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Mushoku Tensei: Jobless Reincarnation – Volume 21 – Capítulo 4

Negociações difíceis

Existe um velho ditado: “Quando sentir o gosto de veneno, não se esqueça do prato.” Em outras palavras, se for envenenado, é melhor comer o prato onde ele veio. Esse provérbio era de uma época em que era normal usar pão duro no lugar de um prato. Você colocava carne, ou qualquer que fosse o prato principal, por cima para dar sabor, depois rasgava e mergulhava na sopa para amolecer antes de comer. “Não esqueça do prato”, significava, portanto, “termine sua refeição”. Coma tudo o que lhe for dado, mesmo que seja veneno. Tudo é um presente.

Sim, estou apenas brincando.

O que isso realmente significa é que, se vai morrer de qualquer maneira, é melhor se aventurar um pouco. É uma mensagem bastante positiva. Afinal, você normalmente não come pratos. A ideia é que, se o veneno o matar ou se a porcelana que vai triturar seu estômago o fizer, não fará diferença. É melhor viver um pouco.

Também inventei isso, obviamente.

Enfim! Naquele momento, estava no prédio que Aisha havia montado como escritório dos mercenários. Era no Distrito Mercante, embaixo de um bar fechado. Estava cercado por barris de alimentos em conserva e fileiras de casacos pretos que ainda não haviam sido processados. O pergaminho de teletransporte me trouxe até aqui; um círculo de teletransporte bidirecional que havia criado para o caso de algo assim acontecer.

Sentada à minha frente estava uma mulher. Ela sempre se apresentava como uma garotinha fofa, mas, na verdade, devia ter mais de vinte anos de idade.

— Este lugar tem muita personalidade, não tem? — comentou a Criança Abençoada, sentada com os joelhos dobrados e os pés ao lado do corpo no chão empoeirado, embora não tivesse amarrado suas mãos ou pés nem nada. Eu a trouxe do jardim até aqui.

— O que estava pensando? — perguntei.

— O que quer dizer?

— Aparecer naquele momento crítico e nem mesmo tentar fugir… — Quando pensei nisso, o momento de sua entrada tinha sido perfeito. Era como se estivesse esperando para poder cooperar educadamente com meu esquema de sequestro.

— Aconteceu de eu sair na hora, só isso — respondeu ela. — Ninguém me contou sobre aquela luta terrível… Quando saí e tudo estava coberto de névoa, levei um susto e tanto.

Você tomou uma decisão muito rápida para alguém que saiu por acaso naquela hora.

— Você está mentindo.

— Ah, sim. A verdade é que examinei as memórias de um dos meus observadores e fiquei sabendo o que Therese e os outros iriam fazer com você. Por isso fui para fora.

— Hã…? Você estava vindo para me resgatar?

— É isso aí. Então, quando saí e olhei em seus olhos, soube imediatamente o que havia acontecido.

No momento em que fazia contato visual com alguém, ela podia ver suas memórias. Era impressionante o fato dela ter encontrado meus olhos por trás da Armadura Mágica, mas talvez isso fizesse parte do poder. Eu também não entendia a capacidade extraordinária de Zanoba.

— Estou do seu lado — disse ela. — Quero ajudar você.

Eu não respondi. Em vez disso, apontei o dedo para ela.

Quando engolir veneno, não se esqueça do prato. Eu já a havia sequestrado, então já estava ferrado. Não havia mais planos. Estamos fazendo isso.

Ainda tinha duas cartas para jogar. Eu e essa garota. Vamos imaginar o pior cenário possível.

O Papa, o cardeal, Therese e Claire eram todos meus inimigos. Trabalhando como agentes do Deus-Homem, já haviam feito Cliff, Aisha e Geese de prisioneiros. Em cerca de meia hora desde que peguei a Criança Abençoada, os Cavaleiros do Templo já estavam se movendo. Minha suposição de que ninguém havia me visto se teletransportar estava errada, alguém havia me visto e os Cavaleiros do Templo estavam vindo para cá agora. Não tinha tempo de montar um círculo de transporte para a Armadura Mágica Versão Um, então lancei o Atoleiro para enterrá-la no jardim por enquanto, mas os Cavaleiros do Templo já a haviam desenterrado e levado embora.

