Angie, Livia e Noelle corriam pelos corredores com Cleare na liderança. A lente azul dela cintilava enquanto examinava os caminhos à frente e calculava a rota mais curta até o tesouro.
“Por aqui!”
Os caminhos que ela vinha escolhendo até então faziam as garotas dobrarem esquina após esquina num padrão quase serpenteante. Cleare estava optando por esse trajeto tortuoso justamente porque ele lhes permitia evitar combates desnecessários.
Angie olhou por cima do ombro. Noelle ainda conseguia acompanhá-las, mas seu rosto já estava contorcido de dor. Ela havia recebido alta depois da reabilitação algum tempo antes, mas sua resistência ainda não tinha se recuperado completamente. E, de qualquer forma, não havia como competir de maneira realista com a resistência monstruosa de uma nobre de Holfort como Angie, que tinha treinado para esse tipo de coisa a vida inteira. Noelle, porém, não era a única sofrendo.
“E-eu não aguento mais…” Livia ofegou, ainda mais sem fôlego que a outra, o rosto contraído enquanto lutava para puxar ar.
Angie diminuiu o ritmo até parar e caminhar. Se continuasse naquele passo, acabaria deixando as duas para trás. Sozinha, ela poderia muito bem seguir em frente, mas suas companheiras claramente tinham chegado ao limite.
“Vamos descansar um pouco. Cleare, há algum lugar onde possamos fazer uma pausa?”
Livia e Noelle pararam cambaleando e praticamente caíram contra a parede.
Cleare olhou para as duas e pareceu ligeiramente irritada ao responder: “Podemos parar aqui. Não detecto inimigos nem armadilhas por perto. O problema é que estamos perdendo tempo, então terei de recalcular a rota. E, embora eu entenda por que a Nelly não consegue acompanhar, qual é a sua desculpa, Liv? Você não tem resistência nenhuma.”
“E-eu sou mais… do tipo… de ficar em ambientes fechados…”, Livia conseguiu responder entre uma respiração e outra.
Ela era perfeitamente capaz de se concentrar e estudar por horas seguidas, mas, quando o assunto era exercício físico, era um desastre.
Angie levou a mão à testa com um sorriso irônico.
“Foi por isso que eu disse que você precisava se exercitar mais. Resistência física é o básico.”
“Eu me orgulhava de ter resistência acima da média na república, mas vocês, holfortianos, são desumanos”, argumentou Noelle, coberta por uma fina camada de suor. “A gente correu uma eternidade, e você nem parece cansada.”
Se aquilo fosse apenas uma corrida simples, talvez as duas ainda conseguissem continuar um pouco mais. O problema era a armadura que pesava sobre seus corpos, além das armas e suprimentos que carregavam. Tudo somado era bastante pesado. Por isso, Noelle não conseguia esconder o choque ao ver que Angie ainda parecia fresca como o orvalho da manhã, enquanto ela e Livia estavam à beira de desabar.
“Se isso já basta para cansar vocês, então nunca vão se tornar aventureiras”, declarou Angie.
Noelle balançou a cabeça.
“Como é que isso pode parecer normal pra você?!”
Depois que Livia e Noelle recuperaram um pouco do fôlego, Angie voltou a colocá-las em movimento, embora agora num ritmo mais lento. Enquanto continuavam avançando, o assunto inevitavelmente derivou para Leon. Angie, em particular, mantinha um sorriso no rosto, mas estava visivelmente irritada com a desonestidade dele. A audácia de esconder aquela rota secreta ainda a irritava.
“Ele pode ser um canalha”, disse ela. “Fez questão de bancar o justo, como se isso fosse uma disputa limpa, mas o tempo todo já planejava vencer por meios escusos. Ele realmente nos enganou.”
“Nós nos esforçamos tanto para chegar ao fim dessa rota, só para descobrir que precisamos voltar tudo e procurar aquela passagem secreta”, acrescentou Livia, mais irritada com o esforço físico extra do que com a trapaça em si.
Para Noelle, aquilo era só mais um item a ser somado à lista de coisas pelas quais precisava cobrar Leon. A atitude dele a deixava especialmente incomodada.
“E ele estava tão firme nessa ideia de jogar limpo no começo, não estava?!” reclamou ela. “Olha só pra ele: se colocou em desvantagem, mas aquilo tudo era só encenação. Que sujeito sem vergonha!”
Cleare parecia estar se divertindo bastante com a raiva das três.
“Pelo visto, o Mestre realmente não pega leve nem com as próprias noivas.”
Angie sorriu com delicadeza.
“E isso também mostra que eu subestimei o quanto ele estava levando isso a sério.”
“Você parece feliz”, observou Cleare. “Como consegue sorrir depois de tudo isso? Ele enganou você.”
“Não estou exatamente feliz com a trapaça”, respondeu Angie. “Mas isso significa que ele está realmente me enfrentando. Até agora, ele sempre me protegeu. Sempre foi muito cuidadoso comigo, como se eu fosse uma princesa.”
“Entendi”, disse Cleare. “Então você não gostava disso.”
