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Book of the Dead – Volume 2 – Capítulo 25

O Frio da Sepultura

Tyron agachou-se nos arbustos, com as palavras de Yor ainda circulando em sua mente.

— É importante que você limpe suas próprias bagunças — disse ela, com aquele brilho selvagem nos olhos. — A Corte me enviou para cuidar de você até certo ponto, para oferecer conselhos e, é claro, para aceitar seu pedido de se juntar à nossa associação.

Ela sorriu então, revelando suas presas e dentes perfeitamente alinhados.

— Para que isso aconteça, no entanto, você deve se mostrar digno. Até então, estou impressionada com o que conquistou, mas você poderia ser muito mais do que isso. Se você depender de mim, devo considerar como um reconhecimento de que você se alinha à minha facção?

O tom dela implicava que ele já estava inclinado para esse lado, considerando os favores que já devia aos vampiros. Se ele quisesse a ajuda dela em batalhas, então poderia muito bem formalizar tal arranjo.

Entretanto, ele recusou.

— Não se preocupe. Se você se encontrar à beira da morte, eu o encontrarei. A oferta que farei nessa hora será muito pior do que a que você receberia agora, mas acredito que você a aceitaria de qualquer forma.

Nesse momento, a sedutora impecável se desfez e ela permitiu que ele vislumbrasse a besta que ali habitava. Ela o encarou como um lobo encarando um pedaço de carne crua.

— E-Eu manterei isso em mente — ele engoliu em seco.

— Mantenha — disse ela, sendo mais uma vez a elegante e sofisticada Yor que ele conhecia.

Escondido no arbusto, ele estremeceu e puxou a capa para se cobrir ainda mais. Às vezes, era muito fácil se esquecer o que ela era. Ele estava começando a pensar que ela fazia questão de lembrá-lo, para que ele não a subestimasse.

Ela já havia aparecido quando ele estava à beira da morte e não queria que isso se repetisse.

Então, ele estava nesta luta sozinho. A menos que considerasse Dove útil de alguma forma. Ele olhou para o crânio.

— O quê? — disse Dove, com um brilho tênue em seus olhos, mostrando que estava alerta.

— Só estava me perguntando se a sua presença significa que tenho ajuda ou não.

— Que tal você se foder? Necromante malvado, com seus fantasmas e crânios. Quantos dos seus lacaios insignificantes teriam coragem de enfrentar meu lobo estelar? Huh? É, foi o que imaginei. Sem ajuda. Se eu não sou de ajuda, então me liberte neste instante.

— Não me tente — riu Tyron.

— Mas você vai me libertar, certo? Já conversamos bastante sobre isso, mas gosto de verificar de vez em quando.

— Sim, Dove. Eu vou te libertar.

— É bom saber. Agora pare de procrastinar e vá assassinar esses babacas.

Tyron revirou os olhos, mas o Invocador tinha razão. Ele estava se distraindo da tarefa que tinha em mãos. Ainda não estava confortável em atacar e matar pessoas, mesmo pessoas assim. Esperava nunca se sentir, se tivesse que ser honesto consigo mesmo. Com um pouco de sorte, assim que terminasse com esses bandidos, seria capaz de chegar à outra fenda e batalhar contra as criaturas. Aqueles eram inimigos que ele tinha prazer em matar.

Ele podia senti-los agora. Depois do que a criatura do Abismo havia feito, eles se destacavam na noite como faíscas brilhantes contra um fundo escuro.

Mesmo que houvesse árvores, arbustos ou paredes entre eles, era impossível para os bandidos se esconderem dele.

Ele não estava muito longe, apenas alguns quilômetros. Sendo cauteloso, ele não se moveria até que tivesse uma imagem clara do que o aguardava.

Felizmente, ele não precisava mais se colocar em risco para conseguir esse tipo de informação.

Com um comando mental, ordenou que seus fantasmas avançassem. Preenchidos com ressentimento, eles obedeceram, flutuando sobre a superfície como espíritos quase invisíveis. Eles se sentiam… mais fortes agora, mais tangíveis, com suas emoções fervilhando mais próximo da superfície do que antes.

Era possível que fossem suprimidos de alguma maneira durante o dia. Talvez a luz do dia interferisse de algum modo com a ligação? Ou seria o contrário, algo na noite os fortalecia?

Ele balançou a cabeça. Por mais que quisesse seguir esse pensamento, precisava se concentrar. Se tudo ocorresse bem, ele mataria dúzias de pessoas antes do nascer do sol.

Um pensamento surreal.

