Eiro estava se sentindo um pouco zonzo, provável que porque havia acabado de conversar literalmente com um deus. Parecia bastante surreal, mas ao considerar o tipo de ser que Eiro era, um Demônio nascido a partir da alma de um humano, e alguém a quem os seres arcanos também davam muita atenção, talvez fizesse algum sentido que os deuses também prestassem atenção nele.
Ou melhor, não parecia completamente ‘fora da realidade’.
— Cara, você está bem? — perguntou James, confuso, olhando um tanto nervoso enquanto via grupos de guardas correrem em direção à catedral. Eiro acenou a cabeça lentamente em resposta e conseguiu caminhando, garantindo que estivessem apropriadamente escondidos ao usar o Ás de Copas.
— Explicarei depois. Não se preocupe, isso não influenciará o que viemos fazer aqui hoje — explicou Eiro, mas James, Jess e Krog se olharam para ele com leves carrancas, notando que algo estava definitivamente estranho.
Eiro suspirou irritado e revirou os olhos.
— Pessoal, sou um Demônio que acabou de rezar para o pai dos deuses na igreja mais sagrada deste mundo, o que esperam? — disse o Diabrete e, neste ponto, os três concluíram que poderiam aceitar isso como resposta. Não era como se estivesse totalmente errada, Eiro se sentia um pouco afetado pela Energia Sagrada dentro desta estrutura. Dentro deste castelo também, mas, pelo menos, sabia que as câmaras de Zaragon não teria nenhum tipo de Energia Sagrada neste nível. Caso contrário, Eiro teria sido incendiado assim que passou pela porta naquela época.
Enquanto subiam as escadas, aproximando-se do que parecia o lugar onde Zaragon estaria, Eiro fechou os olhos e, por um momento, sentiu exatamente o que estava acontecendo na catedral. Como havia pedido a ele, Sarius utilizou a joia especial contendo a faísca sagrada para transformar temporariamente seu corpo em Chamas Sagradas em vez de chamas comuns, para que pudesse fingir ser algum tipo de Espírito sagrado.
Isso atraiu bastante atenção, mas como Sarius gostava bastante todo tom da própria voz, ele conseguia contar mentiras a qualquer um que se aproximasse, tudo isso enquanto lentamente queimava toda a catedral.
O melhor de tudo era que… Qualquer coisa que Eiro fizesse para concluir seus objetivos foi praticamente abençoado pelo maior deus existente, o que significava que estava seguro da retribuição divina por queimar a catedral.
Não era como se estivesse tentando queimar por completo todo o lugar, só algumas decorações, alguns assentos… O suficiente para distrair as pessoas para que não causassem outros problemas enquanto os quatro lutavam contra Zaragon.
De qualquer modo, para Eiro parecia que finalmente chegaram ao lugar certo. Ou pelo menos, era onde a sala deveria estar, mas a porta não estava aqui.
— Espera, isso significa… que Zaragon consegue transportar a porta inteira para diferentes partes da capital? — perguntou James alto e, em resposta, o assustado Krog olhou para a parede.
— Isso significa que não podemos entrar agora ou algo do tipo? Mesmo depois de finalmente chegarmos aqui?
— Eh? Do que vocês estão falando? — respondeu Eiro com um sorriso irônico. — Desde quando portas são a única forma de entrar em uma sala?
—… Desde sempre? — respondeu Jess, e o Demônio levantou a sobrancelha em resposta, colocando a mão na parede. As lâminas do Três de Espadas lentamente deslizaram para fora dos espaços das garras da manopla e pressionaram contra a parede. Elas esculpiram um padrão rápido no papel de parede, e Jess levantou as sobrancelhas, surpresa, pois compreendeu exatamente o que ele tentava fazer.
— Ah… isso não vai atrair um pouco de atenção…? — perguntou ela um tanto nervosa, mas Eiro meneou a cabeça. Por enquanto, parecia que sim, mas ele ainda não tinha terminado. Rapidamente, colocou mais uma camada no padrão esculpido e, depois, colocou a mão em seu centro.
— Vai se reparar sozinho assim que eu parar de fornecer mana. Então, não há nada com o que se preocupar — explicou aos outros, antes de olhar para James.
— Você está pronto? Este definitivamente é o espaço de Zaragon, já que eu mal consigo sentir alguma coisa além da parede. Como se houvesse algum topo de barreira ao redor — disse o Diabrete, esperando que os outros ficassem totalmente prontos.
Colocou a mão no peito e manipulou o caos para remover o efeito sagrado e, em vez disso, deixando a armadura em seu estado neutro por ora, que não parecia muito diferente do modo sagrado.