“Eu não diria isso. Parte de mim ficava feliz, sim, mas, ao mesmo tempo, permanecer de lado só assistindo enquanto ele lutava me fazia pensar se ele realmente precisava de mim. Na verdade, às vezes eu me pego pensando que ele talvez pudesse viver uma vida muito mais tranquila sem mim.”
“Isso não é verdade!” repreendeu Livia logo atrás.
“Você sempre assume responsabilidades demais. A razão de o Sr. Leon não conseguir viver uma vida tranquila é porque…”
Livia interrompeu a própria frase de forma abrupta, como se tivesse percebido que estava prestes a dizer algo que não devia. O silêncio que se seguiu se arrastou por tempo demais.
Noelle, incapaz de suportar aquilo, interveio: “Porque ele se mete demais onde não é chamado. Quer dizer, foi por isso que ele me salvou.”
De fato, essa era uma das grandes razões pelas quais Leon nunca conseguia realizar o sonho de levar uma vida pacífica. Ele tinha o péssimo hábito de enfiar o nariz nos problemas dos outros. Se pensasse apenas em si mesmo, ele jamais teria se tornado um herói. Por outro lado, também não teria se aproximado de nenhum deles. E isso não se limitava às noivas — ele acabava criando laços com todo tipo de gente.
“Eu não quero ser um fardo”, disse Angie com sinceridade. “Tudo o que eu quero é que Leon seja feliz. Mas, enquanto eu estiver ao lado dele, inevitavelmente vou atraí-lo para conflitos dos quais ele jamais participaria sozinho.”
Era justamente por isso que Angie vinha se esforçando tanto para mantê-lo afastado da agitação atual. Leon já deixara claro que queria ficar fora de tudo aquilo — e, mesmo que não tivesse dito em palavras, o desgaste mental dele era visível para Angie.
Noelle olhou para Livia.
“Ele ainda não diminuiu a dose, diminuiu?”
“A dosagem não mudou desde que ele voltou da república”, respondeu Livia, balançando a cabeça. “Não é mesmo, Cleary?”
“O Mestre me proibiu de responder a essa pergunta.”
O tom casual e alegre de Cleare desapareceu por completo ao tocar naquele assunto. No fim das contas, Leon era seu mestre, e, quando chegava a hora de escolher prioridades, ele vinha primeiro.
O silêncio caiu outra vez enquanto Cleare continuava guiando as três. Sem perceber, em algum momento elas já tinham atravessado a passagem secreta. Mais à frente, ecos de batalha percorriam os corredores — provavelmente Julius e os outros.
Angie ergueu o rifle.
“Eu gostaria de evitar fogo amigo. Façam o que fizerem, não atirem a menos que tenham certeza absoluta.”
O corredor era escuro, afogado em sombras. Bastaria um disparo mal calculado para que elas acertassem umas às outras.
Livia e Noelle assentiram.
A lente azul de Cleare piscou.
“Tenho uma rota de desvio que evita contato direto com o inimigo. Vamos, meninas!”
Uma mistura de vozes masculinas se mesclava ao som da luta e reverberava ao longo dos corredores. Às vezes, vinham até mesmo promessas dramáticas como: “Eu juro que esses desgraçados vão pagar, nem que seja a última coisa que eu faça!”
As garotas continuaram até encontrar um caminho bloqueado por uma parede de gelo.
Livia se aproximou, franzindo o cenho.
“Isso é algum tipo de mecanismo secreto que precisamos atravessar? O tesouro está depois daqui?”
“Não. Esse não é o caminho certo”, disse Cleare. “Foi o Jilk que bloqueou isso. Ignorem e sigam em frente.”
Noelle inclinou a cabeça.
“O Sr. Jilk colocou isso aqui? Mas por que ele selaria o caminho errado?”
O rosto de Angie ficou tão frio quanto pedra. Ela não teve dificuldade nenhuma em imaginar o que havia acontecido.
“Parece que ele entendeu errado onde o tesouro estava e selou a rota atrás de si. Afinal, ele é um covarde traiçoeiro.”
“Ele não mudou nada desde o primeiro ano”, concordou Livia.
Enquanto as duas holfortianas retomavam o avanço, Noelle vinha logo atrás.
“Tá bom, eu concordo que os métodos dele são… um pouco questionáveis, mas ele é realmente tão ruim assim?”
Todo traço de emoção desapareceu do rosto de Livia.
“Estamos falando de um homem que secretamente prendeu um explosivo na armadura do oponente durante um duelo. E, veja bem, isso nem chega perto do pior que ele já fez. Ele também rompeu o noivado com uma mulher e depois se recusou a encontrá-la. Eu poderia passar horas listando os pecados dele.”
“Ah. Então acho que ele é realmente pior do que eu imaginava.”
Noelle franziu a testa. Ela já tinha visto quantos problemas Jilk tinha causado a Marie durante o período em que viveram juntos na república. Saber que o sujeito era ainda pior do que imaginava foi suficiente para deixá-la enojada.