Isso seria o pior que poderia acontecer. Já era ruim o suficiente que, se as coisas realmente acontecessem dessa forma, estaria ferrado… Tinha que encontrar uma saída com apenas duas cartas, minhas próprias habilidades de luta e a Criança Abençoada.

— Criança Abençoada — comecei —, antes de confiar em você, tenho algumas perguntas.

— Naturalmente — respondeu ela.

Se quisesse fazer isso dar certo, precisava questionar a Criança Abençoada. Então poderia decidir se poderia contar com ela mais tarde; agora, precisava de informações.

— Qual é o seu poder como Criança Abençoada?

— Você já não sabe?

— Quero ouvir de você.

Pode ser algo diferente do que Orsted disse. Precisava checar.

— Posso ver a superfície das memórias das pessoas.

— A superfície?

— Sim. Coisas que estão em sua mente e as memórias associadas, mas só um pouco.

— Qual é a diferença entre isso e ler mentes?

— A diferença é que só vejo o passado, no entanto, se mantiver contato visual, posso voltar até onde a memória deles se estender.

Portanto, não é que ela veja as memórias, mas vê partes do passado que se relacionam com o que estiverem pensando.

— Só vê isso? — confirmei.

— Correto.

— Digamos que uma pessoa tenha perdido a cabeça; conseguiria trazê-los de volta para si?

— Imagino que isso seria possível se eu usasse meus poderes em conjunto com magia de cura.

Ela não pode trazer Zenith de volta.

— Ou seja, você não pode realmente ler mentes.

— Não, mas posso usar o que estou vendo para adivinhar — disse ela. Não podia ver o que eu estava pensando no momento, mas era impossível manter uma conversa enquanto se pensava constantemente em outra coisa. Se alguém lhe perguntar: “O que você comeu no café da manhã?”, você não terá em mente reflexões científicas sobre porquê o céu é azul.

— Entendo o motivo de ninguém com a consciência pesada querer olhar para você — disse. Ela era um detector de mentiras completo. Tudo o que precisava dizer era que seus olhos se encontraram e isso seria o suficiente para estabelecer a culpa. Não havia como saber se ela própria estava mentindo, mas acho que ninguém vigia os vigilantes. Ela podia condenar qualquer pessoa de quem não gostasse; era assim que funcionava para uma Criança Abençoada. Bastava olhar para Zanoba para ver como esse tipo de poder o tornava um trunfo e uma ameaça incrível. Desde que alguém com poder o apoiasse, estaria seguro.

— Você não está desviando os olhos, Senhor Rudeus — apontou a Criança Abençoada.

— Acho que minha consciência está limpa.

Mantive meus olhos nos dela por um tempo. Em parte, porque não dava mais a mínima, mas também, se ela pudesse ver o passado, manter contato visual me pouparia muito tempo de explicações.

— Talvez não, mas tem certeza de que não se importa que eu saiba todo o resto?

Eu não respondi.

— Meu Deus, o Senhor Orsted tem uma maldição como essa… Ah, o Deus-Homem… Suas primeiras palavras foram… Oh, meu Deus! — O rosto da Criança Abençoada ficou vermelho de repente.

O que foi, você viu algo sujo? Você não vê essas coisas o tempo todo nas inquisições? Devia dar uma boa olhada toda vez que um padre de Millis dorme por aí.

— Duas de uma vez, meu caro… Duas, mas ainda assim amor… Ah… Ah, um altar… Espere… Ah!— Ela estava suando e com falta de ar.

Viu algo que não deveria ter visto, não é?

— O que você viu? — perguntei.

— Heres… — Ela tossiu. — Ah, quero dizer, vejo que aqueles que não são da fé Millis têm rituais bastante extremos… Isto é, diferentes dos nossos…

— Você acabou de ver o âmago da minha alma.

