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Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu – Arco 5 – Capítulo 37

Reagrupar

Um eco, um eco distante. Vozes desconhecidas, ou seriam vozes familiares? Eram vozes masculinas? Femininas? Elas vinham de cima ou de baixo? Tudo isso era desconhecido.

???: ——

Uma voz estava suspirando, uma voz irritada. Também havia uma voz acusadora, que parecia estar chorando.

Sons. Era como se uma cachoeira de vozes transbordasse, formando um forte redemoinho envolvente. Era como se alguém fosse gentil o suficiente para responder a uma pergunta profundamente enraizada em seu coração. Sendo varrido pelo murmúrio das vozes, perdendo a noção, ficando desorientado.

Mãos e pês, cabeça, quadris, peito, costas; tudo isso estava derretendo-se, misturando-se, fundindo-se. Até mesmo sua própria existência, incompreensível como era, estava sendo engolida por aquele aglomerado de vozes, fluindo, como se estivesse perdendo-se para sempre.

Tudo que ele reconheceu foi a névoa negra que engoliu o mundo que ele podia perceber. Aquela névoa estava desintegrando seu corpo, não permitindo qualquer forma de resistência, dando início a um fim definitivo.

Mesmo assim, naquele exato momento, ele estava resistindo, mesmo sendo desmontado, mesmo sendo desintegrado, mesmo sendo negado, ele se recusava a retroceder.

Ele não iria sucumbir àquela névoa em seu corpo, ele não iria desistir daquele escuro campo de batalha.

Até que finalmente, finalmente…

???: “——”

O primeiro som que ele escutou foi um rugido de alguém enfurecido.

Ao ouvir aquela foz penetrante, ele abriu os olhos, se deparando com um teto branco. Ao mesmo tempo, ele percebeu que estava deitado de braços abertos sobre uma superfície dura.

???: Inútil!

Após recuperar sua consciência, ele escutou de forma clara aquele insulto raivoso.

Era como se aquele som englobasse vários sentimentos, manifestando-se junto de uma ação especifica. Ele podia ouvir um som característico, o som de uma mão batendo na própria pele.

??: Pare! Você deveria entender que ninguém aqui tem culpa disso.

??: Cale-se! Eu não quero ouvir essas bobagens! Alguém de fora não deveria se intrometer!

Uma voz acusadora, carregada por uma raiva inextinguível.

Pelo que ele podia ouvir, seus aliados aparentemente estavam discutindo em uma sala espaçosa. Ele levantou a mão esquerda, tentando se apoiar na parede enquanto se levantava. Ao fazer isso, ele sentiu uma dor aguda, como se um prego estivesse perfurando seu crânio, sua respiração subitamente parou, seus olhos entraram em combustão, sua visão ficou manchada de um vermelho-sangue.

Ainda afligido pela dor, ele finalmente conseguiu ajeitar sua postura, observando a discussão.

— Dois homens e uma mulher discutiam no meio da sala… ou melhor, todos os três eram na verdade homens.

Com o rosto cheio de lagrimas, Ferris batia em Wilhelm com os punhos, enquanto Julius desesperadamente tentava o impedir. O som que ele tinha acabado de ouvir foi Ferris dando um tapa na bochecha de Wilhelm. O velho, com o rosto ligeiramente vermelho, baixou a cabeça, envergonhado.

Wilhelm: Do fundo do meu coração, eu peço desculpas.

Ferris: Pelo menos dê uma desculpa! Me dê um motivo para que eu possa aceitar! Só se desculpar é inútil, não adianta!

Julius: Ferris, você está criando uma comoção desnecessária! Se acalme! Você não percebe que Wilhelm-sama está arrependido?!

Ferris: Arrependimento…?! Em que arrependimento vai ajudar?! Inútil! Sem sentido! Todo mundo.. todo mundo… por que diabos…?! Por que ninguém pensou em resgatar Crusch-sama?!

Ferris explodiu, tendo outro acesso de raiva sobre Wilhelm e Julius, entretanto, quase que imediatamente, ele caiu no chão, fraco e derrotado. Enquanto Ferris, em lagrimas, acusava-os, os dois homens não conseguiram dizer nada. Ferris bateu com as mãos no chão em sinal de desdém, como se estivesse desprezando a si próprio.

Ferris: Eu deveria mesmo ser considerado “Azul”?… Não sou capaz de fazer nada agora… inútil, inútil, inútil, inútil… ( “Azul” foi um título dado a Ferris em decorrência de sua grande habilidade com magia d’água.)