O rosto de Angie também permanecia sem expressão quando acrescentou: “Aqueles cinco são todos problemáticos, mas não há discussão possível: Jilk é, de longe, o pior de todos.”
Quando a conversa chegou ao fim, uma porta suspeita surgiu diante delas. Estava entreaberta, o bastante para que pudessem espiar o interior.
Sombras e escuridão dominavam a maior parte dos corredores daquela masmorra, mas aquela sala brilhava de tanto ouro que quase cegava. Ela praticamente gritava: “Eu sou a sala do tesouro que vocês estavam procurando o tempo todo!” Ainda assim, em vez de se alegrarem com a descoberta, as garotas ficaram chocadas com o que mais encontraram lá dentro.
“Leon?!”, gritou Angie.
Leon estava lutando contra um monstro morto-vivo. O crânio da criatura lembrava o de um animal, e o resto do corpo permanecia oculto sob um manto negro. Seus braços eram anormalmente longos e desproporcionais, e as mãos eram completamente cobertas de ouro. No lugar onde deveriam existir pernas, não havia nada — a coisa simplesmente flutuava. Para completar, a criatura tinha cerca de três metros de altura e, pior ainda, era absurdamente ágil, disparando pelo ar dentro da enorme câmara abobadada.
Enquanto isso, no exato momento em que percebeu que suas noivas tinham chegado, Leon fez uma careta de puro incômodo.
***
Enquanto eu estava preso lutando contra o chefe que guardava a sala do tesouro, minhas noivas me alcançaram. Uma surpresa completa, já que eu esperava que a brigada de idiotas chegasse primeiro. Isso me deixou em pânico por dois motivos ao mesmo tempo: primeiro, porque significava que eu estava demorando demais para derrotar aquela coisa; segundo, porque eu não tinha a menor dúvida de que elas ainda deviam estar furiosas comigo por causa da trapaça.
Angie ergueu o rifle e disparou contra o monstro no instante em que ele cruzou o ar. A criatura desviou e mergulhou atrás de um pilar.
Estávamos em algo que se assemelhava a uma sala do trono. Tudo ali era feito inteiramente de ouro. Por que uma câmara como aquela existiria nas profundezas de uma masmorra sob uma fortaleza estava além da minha compreensão, mas o tesouro que procurávamos estava claramente bem diante dos nossos olhos.
O mais estranho era que eu não me lembrava daquela sala daquele jeito no jogo. Na minha memória, ela era apenas mais uma das câmaras úmidas e escuras daquele labirinto.
Livia correu até mim.
“Sr. Leon, você está ferido?”
“Não, estou bem.”
Noelle veio logo em seguida, lançando um olhar nervoso na direção da fera, que agora nos observava a partir da segurança oferecida pelo pilar atrás do qual se escondera.
“Essa coisa parece meio forte. Você consegue vencer?”
Ah, se eu pudesse ter acabado com isso logo no começo, teria sido o ideal.
Infelizmente, não era o caso. Eu tinha certeza de que não perderia, mas também não estava exatamente equipado da melhor forma para derrubar aquele troço.
“Isso não vai me derrotar, mas também não tenho certeza se vou conseguir derrotá-lo tão facilmente”, respondi. “Se eu tivesse trazido a minha escopeta…”
“Foi exatamente por isso que eu disse para você trazê-la”, comentou Luxion, soando como uma mãe superprotetora decidida a me atormentar até a morte. “Se me permite recordar, quando você pediu minha opinião sobre qual arma levar, eu recomendei a espingarda.”
“Sim, mas naquele momento eu não achei que ia precisar dela, tá?!”
Eu nem tinha usado muito aquela arma durante minhas partidas. Como é que eu ia adivinhar?
Enquanto eu e Luxion discutíamos, o chefe saiu de trás do pilar e atacou outra vez. Angie disparou o rifle, mas isso não bastou para diminuir sua velocidade — precisaríamos de mais de uma bala para derrubá-lo.
“Toma!”
Joguei uma granada no chão. Ela explodiu e espalhou uma névoa purificadora por toda a área. O chefe recuou para um canto distante, abrindo bastante distância entre nós.
Angie correu até mim. Com mãos ágeis, carregou outra bala no rifle.
“Essas são granadas de água benta, certo? Quantas ainda restam?”
“Só mais uma”, respondi, constrangido, enquanto passava a mão pelo cinto.
“Então talvez devêssemos nos espalhar e atacar de vários lados?”
O olhar de Angie jamais deixou a criatura, mesmo enquanto discutia nossa estratégia.
“Não sobrou muita munição, e Livia e Noelle só têm pistolas, certo? Tenho quase certeza de que isso inviabiliza essa opção.”
Nem Livia nem Noelle eram exatamente grandes atiradoras. Continuar insistindo no combate nas condições atuais parecia imprudente.
“Talvez fosse melhor simplesmente recuar…”
Noelle bateu nas minhas costas.
“Eu cuido disso, lembra?”
Ela segurava um galho e algumas folhas nas mãos. Nem precisei me perguntar de onde tinham vindo; soube na hora que pertenciam à Árvore Sagrada.
“Você arrancou isso do pobre Sappie?”, perguntei.
