Na área residencial dos escravos, dentro dos muros da mina controlada por escravos… na vila dos escravos, as figuras mais importantes e responsáveis por decisões entre os Titãs escravizados haviam se reunido.
Normalmente, haveria olhos vigiando a área residencial, e os Titãs jamais seriam autorizados a se reunir a menos que recebessem ordens, para que não pudessem tramar rebeliões. Mas todos os soldados posicionados como guardas naquele momento estavam agindo como bonecos.
— Levia-sama… não é a Levia-sama?
— Sim, ela está um pouco diferente de como me lembro, mas não há dúvida. Como eu poderia confundir Levia-sama com outra pessoa?
— Então era verdade que você traria Levia-sama aqui…
Ao ver os olhos dos Titãs se arregalarem de espanto vazio com lágrimas escorrendo, as chamas de Levia tremeluziram de felicidade, mas ao mesmo tempo, ela colocou a mão sobre o peito com tristeza.
— Todos… Obrigada por continuarem vivos até hoje. Eu falhei em protegê-los e os fiz sofrer — disse ela.
Para os Titãs, que possuem uma expectativa de vida de trezentos anos, duzentos anos era muito tempo. Aqueles que já eram idosos naquela época haviam morrido há muito tempo, e a maioria dos adultos daquela época também já se fora. Os que eram crianças na época agora eram adultos.
Até os quinze anos, os Titãs envelhecem na mesma taxa que os humanos, e após isso, envelhecem lentamente, atingindo o auge do corpo por volta dos duzentos anos. A partir dos duzentos e cinquenta, começam a envelhecer fisicamente. Por isso, poucos Titãs realmente têm aparência envelhecida.
— Está tudo bem; a culpa é toda do Duque Hartner, aquele que nos traiu. Levia-sama, a senhora continuou pensando em nós mesmo depois de morta, não foi? Isso é mais do que suficiente para nós.
— E agora está nos ajudando assim. Isso é mais do que suficiente. Ninguém, nem minha mãe, nem meu avô, nem meu irmão mais novo, culparia a senhora, Levia-sama.
Os Titãs estavam todos extremamente magros e com aparência doentia. Muitos ainda tinham marcas de chicote e queimaduras nos braços, pernas e rostos.
O tratamento deles na mina havia sido um pouco mais brando do que o de outros escravos criminosos, mas ainda assim cruel; os soldados faziam o que queriam, pensando: “Está tudo bem, desde que não morram,” ou “Não importa se um ou dois morrerem.”
De fato, todos os idosos morreram cedo, e muitas mulheres e crianças também morreram, incapazes de suportar tal tratamento.
Seus espíritos não estavam selados magicamente por algo como a barreira de um campeão; muitos já haviam desaparecido da mina há muito tempo.
— Não sei como você fez isso, mas os soldados que nos vigiavam estão como bonecos agora, e você trouxe Levia-sama até nós — disse Gopher, filha de Borkus. — Tudo que você disse era verdade. No começo, eu não conseguia acreditar nas palavras de um baixinho como você, mas… então, isso significa que é verdade que você vai nos resgatar dessa mina, Van…?
— É Vandalieu, Gopher-san — disse Vandalieu. — Mas não me importo se me chamar de “garoto,” como o Borkus faz.
Ele havia se misturado entre os escravos e usado a habilidade Invasão Mental para reduzir todos os soldados a estados vegetativos, um por um.
— Mas, por favor, não me chame de “baixinho” — ele acrescentou. — Eu sou meio sensível com isso.
Raças como os Titãs e os Homens-Fera tinham valores onde tamanho significava força e ser pequeno era sinal de fraqueza. Mesmo que não fosse o caso, Vandalieu, que era pequeno até mesmo comparado a outras crianças da mesma idade, provavelmente parecia pouco confiável para os Titãs, cujas mulheres podiam alcançar 2,5 metros de altura.
O Encanto do Atributo da Morte não estava funcionando, afinal; comunicação com pessoas vivas era difícil.
Ainda bem que trouxe a Princesa Levia comigo, pensou Vandalieu.
Gopher deu um sorriso irônico.
— É a cara daquele Oyaji continuar cheio de energia mesmo depois de morto — ela riu. — Não vou te chamar de “garoto.” Levia-sama está te chamando de “Sua Majestade,” então não seria estranho eu te chamar assim também?
