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Otome Game Sekai wa Mob ni Kibishii Sekai desu – Volume 10 – Capítulo 10

O Navio Aéreo Fantasma

Corri para o convés, mas Angie chegou antes de mim. Ela já estava lá, vestindo roupas mais casuais, apoiada na amurada enquanto observava o navio misterioso que se aproximava lentamente.

A embarcação estava em ruínas. Era praticamente um milagre ainda conseguir se mover. Além disso, seu design era extremamente antigo: embora tivesse velas — algo que ainda existia nos tempos atuais para auxiliar na propulsão —, faltavam-lhe completamente as características típicas dos dirigíveis modernos. Seu formato era antiquado, mais quadrado do que aerodinâmico.

“De que século é essa coisa?”, perguntei.

“Presumo que tenha várias centenas de anos. Se quiser uma análise mais detalhada, teremos que embarcar e examiná-la de perto.”

Balancei a cabeça imediatamente.

“Nem pensar. Não vamos subir nessa coisa. Dá pra ver de longe que isso é um navio fantasma.”

Parte da estrutura estava destruída, e a madeira rangia de forma sinistra enquanto ele avançava pelo ar. Como se não bastasse, o céu escurecia rapidamente, carregado por nuvens negras — exatamente como aquelas que surgiam quando monstros apareciam.

Aquilo praticamente gritava assombrado.

Não. Nem ferrando.

Só quando me aproximei da amurada Angie percebeu minha presença.

“Leon, o que você acha dessa embarcação?”

Presumi que ela estivesse perguntando por que algo assim estaria à deriva ali, então apenas dei de ombros.

“Provavelmente algum navio antigo que teve azar e ficou vagando por aí. Então… podemos simplesmente ignorar isso, certo?”

“Se possível, seria melhor recuperá-lo. Infelizmente, parece frágil demais para ser rebocado até a capital. Ainda assim… estou surpresa. Nunca imaginei que veria um navio desses em funcionamento.”

Franzi a testa.

“Hã? Espera… você sabe o que é isso?”

“Sim. Temos uma miniatura desse modelo em casa.”

Era a primeira vez que eu ouvia falar disso, mas aparentemente a família Redgrave colecionava miniaturas de aeronaves antigas. Coisa de gente rica, suponho.

“Eu não esperava por isso… esse design era bom?”

Angie balançou a cabeça.

“Não. Era uma linha barata, produzida em massa. Pelo que ouvi, era extremamente desconfortável e frequentemente era destruída por tempestades.”

“Parece péssimo.”

Que navio horrível. Ao mesmo tempo, isso só tornava mais impressionante o fato de aquela coisa ainda estar voando depois de tanto tempo à deriva… embora, francamente, fosse mais assustador do que impressionante.

“Hoje foi cheio de surpresas”, comentou Angie, sem compartilhar minha aversão. “Nunca imaginei que veria, com meus próprios olhos, um navio usado pelos nossos ancestrais.”

“Ancestrais? Espera… o quê? Seus ancestrais viajaram nessa coisa?!”

Apontei para o navio, incrédulo.

Angie sorriu, um pouco confusa.

“Você não sabia? Esse é o tipo de embarcação que nossos ancestrais usaram para migrar para o continente onde fundaram Holfort.”

Fiquei boquiaberto.

“Sério?!”

Eu não fazia ideia de nada disso.

“Antes da fundação do reino, muitos colonos vieram para essas terras. Os navios que os transportavam eram exatamente como esse. Eram populares por serem baratos e por conseguirem carregar grandes quantidades de carga. Ainda assim… nunca pensei que veria um pessoalmente, muito menos um que ainda pudesse voar.”

Desviei o olhar de Angie e voltei a encarar o navio. Continuava parecendo assustador e pouco convidativo. Ao contrário dela, não senti nenhuma emoção especial ao pensar nas jornadas heroicas dos nossos antepassados naquela coisa velha e frágil.

As lentes de Luxion brilharam enquanto ele analisava a embarcação.

“Parece que o navio se tornou hospedeiro de vários monstros.”

“Então foi assim que ele conseguiu sobreviver…”, murmurou Angie, assentindo para si mesma. “Que irônico. Se não tivesse sido invadido por monstros, eu nunca teria tido a chance de vê-lo.”

Segurei o corrimão e observei o rosto dela.

“Você parece feliz.”

Ela se virou para mim e sorriu, mas havia uma leve tristeza em sua expressão.

“Acho que é porque nunca vou esquecer este dia. Superei uma masmorra… e agora estou vendo algo que a maioria das pessoas nunca verá. Tenho certeza de que isso ficará comigo para sempre.”

Houve uma breve pausa.

Então— “Leon, eu te amo.”

“Hã? Ah… certo.”

“Por isso mesmo, não quero ser um fardo.”

Franzi a testa.

“Um fardo? Mas…”

Ela me interrompeu.

“É aqui que vamos nos separar.”

Sua decisão já estava tomada. Minha opinião não importava.

“Estou feliz por ter tido essa aventura com você. Só isso já é suficiente para mim.”

“O quê? Por quê?!”

As palavras escaparam antes que eu pudesse pensar. Minha cabeça girava, completamente confusa.

Enquanto isso, o navio fantasma continuava se aproximando lentamente.

“O próprio navio se tornou um monstro”, observou Luxion. “Pela trajetória, parece estar tentando entrar em contato com o Einhorn. Mestre, solicito permissão para abrir fogo.”