“Claro que não! Encontrei os galhos caídos no chão, e as folhas foram as que pedi para a Srta. Yumeria podar!”
Ah, entendi. Então a Srta. Yumeria devia ter mandado Kyle trazer aquilo para Noelle.
“Você consegue mesmo usar essas coisas?”
Noelle bufou.
“Eu sou a Sacerdotisa, sabia? Aliás, você também podia usar alguma coisa. Não esqueceu que é o Guardião, né?”
Eu não tinha esquecido, não. O problema é que esse posto praticamente não vinha com benefício nenhum além daquela marca esquisita gravada para sempre nas costas da minha mão direita, então eu nunca pensava muito nisso.
“Eu nem sei como usar isso”, respondi.
“Às vezes eu realmente acho um mistério como você foi escolhido.”
Tanto faz. O importante era que Noelle ainda tinha mais uma arma à disposição.
Voltei meu olhar para Livia. Suas bochechas estavam infladas num claro beicinho.
“Eu também estou perfeitamente bem. Você esqueceu das minhas habilidades arcanas?”
Certo. Então isso resolvia a questão.
“Nesse caso, vamos nos espalhar e atacar de todos os lados”, eu disse. “Se alguma de vocês entrar em apuros, aproximem-se umas das outras para se proteger.”
Trocamos acenos rápidos e nos dispersamos, cada um assumindo sua posição. Noelle foi a primeira a agir.
“Árvore Sagrada, empreste-me sua força!”
Ela lançou um dos galhos para o alto. O galho cresceu instantaneamente e se enrolou no chefe, girando em torno do corpo da criatura numa tentativa de prendê-la.
“Consegui!”
Noelle ergueu o punho em comemoração, mas se adiantou demais. Onde quer que o galho tocasse a criatura, ele começava a se transformar em ouro.
“Isso é trapaça demais!”, gritou ela.
Em poucos segundos, o ouro se espalhou por toda a extensão do galho, transformando-o num pedaço inútil de metal precioso antes de fazê-lo se desfazer em pó. Pelo menos aquilo nos comprou algum tempo, mesmo que o resultado em si tivesse sido inútil.
“Não se preocupe. Eu cuido do resto”, disse Livia.
Dois círculos mágicos surgiram ao redor dela. De um, rugiram chamas; do outro, soprou vento. Ela combinou os dois elementos para aumentar a intensidade do fogo e então lançou o feitiço contra o chefe.
“Que diabos é isso? Nunca vi essa magia antes.”
Olhei para Luxion, que pairava ao meu lado como sempre.
“Não é um feitiço avançado”, respondeu ele, já fazendo sua análise. “Parece ser a combinação de duas escolas de magia, o que reduz o custo de mana sem sacrificar o poder. É uma técnica altamente refinada.”
Uau. Impressionante.
Apontei o rifle para a criatura e atirei. Envolvido pelas chamas de Livia, o monstro se contorceu em agonia, jogando a cabeça para trás e abrindo a boca num grito bizarro. O fogo era intenso demais. Para escapar, a criatura abandonou o ar e caiu pesadamente no chão.
“Nem pense em fugir!”
Angie estendeu a mão esquerda na direção do chefe, criando um círculo mágico enorme e intrincado logo abaixo do corpo caído da criatura. As linhas do feitiço se acenderam de uma vez, e uma coluna de fogo irrompeu do chão, lançando o monstro contra o teto.
“Pilar do Fogo Infernal. É especialmente eficaz contra mortos-vivos como você, não é?”
É claro que a criatura não respondeu. Ninguém realmente esperava que respondesse.
Quando a magia de Angie se dissipou, o chefe despencou de volta ao chão. Alguns instantes depois, porém, cambaleou e tentou se pôr de pé outra vez. Angie disparou seu rifle, mas nem isso bastou para fazê-lo parar.
“Que fera persistente…”, murmurou ela.
Enquanto Livia já preparava outro conjunto de círculos mágicos, Noelle apertou com força as folhas da Árvore Sagrada, pronta para atacar de novo.
“Por que você ainda não acabou com isso?”, perguntou Luxion, pairando ao meu lado.
Balancei a cabeça devagar.
“Eu só… elas são muito fortes.”
Acho que, em algum lugar lá no fundo, eu ainda tinha o hábito de pensar nelas como frágeis. Como se precisassem ser protegidas por mim. Só que, vendo o quanto estavam determinadas e o nível da habilidade de combate das três, comecei a sentir que talvez minhas noivas não precisassem da minha proteção coisa nenhuma. Que, no fim das contas, eu nem era tão necessário assim…
“Mestre.”
Saí do meu torpor. Afastei esses pensamentos inúteis e voltei a focar no chefe.
“Foi mal. Mas já está na hora de acabar com isso.”
Lancei minha última granada na direção da criatura. Ela explodiu e espalhou outra nuvem de névoa purificadora pela sala. As partículas de água benta que preencheram o ar começaram a corroer o corpo do monstro.