— Entendo — disse ela, alisando a bainha da saia e se afastando um pouco de mim.

Relaxe. Talvez a fé de Roxy não seja tão pura quanto a sua aqui em Millis, mas ainda assim é um belo tom de azul. Você não encontrará nenhum material pornográfico aqui.

Nós dois tossimos.

— Vamos voltar ao que importa — sugeri.

— Sim, parece bom — concordou ela.

A Criança Abençoada vendo tudo isso não me causaria nenhum problema, mas era um pouco embaraçoso ter alguém sabendo disso. Se tivesse me visto fazendo isso com as duas, talvez também soubesse o que eu disse naquele momento.

Não é assim! Fiquei um pouco empolgado demais e acabou escapando. Isso nunca acontece comigo!

Enfim, voltemos à nossa conversa.

— Primeiro, quero saber como isso aconteceu. Quem você acha que está mexendo os pauzinhos aqui?

— Imagino que seja Sua Santidade, o Papa, ou o cardeal que quer depô-lo. Não creio que o Deus-Homem esteja envolvido.

Portanto, os chefões dos Expulsionistas. E quanto aos Latrias…?

— Você não acha que os Latrias estão envolvidos?

— É possível que outra pessoa os esteja usando, mas não acho que estejam por trás de tudo isso.

Então, o sequestro de Zenith não estava relacionado. No momento, estávamos reduzidos aos papalistas ou aos cardinalistas. Ambos os líderes eram suspeitos.

— O que te faz pensar que o Deus-Homem não está envolvido?

— Se Sua Santidade se submetesse ao Deus-Homem, isso traria desgraça para toda a Igreja de Millis. Sua Santidade pode não ser uma boa pessoa, mas não posso questionar sua fé.

— Mas como pode ter certeza?

— Quando olhar em seus olhos, eu saberei.

Ok, pergunta estúpida: Eu poderia confiar nela?

— Se você não confia em mim, é melhor me usar como refém para conseguir o que quer.

— Não tenho cartas suficientes para que isso funcione. Os Cavaleiros do Templo provavelmente já estão se aproximando de mim. Mesmo que exigisse algo em troca, eu ainda…

— Eu sou tudo para os Cavaleiros do Templo — disse ela, interrompendo-me e sorrindo sonhadoramente para mim. — Os Cavaleiros do Templo, não, toda a facção de expulsionista, sabe que, se eu morrer, perderão a chance de vitória.

— Basicamente, não importa o que tentem me dizer, se eu for duro e ameaçar te matar, farão o que eu quiser?

— Sinto-me lisonjeada em dizer que sim, sou valiosa nesse tanto.

Será que… Droga, é melhor não ter que ver Aisha morrer na minha frente porque confiei em você.

— Os Cavaleiros do Templo não são burros e nem incompetentes. — Eu disse. — Pelo que sei, já prenderam Aisha e conseguiram a localização daqui a partir dela. Nem precisariam fazer isso. Se estivessem de olho em mim, viriam procurar aqui imediatamente. Podem entrar em ação e resgatá-la enquanto eu estiver fazendo minhas exigências na sede da igreja.

— Então é claro que você deve me levar com você quando fizer suas exigências.

— Jogada ousada, mas se nos emboscassem no caminho, isso pode se transformar em uma batalha de tudo ou nada.

— Com certeza você pode acabar com todos eles. Saiu-se bem contra caras como o senhor Orsted e Auber, não foi?

Ela também viu isso? Claro, era possível que eu conseguisse deter os Cavaleiros do Templo. Não querendo me gabar, mas já fiz minha parte justa de derrubar alguns insignificantes. Você poderia me chamar de Rudeus “camper de noobs” Greyrat. De volta à batalha no jardim, tomei o cuidado de me conter, mas se estivesse lutando para matar, eles não teriam tido a menor chance.

— Além disso — continuou ela —, se fôssemos atacados, seria por papalistas, não pelos Cavaleiros do Templo.

— Por que acha isso?

— Os Cavaleiros do Templo não farão nada que possa causar minha morte. O Papa, por outro lado, ficaria muito feliz se eu morresse por acaso.