Ferris soluçava enquanto continuava praguejando sua raiva, porém dessa vez sua raiva era dirigida a si próprio. Essa era outra opção que ele tinha, afinal ninguém interferiria com a raiva que ele dirigiria a si mesmo.

Julius: ——

Os soluços de Ferris e os suspiros de Julius se misturaram. Wilhelm permaneceu em silencio, a sala estava envolta em uma atmosfera esmagadora.

Garfiel: Ei, capitão, tá acordado?

Garfiel subitamente apareceu na entrada, olhando para Subaru, que passou despercebido para os outros três. Julius então percebeu que Subaru estava consciente, enquanto exibia uma expressão de alivio em seu rosto.

Julius: Excelente. Ferris, Subaru finalmente acordou.

Ferris: Certo…

Ao chamado de Julius, Ferris limpou seu rosto com a manga e levantou-se. Sua atitude vergonhosa desapareceu, enquanto ele examinava o corpo de Subaru. Ele então olhou fixamente nos olhos de Subaru.

Ferris: Você parece estar bem. Sua mente também está bem, certo? Você sabe seu nome e local de nascimento?

Subaru: Eu sou Natsuki Subaru, do Japão.

Ferris: Um lugar que eu nunca ouvi falar… Eu nasci nos territórios da Crusch-sama.

A expressão de Ferris dava a entender que ele acreditava que a resposta de Subaru era uma piada sem sentido. Ele se levantou e imediatamente se virou para sair. Ninguém estava disposto a discutir com ele, eles apenas o observaram em silencio. Apenas Wilhelm foi atrás de Ferris. Antes de sair, o homem velho virou-se, fazendo uma reverencia cerimonial a Subaru.

Depois que os dois saíram, a atmosfera tensa da sala finalmente diminuiu, mas, ao mesmo tempo, outro sentimento asfixiante, uma sensação avassaladora ficava cada vez mais forte.

Garfiel: Capitão, memo que tu consiga se levantar, tu num deve si força a fazer nada agora.

Subaru: Olha só quem fala… você parece estar em péssimo estado.

Encostado na parede, Garfiel cumprimentou Subaru, que respondeu ao adolescente de aparência desgastada com seu próprio comprimento.  

Suas bochechas e seus cabelos loiros estavam cobertos de sangue, sua roupa estava rasgada em diversos lugares. Ele estava tão pálido quanto da primeira vez, quando carregou Mimi quase morta em seus braços para o abrigo. Enquanto se dava conta de tudo isso, os pensamentos lentos de Subaru finalmente o alcançaram.

Subaru: Então, estamos vivos…

Garfiel: Sim. Meu incrível eu e o Capitão sobrevivemos, isso é bom pra caralho, mas porra, não podemos nem comemorar. Droga!

Ao ver Garfiel, Subaru mais uma vez confirmou que ele havia sobrevivido, isso significava que o Retorno através da Morte não tinha sido ativado, no entanto, ele não havia testemunhado o fim da batalha na Prefeitura. É claro, como ele ainda estava vivo, alguém certamente o resgatou, mas…

Subaru: O que tá acontecendo na Prefeitura? Como eu vim parar aqui?

Julius: Nós ainda estamos na Prefeitura. O Culto da Bruxa cedeu, recuperamos nosso alvo. Olhando apenas para esse resultado, nós poderíamos dizer que a operação foi um sucesso, mas…

Julius se ajoelhou perto de Subaru, enquanto ele começava a responder suas perguntas. Olhando de perto, o Cavaleiro dos Cavaleiros estava em um estado lastimável. Seu cabelo estava completamente bagunçado, seu rosto e pescoço estavam cobertos em feridas, seu uniforme de cavaleiro estava manchado de sangue. Mas, o mais importante, seus traços normalmente graciosos, estavam distorcidos com remorso e humilhação.

Julius: Em primeiro lugar, é bom vê-lo novamente. Se algo tivesse acontecido com você, teríamos perdido completamente nossa moral.

Subaru: Não diga bobagens desnecessárias. O que aconteceu? Por que o Culto da Bruxa optaria por abandonar o prédio da Prefeitura?

Julius: Como eu disse, o Culto da Bruxa abandonou o prédio e nós recuperamos a Prefeitura. Entretanto, os reféns foram transformados em coisas desumanas e os demônios responsáveis por tudo isso escaparam. Isso não pode ser chamado de um bom resultado.