— Não precisa se preocupar com isso — disse Vandalieu. — De qualquer forma, neste momento, estou pensando em libertar todos da mina.
— Mas isso não é tão simples quanto parece, certo? — perguntou Gopher. — Temos colares de escravo no pescoço.
Colares de escravidão, ou colares de servidão – têm vários nomes, mas são Itens Mágicos que garantem que os escravos não desobedeçam à vontade de seus mestres.
Se os escravos tentarem causar dano aos mestres ou fugir, os colares os fazem sofrer, seja sufocando-os ou liberando choques elétricos.
Há várias formas de removê-los, mas não basta apenas a aprovação do mestre. Além disso, magias normais de quebra de maldição não funcionam; são necessárias magias especiais, mantidas em segredo.
— Você não vai conseguir removê-los mesmo que derrote o governador desta mina — disse Gopher. — Nem mesmo você conseguiria simplesmente—
— Eu posso removê-los — disse Vandalieu.
Antes mesmo de ouvir os gritos surpresos dos Titãs, ele liberou mana negra do atributo morte que envolveu o colar de Gopher, o qual se soltou com um clique.
— N-não é possível…
Gopher e os outros Titãs ficaram atônitos enquanto o colar pesado caía com um baque no chão, mas Vandalieu já havia usado sua mana para romper à força um selo deixado por um campeão antes. Algo assim era simples para ele.
— Q-quantas vezes você pode fazer isso por dia? — perguntou Gopher. — Somos mais de quinhentos no total.
— Custa cerca de mil de Mana por pessoa, então consigo fazer isso para até trezentas mil pessoas e ainda ter um pouco sobrando — disse Vandalieu.
— Você consegue mesmo fazer isso?!
— Desculpe, mas o tempo também é um problema, então ajudaria se esse número ficasse abaixo de dez mil.
— Certo, entendi! Você consegue libertar todos nós ainda hoje, não é?! Com isso, podemos lutar! — gritou outro Titã.
— Todos, Sua Majestade é um pouco tímido — disse Levia. — E os soldados que estão de guarda agora são todos aliados, mas se suas vozes forem muito altas…
— Eu sei, Levia-sama! Então, o que devemos fazer?! Quando vamos agir?!
— Quanto às armas, peguem as picaretas e pás que usamos normalmente, até uma pedra serve! Aposto que essas ferramentas e pedras vão parecer mais leves do que nunca!
— Aqueles desgraçados, eu vou dar uma lição neles!
Os Titãs estavam empolgados com a libertação de seu cativeiro injusto e finalmente tendo uma chance de revidar. Embora Vandalieu estivesse com a expressão inalterada, ele estava na verdade nervoso, sem conseguir encontrar o momento certo para intervir.
Mas agora conseguiu abrir a boca.
— Uhm… Esta noite, no meio da noite — disse ele.
— Entendo, esta noite… espera, só um segundo. Isso é cedo demais.
Embora ainda fosse cedo para ser chamado de “meio da noite,” o sol já havia se posto completamente. Não havia tempo suficiente para libertar todos os escravos e começar uma revolta.
Se saíssem causando confusão sem um plano, os soldados causariam baixas severas entre os escravos, que eram significativamente inferiores em combate. E não era como se todos os escravos se juntariam à revolta imediatamente.
— Há escravos que já desistiram de tudo, ao contrário de nós — disse Gopher. — Precisamos de tempo para convencê-los. Mesmo que não queiram lutar, precisamos pedir que fiquem escondidos… Você não está planejando usar o mesmo método que usou com os soldados para transformá-los em bonecos, está?
No momento em que Gopher levantou essa questão, surgiu suspeita nos rostos dos outros Titãs. Não era para menos; seria mais estranho se eles não sentissem medo de Vandalieu, que havia mostrado ser capaz de reduzir pessoas a estados vegetativos em menos de uma hora.
Essa era uma reação perfeitamente saudável, então Vandalieu não deu muita atenção.
— Não, não farei nada desse tipo — ele disse. — Mas vamos executar o plano no meio da noite. Não haverá problemas.
— Como eu disse, não há tempo suficiente se for assim — retrucou Gopher.