Se perguntar a eles, é claro que os papalistas dirão que protegeriam a Criança Abençoada, no entanto, se houvesse uma briga e ela fosse morta no fogo cruzado… Isso por si só já seria uma vitória para eles.

— E se os Cavaleiros do Templo usarem magia de barreira ou algo assim para roubá-la de volta sem correr o risco de você se machucar?

— Você acabou de derrotar os melhores lutadores dos Cavaleiros do Templo. Não é do estilo deles repetir uma estratégia fracassada. Não correriam o risco.

Os caras de antes eram seus melhores lutadores…? Quero dizer, eles se coordenaram bem, mas sério…? Não, vamos lá, isso não é justo, eram bons o suficiente para continuar disparando magia contra mim, mesmo enquanto se esquivavam dos meus Canhões de Pedra. E aquele cara não hesitou quando tentou enfrentar minha armadura mágica com uma espada.

Supondo que fossem, em média, do estilo do Deus da Espada de nível avançado e do estilo do Deus da Água de nível avançado, com magia de ataque intermediária, magia de barreira intermediária e magia de cura intermediária, eram uma equipe de elite versátil. Havia um pouco de variação individual a ser considerada, mas sua coordenação perfeita contra mim foi uma prova de seu calibre no geral. Tudo bem, Therese era uma classe abaixo das outras, mas era uma comandante capaz. Tinha certeza de que conseguiria me manter firme contra eles mesmo sem a Versão Um, mas eles teriam uma chance real. Mesmo assim, já havia eliminado seus melhores homens, então talvez ela estivesse certa…

Espere um pouco, estamos falando apenas dos Cavaleiros do Templo.

— Não existem também os Cavaleiros Missionários e os Cavaleiros do Santuário? — perguntei.

— Essas ordens servem ao País Sagrado de Millis — respondeu a Criança Abençoada. — Não se envolvem nas disputas mesquinhas da igreja. Além disso, os Cavaleiros Missionários estão fora do país no momento.

Eles nem sequer estão aqui? Estava começando a sentir que poderia ter uma chance. Exibiria a eles minha refém e os envolveria em negociações justas e honestas.

Depois desse ataque repentino e violento, eu, o todo-poderoso Rudeus, seguidor de Orsted, fiquei ofendido. Embora estivesse em meu direito de tirar e esquartejar a Criança Abençoada e derrubar a luz da Santa Igreja de Millis, serei misericordioso. Se atenderem às minhas exigências e se desculparem diretamente, os perdoarei e pouparei a vida da Criança Abençoada.

Plano em andamento, vamos combinar isso. Enquanto negociava, faria com que a Criança Abençoada descobrisse quem havia me traído e as identidades dos apóstolos do Deus-Homem. Era possível que algumas dessas coisas viessem a me prejudicar mais tarde, mas, supondo que as negociações em si transcorressem sem problemas, estava confiante de que poderíamos sair do país ilesos. O bando mercenário provavelmente teria que esperar. Sem problemas, voltaria em alguns anos, quando Cliff tivesse se estabelecido como alguém importante, então conversaríamos. No entanto, teria que ficar de olho nas coisas. Se, por exemplo, descobrisse que o Papa era um apóstolo do Deus-Homem, não teria escolha a não ser afastar Cliff de suas ambições em Millis. Não seria justo com ele, mas às vezes a vida é injusta.

— Se as outras ordens de cavaleiros te preocupam, sugiro que aja o quanto antes. Se prenderem um de seus amigos, quanto mais esperarmos, maior será a probabilidade de algo terrível acontecer.

— Concordo.

Apenas uma hora havia se passado desde que havia raptado a Criança Abençoada. A pior das hipóteses era que Aisha e Geese já estivessem presos, mas não havia como os cavaleiros terem tido tempo de encontrar os dois, prendê-los torturá-los. Ainda assim, quanto mais me escondesse, mais desesperados eles ficariam. As pessoas fazem coisas malucas quando estão desesperadas.