“Agora não!”, gritei. “Angie, eu nunca pensei em você como um fardo.”

“Talvez ainda não. Mas vai pensar.”

Apesar de parecer aliviada por ouvir aquilo, a determinação dela não vacilou.

“Enquanto eu estiver ao seu lado, você nunca terá a vida que deseja. Meu pai e meu irmão estão decididos a arrastá-lo para o conflito que está por vir. E suspeito que o plano deles, a longo prazo, é fazer do poder de Luxion a base da nossa casa.”

Ela falava pensando em gerações futuras. Qualquer filho que tivéssemos herdaria Luxion, e a Casa Redgrave provavelmente planejava unir linhagens de modo a garantir acesso exclusivo a esse poder.

Aquilo irritou Luxion.

“Meu mestre é a única pessoa que considero digna de me dar ordens. Não posso garantir a quem servirei no futuro.”

“Isso não importa”, respondeu Angie. “Meu pai e Gilbert já estão convencidos disso. Para eles, esse será o resultado inevitável. E, por causa disso, Leon nunca poderá viver a vida tranquila que deseja.”

Ela respirou fundo.

“Por isso, é melhor que eu me afaste agora.”

Eu não fazia ideia de que Angie havia pensado tanto sobre o meu futuro.

Sim, eu sempre reclamava que queria uma vida simples e pacífica… mas nunca imaginei que ela estivesse sofrendo em silêncio por causa disso.

Não… a verdade é que eu nunca tentei entender.

“Eu… eu…”

Estendi a mão em direção a ela, mas Angie recuou.

“Você deveria viver com mais liberdade. Só peço que cuide da Livia… e da Noelle também. Com elas ao seu lado, você não ficará sozinho, certo?”

Ela sorriu de leve, quase travessa.

Eu não consegui responder.

Claro, havia coisas que eu poderia dizer. Palavras prontas, frases vazias, promessas clichês — eu era bom nisso. Poderia facilmente dizer algo como “eu preciso de você” ou “não vou deixar você ir”.

Mas sabia que, para ela, isso não significaria nada.

Baixei o olhar.

E então entendi.

“Ha… ha… estou sendo dispensado.”

Nosso relacionamento tinha acabado.

Angie balançou a cabeça.

“Não é isso. Fui eu quem quebrou nossa promessa de ficarmos juntos. A culpa é minha. Você não fez nada de errado.”

Talvez não fosse culpa só minha… mas era, sim, minha responsabilidade o fato de ela se sentir encurralada daquele jeito.

Eu sempre pensei nas pessoas como indivíduos. Para Angie, a família vinha primeiro — sempre como um conjunto.

Nossos valores nunca foram os mesmos.

E eu nunca percebi isso.

Eu sabia que isso ia acontecer…

Eu simplesmente nunca fui alguém à altura de uma mulher como ela.

“Angie, eu…”

Abri a boca, tentando ao menos dizer algumas palavras finais, mas fui interrompido quando algo colidiu com o Einhorn. O navio balançou violentamente, e Angie perdeu o equilíbrio, prestes a cair. Instintivamente, avancei e a envolvi com os braços, puxando-a para perto.

“O que aconteceu?!” — exigi, olhando ao redor.

Foi então que percebi: o navio fantasma havia nos atingido. Pior ainda, mortos-vivos vestidos com trajes de pirata esfarrapados já estavam no convés, encarando-nos. Eles começaram a avançar lentamente, cambaleando em nossa direção.

“O quê? Ei, Luxion!”

Como ele deixou isso acontecer?

Luxion pareceu captar a irritação na minha voz.

“Mestre, foi você quem não me deu permissão para atirar”, respondeu prontamente. “No entanto, a questão mais urgente é que corremos o risco de sermos abordados por mortos-vivos.”

Tá, tudo bem! Talvez eu tenha ignorado você. Mas mesmo assim!

“Você sempre dá um jeito de agir mesmo sem ordens diretas! Droga… avise todo mundo para pegar suas armas!”

“Já emiti o alerta dentro do navio”, respondeu ele.

“Ótimo. Então vamos usar o Einhorn para—” “É impossível abrir fogo agora que fomos abordados.”

“O quê?”

“Eu disse que é impossível.”

Meu plano de explodir aquele maldito navio fantasma com os canhões foi por água abaixo no momento em que eles chegaram tão perto.

Ótimo. E agora?

“O que devemos fazer então?” perguntou Angie, ainda nos meus braços.

“Vocês dois devem se infiltrar na nave. Se eliminarem a criatura que a controla, poderemos sair dessa situação com segurança.”

O problema era simples: eu não estava armado. Nem Angie.

“Certo. Chame a brigada de idiotas também. Vamos precisar—” “Não há tempo”, interrompeu Luxion. “Vocês dois devem cuidar disso. Já preparei armas.”

Diversos robôs operários saíram do Einhorn carregando equipamentos. Aquilo começou a parecer suspeito — Luxion estava preparado demais para algo que supostamente aconteceu de surpresa.

Angie e eu nos separamos e pegamos nossas armas. Havia uma espingarda, uma metralhadora, pistolas e espadas, entre outras opções.

“Não detectei nenhum monstro particularmente perigoso. Basta entrar e derrotar a criatura que controla a nave. Isso resolverá a situação.”