Ao contrário do ansioso Subaru, Julius descrevia a situaçao de forma calma e suave. Contudo, a rigidez em sua voz, a tristeza em seus olhos, evidenciavam sua indignação. Subaru não podia ignorar o que acabou de ouvir.

Subaru: Coisas desumanas, isso significa que…

Julius: Você deve ter visto aquela visão apavorante… um pesadelo sem fim, quando estava no último andar.

Balançando a cabeça, Julius reafirmou aquela cruel realidade. Subaru lembrava bem dos olhos vermelhos brilhantes e o som das asas batendo desesperadamente em desespero, como se fosse um grito por ajuda. Ele só não vomitou pois sabia que aqueles eram humanos, humanos que buscavam sua ajuda. Seu coração doía, era uma dor que não era nem de empatia nem de medo.

O Arcebispo da Luxuria, Capella, era indiscutivelmente um monstro desprezível que pisava na dignidade e nos valores humanos, enquanto provocava e ridicularizava. Aquele monstro não brincava com o espirito e nem com o coração humano, mas algo ainda mais importante.

Julius: A praça inteira, do andar mais alto do prédio da Prefeitura até o exterior. Apesar de nossa divisão de trabalho para ganhar tempo, o Culto da Bruxa já tinha o controle da situação… Eles poderiam facilmente ter nos matado. A razão pelo qual isso não aconteceu foi graças ao seu julgamento preciso e aquele dragão negro que lutou com tudo.

Subaru: Meu… julgamento?

Julius: O espelho de comunicação foi ativado antes de você fazer qualquer coisa no último andar e, como resultado, a situação da Prefeitura foi comunicada a Anastasia e Ferris. Graças as suas ações, as Presas de Ferro e Ferris puderam chegar rapidamente ao local.

Subaru: Você achou mesmo que essas palavras me trariam algum conforto?!

Julius: Essa não foi a minha intenção… Eu estava simplesmente dizendo a verdade. Fatos, por assim dizer.

Subaru irritou-se com a resposta calma e equilibrada de Julius. Entretanto, a forma fria como Julius respondeu demonstrava que ele não estava calmo. Confirmando que nenhum deles estava de bom humor, Subaru respirou fundo.

Subaru: Mais uma coisa, o que aconteceu com o dragão negro?

Julius: Tudo isso aconteceu no último andar, então não tem como eu saber muito mais que você… mas o poder da Luxuria é a transformação, correto? E surpreendentemente um homem, que foi transformado em um dragão negro, conseguiu chegar ao topo do prédio da prefeitura apenas para lutar contra Luxuria, mesmo estando à beira da morte. Só pudemos salvar você graças a ele. 

Aquele que Julius estava se referindo era, sem dúvidas, o dragão que Subaru e Crusch atacaram sem piedade. Uma vez que o poder de Capella era a transformação, aquele dragão negro era provavelmente um dos reféns da Prefeitura. Subaru ignorou seu pedido de ajuda, abandonando-o.

Subaru: Aquele que foi transformado em um dragão negro, ele é…

Garfiel: Ele num vai morrer, ele não pode…

Garfiel interrompeu a preocupação de Subaru, falando com uma voz calma. Ele não estava olhando diretamente em seus olhos, mas sim para o teto.

Garfiel: Meu incrível não vai deixar o maluco morrer. Num é pussivel ele morrer aqui por um troço desses. Ele tem que ser salvo… caso contrário…

Julius: Ele está assim faz um tempo. O dragão parece ser alguém que ele conhece. Embora seu cheiro tenha mudado, Garfiel ainda é capaz de reconhece-lo pelas suas ações. De qualquer forma, ele foi completamente curado. Ele deve ficar bem, apesar de estar um pouco ansioso. Um pouco de descanso vai ajudar.

Subaru: Um conhecido? Garfiel, é alguém que você conhece de Pristella?

Garfiel: ——

Garfiel optou por permanecer em silêncio, algo que definitivamente surpreendeu Subaru. De qualquer forma, ele estava grato por seu salvador, o dragão negro. Mas por outro lado, as pessoas que viraram moscas, elas…

Julius: Quanto aos outros, não se pode dizer que eles estão bem, ao menos a segurança deles está garantida. Ferris tentou ajudar, mas…

Subaru: Significa então que nem mesmo Ferris é capaz de conserta-los? Droga!

Ele então bateu no chão com as próprias mãos, ponderando sobre como aqueles que perderam seus corpos se sentiam.