Está bem. A próxima parte será uma aposta. Se isso der errado, alguém morrerá junto com a Criança Abençoada. Tenho que estar preparado para isso.

Queria me sentir pronto, mas não me senti. O que queria era um trunfo para guardar na manga.

— Ei — chamei.

— Sim?

— Por que está me ajudando, afinal? Como pôde ficar parada e deixar que eu a sequestrasse?

A Criança Abençoada olhou para mim, intrigada, e depois sorriu suavemente. Esse era um sorriso condizente com o símbolo da Igreja de Millis.

— Devo minha vida a você e ao guerreiro da tribo Superd — respondeu ela.

Será que ela viu isso em minhas lembranças? Ou ela examinou as memórias de Eris da última vez? É impossível dizer, mas fomos Ruijerd e eu que trouxemos Eris para Millis da última vez.

Mesmo assim, estava cético; sua resposta era muito parecida com o que eu queria ouvir.

— Isso não o convenceu? Então, que tal isso: Estava furiosa; furiosa por ver meu novo amigo e meus servos mais confiáveis serem forçados a se matar.

Hmm…

— Também queria lhe agradecer — continuou — por todo o tempo que passou comigo fazendo-me rir e pelo desenho que fez para mim. Como diz Santo Millis, “Você deve ser gracioso e retribuir o que recebe”.

Hmm…

— Desde o início, eu pretendia encontrar uma maneira de ajudá-lo em segredo quando viesse procurar ajuda em nome de sua mãe… mas você não me pediu.

Quando continuei em silêncio, a Criança Abençoada fez beicinho e disse:

— Você só me sequestrou porque um único olhar lhe disse que eu não era sua inimiga, não é mesmo?

— Acho que sim — admiti.

Sim, acho que já havia pensado nisso. Foi por isso que a agarrei imediatamente, e foi assim que acabamos aqui, tendo essa conversa.

Certo. Tarde demais para pensar duas vezes. Acabar com o pé atrás foi o que me colocou nessa confusão e pensar não vai melhorar as coisas.

Quando fosse mais uma vez, precisava me certificar de que estava em uma melhor posição para conseguir o que queria. Meus objetivos eram os seguintes:

Um: Recuperar Zenith.

Dois: Garantir a segurança de Aisha, Geese e Cliff.

Três: Garantir que não causasse problemas para Cliff no futuro.

Quatro: Colocar o bando mercenário em funcionamento.

Cinco: Obter permissão para vender esculturas do Ruijerd.

Seis: Fazer de Millis meu aliado.

Meu objetivo imediato era marcar o primeiro e o segundo.

Dessa vez, daria o primeiro passo. Tinha tirado uma boa carta: a Criança Abençoada. Não que eu mesmo fosse uma carta ruim, calma lá. O que deveria ser feito agora, então, era chegar primeiro e sem aviso… Antes que outro idiota que não entendesse o que estava acontecendo pudesse complicar as coisas.

— Se tudo isso for resolvido e eu não fizer inimigos… — disse finalmente — vou trazer Eris para te visitar na próxima vez.

— Por favor, faça isso — respondeu a Criança Abençoada.

Vamos lá, então.


Voltamos para a igreja.

Devem ter se passado duas ou três horas desde minha luta com a divisão de Therese. Não havia um único Cavaleiro do Templo nas ruas. Era quase assustador. Isso significava que Geese e Cliff não tinham sido informados. Escapei do jardim junto com a Criança Abençoada com um pergaminho de teletransporte. A maior parte da sociedade nem sequer sabia que existiam círculos de teletransporte, muito menos pergaminhos. Os Cavaleiros do Templo haviam fechado a entrada do jardim, portanto, a suposição lógica era que ainda estávamos lá dentro. Quem quer que estivesse no comando levaria talvez uma hora para deduzir que havíamos escapado, então passariam para a próxima etapa: chamar o restante dos Cavaleiros do Templo para vasculhar a cidade. Acrescente mais uma hora para montar uma equipe de busca. Por fim, acrescentei uma hora para atrasos e retenções… A essa altura, podem ter trancado o portão da cidade, mas ainda não deveriam ter se mobilizado. Não é fácil mobilizar uma equipe tão grande como essa!