Soava simples demais… até eu perceber o problema.

“— Hã? Espera. Nós dois? E você?”

“Tenho outras tarefas a cumprir, então receio não poder acompanhá-los.”

“Não, você vem junto. Deixa isso com a Cleare”, ordenei.

“Negativo”, respondeu Luxion, olhando para os monstros que tentavam invadir o Einhorn. “O inimigo já está sobre nós. Apressem-se.”

Segurei a espingarda e me virei para lidar com aquela bagunça, mas não sem antes lançar uma última reclamação: “Dane-se você e seu ‘trabalho’. Vou me lembrar disso.”

Angie ergueu a metralhadora e soltou um pequeno suspiro.

“Bem, não é um navio tão grande. Nós dois devemos dar conta. Leon, vamos.”

Partimos juntos, deixando Luxion para trás.

Sem que percebêssemos, ele murmurou — baixo demais para ouvirmos: “Boa sorte para vocês dois. Vocês vão precisar.”

***

Lívia correu até o convés, tomada pelo pânico. Ao chegar, encontrou Luxion acompanhado por vários robôs — armaduras, ou ao menos suas metades superiores. Eles enfrentavam os monstros que tentavam invadir o Einhorn com uma facilidade assustadora, como se fosse uma tarefa rotineira.

A cena a deixou inquieta, mas ela balançou a cabeça.

Não é hora de pensar nisso. O mais importante agora é o Sr. Leon.

“Luxion!” — ela gritou, reunindo coragem.

Luxion se virou, suas lentes vermelhas fixando-se nela.

“Olivia, acredito que ordenei que todos permanecessem dentro do navio.”

“Não consigo encontrar o Sr. Leon nem a Angie! Estou preocupada que algo tenha acontecido com eles, mas a Cleare não diz nada.”

Todos os outros estavam reunidos no salão principal. Ninguém estava satisfeito com a ordem de ficar parado sem fazer nada, mas ainda assim obedeceram. Apenas Leon e Angie estavam desaparecidos — e, para Lívia, o fato de Luxion parecer indiferente a isso era profundamente inquietante.

Isso é… assustador.

A lembrança do sonho em que viu Luxion massacrar pessoas voltou à sua mente com força. Era uma imagem vívida demais, impossível de esquecer.

“Eles estão bem”, disse Luxion.

“Mas—!”

“Eles precisam disso.”

Ele não explicou mais nada.

***

Enquanto isso, os outros estavam reunidos no refeitório do Einhorn, inquietos. Armados, observavam pela janela, avaliando a situação.

Jake cruzou os braços.

“É só um navio fantasma. Poderíamos ter resolvido isso com alguns disparos de canhão.”

Erin, ao lado dele, tentou acalmá-lo.

“Mas ouvi dizer que navios fantasmas podem ter tesouros. Talvez estejam investigando isso?”

“Sério? Então, já que perdemos na fortaleza, deveríamos embarcar e pegar o prêmio para nós.”

A motivação de Jake reacendeu imediatamente.

“Você é sempre tão confiante, Alteza”, disse Oscar. “Eu… já ouvi histórias terríveis sobre navios fantasmas. Acho que preferiria fugir do que lutar.”

“Você é meu irmão adotivo e ainda assim é um covarde”, zombou Jake.

Oscar arregalou os olhos.

“Então você não conhece as histórias? Permita-me contar algumas…”

E assim começou uma sequência de relatos assustadores sobre navios fantasmas. À medida que Oscar falava, o rosto de Jake foi perdendo a cor.

Finn observava tudo em silêncio, com os olhos semicerrados.

Jake e Oscar… como eu temia. Não posso confiar Mia a nenhum deles.

Eles estavam desperdiçando tempo com bobagens. E, além disso, ambos eram excessivamente amigáveis com outras mulheres — o que já os tornava escolhas ruins.

Quanto a Erin… ela já estava fora de cogitação.

Finn, em sua avaliação interna, deu notas negativas a todos.

Alheia a isso, Mia estava visivelmente assustada com as histórias.

“Senhor Cavaleiro… navios fantasmas realmente existem? Estou com medo.”

“Não há nada a temer”, disse Finn, com um olhar gentil. “Eu vou protegê-la. Kurosuke e eu poderíamos derrubar um navio desses rapidamente.”

“Isso aí!” concordou Brave.

Finn aproximou-se de Mia e segurou sua mão com delicadeza. Suas bochechas coraram imediatamente.

“Mia, você está com febre?” perguntou ele, alarmado. “Por que não me disse que não estava se sentindo bem? Espere aqui. Vou buscar remédio. Kurosuke, traga um cobertor e um sofá para ela.”

“Parceiro… às vezes você é incrivelmente idiota”, disse Brave.

Finn realmente acreditava que o rubor no rosto de Mia era sinal de doença. Brave mal conseguia conter a exasperação diante da falta de noção dele.

Mia balançou as mãos apressadamente.

“Não, não é isso! Por favor, não se preocupe. Eu não estou doente!”

“Você pode não perceber, mas está. De qualquer forma, não posso deixá-la voltar para o quarto. Pelo menos deite-se.”

Como sempre, Finn era excessivamente protetor — praticamente uma mãe galinha. Até Mia parecia dividida quanto a isso.

“E-eu fico feliz que o senhor se preocupe tanto comigo, mas… eu gostaria que fosse mais…”

“O quê? Por favor, diga.”