O quão forte seria a sensação de perda que eles estavam sentindo? Eles se transformaram em coisas desumanas, aquilo era um horror, uma crueldade diferente de perder a vida. Morrer significava o fim de uma identidade, o fim de uma existência. Perder a forma humana significa perder sua identidade… enquanto sua existência ainda permanecia.

Aqueles que foram acometidos por esta maldição incurável foram levados ao pequeno escritório. Eles estavam em cima? Ou em baixo? Lamentando por não conseguir ao menos se lembrar quantos sofriam aquele trágico destino, Subaru conseguia pensar apenas em outras coisas que precisavam ser confirmadas. Uma vez que ele ainda estava vivo, a próxima pergunta que ele fez era apenas natural.

Subaru: Você e Garfiel estão ilesos?

Julius: Como você pode ver, tanto Garfiel quanto eu não sofremos danos significativos, Ricardo também não se machucou, embora fomos humilhados… mas isso é apenas um pensamento desnecessário.

Subaru: ——

Julius então mordeu o lábio, sua voz estava cheia de vergonha. Vendo sua raiva, Subaru também foi consumido pelo ódio e frustração.

Julius lutou contra o detestável Arcebispo da Gula, Roy Alphard. Sendo sincero, tudo que Subaru queria era destruir aquele Arcebispo, porém mesmo que Subaru tivesse ficado para lutar, sua fuga era inevitável. Ele não conseguiria ficar calmo sabendo que seu inimigo mortal tinha escapado.

Subaru: Me desculpe, não consegui cumprir o meu papel.

Julius: Bem, se você insiste em dizer, não sou capaz de discordar… parece que eles conseguiram fazer a transmissão.

Subaru: Certo, isso é bem o tipo de coisa que a Luxuria faria. Tenho certeza que eles discutiram alguns tipos de exigências ou negociação na transmissão.

Julgando pela expressão de Julius, Subaru só podia imaginar que a exigência feita pela Luxuria não tinha sido nada apropriada. Embora ele não quisesse saber, ignorar seria inútil, eventualmente ele saberia. Mas antes disso…

Subaru: Deixando esse assunto da transmissão de lado… o que aconteceu com Crusch-san?

Julius:——

Subaru: Ela também foi ao último andar comigo… ela terminou em uma situação bem pior que a minha, sofrendo bem mais nas mãos da Luxuria…

Por um instante, a imagem de Crusch cuspindo sangue, agonizando nas mãos da Luxuria surgiu na mente de Subaru. Seus ferimentos externos foram graves, o dano causado foi terrível, certamente ela foi colocada em uma posição em que sua vida foi ameaçada. Isto sem contar o choro angustiado de Ferris, embora Subaru não quisesse acreditar no pior, a conclusão mais óbvia era que…

Subaru: Ferris falava de uma forma muito infeliz e pessimista, isso quer dizer que…

Julius: Bem, a verdade é que Crusch-sama continua viva, mas…

Subaru: Não fale como se estivesse implicando que algo ruim aconteceu!

Naquele breve momento, Subaru sentiu uma leve esperança em seu peito. Contudo, ela desapareceu no instante em que ele viu a expressão de Julius. Era uma expressão insuportável que não expressava a paz de espirito por ter conseguido salvar uma vida, era uma expressão que transmitia o terror de um destino trágico.

Julius: Ferris estava exagerando um pouco, mas ainda assim a situação não está indo bem.

Subaru: Não está indo bem! O que diabos tá acontecendo com Crusch-san?… Se Ferris não consegue fazer nada, então por que estamos parados aqui sem fazer nada?! Por que diabos não estamos colocando nossas cabeças para pensar?! Por que a gente não tá tentando ajudar?!

Julius: Acalme-se! Não importa o quão nervoso você fique, a situação não vai mudar, portanto acalme-se…

Julius então reprendeu Subaru, que havia se descontrolado de forma vergonhosa. Sua calma serviu apenas para irritar ainda mais Subaru.

Subaru: Maldito! Como diabos você consegue ficar tão calmo?! Perdemos miseravelmente contra o Culto da Bruxa! Como você não consegue ficar irritado?!

Julius: É obvio que eu também estou com raiva!

Então, Julius subitamente deu um tapa no braço de Subaru, que estava apontando para ele. Subaru ficou em silencio ao ver que o olhar de Julius vacilou enquanto ele gritava.

Julius: Minhas desculpas por não conseguir lidar com a minha raiva. Parece que ainda não amadureci o suficiente para me controlar.