Deixei o rifle cair no chão e arranquei a espada da bainha enquanto avançava. A minha lâmina era muito mais bem trabalhada do que as outras que eu havia distribuído; Luxion a tinha forjado especialmente para mim. E ela também era muito mais eficaz contra mortos-vivos.
Quando me aproximei, uma das mãos douradas da criatura veio contra mim.
“Nem pense nisso!”
Noelle lançou as folhas na direção do chefe. Impulsionadas pela vontade dela, elas dispararam pelo ar e se prenderam ao corpo da criatura. Das folhas brotaram raízes e cipós que se enrolaram no monstro, tentando imobilizá-lo. A criatura rompeu tudo quase instantaneamente, mas aquilo serviu exatamente como eu precisava: uma distração perfeita.
“Valeu por isso!”, gritei por cima do ombro.
Saltei na direção do inimigo e enterrei a lâmina diretamente em seu crânio. Fumaça começou a sair do ferimento. Por mais persistente que tivesse sido até ali, a criatura não resistiu àquele golpe fatal.
Seu corpo começou a se desfazer em cinzas.
A poeira se desprendeu de sua forma aos poucos.

Talvez o melhor fosse simplesmente recuar.
Noelle bateu nas minhas costas.
“Eu cuido disso, lembra?”
Ela segurava um galho e algumas folhas nas mãos. Nem precisei me perguntar de onde aquilo tinha vindo; reconheci na hora que pertenciam à Árvore Sagrada.
“Você rompeu com o pobre Sappie?”, perguntei.
“Claro que não! Encontrei os galhos caídos no chão, e essas folhas foram as que pedi para a Srta. Yumeria podar!”
Ah, entendi. Então a Srta. Yumeria devia ter mandado Kyle trazê-los para a Noelle.
“Você consegue mesmo usar isso?”
Noelle bufou.
“Eu sou a Sacerdotisa, sabia? Aliás, você também podia usar um pouco disso. Não esqueceu que é o Guardião, né?”
Eu não tinha esquecido, não, mas esse cargo vinha com pouquíssimos bônus além daquela marca esquisita gravada permanentemente no dorso da minha mão direita. Por isso, normalmente eu nem pensava muito no assunto.
“Eu não sei usar isso”, admiti.
“Às vezes eu realmente acho um mistério como você foi escolhido.”
Tanto faz. O importante era que Noelle ainda tinha outra arma à disposição.
Voltei o olhar para Livia. As bochechas dela estavam infladas num claro beicinho.
“Eu também estou perfeitamente bem. Você esqueceu das minhas artes arcanas?”
Certo. Isso resolvia o problema.
“Nesse caso, vamos nos espalhar e atacar de todas as direções”, eu disse. “Se alguma de vocês ficar em apuros, aproximem-se umas das outras para se proteger.”
Trocamos um aceno rápido e nos dispersamos para iniciar o ataque. Noelle foi a primeira a liberar seu poder.
“Árvore Sagrada, empreste-me sua força!”
Ela lançou um dos galhos para o alto. Ele cresceu no mesmo instante e se enrolou no chefe, serpenteando ao redor do corpo da criatura numa tentativa de imobilizá-la.
“Consegui!” Noelle ergueu o punho.
Ela comemorou cedo demais. Onde quer que o galho tocasse a criatura, começava a se transformar em ouro.
“Isso é trapaça demais!”, reclamou Noelle.
Em poucos instantes, o ouro se espalhou pelo galho inteiro, transformando-o num pedaço inerte de metal precioso antes de reduzi-lo a pó. Pelo menos aquilo tinha nos comprado algum tempo, mesmo que não tivesse funcionado de verdade.
“Não se preocupe. Eu cuido disso”, disse Livia.
Dois círculos mágicos surgiram ao redor dela. De um, rugiu fogo; do outro, soprou vento. Ela combinou os dois elementos para amplificar a intensidade das chamas antes de lançar o feitiço contra o chefe.
“Que diabos é isso? Nunca vi isso antes.”
Olhei para Luxion, que flutuava ao meu lado como sempre.
“Não é um feitiço avançado”, respondeu ele, já analisando a técnica. “Parece ser a combinação de duas escolas de magia, o que reduz o custo de mana sem sacrificar a potência. É uma técnica extremamente refinada.”
Uau. Impressionante.
Mirei na criatura com o rifle e atirei. Envolvido pelas chamas de Livia, o monstro se retorceu de dor, jogou a cabeça para trás e abriu a boca ao soltar um grito estranho. O fogo estava intenso demais. Para escapar, a criatura abandonou o ar e caiu no chão.
“Nem pense em fugir!”
Angie apontou a mão esquerda para o monstro, criando um círculo mágico logo abaixo do corpo caído. As linhas do feitiço se iluminaram, formando um padrão enorme e intrincado, e então uma coluna de fogo irrompeu dali, lançando a criatura contra o teto.
“Pilar do Fogo Infernal. É um feitiço especialmente eficaz contra mortos-vivos como você, não é?”
É claro que a criatura não respondeu. Ninguém estava esperando que respondesse.