“Urk…” Mia murmurou, desviando o olhar. “Mais… fictício.”

O queixo de Finn caiu.

O choque o atingiu como um raio, atravessando todo o seu corpo.

Ela… ela me odeia?!

Onde foi que eu errei?!

Angie e eu invadimos o navio fantasma.

Havia só um pequeno problema.

“Não consigo dar nem mais um passo.”

Plantei minha bunda no chão e me recusei a sair dali.

Angie me lançou um olhar exasperado. Ainda segurando a metralhadora, soltou um longo suspiro e apontou para um ponto no piso — exatamente onde, instantes antes, um monstro tinha desabado e desaparecido numa nuvem de fumaça.

“Leon, aquele era um fantasma. Ataques físicos não funcionam contra esse tipo de monstro. Você não precisava entrar em pânico. Poderia ter acabado com ele facilmente usando magia.”

Pouco depois de embarcarmos, fomos atacados por um monstro do tipo fantasma. Eu, tomado pelo pavor, descarreguei a espingarda inteira nele, só para as balas atravessarem a criatura como se não houvesse nada ali. Angie o derrotou rapidamente com magia de fogo, mas, até lá, meus últimos resquícios de coragem já tinham evaporado.

“Eu não consigo. Minhas pernas desistiram.”

“Você só pode estar brincando comigo! O que aconteceu com o homem que deu o golpe final naquele chefe demoníaco?!”

Angie mal conseguia esconder o choque — e a incredulidade — diante da minha covardia.

Eu entendia, no plano lógico, o que aquele monstro era, assim como seus pontos fortes e fracos. O problema era que ele era um fantasma de verdade. Um fantasma real, legítimo. Eu podia sentir a malícia emanando dele, e os ataques vinham com aquele terror gelado que parecia se arrastar pela pele. No jogo era diferente, porque nada parecia realmente real. Mas aqui? Aqui essas coisas existiam de verdade.

“Eu tenho medo de inimigos que eu não consigo acertar com ataques normais! Não sou bom com fantasmas!”, gritei, finalmente confessando.

“Eu já sabia que você não gostava de mortos-vivos, mas não imaginei que fosse tão grave assim…”

Quando eu ainda morava no Japão, fazia o possível para evitar filmes, imagens ou qualquer matéria ligada a histórias de terror. E, se alguém começava a contar uma história assustadora perto de mim, eu sumia do mapa na mesma hora. Testes de coragem? Incompreensível. Sempre fiz de tudo para não participar. Às vezes, era arrastado à força para algum evento escolar, mas passava a experiência inteira amaldiçoando os funcionários idiotas que achavam genial mandar alunos para áreas “assombradas” em nome de um suposto teste de coragem.

“Eu não vou conseguir dar mais nenhum passo”, declarei.

Angie bateu a mão na testa.

“Tudo bem. Eu cuido dos monstros. Você espera aqui até…”

“Você quer dizer que vai me deixar sozinho?!”

“E-espera, larga isso. Leon, para de se agarrar na minha perna.”

Ignorei os protestos dela e me agarrei à sua perna como uma craca.

Angie parecia meio perturbada, meio satisfeita ao ver esse meu lado.

“Então você também tem medo de alguma coisa.”

“Por favor, não me deixa aqui!”, implorei, agarrado à perna dela como se minha vida dependesse disso.

Ela se abaixou e afagou minha cabeça. Talvez tivesse concluído que simplesmente não dava para me abandonar naquele estado. Com uma voz calma e gentil, como se estivesse tentando me tranquilizar, disse: “Vamos descansar aqui por um minuto e depois seguimos juntos. Eu cuido de tudo desta vez. Você fica atrás de mim.”

“Tá bom.”

Naquele momento, Angie parecia um anjo aos meus olhos. Foi um alívio imenso saber que eu podia contar com ela numa situação dessas.

***

O interior do navio era tão envelhecido e gasto quanto o exterior. As tábuas do assoalho rangiam sob o nosso peso e pareciam prestes a ceder se déssemos um passo em falso. As portas praticamente desmoronavam quando tentávamos abri-las. Ah, e, claro, o lugar também estava infestado de monstros.

Ainda assim, encontramos vestígios claros das pessoas que viveram ali antes que a embarcação se transformasse em hospedeira de fantasmas e mortos-vivos. Em uma das salas, por exemplo, havia vários livros antigos sobre uma mesa. A maioria estava tão desgastada e desbotada que era impossível ler qualquer coisa. Só um ainda tinha palavras legíveis — e, mesmo assim, por pouco.

“Esses deviam ser os aposentos privados de algum marinheiro”, disse Angie, enquanto lia o livro.

Eu me agarrava às costas dela, lançando olhares nervosos para todos os cantos do quarto.

Se alguém realmente tinha vivido ali, então era perfeitamente possível que emoções fortes ou desejos não resolvidos ainda permanecessem naquele lugar. E eu tinha plena certeza de que qualquer hora dessas isso podia tomar a forma de algum ghoul ou assombração e pular na nossa cara.

“Angie, vamos acabar logo com isso e voltar”, pedi, apressado.

Ela franziu a testa para mim e virou outra página do livro. Algumas ainda podiam ser lidas, mas outras estavam tão rígidas e deterioradas que se desfaziam ao menor toque.