— De jeito nenhum; há tempo de sobra — tranquilizou Vandalieu. — Teremos ocupado esta mina até o início da manhã de amanhã. Não importa se algumas pessoas não nos ajudarem; tudo será feito pelas pessoas que eu chamei para cá.
— O-o que você disse?!
Os Titãs ficaram boquiabertos. Eles de fato acreditavam que Vandalieu viera para resgatá-los. Mas presumiam que ele também precisaria da ajuda deles.
No entanto, Vandalieu não precisava da cooperação deles. Ele havia declarado que, independentemente do que os Titãs pensassem dele, ele já havia decidido o momento e ocuparia a mina com sua própria força.
Então, por que os Titãs haviam sido reunidos ali antes de tudo?
Era isso que Gopher e os outros estavam se perguntando agora.
Mas Levia respondeu à pergunta:
— Queremos que todos permaneçam onde estão esta noite — disse ela. — E, depois disso, vocês devem decidir se desejam se tornar cidadãos da nova Talosheim ou não.
A mina controlada por escravos, que era tão resistente quanto uma fortaleza, se rendeu silenciosamente e foi ocupada antes mesmo de o sol da manhã nascer.
O jantar dos soldados havia sido envenenado. Eles consumiram a comida sem perceber o veneno, que era inodoro e insípido, e entraram em estados comatosos em suas camas.
Havia um número muito pequeno de soldados com habilidades de resistência que perceberam que havia algo errado e tentaram alertar os colegas que ainda estavam de pé, mas esses colegas… eram justamente os que Vandalieu havia transformado em “bonecos”, e que os pegaram de surpresa e os imobilizaram.
O Visconde Besser, que estava dormindo, assim como seus cavaleiros e criados, foram todos capturados vivos.
E os soldados que estavam posicionados nas muralhas externas como vigias não conseguiram fazer nada, mesmo após perceberem que havia algo estranho com os outros soldados.
— U-uma força armada se aproxima!
— São Titãs… Hyih! Titãs mortos-vivos!
Com um rugido aterrorizante, Borkus e os outros avançaram pela entrada principal da mina com uma velocidade surpreendente para seus tamanhos.
Os vigias tocaram suas trombetas e sinos para declarar estado de emergência, mas ninguém respondeu. Não, alguns até responderam — mas não da forma que desejavam.
— Vamos massacrar todos vocês mesmo, então nos entretenham enquanto morrem! Cortador de Aço!
— QUEBRADOR DE ARMADURAAAA!
— Perfuração de Ferro!
Borkus e os outros Titãs Mortos-Vivos dispararam técnicas marciais uma após a outra contra a muralha externa. A parede e o portão foram cortados, quebrados e perfurados como se fossem feitos de tofu.
Eles se divertiam ao ver os soldados sendo arremessados junto com os pedaços de entulho.
E assim, na manhã seguinte, Borkus e os outros, que haviam reduzido a muralha externa e os soldados que os vigiavam a escombros…
—…Falta alguma coisa — murmurou Borkus, coçando o osso exposto da bochecha enquanto olhava para os soldados do Visconde Besser e cerca de uma centena de civis, todos amarrados e inconscientes.
— Se você se divertisse ao máximo, essa mina teria virado um deserto, não acha? — observou Vandalieu.
— Também não sou tão destrutivo assim — protestou Borkus. — Eu ao menos deixaria alguns escombros.
— Eu planejava matar todos os soldados desde o início, mas teria sido problemático se você não deixasse ao menos os prédios de pé — disse Vandalieu.
— Hahaha! Tem razão nisso!
Vandalieu assentiu enquanto Borkus ria. Ao ouvir essa conversa, metade dos ex-escravos ficou apreensiva.
— Seu rosto mudou, mas você continua agindo como uma criança, como sempre, Oyaji — disse Gopher, sem demonstrar nenhum medo. Ela deu um sorriso irônico ao olhar para Borkus, que agora era meio esqueleto.
Borkus olhou para ela e parou de rir.
— Me desculpe por ter mentido — disse ele.
— Está falando da sua promessa de repelir a Nação-Escudo de Mirg e expulsá-los? — perguntou Gopher. — Ninguém levou isso a sério.