Julius então estendeu a mão para Subaru, que havia perdido seu equilíbrio depois que seu braço foi atingindo. Embora ele entendesse claramente os sentimentos de Julius, Subaru deliberadamente desaprovou sua atitude, ficando envergonhado ao ouvir seu pedido de desculpas.

Subaru: Crusch-san, ela…

Julius: … Foi atacada pela Luxuria, correto? Um agente externo contaminou seu corpo, e agora está causando um grande estrago nela. É doloroso ver a forma como Ferris está lidando com a situação.

Enquanto Julius falava, Subaru se lembrou novamente da imagem de Crusch agonizando de dor, uma imagem que ele tinha nos últimos momentos de sua memória.

Uma dor extrema, em que seu corpo tinha sido invadido por um monstro, que drenou sua própria carne, sangue, ossos e até mesmo sua alma. Era uma dor que ninguém jamais deveria suportar, no entanto Crusch estava passando por toda aquela dor e sofrimento. Subaru então concluiu que foi por isso que Ferris tinha agido daquela maneira.

Tanto antes quanto depois de Subaru acordar, Ferris parecia culpar Wilhelm. Provavelmente, ele estava acusando o velho espadachim por ser incapaz de protege-la no campo de batalha. No fundo mesmo, ele só estava procurando alguém para culpar, tanto ele quanto Wilhelm sabiam disso, por isso ele ficou em silêncio, permitindo que Ferris o atacasse, enquanto Ferris secretamente lamentava por sua fraqueza e incapacidade.

Os dois homens que haviam acabado de deixar a sala estavam com sua líder, que ainda sofria.

Pensando naquele trio, a sensação de fracasso no coração de Subaru cresceu, ficando cada vez mais forte. Julius então interrompeu a tristeza de Subaru.

Julius: Subaru, tem algo que eu preciso confirmar.

Subaru: O que é?

Julius: Embora seja difícil para mim dizer isto diretamente… parece que você ainda não percebeu.

Subaru ficou em dúvida quanto ao cauteloso eufemismo de Julius. Ele então ergueu a mão, apontando para a perna de Subaru, que em resposta estreitou os olhos.

Incerto sobre o que Julius estava fazendo, ele olhou para baixo cautelosamente… e viu a mão de Julius, que percorreu um caminho da coxa de Subaru até o pé direito. Subaru involuntariamente seguiu o movimento com os olhos. Ele apenas tinha se lembrado de Crusch no último andar do edifício da Prefeitura, esquecendo completamente de seus próprios ferimentos.

O que tinha acontecido antes dele perder a consciência?

Ele inconscientemente aceitou que acabaria tendo de recorrer ao Retorno através da Morte, porém a sensação da morte não veio. Ele deveria ter ficado aliviado, mas…

Subaru: O quê?! Isso é…?!

Subitamente, sua respiração ficou presa em sua garganta; Subaru não pôde deixar de duvidar daquilo que seus olhos viam. Sua perna direita aparentemente ainda estava no lugar, mas… no lugar onde sua perna tinha sido arrancada, havia uma junção, uma estrutura formada por pele negra, feia e carbonizada. Aquela pele negra tinha se espalhado por toda sua perna.*

Julius: Não foi Ferris que lhe curou, nem nenhum tipo de magia d’ água. Sua perna… a que tinha sido arrancada… se consertou por conta própria. E nem ao menos parece estar doendo.

Subaru: ——

Era como Julius tinha dito.

Sua perna direita não doía e não tinha nenhuma sensação estranha. Seu primeiro instinto foi se perguntar se aquilo era apenas uma ilusão, dando apenas a impressão que sua perna estava conectada, no entanto esta ideia foi descartada, pois ele podia mover livremente seus joelhos e os dedos dos pés.

Cada ferimento em sua perna tinha ficado preto, a escuridão era visível em seus vasos sanguíneos, estendendo-se desde a parte inferior até o topo de sua perna direita.

Julius: Subaru, novamente, quero ter certeza.

Subaru: ……

Depois de ver a mudança drástica em sua própria perna, Subaru não conseguia nem falar. Diante da pergunta de Julius, Subaru levantou lentamente a cabeça, e então…

Julius: Está realmente… Você está realmente bem?


A coisa mais assustadora sobre o reimplante da sua perna direita era que… não havia nem um obstáculo que o impedia de se levantar e andar da forma como ele queria.

Garfiel: O maluco lá, o tal do Ferris, falo que a perna do Capitão não tava nem ferida nem duente, memo que meu incrível eu tentasse usar magia de cura, não ia adianta de porra nenhuma. Num parece ser algo curável.  