“Você realmente é tão ruim assim com mortos-vivos? Mesmo depois de tudo o que já passou?”

“Como é que a minha experiência me ajuda com isso? Você não está com medo nem um pouco, Angie?”

“Não. Humanos vivos são muito mais assustadores do que mortos.”

“Ah…”, murmurei. “A Marie já disse exatamente a mesma coisa uma vez.”

“O que foi isso? Falando o nome de outra mulher numa hora dessas? Imagino que você queira mesmo que eu te deixe para trás.”

Tomado pelo medo de tê-la irritado, abracei Angie por trás com ainda mais força.

As bochechas dela esquentaram enquanto ela gaguejava: “L-Leon, eu estava brincando. Você está me sufocando. Ei, onde está pondo as mãos?!”

“Me perdoa! Eu não consigo lidar com coisas assustadoras!”

Eu não estaria nesse estado lamentável se aquele idiota do Luxion não tivesse me abandonado. Se ele estivesse aqui, já teria encontrado um jeito de me abrir caminho para fora da Cidade do Terror. Só o fato de tê-lo por perto, fazendo piadas sobre fantasmas não serem científicos ou trocando farpas comigo, já teria aliviado o clima. Não ter isso à minha disposição só deixava tudo pior.

Quer dizer, até a masmorra em que precisei entrar para obter Luxion já tinha sido assustadora por si só. Havia ossos humanos espalhados por toda parte. Eu jamais teria entrado naquele lugar por vontade própria se a minha vida não estivesse em jogo.

Angie virou mais uma página.

“Aprendi um pouco mais sobre este navio. Ele estava tentando transportar aventureiros para o continente onde Holfort foi fundado.”

“Aventureiros, é?”

“Parece que muitos jovens, sonhando com o novo mundo, embarcaram nele. Quem escreveu este diário passou páginas e mais páginas reclamando do comportamento ‘primitivo’ deles.”

“Tá, mas o que isso tem a ver com o destino final do navio?”

“É possível que ele tenha sido abandonado. Segundo este registro, porém, eles encontraram algum tipo de tesouro. E, pelo jeito, quem escreveu era uma mulher. As páginas finais estão cheias de comentários melancólicos sobre a saudade de alguém, embora ela não diga quem.”

Talvez um amante?

Angie passou a mão sobre a capa do diário.

“Mesmo depois de ler tudo, não encontrei o nome de quem escreveu. Também não havia nada dizendo o nome do navio. Se o diário estivesse em melhor estado, talvez desse para descobrir mais alguma coisa.”

“V-vamos terminar isso logo e sair daqui. Depois eu peço para Luxion e Cleare examinarem o navio com calma.”

“Você realmente é péssimo com fantasmas, não é?” Angie balançou a cabeça. “Você é o Herói de Holfort. O que as pessoas diriam se vissem o quanto está apavorado? Seus admiradores ficariam devastados.”

“E daí? Fantasmas são assustadores.”

Angie fechou o diário e saiu da sala. A maioria dos outros aposentos estava parcialmente desmoronada, impossibilitando a entrada, então seguimos pelo corredor principal, que se encontrava tão arruinado quanto o resto da embarcação, e avançamos para o interior.

De repente, Angie parou.

“É aqui, Leon.”

Ela estendeu a mão sem nem olhar para mim. Eu lhe entreguei um dos explosivos de água benta. Na prática, eu tinha virado a mula de carga pessoal dela.

Assim que recebeu o que queria, recuei e ergui a espingarda. Minhas mãos tremiam tanto que eu já nem tinha certeza de que conseguiria acertar qualquer coisa.

Angie então meteu o pé na porta à nossa frente, arrebentando-a.

Dentro estava a criatura viscosa que possuía o navio. O problema, porém, não era só ela — vários fantasmas e aparições flutuavam ao redor do monstro.

“Eu sabia! Mais fantasmas!”, gritei a plenos pulmões.

Angie lançou a granada. A explosão espalhou gotas de água benta por toda a sala. Vários fantasmas se contorceram em agonia antes de desaparecerem em nuvens de fumaça. Os que restaram vieram direto para cima de nós.

O terror atravessou meu corpo inteiro. Tentei atirar, mas, como era de se esperar, as balas atravessaram os nossos inimigos. Enquanto isso, Angie descarregava a metralhadora na criatura de lodo.

“Assim que eu acabar com essa coisa, vou te ajudar, Leon. Só espera mais um pouco!”

Estendi a mão direita para a frente, tentando invocar magia, mas o medo me dominou por completo. Não consegui reunir a concentração necessária nem para moldar mana.

“Angie, me salva!”

“Eu já disse para esperar um segundo!”

Os fantasmas desviavam facilmente dos meus ataques fracos e se aproximavam cada vez mais. Suas vozes desumanas sibilavam nos meus ouvidos, murmurando palavras que eu não conseguia entender. Não que importasse o que estivessem dizendo — eu já estava aterrorizado de qualquer forma.

Minha pele inteira se arrepiou. Gotas frias de suor escorreram pelas minhas costas.

“Luxion, me salva!”

Desesperado por sair dali, acabei chamando por aquele idiota miserável. Nunca imaginei que, num momento de necessidade, fosse gritar justamente o nome dele — mas, honestamente, ainda era melhor do que chamar pela minha mãe.

Angie terminou com a criatura viscosa e então voltou as chamas contra os fantasmas que me cercavam. Um a um, ela os eliminou.