Quando o feitiço de Angie se dissipou, o chefe despencou no chão. Instantes depois, no entanto, voltou a cambalear. Angie disparou outra vez com o rifle, mas nem isso foi suficiente para acabar com ele.
“Que criatura insistente…”, murmurou ela.
Enquanto Livia preparava outro conjunto de círculos mágicos, Noelle apertou as folhas da Árvore Sagrada com força, pronta para lançar mais um ataque.
“Por que você ainda não acabou com isso?”, perguntou Luxion ao meu lado.
Balancei a cabeça devagar.
“É só que… elas são muito fortes.”
Acho que, no fundo, ainda havia uma parte de mim que pensava nelas como frágeis. Como se precisassem da minha proteção. Mas, vendo a determinação delas e a habilidade com que lutavam, comecei a sentir que talvez minhas noivas não precisassem mesmo que eu as protegesse. Que, no fim das contas, eu talvez nem fosse necessário…
“Mestre.”
Saí do meu torpor. Afastando aqueles pensamentos repentinos, voltei a me concentrar no chefe.
“Foi mal. Mas está na hora de acabar com isso.”
Arremessei minha última granada contra a fera. Ela explodiu e espalhou mais uma nuvem de névoa purificadora pela sala. As partículas de água benta que preenchiam o ar começaram a corroer o corpo da criatura.
Deixei o rifle cair no chão e arranquei da bainha a espada presa à minha cintura enquanto avançava. A minha lâmina era muito mais bem trabalhada do que as que eu havia distribuído aos outros; Luxion a tinha criado especialmente para mim. E, além disso, era muito mais eficaz contra mortos-vivos.
Quando me aproximei, uma das mãos douradas da criatura veio em minha direção.
“Nem pense nisso!”
Noelle lançou as folhas contra o chefe. Impulsionadas pela vontade dela, elas dispararam pelo ar e se prenderam à criatura. Delas brotaram raízes e cipós que se enrolaram no corpo do monstro, imobilizando-o por um breve instante. A criatura rompeu as amarras quase imediatamente, mas aquilo serviu exatamente como eu precisava: uma distração perfeita.
“Valeu por isso!”, gritei por cima do ombro.
Saltei contra o inimigo e enfiei a lâmina diretamente em seu crânio. Fumaça começou a escapar do ferimento. Por mais persistente que aquela coisa tivesse se mostrado, não resistiu àquele golpe fatal.
Seu corpo começou a se desfazer em cinzas.
A poeira foi se soltando da forma dele até que, por fim, o chefe morreu.
“Ufa… acabou.”
Meus ombros cederam de alívio. Finalmente tínhamos eliminado o chefe.
Angie, porém, percebeu na mesma hora que havia algo errado.
“Ei, tem alguma coisa estranha aqui!”
Ela tinha razão. Poucos instantes antes, a sala inteira brilhava de forma quase ofuscante, coberta por um dourado deslumbrante. No momento em que o senhor da fortaleza foi derrotado, todo aquele esplendor desapareceu, e o ambiente se transformou no mesmo tipo de espaço escuro e úmido que vínhamos encontrando no resto da masmorra. Em outras palavras, tinha se tornado exatamente a sala da qual eu me lembrava no jogo.
O rosto de Angie desabou.
“Então tudo isso era uma ilusão? Não acredito…”
Se a sala tivesse mantido o esplendor original, poderíamos ter vendido boa parte do que havia ali por uma quantia absurda. Infelizmente, assim que o mestre da fortaleza desapareceu, a miragem se desfez junto com ele.
O corpo inteiro de Angie murchou. O desânimo dela era óbvio demais.
“E daí? A gente conseguiu resolver isso sem ninguém se machucar.”
Noelle disse isso enquanto caminhava até ela.
“Mas eu queria um tesouro…”
Em total contraste com o abatimento de Angie, o rosto de Livia se iluminou de empolgação.
“Será que isso significa que aquele monstro era capaz de transformar a sala inteira? Pensar que existia uma criatura assim… Nunca ouvi falar de nada parecido.”
Deixei as meninas para trás e fui até o espaço atrás do trono. Era ali que deveria haver um baú de tesouro, mas…
“Um caixão?”, soltei, confuso.
Minhas noivas correram até mim para ver com os próprios olhos.
“Então este deve ser o verdadeiro baú do tesouro da masmorra”, concluiu Angie. “Vamos abrir?”
“Hã?! Um negócio desses?! Você não está com medo?”, protestei, minha voz subindo várias oitavas de uma vez.
Livia levou a mão ao queixo.
“É assustador não saber o que pode acontecer. Além disso, seria terrivelmente desrespeitoso perturbar um corpo.”
Noelle olhou para Cleare.
“Você consegue dizer o que tem aí dentro?”
“Minha varredura indica algum tipo de metal precioso.”
Angie já estava estendendo a mão com entusiasmo.
“Então vamos abrir.”
Eu continuava completamente do lado do não vamos mexer nesse caixão assustador. Eu não sou idiota.
Eu vi filmes demais pra saber onde isso vai dar. Isso é o primeiro passo pra Cidade da Maldição.