— Mas sabe… nós deixamos vocês por duzentos anos mesmo depois de termos morrido.
— Está tudo bem. Ouvi de Levia-sama e de Sua Majestade aqui que vocês protegeram Zandia-sama, os outros, e o legado da deusa sob o castelo.
— Era isso que eu estava tentando fazer, mas…
Na realidade, tudo o que restava de Zandia era um punho, e não havia sido Borkus quem protegera o legado da deusa, mas sim o gelo amaldiçoado que o havia selado.
— Não é algo pelo qual você deva se culpar tanto — disse Gopher, dando um tapa nas costas frias do pai. — Não me mostre essa cara desanimada, isso não combina com você. Eu não posso te apresentar aos seus netos desse jeito, né?
— N-netos? — repetiu Borkus. — Você disse netos?! Eu tenho netos?!
— Sim, três deles — disse Gopher. — Só posso te apresentar dois, e não posso dizer quem é o pai, mas…
As escravas haviam sido tratadas como brinquedos pelos soldados. Anticoncepcionais eram caros nesse mundo; não era algo que os escravos pudessem usar.
Era assim que as coisas eram.
— Entendo… — Borkus olhou para Vandalieu. — Garoto?
Vandalieu balançou a cabeça. Quase nenhum dos espíritos daqueles que morreram na mina ainda estava por ali. No mundo de Lambda, mortos-vivos podiam surgir. Em uma mina onde os escravos eram levados à morte um após o outro, um sacerdote estava presente — não apenas para tratar os soldados e trabalhadores normais, mas também para purificar os espíritos dos mortos.
Não havia entre os espíritos nenhum que se declarasse filho de Gopher.
— Entendo… Não, tudo bem — disse Borkus. — Tenho certeza de que eles foram para junto da deusa, e não daquele deus inútil. Afinal, eu rezei bastante…
— É verdade… — disse Vandalieu.
Ao seu redor, ele ouvia os gritos de alegria dos Titãs mortos-vivos e dos escravos, celebrando o reencontro, assim como vozes de tristeza, lamentando por aqueles que não estavam mais ali.
Não posso matar Heinz, e não posso reviver ou transformar em mortos-vivos aqueles que já retornaram ao ciclo de reencarnação. No fim, ainda sou impotente, pensou Vandalieu.
Claro, ele queria mudar essa primeira parte, mas também queria fazer algo quanto à segunda.
Enquanto esses pensamentos corriam por sua mente, ele sinalizou para Levia que era hora.
— Todos — disse ela, dirigindo-se aos Titãs — retornaremos a Talosheim ao lado de Sua Majestade. Por favor, decidam se desejam vir conosco ou seguir um caminho separado.
Gopher e os outros refugiados de Talosheim eram parentes de Borkus, Zran e dos demais, então, naturalmente, os Titãs mortos-vivos queriam levá-los de volta para Talosheim. No entanto, isso significava ir para uma nação onde Vandalieu governava como rei. Por isso, seus desejos precisavam ser confirmados.
— Talosheim é atualmente uma nação de mortos-vivos e ghouls governada por Sua Majestade Vandalieu, além dos monstros que ele domou — continuou Levia. — Acredito que muitas coisas serão diferentes de como eram no passado. Eu mesma sou bastante diferente do que era em vida. Também há muitos inimigos. O Ducado de Hartner jamais nos deixaria em paz se soubesse de nós, e o Império Amid, incluindo a Nação-Escudo de Mirg, ainda deseja nossa aniquilação. Existem também vampiros de sangue puro que veneram um deus maligno e estão atrás de Sua Majestade. E no futuro, haverá ainda mais inimigos.
— Naturalmente, enfrentaremos esses inimigos — acrescentou Vandalieu. — No ano passado, repelimos o exército de seis mil soldados da Nação-Escudo de Mirg. Se tiverem pedidos, ouvirei. Mas isso não significa que sou capaz de fazer qualquer coisa. Tudo tem seus limites. Se puderem aceitar isso, então, por favor, venham para minha nação.
A Talosheim atual tinha muitos inimigos e suas leis eram emprestadas. Era uma nação cheia de problemas. Não era um lugar que Vandalieu pudesse, com orgulho, declarar como terra ideal ou paraíso.