“Foi por isso que eu mandei você esperar!”

Um fio fino de fumaça subia do cano da metralhadora quando ela veio até mim, envolta por chamas nas costas. Nunca pareceu tão… confiável.

Angie me pegou no colo, quase como se eu fosse uma princesa.

“O fogo se espalhou mais rápido do que eu imaginei. Segure firme. Vamos sair daqui.”

“Tá bom.”

Enquanto ela me carregava, enrolei os braços em volta do pescoço dela por segurança.

Angie meteu o pé numa parede e abriu uma saída para nós. Dali, já dava para ver o convés do Einhorn.

“Isso foi tudo perfeitamente preparado demais. Assim que eu tiver um momento, vou arrancar algumas respostas do Luxion”, murmurou Angie baixinho, antes de saltar para fora e voltar agilmente ao Einhorn comigo nos braços.

As chamas começaram a engolir o navio fantasma atrás de nós. Assim que retornamos em segurança, o Einhorn se afastou da embarcação em ruínas. Angie ainda me segurava no colo quando se virou para olhar para trás.

“Nunca mais quero ver outro navio fantasma na minha vida”, declarei.

No nível lógico, eu entendia que fantasmas e mortos-vivos eram apenas monstros como quaisquer outros, mas toda a atmosfera em torno deles era demais para mim.

“Concordo inteiramente”, disse Angie. “Eu nunca imaginei que você fosse ser tão inútil. Se vai ser um incômodo desse tamanho, também não quero ver outro navio fantasma de novo.”

“Desculpa…”, murmurei, abatido.

Livia correu até nós assim que nos viu. Luxion — aquele idiota desgraçado — veio logo atrás dela.

“Sr. Leon! Angie! Hum… essa posição é um pouco estranha.”

Livia alternou o olhar entre nós, confusa.

“Consigo imaginar com muita facilidade como isso aconteceu”, comentou Luxion, sem demonstrar emoção alguma.

Lancei um olhar fulminante para ele, ainda agarrado ao pescoço de Angie. Ela, por sua vez, mal prestava atenção em nós, distraída observando o navio fantasma se afastar lentamente. À medida que as chamas o devoravam, pedaços da estrutura começavam a despencar.

“Eu só queria ter explorado um pouco mais”, disse Angie, melancólica.

***

De volta ao meu quarto, sentei-me na cama com os joelhos puxados contra o peito e tremia violentamente. Luxion e Cleare me observavam como se estivessem se divertindo horrores com a situação.

“Você parece mesmo muito assustado”, comentou Luxion.

“Ah, Mestre, você está tão fofinho!”, acrescentou Cleare.

Olhei feio para os dois.

“Calem a boca, seus traidores! Como vocês deixaram uma coisa como um navio fantasma chegar tão perto do Einhorn? Vocês normalmente abririam fogo contra algo assim mesmo sem minha permissão. Ou foi tudo armado de propósito, hein?!”

Quanto mais eu pensava no assunto, mais tudo me parecia suspeito. À primeira vista, eu realmente achei que o navio fantasma tinha simplesmente aparecido e se aproximado de nós por acaso. Mas, conhecendo Luxion e Cleare, eles teriam tido mais do que tempo suficiente para impedir aquilo de chegar tão perto. E isso nem era a única estranheza: também era bizarro que Luxion tivesse insistido para que Angie e eu invadíssemos o navio sozinhos. Por que não poderíamos ter esperado encontrar os outros antes de embarcar?

Na verdade, Luxion poderia muito bem ter resolvido tudo sozinho. Não havia motivo real para nós dois termos ido sem apoio. Angie também tinha percebido isso, e foi exatamente por isso que comentou que arrancaria algumas respostas dele mais tarde.

Em resumo, eu estava convencido de que aquelas duas IAs estavam tramando alguma coisa.

“Você só percebeu isso agora?”, perguntou Luxion. “Esse era justamente o nosso plano: deixar você e Angélica sozinhos.”

“Que raio de ‘plano’ é esse?! Você sabe perfeitamente o quanto eu odeio fantasmas!”

Cleare começou a balançar para cima e para baixo.

“Foi por isso mesmo que tínhamos certeza de que seria uma estratégia eficaz!”

“Chega. Vou dar uma bronca em vocês dois.”

As duas IAs se viraram imediatamente e dispararam em direção à saída. Tinham até preparado um buraco perfeitamente redondo na parede, só para poderem fugir sem obstáculos.

“E-ei, espera um segundo!”, gritei atrás delas.

Cleare se virou uma última vez.

“Só pra você saber, é melhor desistir de pedir companhia a alguém. Não sei em que momento isso começou, mas o resto do grupo está agora no salão principal contando histórias de terror. Então provavelmente é melhor você não ir. Você só ia acabar ouvindo um monte dessas histórias assustadoras que odeia tanto.”

“O que aqueles idiotas estavam fazendo enquanto a gente estava lá fora?!”

“Ah, e eu também pedi para a Liv e a Nelly irem pra lá. Maaaass…”

Ela fez uma pausa deliberadamente dramática.

“A Angie está vindo para cá — pra terminar aquela conversa que vocês estavam tendo sobre acabar com tudo.”

Foi como levar um balde de água gelada na cabeça.

“Ah… é mesmo. Acho que a gente estava no meio disso.”