Mas, ignorando completamente minhas reservas, Angie abriu a tampa.
Arregalei os olhos.
“Uh… isso é uma pessoa, não é?”
Por algum motivo, deitado dentro do caixão havia o que parecia ser a escultura dourada de uma mulher lindíssima. As mãos dela estavam cruzadas sobre o ventre, e os olhos, fechados, como se estivesse em oração. O nível de detalhe era tão impressionante que parecia perfeitamente plausível que ela pudesse abrir os olhos a qualquer momento.
Ao redor dela havia várias decorações: flores e outros ornamentos feitos de ouro, prata e pedras preciosas. Aquilo realmente parecia o interior de um caixão, corpo e tudo.
As lentes vermelhas de Luxion piscaram enquanto ele analisava a figura.
“É ouro puro, não uma pessoa.”
“Ah, qual é. Pode muito bem ter sido uma pessoa que aquele chefe transformou em ouro”, rebati.
“Se fosse esse o caso, ela deveria ter retornado ao estado original quando o monstro morreu.”
“É, acho que sim… mas ainda assim…” Continuei olhando para a estátua. “Você acha que aquele monstro com aquela caveira estranha de cavalo estava protegendo isso?”
“Acho difícil acreditar que um monstro agiria dessa forma. Além disso, aquele crânio não era de cavalo, e sim de burro.”
“Sério?!”
Huh. Eu tinha certeza de que era uma caveira de cavalo.
Pelo visto, eu era o único inquieto ali. As meninas — incluindo Cleare — me olhavam como se aquilo fosse a melhor coisa do mundo.
Angie apoiou a mão na cintura.
“Eu realmente não esperava isso. Bem, agora posso dizer com certeza: até você tem medo de alguma coisa, Leon.”
“Oh, Sr. Leon, isso é adorável.” Livia sorriu largamente, unindo as mãos diante do peito.
Noelle também parecia satisfeita por ter descoberto algo novo sobre mim, embora isso não a impedisse de zombar.
“Engraçado, né? Você não tem problema nenhum em matar monstros, mas, quando o assunto é mortos-vivos, já é outra história. Se está com medo, que tal eu dormir na sua cama hoje à noite?”
Essas meninas realmente não conhecem o significado da palavra misericórdia, pensei.
“Vocês não estão sendo um pouco cruéis?”
Era uma pergunta retórica, claro. Elas estavam sendo cruéis, sim. E ainda por cima se divertindo com isso.
“Não sei”, comentou Cleare. “Talvez isso tenha algo a ver com o fato de você ter escondido aquela passagem secreta só pra si. Eu diria até que elas te amam bastante, se estão deixando você escapar tão facilmente.”
Ótimo. Agora até o robô estava tirando sarro da minha cara.
Assim que virei o rosto, ouvi passos lentos ecoando pelo corredor. Julius entrou cambaleando na sala, com o corpo — e, por consequência, o equipamento — em estado deplorável. Os quatro amigos vinham logo atrás, todos em condições parecidas. Cada um deles me lançava um olhar assassino.
“Leon. Imagino que você tenha algo a me dizer”, disse Julius, a voz carregada de raiva.
“Algo a dizer? Ah, claro.” Bati palmas, botei a língua de fora e fiz a expressão mais fofa que consegui. “Graças aos seus nobres sacrifícios, consegui colocar as mãos no tesouro. Sou muuuuito grato, pessoal!”
Com o cabelo completamente desgrenhado depois da aventura num beco sem saída, Jilk apontou um dedo acusador para mim.
“Seu covarde! Você me enganou!”
“Se você se lembra bem, foi você quem me traiu primeiro.”
Os outros membros da brigada dos idiotas imediatamente se voltaram contra Jilk, cercando-o. Ele olhou para eles sem expressão.
“Qual é o problema de vocês? Achei que tínhamos concordado em aplicar o martelo da justiça no Leon por trapacear… gah?!”
Brad acertou um soco no rosto dele. Suas roupas estavam praticamente intactas, exceto por uma manga rasgada. Quando Jilk caiu, Brad puxou o lenço esfarrapado com que havia sido enganado e o jogou na cara amassada do companheiro.
“Você não esqueceu o que fez com a gente, esqueceu, Jilk?”, perguntou Brad. “Sim, o Leon me irrita muito, mas você é exatamente o mesmo tipo de traidor.”
Greg estalou os nós dos dedos, com as sobrancelhas franzidas de fúria.
“Lembra como você enganou a mim e ao Chris pra nos fazer disputar um com o outro?”
Chris tirou os óculos quebrados e encarou Jilk com olhos frios como gelo.
“Eu desprezo o Leon pelo que ele fez, mas desprezo você também.”
Os quatro estavam furiosos com Jilk pela última traição. Cada um deles tinha se esforçado desesperadamente para encontrar o tesouro, só para ver tudo ir por água abaixo por causa de um dos próprios companheiros.
Mas havia um deles que estava fervendo mais do que qualquer outro.
“No começo, foram todos vocês que me abandonaram”, disse Julius num sibilar baixo.