Ele rapidamente conjurou a magika e espiou através dos olhos dos seus lacaios, revezando entre os fantasmas, enquanto eles se espalhavam e avançavam. Sob a luz da lua, o que ele viu através deles era ainda mais etéreo e perturbador. A paisagem estava distorcida, com uma densa névoa que se contorcia e dançava em uma brisa imperceptível. Apesar da tontura e do mal-estar geral que sentia, era possível filtrar tudo e obter uma imagem razoável do que estavam vendo, especialmente quando se aproximavam.

Ele inspirou profundamente, prendendo a respiração entre os dentes, lentamente fechou a mão em um punho.

‘Maldito Monty, seu babaca. Você sabia que eu viria?’

Ele esperava encontrar os bandidos vivendo como antes, repetindo o mesmo curso de ação na esperança de sobreviver à tempestade em um local remoto. Teria sido horrível, mais assassinatos e tratamento brutal para os donos originais da terra, mas, contanto que ele os pegasse, tudo se resolveria.

Em vez disso, eles fizeram outra coisa. Através da visão distorcida dos fantasmas, ele conseguia ver uma pequena vila, fumaça subindo das chaminés de vários edifícios e luz saindo das portas e janelas, enquanto as pessoas se acomodavam para a noite.

‘O que eles estão planejando?’

Haviam feito as pessoas de reféns? Ou as matado? Ele não via ninguém empalado na estrada, pelo menos. Ele cerrou os dentes e ordenou que seus lacaios se aproximassem. Tinha que saber com o que estava lidando.

Era difícil para os fantasmas verem em detalhes, mas conforme flutuavam até as janelas ou deslizavam pelas paredes das casas, parecia que nada estava fora de lugar. As famílias estavam descansando após o jantar, ou se preparando para dormir, realizando as inúmeras pequenas tarefas necessárias para encerrar o dia.

Tyron enviou os lacaios para localizar os bandidos e encontrou alguns, dormindo em celeiros ou em camas extras, conversando e rindo com seus anfitriões. Ele cerrou os dentes enquanto os espíritos percorriam as cerca de doze casas que compunham a vila, e a mesma cena se repetia inúmeras vezes.

‘Esses babacas.’

Eles estavam se escondendo à vista de todos, usando os aldeões como cobertura. Ele quase conseguia imaginar a cena, Monty e seu bando cambaleando pela estrada, exaustos e ensanguentados, implorando para serem acolhidos e receberem alguma caridade. Após a ruptura, teria sido simples se apresentarem como sobreviventes de uma fazenda invadida.

A maioria deles eram peões e trabalhadores rurais, seria trivial utilizarem suas habilidades para se reintegrarem nesta pequena comunidade e se tornarem úteis enquanto aguardavam que os marechais passassem.

Eventualmente, eles seriam pegos. Assim que Annette e os outros sobreviventes contassem suas histórias, esses homens eventualmente seriam rastreados e executados. Por ora, no entanto, eles ganhavam tempo, aninhados aqui em seus escudos vivos.

— Filhos da puta de merda — suspirou ele, enquanto desviava sua visão.

— Você é muito jovem para isso. Comece pela frente, ganhe experiência e depois tente o caminho menos percorrido. É um bom conselho.

Tyron estava tão irritado que sequer respondeu.

— Eles chegaram em uma aldeia como se nada tivesse acontecido e agiram como refugiados — cuspiu ele, encarando na escuridão as luzes que queimavam em sua visão. — Depois de tudo o que fizeram? Esses vermes…

— Uau. Eles têm bolas de bronze. Se não fossem bandidos desprezíveis, eu quase ficaria impressionado.

— E agora, o que diabos eu deveria fazer? Tem dezenas de inocentes no meio deles. Não era assim que eu imaginava que as coisas seriam!

O antigo Invocador não pareceu dar muita importância a isso.

— E daí? Você acha que os aldeões vão se levantar para defender esses estranhos? Quando você varrer a cidade com sua patrulha de esqueletos, a maioria deles vai se esconder debaixo da cama e se cagar de medo. Espero que não nessa ordem, pelo bem deles. Seus esqueletos podem ser fracos para cacete, mas alguém que despertou como Fazendeiro não é exatamente um fodão em combate. Eles sabem plantar sementes como ninguém? Com certeza. Sabem matar alguma coisa que não coma plantações? Nem tanto.

— Mas e se eles fizerem isso? Não vou matar pessoas inocentes, Dove. Essa é uma linha que me recuso a cruzar!

— Isso não vai acontecer. Como eu disse, eles vão simplesmente fugir.

— Não podemos ter certeza disso. E o que acontece se os bandidos os usarem como reféns? Ameaçarem matá-los a menos que eu vá embora? O que acontece então?