Toda a provação com o navio fantasma tinha interrompido a conversa. Parte de mim queria fingir que nada tinha acontecido e simplesmente deixar aquilo morrer por ali, mas eu sabia que isso seria desrespeitoso. As coisas tinham chegado longe demais para eu escapar desse jeito.

“É isso. Ela terminou comigo. É o que eu mereço.”

Abaixei a cabeça e suspirei.

“Vejo que você está tentando posar de durão, mas, depois de ver o estado patético em que ficou naquele navio? Sim. Nada do que você faça vai ajudar”, disse Cleare.

Minha cabeça se ergueu num estalo.

“Ei, espera aí. Não me diga que vocês duas estavam observando o tempo todo!”

“Mestre, você devia ser mais honesto consigo mesmo e dizer à Angie o que realmente sente. Não aquelas frases frouxas e clichês que você usa pra suavizar tudo. Precisa vir do coração.”

A suspeita só aumentou quando Cleare tentou desviar o assunto.

“Não me ignora. Vocês estavam assistindo e rindo da minha cara, não estavam?! Responde!”

“Mestre, eu estou falando sério. Você precisa dizer à Angie, com suas próprias palavras, o quanto a ama.”

Cerrei os punhos.

“Não tenta escapar dessa situação fingindo que está fazendo um discurso bonito!”

Infelizmente, minhas reclamações não levaram a nada. Cleare saiu correndo e me deixou sozinho.

Sem ninguém para me distrair, cada menor ruído no quarto fazia meu corpo inteiro pular de susto. E, antes que eu percebesse, já estava tremendo outra vez, tomado por aquele medo horrível.

“É tão errado assim que fantasmas reais existam? O que eu faço com isso?!”

Se um fantasma aparecesse diante de mim no meio da noite, eu começaria a chorar. Meus joelhos batiam um no outro enquanto eu tremia, então os abracei com ainda mais força.

Foi então que alguém bateu à porta.

“Leon, sou eu.”

“Ugh!”

O som veio tão de repente que quase me fez saltar para fora do corpo. Assim que percebi que era Angie, rapidamente dei permissão para ela entrar.

O cabelo dela ainda estava úmido; devia ter acabado de sair do banho. Em vez do coque trançado habitual, ela só tinha prendido tudo de maneira simples atrás da cabeça, o que lhe dava um ar muito mais casual e despojado.

Os lábios de Angie se comprimiram numa linha fina ao me observar.

“Você ainda está com medo? Nós já derrotamos aqueles monstros.”

“Eu estou com medo até de dormir. E se eu reviver tudo isso nos meus sonhos?”

“Tente se lembrar de que você é um herói, certo? Não deixe ninguém te ver assim. Esse é o meu último conselho.”

Apesar disso, Angie entrou no quarto, caminhou até a cama e sentou-se nela, jogando a cabeça para trás e encarando o teto. A expressão dela era brilhante o bastante, quase alegre… mas notei na mesma hora que a pele ao redor dos olhos estava vermelha e inchada.

Ela tinha chorado no banho?

Ainda assim, forçou um sorriso ao dizer: “Este é o fim do caminho para nós. Foi divertido enquanto durou.”

Eu sabia que, se deixasse as coisas seguirem nesse rumo, realmente acabaria ali.

Parte de mim queria aceitar aquilo como um homem — encerrar tudo de uma vez, com firmeza, para que não restasse dúvida alguma depois. Mas outra parte queria chorar e implorar.

Quem se importa se vai haver problemas no futuro ou algo assim. Isso é só conversa fiada. Eu não quero terminar com você, Angie! E eu estou sozinho aqui, então quero que você fique e durma ao meu lado. Ah, o quê? Eu preciso agir mais como homem? Dane-se isso! Você já me viu fazendo papel de idiota naquele navio fantasma. Que sentido faz posar de corajoso agora?!

Por mais que eu quisesse deixar esse meu lado carente falar, havia outra parte de mim, mais rígida, insistindo: Você não pode ser tão covarde. Você não tem direito de importuná-la mais do que já fez. Seja decente e termine isso de uma vez. Deixe que as lembranças de vocês continuem puras e siga em frente.

Mas, sinceramente, até posar de adulto naquele momento parecia ridículo.

Enquanto eu afundava nesses pensamentos, Angie me olhou com preocupação.

“O que foi? Eu preferia que você dissesse alguma coisa.”

Acho que eu não era o único nervoso ali.

“Pra ser totalmente honesto, eu nunca entendi de verdade — e ainda não entendo — tudo isso de casas nobres, status e esse tipo de coisa”, comecei. “Do meu ponto de vista, eu fiquei noivo de você como indivíduo.”

“Do que você está falando?”

Respirei fundo.

“O que eu quero não são os Redgraves e o poder deles. Eu quero você, Angie.”

“L-Leon…”

As bochechas dela ficaram vermelhas, e o olhar desceu para o próprio colo.

“Fico feliz em ouvir isso, mas, sem a minha casa, eu sou só uma garota impotente. Sem a influência que ela me dá, eu não teria utilidade nenhuma pra você. Não me resta escolha a não ser depender deles e, por isso, eu sou um peso pra você.”

“Mas eu…”

Minhas unhas afundaram nas palmas das mãos. Era tão irritante. Por que a casa de alguém tinha que ter tanto peso assim sobre a vida da pessoa?