Enquanto enrolava a perna de sua calça, Subaru conseguia ver sua perna coberta por vasos sanguíneos negros. Aqueles novos padrões na sua pele eram bem flexíveis, a textura era relativamente próxima a pele normal. Se ele ignorasse a cor, ele poderia chamar aquilo de pele normal, mas…. 

Julius: Você reimplantou por conta própria?… É a única coisa que me parece ser plausível, seria difícil de acreditar em você dizendo que se reimplantou sozinho.

Nem é preciso dizer, que Subaru não possuía poderes regenerativos para reimplantar sua perna. Aquela era a segunda vez que ele tinha perdido a perna, e de acordo com as memorias que ele tinha da primeira vez, sua perna não tinha se regenerado por conta própria. Claro, o que ele deveria fazer agora era pensar no porquê isso tinha acontecido, mas ele conseguia pensar em apenas uma coisa.

Subaru: É por causa do Sangue que aquela puta da Capella derramou na minha perna…?

Quando sua perna foi arrancada, ele caiu em um estado crítico de confusão, devido a isso, suas memorias estavam turvas, ele não podia concluir com certeza se esse era de fato o caso. Entretanto, Subaru não tinha dúvidas de que viu Capella cortar o próprio pulso e pingar gotas de seu próprio sangue em seu ferimento. Na hora, ela também tinha mencionado algo incrivelmente preocupante, sim, era sobre…

Subaru: Crusch-san…. ela passou pela mesma coisa que eu.

Julius: Você quer dizer que… aquela criatura pingou seu sangue nas feridas dela? É um ato bem desagradável. Talvez tenha algum significado como um ritual… causando um grande dano de imediato…? Ou talvez seja uma maldição, que não funciona sobre as leis da magia normal.

Subaru: Maldição…. sim, acho que é isso mesmo. A maldição do sangue… não, era algo diferente… algo como…. Sangue de Dragão?  Sim, sangue de dragão, foi isso o que ela disse.

Enquanto ele olhava para um Julius confuso, Subaru vasculho em suas memorias turvas, e não pôde deixar de bater palmas quando obteve sucesso.

Enquanto torturava Subaru utilizando de seu sangue, Capella mencionou que seu próprio sangue estava misturado com Sangue de Dragão. Além de fornecer evidencias importantes, aquilo não parecia ser uma mentira, um blefe nem uma piada.

Julius: Sangue de Dragão… isso significa que ela o recebeu da família real?

Subaru: Eu não sei sobre os detalhes, mas… a família real tem realmente algo tão conveniente em mãos?

Julius: Foi um dos tesouros garantidos ao reino de Lugunica pelo pacto com o dragão Volcanica, o seu sangue é famoso por ser poderoso o suficiente para até mesmo tornar terras estéreis novamente férteis.

Subaru: O todo-poderoso Sangue de Dragão… Não sei o quão relevante isso é, ou as consequências disso.

Considerando que Capella se autoproclamava como “Lugunica”, aquele era certamente um item de seu interesse, especialmente levando em consideração que de acordo com Wilhelm, “Emerada Lugunica” foi uma figura histórica que realmente existiu.

Ela não poderia ser da família real, ou poderia? Subaru não acreditava que ela pertencesse a família real, entretanto, o fato de seu sangue estar misturado com Sangue de Dragão ainda levantava dúvidas.

Julius: De qualquer forma, é bom saber que possivelmente está relacionado com o Sangue de Dragão, Ferris talvez seja capaz de ajudar sabendo desta informação.

Garfiel: Pera aí, Capitão, num vai com ele não.

Subaru queria correr e espalhar aquela informação o mais rápido possível, contudo Garfiel de braços cruzados, encostado na parede, interrompeu-o, jogando um balde d’água metafórico em sua cara. Em resposta ao olhar de Subaru, Garfiel apenas baixou a cabeça.

Garfiel: O Capitão ainda num viu, quanto menos gente ver melhor.

Subaru: … O que exatamente você quer dizer?

Garfiel: É exatamente o que cê tá achando que é. Aquela gostosa num gostaria que cê a visse.

Garfiel afastou-se do olhar de Subaru. Ficando cada vez mais inquieto, Subaru voltou-se para Julius, que da mesma forma que Garfiel, apenas balançou a cabeça.

Julius: De fato, temo que no momento Crusch-sama queria evitar os olhares de outras pessoas. Como ela é uma pessoa muito nobre, ela não quer que os outros a vejam nesse estado lastimável de fraqueza.