Houve um silêncio por um momento, enquanto o crânio contemplava o que o jovem Mago estava dizendo. A luz roxa tremeluzia e dançava nos olhos ocos de Dove.

— Olha, garoto — disse ele, finalmente — muita coisa pode acontecer aqui. Existe um mundo em que você e eu saímos andando daqui, neste momento.

Bom, você vai… deixa para lá. Nós saímos, e então esses bandidos nunca machucação outra alma, então eles são presos, executados e tudo acaba.

Sem alarde, sem confusão. Isso é possível. Quão provável você acha que é isso que vai rolar?

Tyron hesitou.

— Novamente, não muito — disse ele.

— Então, chegamos a um meio-termo. Se você for até lá, as coisas vão ficar complicadas. Os aldeões vão te ver, fugir de você, talvez até tentar atacá-lo.

Monty pode até tentar incitá-los contra você, gritando sobre o Mago maligno que veio para matar todos eles. E daí? Você se lembra por que estamos aqui?

O Necromante engoliu em seco e assentiu, relutante.

— Preciso de níveis — respondeu ele.

Pareceu muito egoísta quando ele disse em voz alta. Será que era realmente certo ele fazer isso por tal motivo?

— Exatamente. Não há sentido em recuar agora quando você já veio tão longe. Tem uns trinta sacos de ossos de progresso lá embaixo, então afie um graveto e vá furá-los. Assuste os aldeões o máximo que puder, pegue o que der e fuja.

As órbitas vazias do crânio brilhavam com mais intensidade.

— Escuta, garoto, todo Exterminador de rank alto é um pedaço de merda egoísta no fundo. Se me permite, seus pais são a prova de A até a porra do Z.

Tyron acenou com a cabeça. Não havia como negar isso.

— Eu entendo que não queira agir apenas com base em seus próprios interesses, isso é ótimo, mas se não está preparado para dar esse passo, então o que vai fazer? Desistir?

Quais eram suas opções? Existiam fendas a leste e ao sul, mas seria mais do que difícil chegar lá, até mesmo impossível. Ele precisava ficar mais forte, aprimorar suas habilidades e adquirir outras melhores. Da forma como estava agora, seria aniquilado pelo primeiro Exterminador que encontrasse.

Se abandonasse essa aldeia por medo de matar os habitantes locais e, ao retornar uma semana depois, encontrasse os homens em estacas e as mulheres enjauladas, o que ele diria a si mesmo?

‘Não há opções. Nunca há opções.’

— Eu farei isso — disse ele —, mas eu me recuso a matar qualquer inocente. Se eles lutarem, terei que aguentar da melhor forma possível.

— Acho que essa é a melhor decisão — concordou Dove —, mas você precisa ter um plano de fuga. Assim que sairmos, eles vão começar a gritar pelos marechais a plenos pulmões. Você vai ser ainda mais procurado do que é agora com trinta assassinatos em seu nome.

— Obrigado, Dove — disse Tyron, com sarcasmo transparecendo em cada palavra. — Aprecio o aviso.

Parecia ruim, mas, na realidade, ele já estava sendo caçado, então não mudaria muita coisa. Ele precisaria sair da área e se esconder em algum lugar por um tempo, já que eles enxameariam esta vila assim que a palavra se espalhasse.

— Muito bem então. Você quer vir junto ou devo deixá-lo para trás?

— Porra nenhuma — disse Dove. — Eu quero ver aquele gordo fodido do Monty implorar. Se eu tivesse meus feitiços, eu o daria de comida para o meu lobo estelar e, quando ele saísse do outro lado, eu baniria a merda para o Abismo. De jeito nenhum que eu perderia a morte dele.

Tyron parou.

— Seres Astrais cagam? — perguntou ele, curioso.

— O quê? Não, claro que não, mas isso não deve atrapalhar uma boa diatribe. Pare de se preocupar com os detalhes!

— Eu só queria saber!

— Você é muito curioso, esse é o seu maldito problema. Sempre tem que saber tudo.

— Provavelmente foi por isso que eu conquistei dois Mistérios relacionados à magika antes de subir de rank.

—… Ninguém gosta de exibicionistas, seu arrogante. Seu maldito…

— O quê? Não ouvi o que você disse no final.

— Vai se foder, Tyron. Pelos peitos, você me irrita às vezes.

— Eu também te amo. Vamos lá.

Com um comando silencioso, ele ordenou que seus lacaios avançassem. A vila adormecida permaneceu em silêncio no escuro enquanto o Necromante e seus lacaios esqueletos cercavam tudo. Com as lâminas desembainhadas e os olhos brilhando com uma luz sobrenatural, eles avançaram, prontos para matar.

…

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