você precisa deixá-lo exposto para que os pontos de conexão não fiquem bloqueados.”
Sem dar tempo para Baal reagir, Angor segurou o brinco com a Mão Mágica e o forçou na orelha esquerda de Baal.
Uma gota de sangue deu ao emblema de rosa no acessório um brilho ainda mais intenso. “Ah, combina com você. Agora vá.”, disse Angor com um sorriso, “E não tire isso até que eu deixe Água Grasse. Ah, e antes de sair, não se esqueça de perguntar à Trusan sobre a agenda dela.”
Baal assentiu tristemente e saiu da mansão enquanto cobria a orelha com uma das mãos.
Em seguida, Trusan se aproximou de Angor. “O que aconteceu com a orelha dele?”
“Quem sabe? Talvez ele esteja feliz com alguma coisa.”, disse Angor, soltando uma risadinha.
“Feliz?” Trusan não entendia muito bem por que aquele brutamontes estaria feliz depois de ouvir as broncas dela.
“Não é algo feliz reencontrar o seu antigo eu?”
Quando Angor voltou para o seu quarto, Trusan permaneceu onde estava, refletindo sobre o que acabara de ouvir.
Antigo eu?
…
A cidade tinha adormecido à noite.
Angor foi até o quarto de Dodoro e viu o jovem encolhido sob o cobertor, como um gatinho.
Sem acordar Dodoro, Angor aproveitou a situação para criar uma pequena ilusão no quarto.
A ilusão não passava de uma simples massa de névoa, mas Angor também tentou bloquear o senso de direção de Dodoro.
Em seguida, ele recuou para fora e usou a Mão Mágica para sacudir Dodoro e acordá-lo.
Dodoro sentou-se e olhou ao redor do quarto enevoado, confuso. Depois, deitou-se novamente e começou a roncar.
Angor levou a mão à testa, frustrado.
Ele sacudiu Dodoro mais uma vez. Desta vez, antes que o jovem pudesse se deitar, disse em voz baixa: “Venha aqui fora.”
As orelhas de Dodoro se moveram ao ouvir a voz de Angor. Ele foi direto para a porta do quarto e olhou para Angor
com um sorriso radiante.
Angor levou a mão à testa novamente.
O feitiço, que deveria afetar a mente de Dodoro, não funcionou de jeito nenhum?
Angor refletiu e retribuiu o sorriso de Dodoro. No instante seguinte, Dodoro sentiu sua visão ficar turva. Ele viu Angor se transformar em um Leopardo das Nuvens, que avançou contra ele em alta velocidade.
Assustado, Dodoro desviou-se rapidamente para o lado.
A fera desapareceu de repente, e Angor estava novamente parado à porta.
“Boa noite, pode dormir agora.”, disse Angor com um sorriso.
Dodoro continuava confuso, mas obedeceu sem dizer mais nada.
Angor voltou para o seu quarto e pensou sobre o teste que havia realizado.
“Assim como na casa do caçador… ilusões conseguem enganar os olhos dele, mas não os seus sentidos? Será que o sangue de Akeso conferiu a Dodoro um nível mais elevado de energia de mana? Não. Isso impediria que qualquer ilusão funcionasse.”
Angor tentou, mas não conseguiu encontrar nenhuma resposta viável, então simplesmente desistiu. Dodoro guardava muitos segredos, e era preciso ter paciência.
Por enquanto, ele continuaria trabalhando em seu próximo feitiço mágico: Cura. Esta tarefa exigia conhecimento sobre a estrutura básica do corpo humano, algo que Angor já havia adquirido através das teorias médicas ocidentais e orientais aprendidas nas aulas de Jon.
…
O tempo sempre passava extremamente rápido quando ele se dedicava aos estudos. Logo, chegou a hora da reunião com os outros seres sobrenaturais.
Leonrick nunca mais apareceu. Provavelmente foi porque o conde ficou aterrorizado ao ouvir que ele teria que enfrentar “a fúria de um Mago que poderia destruir Água Grasse”. Irritar um grande Mago PODERIA salvar sua filha, mas definitivamente traria a ruína para Água Grasse. Foi uma escolha difícil.
E Angor só foi visitar Leonrick por causa de Sombra e Krakok. Ele não pretendia realmente ajudar os pacientes sem sombra.
Ele não tinha tempo para se preocupar com os problemas alheios enquanto seu próprio futuro permanecia incerto.
Mais do que em Krakok, Angor estava interessado em Pocratee. Como uma passagem entre planos havia surgido ali? Por que as libélulas-arco-íris haviam se estabelecido naquele local e o guardado por mil anos? E quanto àquele monstro de nível mago, Akeso?
Ainda assim, ele refletia sobre essas questões puramente por curiosidade. Para ele, tais assuntos não ofereciam lucro imediato e, portanto, não eram importantes. Ele não era um daqueles aprendizes estagnados há décadas em um gargalo de evolução, desesperados para encontrar um caminho a seguir a partir de qualquer coisa aleatória.
Sua verdadeira preocupação, no momento, era encontrar uma maneira de voltar à Caverna Bruta ou seguir diretamente para a Cidade Mecânica Flutuante.
E ele contava com a reunião de hoje para isso.
Caso não obtivesse uma resposta dos participantes, teria de se preparar para viajar novamente.
A reunião estava marcada para a meia-noite. Antes, porém, ele precisava preparar algo: uma lista de materiais.
Ele planejava comprar ou trocar materiais com outras pessoas para poder fabricar um veículo.
Independentemente do resultado da reunião, ele precisaria deixar a cidade e preferia não continuar sua jornada a pé.
Enquanto aprendia novos feitiços mágicos, ele dedicou algum tempo a pesquisar como fabricar veículos alquímicos. Havia instruções sobre como criar versões de nível baixo na Enciclopédia: Alquimia Básica.
O componente central de um veículo era seu “motor”. Ele não pretendia projetar um do zero, pois já havia encontrado uma opção viável e com custo aceitável na qual poderia trabalhar.
Ainda assim, as demais partes do veículo representavam problemas que precisavam ser resolvidos.
Ele precisava construir uma “carcaça” ao redor do motor. Na maioria dos casos, essas estruturas eram feitas de materiais comuns, sem classificação de nível. Angor tinha muitos materiais valiosos guardados, mas não possuía grandes quantidades de materiais baratos que pudesse utilizar em abundância.
Foi por isso que ele pensou em comprar alguns materiais dos outros aprendizes durante a reunião. Mesmo os “amadores” deveriam ter, pelo menos, alguns itens baratos à mão.