As coisas provavelmente ficariam bem por um tempo. Mas um dia, Talosheim poderia ser atacada por reencarnados em Lambda que já conhecessem a magia do atributo morte de Vandalieu, ou pelo grupo de Heinz, que estaria muito mais forte do que agora. Um dia, deuses como Alda, o deus da lei e do destino, ou Yupeon, o deus do gelo, poderiam descer ao mundo e liderar um exército de dezenas de milhares de indivíduos superpoderosos rumo a Talosheim.
Essa era a nação para a qual eles estavam sendo convidados, então perguntar antes era apenas natural.
Era nisso que Vandalieu acreditava.
Mas a resposta de Gopher foi:
— O que você está dizendo? Não é óbvio que vamos com vocês? Sou grata por ter nos salvado, e ainda pude reencontrar o Oyaji. Além disso, já que você teve força para tomar essa mina, acho que as coisas vão dar certo.
— Não é que eu não tenha dúvidas quando você diz que é uma nação de mortos-vivos e monstros, mas Oyaji-dono e os outros não mudaram em nada desde quando estavam vivos — tirando a aparência. Eu acredito em você.
— E mesmo que fôssemos por um caminho separado, não há lugar onde possamos viver neste ducado… não, neste reino.
Parece que todos os antigos refugiados voltariam a Talosheim.
— Obrigada, a todos — disse Levia, com um semblante radiante.
Deixando a explicação dos planos futuros com ela, Vandalieu se dirigiu ao próximo grupo.
Além dos Titãs, havia dois outros tipos de escravos na mina: um grupo de escravos criminosos, e outro composto por aqueles que não haviam sido comprados em lugar nenhum ou trazidos da Primeira Vila de Cultivo.
O plano era mesmo só deixar essas pessoas por conta própria… será que eu devia ter feito o castelo afundar mais e inclinar ainda mais? pensou Vandalieu, enquanto caminhava em direção ao grupo de escravos criminosos.
Os colares desses escravos ainda não haviam sido removidos, e eles estavam contidos, assim como os soldados
— sendo vigiados pelos soldados transformados em bonecos.
Eles eram criminosos perversos em sua maioria, então Vandalieu não podia baixar a guarda.
Alguns tinham sido trazidos para a mina apenas alguns dias antes; muitos ainda tinham força de vontade e resistência.
— Vocês ouviram o que eu disse, não ouviram? — perguntou Vandalieu a eles. — Pois bem, agora eu vou fazer uma seleção.
—…Nós não temos o direito de decidir? — perguntou um escravo barbudo com cicatrizes no rosto.
Vandalieu olhou ao redor antes de responder:
— Vocês têm o direito de decidir — disse ele. — Mas eu tenho o direito de decidir se aceito ou não a decisão de vocês. Mesmo que os crimes tenham sido cometidos em outra nação, não tenho intenção de acolher criminosos malignos.
Esses criminosos haviam sido explorados pelo Ducado de Hartner — o mesmo que havia feito atrocidades contra Talosheim —, mas isso não os tornava boas pessoas.
Vandalieu não tinha a menor intenção de levá-los para Talosheim, a menos que tivessem motivos extraordinários.
— Entendo — disse o escravo barbudo. — Então me despeço por aqui. Mas você ao menos me deixaria pegar algum equipamento dos soldados e um pouco da comida no refeitório como presente de despedida?
— Muito bem — respondeu Vandalieu. — Hannah-san, ele quer se despedir deste mundo.
— O quê?! — gritou o escravo. — Espera aí, eu não escolhi nada do tipo—
— Está bem. Entendido~♪— disse Hannah.
O homem com cicatrizes gritou ao ser envolvido pelas chamas de Hannah, a Fantasma de Fogo. Pouco depois, ele caiu no chão e parou de se mover.
— Certo, próxima pessoa — começou Vandalieu.
— E-espera um segundo! O que você pensa que está fazendo?!
— Por que você queimou ele até a morte?! Ele não te desobedeceu nem exigiu nada, certo?!
Os escravos criminosos estavam chocados e aterrorizados.
Vandalieu piscou algumas vezes antes de responder:
— Eu disse que tenho o direito de aceitar ou não a decisão de vocês, não disse? Com base nesse direito, eu decidi não aceitar a decisão dele.