Mesmo que eu repetisse para Angie que só queria a ela, eu sabia que ela não entenderia o que eu realmente queria dizer. E, ainda assim…

“Eu preciso de você, Angie. Eu sou só um nobre de interior que não sabe absolutamente nada sobre sociedade aristocrática. Isso é demais pra mim.”

“É verdade que Livia e Noelle entendem pouco da sociedade nobre, mas você tem o apoio da rainha. Se quisesse, poderia facilmente fazer da princesa Erica sua esposa. Conhecendo Sua Majestade, ela certamente aceitaria—” “Não. De jeito nenhum! A Erica é a única pessoa com quem eu não posso me casar.”

“Por quê?!”

O queixo de Angie caiu, como se ela não pudesse acreditar que eu estava sendo tão firme nesse ponto.

Eu até entendia por que isso parecia estranho. Erica e eu parecíamos próximos demais para qualquer observador não tirar conclusões erradas.

Mas eu não podia — não tinha como — me casar com Erica.

Isso seria nojento demais.

Ela era minha sobrinha, pelo amor de Deus! Eu queria, sim, vê-la feliz, mas jamais seria eu a pessoa que a faria feliz nesse sentido.

“Eu quero você”, repeti. “Já é suficientemente ruim que eu esteja disposto até a bater de frente com os Redgraves pra ficar com você.”

“Por uma mulher? Leon, você está mesmo ouvindo o que está dizendo?”

“Se for preciso, eu te roubo.”

“Seu idiota.”

Um sorriso se formou nos lábios de Angie enquanto ela balançava a cabeça. Lágrimas se acumularam nos olhos dela e deslizaram lentamente pelas bochechas.

“O simples fato de você se sentir assim já significa muito pra mim. Mas isso só vai te afastar ainda mais do sonho de viver em paz. Eu quero que você seja feliz.”

Mas do que eu preciso para ser realmente feliz?

Eu já sabia a resposta. E era exatamente por isso que precisei dizer: “Então eu preciso de você.”

“Leon?”

Joguei meus braços ao redor dela e a puxei para perto. Ela também me abraçou, mas logo estremeceu de surpresa.

“Leon… você está tremendo? Você está…?”

“Desculpa. Ainda estou com medo.”

Angie começou a rir no instante em que percebeu que eu ainda não tinha me recuperado do terror daquela expedição.

“Você realmente é um caso perdido. Nem para um momento como esse você consegue se recompor…”

“Não tem como evitar, aquilo tudo me assustou! Por favor, fica comigo.”

Luxion e Cleare já tinham me traído e fugido, então tudo o que me restava era implorar para que Angie ficasse.

Angie se inclinou e sussurrou no meu ouvido: “Então quer dizer que está tentando me seduzir só porque está com medo demais de ficar aqui sozinho esta noite?”

“N-não.”

Ela me lançou um olhar desconfiado.

“Eu não vou ficar brava se você disser a verdade. Vamos, admite.”

O hálito quente dela fez cócegas na minha orelha.

“Só um pouquinho”, admiti.

“Eu sabia.”

Embora parecesse exasperada, Angie esfregou minhas costas com gentileza.

“Se eu te abandonasse agora, isso só mancharia a sua reputação de herói.”

“Eu não me importo com isso.”

“Mas eu me importo. Para mim… você é um herói.”

Tive a sensação de que, ao longo dessas últimas aventuras, Angie e eu havíamos nos aproximado muito mais. As fachadas que costumávamos manter um diante do outro tinham caído, e isso criou entre nós uma atmosfera muito mais confortável.

Angie apoiou a testa no meu peito.

“Leon, eu vou romper com a minha família.”

“Vai?”

Minha voz falhou.

Eu definitivamente não esperava ouvir aquilo, ainda mais porque, neste mundo, a casa de uma pessoa significava tudo. Romper laços era algo enorme. Se fizesse isso, Angie nunca mais poderia voltar para os Redgrave. E não era só isso: ela também perderia o status que tinha como filha de um duque.

“Se eu continuasse podendo ser usada para te prender a eles, minha família acabaria me usando mais cedo ou mais tarde”, disse Angie. “Então não há motivo para você se sentir culpado.”

“Mas…”

“Esse é o caminho que eu escolhi. Você não precisa se preocupar comigo. Na verdade, quando eu for deserdada, os Redgrave se tornarão seus inimigos. Você está preparado para carregar esse peso?”

Pensei no assunto por apenas alguns segundos antes de assentir.

Angie ergueu o rosto, os olhos intensos enquanto me encarava.

“As coisas vão ficar difíceis daqui em diante. A maioria dos senhores regionais será sua inimiga. Entre eles, haverá gente arrogante que fingirá te apoiar, quando, na verdade, só estará tentando usar você para os próprios interesses. Se você pretende reconstruir o reino como ele é agora, vai ter muito trabalho.”

“Se essa é a forma mais pacífica de resolver tudo, então que seja.”

“Tudo bem. Então eu vou te apoiar.”

Angie sorriu com um ar travesso.

“Também vou passar a noite aqui. Tenho certeza de que você vai ficar morrendo de medo na hora de dormir se eu não ficar.”

Senti minhas bochechas esquentarem.

“Isso não é verdade.”

“Ah, é? Então quer que eu volte para o meu quarto?”

“Não, eu menti! Desculpa!”

E assim, nós dois passamos a noite juntos.

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