Subaru: É realmente…. só porque… ela está em um estado de fraqueza?

Julius:——

Julius não disse nada. Ele simplesmente desviou silenciosamente o olhar de Subaru. Aquele pequeno gesto já respondia tudo.

Subaru: É tudo culpa minha.

Julius: Subaru, isso é…

Subaru: É tudo culpa minha! Eu mais do que ninguém deveria saber o quão perigoso e desprezível eles podem ser! Eu deveria ter previsto que isso poderia acontecer!

O que estava acontecendo com Crusch? Quanto mais ele imaginava, mais horrorizado ele ficava.

Aqueles pensamentos traziam um remorso muito forte para Subaru… aqueles pensamentos eram resultado da raiva que ele tinha da sua própria incompetência. Subaru conhecia bem a natureza terrível dos Cultistas da Bruxa. Não era apenas Petelgeuse, antes de entrar no prédio da Prefeitura, Subaru tinha dado de cara com Sirius e logo em seguida tinha encontrado Regulus. Após esses encontros, como Subaru pôde subestimar tanto Capella? Teria sido arrogância da sua parte ter decidido lutar mesmo em clara desvantagem? Tudo isso só tinha acontecido por causa do seu julgamento.

Subaru: Tu-tudo minha..

???: Já chega. Não sei se você está chorando ou reclamando, mas de qualquer forma, está se tornando um incômodo, você se importaria de parar?

Subaru, assumindo toda a culpa, estava prestes a se fundar em um mar de aversão a si próprio. Naquele momento, uma voz o afastou daqueles pensamentos sombrios, entretanto, não era uma voz gentil, e sim uma voz apática, que veio acompanhada de um olhar frio e vazio.

Subaru: “——”

Ele então voltou-se para a entrada da sala. Diante de todos os presentes, com as mãos entrelaçadas e com um rosto gentil, estava uma empresária de cabelos roxos. Entretanto, a forma como ela olhava para Subaru só poderia ser descrita como “mortal”.

Subaru: Anastasia…

Anastasia: Não me entenda mal, eu compreendo perfeitamente a decepção de perder uma batalha, mas se tudo o que você faz é reclamar e ficar deprimido, você só estará agindo como um tolo, perturbando todos a sua volta. Mesmo que voce continue reclamando, o resultado da batalha não vai mudar.

Anastasia então reprendeu Subaru, que ainda estava abalado pela derrota. Por um instante, Subaru estava atônito ao ponto que não conseguiu processar as palavras que lhe foram ditas. Quando ele estava prestes a reagir, ele se deu conta que sua mente estava tomada pela raiva, então…

Julius: Anastasia-sama, por favor, retire esta sua declaração, Subaru foi o que teve mais contato direto com o Culto da Bruxa. Mesmo se ele estiver reclamando, ou deprimido…

Anastasia: Isso é muito estranho vindo de você, Julius. Você geralmente se foca no assunto em questão, e não fica agindo de forma tão infantil… Se você veio aqui apenas para brincar com seus amigos, então Joshua é mais conveniente no momento.

Julius: ……

Julius, que tentou defender Subaru, desabou sobre aquele olhar frio. A raiva de Subaru diminuiu um pouco, mas ele ainda estava confuso acerca da atitude Anastasia.

Então, enquanto brincava com o cachecol feito de pele de raposa branca, ela olhava para Julius, Garfiel e Subaru, que estavam sem palavras.

Anastasia: Ei, Julius, as coisas com a Crusch-san parecem meio complicadas no momento? Não parecem? Por que você não vai e vê se pode ajudar de alguma forma? E você, menino loiro, se importaria de acompanha-lo?

Após pedir que Garfiel e Julius saíssem da sala, Anastasia olhou fixamente para Subaru. 

Agora com somente duas pessoas, Anastasia poderia confrontar diretamente Subaru.

Anastasia: Não se preocupe, não farei nada desagradável.

Anastasia então prometeu, com um sorriso indelicado. Julius fez uma reverencia e saiu, Garfiel estava logo atrás dele, com um olhar cauteloso em Subaru, que ele manteve até sair da sala, despedindo-se com um aceno.

Anastasia: Garfiel-kun parece ser uma criança bem obediente. Até ele sair, ele estava com um olhar fixo de preocupação em Natsuki-kun, ele parece cuidar bem das pessoas.

Subaru: Tenho certeza que você não quis ficar sozinha só pra ficar batendo papo.