— E-então por que você matou ele?!
— Ora, se eu deixasse um ex-bandido sair por aí com armas e comida, e ele voltasse a roubar e machucar outras pessoas, eu me sentiria culpado pelas futuras vítimas.
Os espíritos daqueles que morreram na mina haviam sido purificados pelo sacerdote, mas os espíritos assombrando os escravos criminosos ainda estavam lá. Assim, Vandalieu podia saber quais eram realmente pessoas más ao ouvir os espíritos por trás deles.
Vandalieu havia desistido do Ducado de Hartner, mas não consideraria libertar pessoas malignas por aí. E se deixasse esses criminosos soltos, eles poderiam causar problemas para o povoado mais próximo — as vilas de cultivo.
— M-mas e se a gente se regenerar depois de ser salvo por você…?
— Eu não salvei vocês, escravos criminosos — disse Vandalieu. — Vocês são apenas figurantes que estavam no meio do resgate dos parentes de Borkus e dos outros. Estou apenas decidindo se levo vocês comigo… ou descarto vocês aqui.
Vandalieu não queria ser o protetor dos fracos ou um libertador de escravos. Seu objetivo era apenas resgatar os refugiados de Talosheim.
Para ele, esses escravos criminosos não passavam de elementos incidentais no processo. Deixá-los vivos provavelmente causaria mal, então Vandalieu os mataria e os reutilizaria, junto com os soldados da mina.
— T-tudo bem! Eu vou te seguir e fazer o que quiser! Eu com certeza serei útil!
— Então, por favor, morra queimado — disse Vandalieu. — Aria-san, por favor, prossiga.
— Está bem, olhe para cá~♪
— GYAAAAAAAH! POR QUÊÊÊÊÊ?!
— Ora, seria problemático se um ladrão em série, estuprador e assassino viesse comigo — disse Vandalieu.
As mulheres de Talosheim provavelmente torceriam o pescoço de um agressor sexual com facilidade, mas seria ruim se Pauvina e as outras meninas vissem isso acontecer.
— Agora então, próximo—
— E-espera! Eu fico bem em continuar como escravo! Não peço para ser libertado, só por favor, não me queime até a morte! — implorou o terceiro homem, conseguindo com habilidade pressionar a testa contra o chão mesmo estando amarrado. Não havia espíritos atrás dele; era possível que ele não fosse um criminoso maligno.
— Aliás, por qual crime você foi escravizado? — perguntou Vandalieu.
— R-roubo — respondeu o homem. — Entrei numa estalagem para roubar algo e vi um item valioso… e acabou sendo de alguém ligado à nobreza…
Vandalieu achou que enviar alguém para as minas por roubo era uma punição um tanto pesada, mas não era impossível, especialmente se a vítima estivesse ligada à nobreza.
— Então, por favor, trabalhe duro em Talosheim por um tempo — disse ele. — Mas se tentar roubar algo lá também, as coisas vão acabar muito mal para você.
Vandalieu o faria trabalhar por um ano em Talosheim, e se não houvesse problemas, o libertaria.
Os nobres do Ducado de Hartner não eram nobres de Talosheim, então provavelmente estaria tudo bem.
— Sim… Heheh! Darei o melhor de mim para servi-lo com humildade!
Vandalieu assentiu para o homem, que estava claramente aliviado por não ter que morrer, e então voltou o olhar para o próximo escravo criminoso.
— “Eu não quero te seguir, seu usuário de cadáveres esquisito. Então, se vai me matar, faça isso com suas próprias mãos, ao invés de sujar as mãos dos seus subordinados.”
— “Hein?”
— “O que foi, não consegue fazer afinal? Ei, vocês, Titãs! Mesmo que sigam esse cara, ele só vai fazer vocês trabalharem até a morte! Então venham com a gente e— o que vocês estão—”
O homem começou a sufocar.
Vandalieu segurou a cabeça do homem com as duas mãos, ativou Superar Limites e a torceu em 180 graus, destruindo suas vértebras cervicais.
Eu não queria matar com minhas próprias mãos porque não ganho Pontos de Experiência assim… — pensou Vandalieu com um suspiro, enquanto olhava para o rosto e as costas do homem antes de jogá-lo de lado.
