Tyron pensou seriamente antes de responder.
— Algumas dessas Classes nós já descartamos. Acólito é a escolha genérica e acho que podemos descartá-la com segurança.
— Como eu disse, às vezes essas escolhas genéricas são as corretas. Podemos presumir que escolhê-la vai levá-lo adiante no caminho que está percorrendo. Você receberá a opção de invocar novos mortos-vivos e mais talentos semelhantes ao que já viu. Além de opções para atualizar suas habilidades já existentes. Esse tipo de coisa, talvez zumbis mais gordos.
— Você sabe como eu me sinto sobre zumbis — Tyron tentou não soar elitista.
Não era como se zumbis fossem maus em si, mas ele simplesmente os sentia inferiores. Por que não fazer um esqueleto com esse cadáver? Eles eram mais resistentes, rápidos, fortes e não fediam para caralho.
Ele sabia exatamente o motivo: zumbis eram mais rápidos e sujos de criar. Uma vila massacrada poderia ser transformada em uma massa de horrores cambaleantes num piscar de olhos. Para fazer seus lacaios preferidos, muito trabalho era necessário para descarná-los e costurá-los, um desperdício de tempo para um Necromante que queria níveis rápidos.
— Sim, sim. Você odeia os tipos carnudos. Tudo sobre os ossudinhos. Bem, tenho boas notícias para você, Mestre dos Esqueletos parece ser a sua cara.
— Será que realmente valeria a pena? — ponderou Tyron. — Eu prefiro esqueletos a outros mortos-vivos que tive a opção de criar até então e, como já tenho talentos de esqueletos, sempre vou querer focar neles. Mas isso significa que eu quero escolher essa Classe? Isso poderia estreitar muito minhas opções.
Ele não se importaria se não pudesse mais progredir invocando zumbis, mas se não pudesse criar outros tipos além de esqueletos, ele poderia estar se limitando.
— Não acho que não teria nenhuma variedade — refletiu Dove —, mas você definitivamente teria menos. Existem tipos de esqueletos mais resistentes do que essa sucata básica que você tem usado, e eu não duvido que essa Classe eventualmente lhe dê acesso a eles.
O Necromante podia se lembrar de algumas coisas que havia lido nos diferentes manuais dos seus pais sobre os diferentes tipos de mortos-vivos. Em termos de variedade de esqueletos, ele só conseguia se recordar dos revenants e liches sendo diferentes dos esqueletos básicos. Um revenant era essencialmente um espírito aprisionado a um resto mortal, semelhante à situação de Dove, exceto que com controle total sobre seu corpo. Um lich era algo totalmente diferente, essencialmente um mago que se transformara em um morto-vivo para evitar a morte.
Havia apenas uma forma para Tyron conseguir um desses, e ele não gostava muito da ideia. Ele gostava muito da própria carne, muito obrigado. Além disso, se quisesse se tornar um pesadelo sem vida materializado, já tinha uma opção em mão. Se o vampirismo ou se tornar um lich era o método preferido para a vida eterna, ele não queria refletir sobre isso. Zero passos nesse caminho era o número correto de passos, no fim.
Variedades de esqueletos mais potentes certamente eram uma forma poderosa de atrair Tyron. Ele já era muito habilidoso em criá-los, tendo investido tempo e esforço para aprimorar a Costura Óssea e Açougue. Em termos de poder a curto prazo, essa era sem dúvidas a melhor escolha para fortalecer suas opções de lacaios.
No fim das contas, o curto prazo era tudo o que ele poderia ter.
— É realmente necessário aprisionar um espírito para criar um revenant? — perguntou ele. — Eu não quero aprisionar os espíritos dos mortos nos meus lacaios.
— Oh, você não quer, você? Engraçado, nunca percebi — retrucou Dove, sarcasticamente.
— Pode só responder à pergunta?
— Tudo bem. Sob protesto. Resumindo, eu não sei, cacete. Saber sobre mortos-vivos não é o mesmo que saber como cria-los. Revenants certamente estão um passo acima dos esqueletos básicos, sendo muito mais temidos e capazes de usar aspectos do Invisível com capacidade limitada.
— Como usar habilidades?
— De uma forma muito pequena, mas mesmo isso é suficiente para colocá-los muito acima das suas tropas normais. Se essas vantagens não vierem de um espírito vivo, então eu não faço ideia de onde você as conseguiria.
Se seus lacaios fossem realmente capazes de utilizar habilidades simples, como esgrima, eles se tornariam muito mais mortais. Tal perspectiva era suficiente para animar o jovem Mago, mas não o suficiente para afastar qualquer associação negativa que tinha por escravizar os mortos.
Eventualmente, ele poderia se ver em uma situação em que não teria escolha além de se envolver em tais práticas se quisesse progredir, mas esperava que não.
Ele pensou na pedra em sua mochila e então afastou esses pensamentos.