Anastasia começou a falar sobre Garfiel depois que ele saiu. Essa mesma situação já tinha acontecido antes, onde ela tinha tentado pegar Subaru de surpresa. Subaru virou-se, vendo Anastasia acariciando seu cabelo enquanto olhava ao redor daquela sala semidestruída, ela então pegou uma cadeira e sentou-se.

Anastasia: Sinceramente, ter uma conversa tranquila com Natsuki-kun realmente me lembra… me lembra da véspera da batalha contra a Baleia Branca.

Subaru: Naquela época, tínhamos um plano formulado que nos conduziria a vitória. Agora… nem sinal disso… Nós recuperamos a Prefeitura, mas parece que a situação não melhorou…

Anastasia: Sim, a situação não mudou. Não, na verdade ficou ainda pior, nem um plano de ação para seguir nós temos…

Subaru se deu conta de que aquela voz calma tinha, por um segundo, se afiado como a lâmina de uma faca. Ele não pôde deixar de endireitar suas costas, enquanto Anastasia olhava para sua perna.

Anastasia: Está tudo bem com a sua perna? Pelo que eu tinha ouvido, ela tinha sido triturada.

Subaru: Embora a aparência seja meio nojenta, felizmente eu consigo correr e pular sem problemas.

Anastasia: Bem, ser capaz de correr e pular sem problemas é a prioridade agora, afinal, ainda haverá muito o que fazer, mas até lá…

Após abordar ligeiramente acerca do ferimento de Subaru, ela respirou fundo. Subaru franziu a testa, ele se deu conta de que ela finalmente abordaria o ponto principal. Ela então apontou a mão para o teto, não, através dele.

Anastasia: Você chegou a ouvir a terceira transmissão?

Subaru: Não, eu acabei perdendo. Sobre o que eles falaram?… Foi algum tipo de exigência, certo?

Anastasia: Natsuki-kun perdeu duas das três transmissões, que descuidado.

Anastasia riu baixinho, levando a mão até a boca. Subaru contraiu os lábios, frustrado. Anastasia manteve a mão sobre a boca, enquanto estreitava os olhos.

Anastasia: A exigência que eles fizeram… parece que apenas Natsuki-kun e eu podemos entender.

Subaru: Apenas eu…. e Anastasia-sama?

O que exatamente ela queria dizer? A mente de Subaru estava cheia de perguntas. Ele nunca sentiu que os dois tinham algo em comum, afinal por causa daquela situação, aquela era a primeira vez que eles interagiram daquela forma. Com um relacionamento tão superficial, o que exatamente eles…

???: Meu Deus, Ana, sabe… às vezes você fala de uma forma desmoralizante, servindo apenas para irritar os outros. Esse não é exatamente o caso?

Subaru: ——!?

De repente, a voz de uma terceira pessoa ecoou nos ouvidos de Subaru. A voz não pertencia nem a ele nem a Anastasia, era uma voz que parecia mais leve e neutra.

Subaru olhou em volta, confuso, no entanto, tirando ele e Anastasia, não havia nenhuma figura presente nos arredores. Julius e Garfiel tinham saído, e, aparentemente, não haviam retornado. De onde diabos tinha vindo aquela voz?

Anastasia: Você fala de mim, mas não está fazendo o mesmo que eu? Olhe para o pobre Natsuki-kun, ele está em um estado crítico de confusão agora.

???: Entendo… isso não é bom.

Subaru: Isso… Quem é…?!

Anastasia conversava com aquela terceira voz como se fosse a coisa mais natural do mundo, em vez de tentar aliviar a confusão de Subaru, ela apenas o observava se indagar “O que está acontecendo?!”

???: Você parece ter se assustado um pouco, minhas desculpas.

Subaru: ——

Subitamente, o dono daquela voz intrometeU -se na cena. Não, aquela terceira voz não se intrometeu, estava na sala desde o começo. De fato, tinha entrado na sala com Anastasia.

Echidna: Eu sou Echidna. Bem, na verdade eu sou um espirito artificial.

Subaru: Echi—!?

Aquela coisa sorriu habilmente para Subaru, que estava ocupado tentando se livrar do choque. Lábios curvando-se em ambos os lados, olhos se estreitando ligeiramente, aquilo… provavelmente era a imitação de um sorriso.

– Enrolado em volta do pescoço de Anastasia, seu cachecol que aparentava ser feito de pelo de raposa artificial agora brilhava. A bruxa cujo nome ele não poderia esquecer acabou de se revelar na forma de um espirito.

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