— “Certo, próximo—”
Depois disso, os escravos criminosos, tendo aprendido com os exemplos anteriores, pareceram concluir que ser levados como escravos era a melhor opção.
É claro que, mesmo assim, Vandalieu eliminava aqueles que eram verdadeiramente malignos.
Os Titãs ex-escravizados observavam com expressões tensas enquanto Vandalieu, tendo terminado a triagem dos escravos criminosos, caminhava em direção aos antigos habitantes da Primeira Vila de Cultivo.
— “E-ele realmente não é normal…”
Ao verem Vandalieu queimar pessoas vivas e torcer o pescoço de alguém com as próprias mãos sem alterar minimamente a expressão, eles passaram a vê-lo de forma diferente.
— “Eu nunca achei que ele fosse um libertador de escravos ou algo assim, mas…” — murmurou Gopher.
— “Sério? Na verdade, ele foi atencioso o suficiente para tornar a coisa menos assustadora para a gente,” disse Borkus.
— “Ele foi?!”
— “Sim. O motivo de ele ter torcido o pescoço do cara foi para não mostrar sangue para vocês.”
— “…Então gostaria que ele fizesse algo sobre o cheiro também…”
De fato, o cheiro de carne queimada dos escravos criminosos estava no ar. Os Titãs estavam longe o suficiente para tolerar, mas mesmo assim…
— “É verdade, isso está me deixando com fome,” disse Borkus.
Gopher quase respondeu ao pai com um “exatamente”, mas conseguiu se conter e ficou séria. Ela olhou duas vezes para o rosto de Borkus antes de olhar para Levia.
Levia ergueu o rosto, como quem perguntava o que havia de errado.
Foi aí que Gopher percebeu que Borkus e Levia tinham mudado mais do que ela imaginava desde quando estavam vivos.
— “Acho que não tenho escolha a não ser pensar que Oyaji e Levia-sama renasceram como raças um pouco diferentes e me acostumar com isso…” — ela disse a si mesma. — “Mas você realmente deu à luz um filho maluco.”
— “…Está falando comigo?” — perguntou Eleanora, piscando surpresa com o comentário repentino de Gopher, que havia se dirigido a ela sem aviso.
— “Sim, você não é a mãe de Sua Majestade?” — disse Gopher. — “Vampiras realmente parecem jovens… que inveja.”
— “NÃO!” — protestou Eleanora, indignada ao perceber que fora confundida com a mãe de Vandalieu por ele ser um Dhampir e ela uma Vampira. — “Eu sou serva do Vandalieu-sama! A mãe dele é a Darcia-sama!”
Quero comer um churrasquinho… pensou Vandalieu, ao terminar de conversar com o pessoal da Primeira Vila de Cultivo, com a fome aguçada pelo cheiro agradável da carne queimada.
Eles estavam claramente assustados com Vandalieu, mas no fim, decidiram ir para Talosheim.
Afinal, mesmo que ficassem no Ducado de Hartner, não havia lugar para viverem.
Se fossem capturados, seriam executados no pior dos casos — ou, no melhor, escravizados novamente. Fugir para outro ducado seria uma jornada longa e perigosa.
Assim, seguir Vandalieu era a opção com maior chance de sobrevivência.
— “Eu não me importo em continuar como escravo, mas… se pudesse nos tratar um pouco melhor do que fomos tratados até agora…”
— “Ah, não. Vamos recebê-los como pessoas normais… como cidadãos livres,” prometeu Vandalieu. — “Já que vocês não são criminosos, não tenho razão para escravizá-los.”
O jovem que se dizia filho do chefe da vila havia se acostumado com a vida de subserviência como escravo, mas Vandalieu impediu que ele baixasse a cabeça.
Eleanora, tendo esclarecido o mal-entendido sobre a mãe de Vandalieu, sussurrou ao ouvido dele:
— “Tem certeza de que deseja levá-los conosco desse jeito, Vandalieu-sama? Eles podem trair você no futuro…”
Não havia forma de Vandalieu conter ou controlar as ações das pessoas da Primeira Vila de Cultivo.
Embora ele tivesse a habilidade de remover colares de escravo, ele não tinha como criar novos.