Foi essa linha de pensamento que o afastou de Sintonizador de Espíritos. Possivelmente seria uma Classe forte, dando a ele acesso imediato a fantasmas como lacaios, ou pelo menos rapidamente. No entanto, até que conseguisse reconciliar essa prática com seus princípios morais, ele preferia evitá-la.
Além disso, se ultrapassasse os limites e começasse a realizar tarefas que os outros viam como genuinamente imorais e imperdoáveis, então que caminho de volta à sociedade lhe restaria? Era um tênue fio de esperança ao qual ele se agarrava. Sabia que quase não havia chance de ser aceito, mas se recusava a abandoná-la. Ele precisava dessa esperança, pois já estava perigosamente próximo de perdê-la. Sua mente voltou mais uma vez para o que estava escondido em sua mochila, mas afastou seus pensamentos bruscamente. Ele precisava se concentrar.
Iniciado da Horda e Ritualista Sombrio foram descartadas sem muita consideração. De qualquer modo, seria impraticável para ele sair por aí um com uma grande quantidade de lacaios, sem falar na dificuldade de conseguir tantos restos mortais. Qualidade sobre quantidade sempre foi o lema de Tyron como Necromante e ele não mudaria agora. Quanto ao ritualista, ele não tinha interesse em levar sua classe por um caminho tão lateral.
Não havia sentido em buscar um aspecto diferente para sua magika além daquele em que já estava atuando. Ele já havia feito o que podia para aprimorar seus lacaios, seria um desperdício gigantesco jogar todos esses ganhos fora e se concentrar em outra coisa.
O que o deixava com o Tecelão de Morto-Vivo. Era isso que havia desbloqueado ao masterizar suas habilidades básicas.
— Eu sei o que você está pensando, garoto. Esqueleto ou Tecelão. Com a falta de informações que temos, a escolha basicamente se resume a poder agora ou poder depois. Meu palpite é que escolher Mestre dos Esqueletos lhe dará acesso a um feitiço ou habilidade que melhorará imediatamente sua criação de esqueletos. Não sei o que seria, endurecimento ósseo, rigidez óssea, ossos gloriosos, mas efetivos apenas pela manhã-
— Terminou?
— Ainda tenho mais…
— Eu passo.
— Certo. Tecelão é mais provável que aprimore suas habilidades iniciais, construindo uma base mais sólida, e possivelmente lhe dê acesso a habilidades parecidas com as de outras Classes, mas mais adiante.
“Uma fundação forte é o que todos os melhores Exterminadores têm — riu Magnin. — Ter Esgrima no nível trinta pode não ser tão sexy quanto dez níveis em “estilo dervixe lendário” ou alguma besteira do tipo, mas é dez vezes mais efetivo. As pessoas correm atrás de coisas chamativas muito cedo, é um erro clássico. Contanto que você progrida, as coisas chamativas vêm naturalmente com o tempo. Correr atrás delas é um completo desperdício de tempo.”
— Tecelão de Morto-Vivo — declarou Tyron, confiantemente.
— Tem certeza, garoto? — questionou Dove.
— Positivo.
— Certo, coloque sua impressão digital nessa coisa e se prepare.
— Preparar para o quê?
— Você vai descobrir — sorriu Yor.
Sem saber do que eles falavam, Tyron engoliu em seco e pressionou o polegar ensanguentado ao lado de Tecelão de Morto-Vivo na página de Status.
Então, encerrou o ritual.
De uma vez, uma sensação que já havia sentido antes o invadiu. Ele foi arrancado de seu corpo e, mais uma vez, levado para um vazio infinito de escuridão e luz.
O Despertar.
A voz do infinito falou com ele mais uma vez. Seriam os deuses? Ou as palavras vinham do próprio Invisível?
Tyron Steelarm. Você se dedicou à busca de sua arte sombria e escolheu persegui-la com perfeição. Sua adesão ao caminho do Necromante mostra que sua Classe não é um erro. Controle você deseja, e controle terá.
Você está ascendendo.
+10 em todos os atributos.
Você é capaz de avançar seus Mistérios para o próximo estágio.
Você recebeu a Classe: Tecelão de Morto-Vivo.
Buscando a perfeição, o Tecelão de Morto-Vivo é um especialista na criação de lacaios pelos quais são temidos. Para avançar, crie mortos-vivos, faça-os lutar em seu nome e aprimore sua arte.
Atributos de Classe por nível:
Força +1;
Constituição +2;
Inteligência +3;
Sabedoria +1;
Força de Vontade +1;
Manipulação +1;
Postura +2;
O limite máximo da Habilidade Ressuscitar Mortos foi aumentado para 20.
O limite máximo da Habilidade Avaliação de Cadáveres foi aumentado para 20.
O limite máximo da Habilidade Preparação de Cadáveres foi aumentado para 20.
Você recebeu a habilidade: Modificação de Lacaio. Isso permite que você modifique e aprimore mortos-vivos já criados.