O olhar dele passou por cada um dos amigos — e por mim também. Todos nós o tínhamos deixado para trás, usando-o como isca inicial. Nesse sentido, era natural que ele nos considerasse inimigos igualmente.
“Pelo visto, a amizade de vocês era bem frágil quando tesouro entrou na equação.” Dei uma gargalhada. “Muito feio da parte de todos vocês, empurrando os melhores amigos para o lado assim.”
Foi então que aqueles malditos sacaram as armas e avançaram na minha direção, com Julius à frente.
“Acho que você tem razão”, disse ele. “Então, antes de partirmos para nos matar uns aos outros, vamos começar transformando você em polpa.”
Dei de ombros e balancei a cabeça.
“Ah, seu idiota. Eu tenho minhas noivas para me apoiar. Meninas, me ajudem!”
Mas, quando olhei por cima do ombro, descobri que Luxion já tinha se aproximado de Angie e que os dois estavam discutindo sobre o tesouro.
“Por mais que eu quisesse deixar assim, acho que provavelmente vamos ter que derretê-la”, dizia Angie.
“Contraponto: além de ser uma obra de arte valiosa, isso também tem grande importância como relíquia histórica”, argumentou Luxion. “Suspeito que preservar essa peça traria benefícios consideráveis para as gerações futuras.”
“Suponho que seja verdade. Se a usarmos como decoração, teremos uma lembrança permanente do que conquistamos hoje.”
Enquanto isso, Livia, Noelle e Cleare também estavam entretidas em outra conversa.
“Pessoalmente, acho que deveríamos guardá-la em algum lugar seguro. Pode conter segredos que ainda não descobrimos!” Livia, compreensivelmente, era a favor de preservar a estátua.
“Quer dizer, eu até acho ela impressionante”, comentou Noelle, visivelmente desinteressada. “Mas ela é realmente tão incrível assim, Cleare?”
“Seria difícil explicar para você, mas, basicamente, sim. Só pensa nela como algo muito incrível. Não é como se fosse entender mesmo se eu explicasse.”
“Você não está sendo um pouco condescendente comigo?”
“Mas você não está interessada nisso, está?”
Chocado, estendi a mão na direção das meninas.
“O quê? Quer dizer que vocês não vão me ajudar?”
Como se fossem uma só, todas me repreenderam.
Angie cruzou os braços sobre o peito e estreitou os olhos.
“Você fez a sua cama. Agora deite nela. Talvez assim aprenda a lição.”
Como se a recusa dela já não tivesse me atingido o bastante, até meu parceiro resolveu me abandonar.
“Esse é apenas o resultado justo do seu engano. Um fim adequado para as suas ações, Mestre.”
Meu corpo inteiro tremeu.
“Angie, Livia e Noelle eu até entendo, mas você devia vir me ajudar, Luxion!”
“Recuso. Mais importante, seus amigos estão esperando por você.”
“Hã?”
No segundo em que me virei, Julius já tinha batido as mãos nos meus ombros. Os ossos rangeram quando seus dedos afundaram na carne. Um sorriso sombrio se abriu em seu rosto.
“Vamos ter uma boa conversa. Talvez até comamos uns sanduíches enquanto isso.”
Todo o esquadrão de energúmenos sorriu para mim de forma ameaçadora. Estavam convencidos de que finalmente tinham conseguido se unir contra mim e me dar a surra que sempre sonharam. Como poderia alguém tão fraco e indefeso quanto eu lidar com uma situação dessas?
Ou, pelo menos, era isso que parecia.
Soltei um pequeno suspiro.
“Vocês não acham que deviam assumir a responsabilidade pela própria ingenuidade? Odeio dizer isso, mas esse tesouro é nosso agora. Ainda assim, vejam pelo lado bom, perdedores: eu sou um cara de coração generoso. Então vão em frente… me digam: como vocês se sentem agora, tendo deixado o desejo do coração de vocês escapar pelos dedos?”
Sorri, me esforçando ao máximo para ser o mais insuportável possível.
Julius puxou o braço para trás para socar, e eu fiz o mesmo. Nossos punhos se cruzaram e, logo depois, acertaram o alvo. O dele atingiu minha bochecha. O meu, a dele. Os outros idiotas se juntaram na mesma hora, mas não antes de eu conseguir acertar Julius uma segunda vez.
“Toma essa, seus sanguessugas! Vocês deviam era agradecer por eu ter arrastado as bundas miseráveis de vocês até aqui!”, uivei.
Julius retrucou no mesmo tom: “E aquela conversa sobre competição justa, hein?! Você pretendia ficar com tudo sozinho desde o começo!”
A partir daí, a situação degenerou numa pancadaria sem qualquer limite entre seis pessoas.
Angie e Luxion assistiam de fora.
“Que combinação perturbadora isso se tornou”, comentou Angie.
Luxion moveu os olhos de um lado para o outro.
“O Mestre tem uma tendência impressionante a atirar no próprio pé. Por mais que eu tente impedi-lo, ele sempre acerta o alvo com perfeição.”
Vou me lembrar disso, Luxion!