Mesmo que fossem ex-habitantes do Ducado de Sauron e seguidores da religião de Vida, não havia garantias de que permaneceriam leais a Vandalieu.
O Encanto de Atributo Morte não funcionava neles, afinal.
— “Talvez você devesse usar o Avanço Mental para mantê-los um pouco sob controle…” sugeriu Eleanora.
— “Não, não preciso ir tão longe,” disse Vandalieu. “Talosheim é uma nação, não uma sociedade secreta.”
Ele não tinha intenção de exigir esse tipo de lealdade deles.
— “Mas… se eles te traírem no futuro…”
— “Eles podem me trair no futuro. É assim que as pessoas são,” disse Vandalieu. “Eu sou o rei, e eles são apenas cidadãos. Sendo assim, é assim que as coisas são.”
Vandalieu achava anormal usar lavagem cerebral para controlar a vontade de pessoas comuns que não eram criminosas. Se suas famílias fossem feitas reféns ou lhes prometessem grandes recompensas, poderiam vacilar e traí-lo. Assim são as pessoas normais.
Deixando de lado se essas pessoas realmente o trairiam, caso isso acontecesse, Vandalieu lidaria com cada caso quando chegasse a hora.
Mas Eleanora não parecia satisfeita, então ele continuou:
— “E sabe, você não me traiu, não é, Eleanora? Então está tudo bem,” disse ele.
O rosto de Eleanora se iluminou, quase de forma audível. Então ela o abraçou.
— “Vandalieu-sama, eu nunca vou te deixar!” declarou ela.
— “… A velocidade com que você me abraça está aumentando constantemente.”
Vandalieu, cercado por uma suavidade e calor diferentes dos de Rita e Saria, ficou surpreso ao notar que os movimentos de Eleanora não tinham hesitação ou desperdício de energia. Mesmo sendo mestre na Técnica de Combate Corpo a Corpo, ele não conseguiu detectar seus movimentos.
Mesmo agora, sua firmeza era tal que Vandalieu não conseguia escapar do abraço.
Era um espetáculo. Como ele não conseguia escapar, pediu que ela o levasse ao último grupo de escravos.
Eram escravos que não foram vendidos ou trazidos depois que o mercador decidiu que eles não seriam vendidos em nenhum lugar. Muitos eram meninas tão jovens que nem bordéis as comprariam, e meninos jovens que demorariam para crescer e se tornarem úteis no trabalho manual. Eles tinham grandes cicatrizes e ferimentos no corpo.
Seus olhos estavam mortos e seus rostos vazios, como se suas mentes não pensassem em nada.
Normalmente, seria bom confirmar o que os escravos desejavam. Mesmo que sua capacidade de pensar e decidir estivesse enfraquecida, o ideal seria estimular essa capacidade para que se recuperassem e tomassem decisões por vontade própria.
No entanto, os escravos olharam para Vandalieu quando ele se aproximou, exalando, gemendo e olhando para ele como se ansiassem por ele.
Parecia que o Encanto de Atributo Morte estava funcionando neles.
— “Se houver algo que vocês queiram fazer, algum lugar para onde queiram voltar, alguém que queiram matar, por favor me digam e eu pensarei em como agir,” disse Vandalieu. — “Se não houver, então me sigam. Aceitem o que eu lhes der, façam o que eu mandar e façam o que quiserem quando ficarem mais fortes.”
Enquanto o Encanto de Atributo Morte funcionasse, confirmar seus desejos não daria certo. Por isso, Vandalieu fez parecer que perguntava, mas na verdade deu uma ordem. Quando seus corpos e mentes se recuperassem e aprendessem a ler, escrever e fazer contas, eles seriam capazes de pensar por conta própria, mesmo sob o efeito da habilidade.
— “Sim… eu entendo.”
— “Mestre…”
Os escravos, ainda mais sem vida que os soldados parecidos com bonecos, assentiram. Vandalieu precisaria curar suas feridas e garantir que comessem bem antes de saírem da mina.
Antes disso, havia um último problema: lidar com uma pessoa final.
— “… Então, por que você está aqui?” perguntou Vandalieu.
No chão, havia um homem com mãos e pés amarrados. Vandalieu olhou para ele com os olhos semicerrados — Luciliano, o Degenerado.