Então, Eiro deixou sua mana fluir no entalhe na parede. Sem mais delongas, um buraco se abriu, grande o suficiente para deixar os quatro correrem para dentro. Um instante depois, o buraco se fechou, basicamente os prendendo neste espaço. De imediato, este cômodo pareceu familiar para Eiro. Esta era a área de entrada, onde as pessoas deveriam deixar seus itens e pertences antes de entrar. Também era o local onde Zaragon matou Avalin. Estava praticamente idêntico a como era oito anos atrás, e isso se refletia na respiração de Eiro. Mesmo que fosse muito, muito mais forte do que costumava ser, e muito mais inteligente e maduro… Esse trauma ainda estava impregnado nele, e ele nunca teve a chance de lidar de verdade com isso.
Se apenas este cômodo o fez se sentir assim, Eiro realmente não queria saber o que ver Zaragon faria a ele, mas descobria logo. James também estava parado, apertando com força o cabo de suas adagas, mesmo com sua prótese. Afinal, agora, era uma versão básica de uma prótese melhorada, que ele conseguia usar com mais facilidade do que a anterior.
Os dois se entreolharam por um instante, percebendo que o outro estava sentindo algo semelhante.
— Você está bem? — perguntou Eiro, e James acenou lentamente a cabeça.
— Eu vou ficar, sim… e você? — respondeu o Elfo da Luz, e Eiro exibiu um leve sorriso. — Eu também.
— Que amizade maravilhosa essa parece ser. Quase aqueceu meus corações frios e negros — disse uma voz de repente, e certamente não foi alguém do grupo. Também não foi Bavet, o único que poderia causar uma mudança em sua voz de forma tão convincente.
Isso significava só uma coisa:
— Aí está você, Zaragon.
— Hm? Nos conhecemos? Pensei que fosse apenas uma tentativa de roubo aleatória — respondeu Zaragon, enquanto Eiro se virava lentamente. Viu o ser puramente branco, com seus dentes pretos como azeviche em um sorriso e olhos arregalados da mesma cor, encarando-os.
— Uma tentativa aleatória de roubo, certo. É por isso que usamos a parede do castelo real para entrar, em vez da merda da porta — respondeu Eiro, seu coração pulsava intensamente enquanto via a criatura na sua frente. James também começou a ficar um pouco em pânico, mas pelo menos sua respiração estava sobre controle.
O Demônio saiu da sala pela porta aberta e olhou para Zaragon, que estava parado neste espaço fechado. Por uma infeliz coincidência, havia alguns outros clientes aqui neste momento, e Zaragon aparentemente havia os instruído a atacar quem quer que tivesse invadido. Eiro balançou a mão para o lado, estendendo o Três de Espadas e perfurando as lâminas nas testas dos clientes.
— Oops, parece que isso não funcionou — zombou o Diabrete com um leve suspiro, observando os corpos de metade do grupo de 6 caírem no chão.
Os outros três ficaram assustados ao verem seus amigos morrerem tão de repente, e até Zaragon exibiu uma leve careta. No entanto, pelo que Eiro sabia sobre ele, não foi por causa da morte dessas pessoas, e sim pelo sangue que havia sujado o chão.
O Demônio pressionou o pé em um dos cadáveres e deixou que sua mana fluísse pelo corpo, drenando todo seu sangue. Moveu a bola de sangue entre ele e Zaragon, sorrindo suavemente.
— Oops, parece que eu acidentalmente reuni um monte de sangue… Seria uma pena se isso acabasse sujando todo o chão, paredes e teto — disse com um leve sorriso, enquanto Zaragon ficava furioso.
— Não ouse, seu verme repugnante-
— Tarde demais, seu pedaço de merda idiota — Eiro sorriu e fez a bola de sangue explodir, espirrando literalmente por todo lugar, exceto no Diabrete e seu grupo. O Demônio permaneceu parado com um sorriso no rosto, executando com maestria a primeira parte do seu plano. Foi inesperado haver pessoas aqui, já que havia planejado usar a lama criada através das magias de Gondos e Nelli, mas isto era muito melhor.
O sangue também tinha um significado positivo, além de ser incrivelmente difícil de limpá-lo por completo.
As outras três pessoas gritaram enquanto eram cobertas pelo sangue de seu companheiro, e Eiro se virou lentamente para seu grupo, que também estavam um pouco horrorizados com esta visão.
— Devemos começar? — questionou com um sorriso amplo e demoníaco no rosto.
…