O conhecimento inundou sua mente, então ele foi jogado de volta para seu corpo. Cada centímetro dele queimava, física e mentalmente. Ele gemeu e se curvou para frente.
— É uma loucura, não é? — riu Dove.
—
Nas ruínas de Woodsedge
Beory olhou para o que restava da antiga cidade fronteiriça de cima da muralha da cidade. Pelo menos, acima de um pedaço estável dela. Quando as criaturas da fenda passaram pela região, elas não se importaram em usar os portões. Brechas enormes foram abertas nas defesas da cidade pelas maiores criaturas, permitindo que as menores avançassem livremente.
Depois de todo esse tempo, seria de se esperar que os sinais do conflito tivessem sumido, mas eles ainda estavam ali para aqueles com um olhar experiente. Ossos descoloridos pelo sol, revirados pela vida selvagem, estavam espalhados aqui e ali, como manchas escuras, da cor da ferrugem, que alguns poderiam confundir com terra, ou fuligem, mas Beory sabia serem sangue.
Muitos haviam morrido na catástrofe aqui, lentos demais para escapar da horda que se aproximava. Ela lutou para se importar.
Impaciente, ela bateu os pés na muralha, olhando para a distância. As árvores ainda eram grossas o suficiente para bloquear seus olhos, mas para seus sentidos arcanos, a fenda era clara como o dia. A energia ali ainda fervilhava caoticamente. Um reino colidindo com outro costumava ter esse efeito, mas estava muito mais contida do que teria sido há uma semana. A magika liberada na colisão havia se dispersado, retornando a fenda a um estado “normal”.
Embora jamais voltasse a ser como era antes. Depois da ruptura, a fenda se tornaria mais larga, permitindo que criaturas mais poderosas a atravessassem. Além de deixar este mundo um passo mais próximo de cair para o abismo, assim como outros caíram.
— Por que ele está demorando tanto? — murmurou ela.
Ela sentiu um tremor na borda dos seus sentidos e bufou. Quando o ar finalmente passou por seus lábios, Magnin apareceu ao lado dela na muralha, com um sorriso amplo no rosto.
— Você está tão linda quanto da última vez que a vi, minha flor — disse ele.
— Isso foi há cinco minutos — respondeu ela.
— Então isso explica — disse ele, esfregando o queixo, pensativo, e Beory revirou os olhos.
— Chega disso. Você viu?
— Claro que vi. O que você acha que eu estava fazendo lá?
—?
Magnin gesticulou indiferentemente.
— Está maior. Claro que está maior. O que diabos eles pensaram que aconteceria? Se há uma ruptura, a fenda fica maior.
— Quanto maior? Acho que é essa questão que eles queriam respondida — Beory revirou os olhos. Seu marido, como sempre, estava sendo deliberadamente evasivo.
— Já tenho as leituras — disse ele, dando de ombros. — Quando o ro’klaw nos alcançar, poderei enviá-las.
Ele baixou o olhar para as ruínas da cidade e sua expressão endureceu.
— Isso não precisava ter acontecido — disse ele.
— Você se sente culpado? — questionou Beory.
Ele olhou para ela, com uma sobrancelha levantada.
— Não, eu deveria?
— Claro que não — zombou ela —, mas eu queria ter certeza. Você costuma ficar com a ideia errada na sua cabeça.
— Não se preocupe, minha querida. Guardo todo meu ódio para aqueles que o merecem, e não para mim mesmo.
Beory assentiu, satisfeita, antes que seus olhos se enchessem de lágrimas.
— Tyron esteve aqui — disse ela, baixinho. — Posso sentir sua magika.
— O quê? — Magnin entrou em pânico. — Você acha que ele conseguiu sair?
— Ele esteve aqui depois da ruptura. Consigo dizer.
— Isso é um alívio.
Beory envolveu os braços ao redor de si mesma e estremeceu.
— Eu quero vê-lo, Magnin. Quero ver meu menino.
O Espadachim deu um passo à frente e a abraçou gentilmente.
— Não podemos fazer isso. Sabe que não podemos fazer isso, não até o fim.
— Eu sei, mas é difícil.
— Claro que é. Foi ideia sua.
Eles permaneceram assim por vários minutos, equilibrados no topo da muralha ao redor de Woodsedge.
— Amanhã recomeçará — disse Beory, libertando-se e enxugando seus olhos. Ela olhou para os olhos de Magnin, deixando-o ver a firmeza nos seus.
— Foram férias agradáveis — disse ele, sorrindo. — Já estava quase sentindo falta de ser torturado.
— Quanto tempo acha que aguentaremos desta vez?
Ele deu de ombros.
— Algumas semanas. Talvez. Acho que dessa vez eles irão com mais intensidade. As autoridades querem que essa bagunça seja resolvida. A paciência delas se esgotou.
— Eles vão conseguir o que querem. Só espero que se arrependam depois.
Magnin riu.
— Claro que vão. Nos certificaremos disso.
…