Cliff e Geese conheciam os círculos de teletransporte. Geese estava lá quando preparei essa rota de fuga de emergência, e Cliff ajudou quando desenhei o círculo de teletransporte no porão de nosso escritório em Sharia. Mais especificamente: se Cliff ou Geese tivessem se virado contra mim, os Cavaleiros do Templo saberiam para onde o círculo de teletransporte levava. Eu poderia descartá-los agora mesmo como delatores. Quanto ao Papa e o cardeal, já deveriam ter adivinhado que eu estava me locomovendo usando círculos de teletransporte. Coletaram informações suficientes sobre mim. Seria o mesmo caso se o Deus-Homem estivesse puxando as cordas dos bastidores.

Eu já havia descartado todos os suspeitos. Estranho. Apenas algumas horas haviam se passado, mas certamente meu oponente estava um passo atrás. Não era possível que Therese estivesse agindo sozinha. Não é?

Chegamos à sede da igreja enquanto refletia sobre o assunto. Quando nos aproximamos, uma procissão de caras com armaduras azuis saiu em fila, um após o outro.

— É a Criança Abençoada…

— Rudeus trouxe a Criança Abençoada!

— Chamem reforços!

Cada vez mais deles surgiam da igreja e da cidade ao nosso redor. Em um instante, fomos cercados. Como eu conseguiria lidar com isso?

— Senhor Rudeus — disse a Criança Abençoada —, faça o que fizer, não me solte.

Eu não respondi. Ela era a minha salvação. Mantive meu aperto em seus braços.

Nenhum dos Cavaleiros do Templo estava com suas espadas desembainhadas, mas pareciam bem irritados. Não iriam se arriscar a machucá-la. Exatamente como a Criança Abençoada havia dito.

— Como você pôde tratá-la com tanta violência!

— Ao tomar a Criança Abençoada como refém, você envergonha todos os crentes de Millis! Não vai se safar dessa!

— Rudeus, seu bastardo… Nem mesmo eu jamais coloquei as mãos na Criança Abençoada…

Isso é uma coisa interessante para se irritar, pensei. Antes mesmo que pudesse dizer uma palavra, todos presumiram que a Criança Abençoada era minha refém. Ok, bem, não estavam errados. Depois de derrubar sua guarda e levá-la embora, o que mais deveriam pensar? Talvez quem estivesse por trás de tudo isso soubesse como pareceria.

— Capitão, vamos pegá-lo! Depois de sua luta com os Guardiões de Anastasia, ele não deve ter muita mana sobrando — disse um cavaleiro.

— Ainda não, ele deve ter o suficiente em reserva para matar a Criança Abençoada — advertiu outro.

O primeiro respondeu:

— Sem problemas. Se atacarmos todos juntos, ele salvará sua própria pele antes de tentar machucá-la. — Esse continuava tentando incitar os outros. Poderia ser o agente da cabeça por trás de tudo?

— A quem ele serve? — perguntei, mantendo minha voz baixa. — Ao Deus-Homem?

— Não — sussurrou a Criança Abençoada. — Ele trabalha para Sua Santidade, o Papa. Ele não tem nenhuma ligação com o Deus-Homem e não acho que saiba os detalhes do que aconteceu.

Saquei. Talvez eu esteja ficando paranoico. Certo. É hora de dar o pontapé inicial.

— Exijo falar com o Papa sobre os acontecimentos de hoje! Saiam do meu caminho! — gritei com a voz mais alta e imperiosa que consegui. Em resposta, os Cavaleiros do Templo ficaram mais barulhentos.

— Como ousa?!

— Você acha que o Papa concederá uma audiência a um verme como você?

— Liberte a Criança Abençoada imediatamente e enfrente o julgamento!

Alguns até começaram a desembainhar suas espadas.

No entanto, quando a Criança Abençoada se contorceu em meus braços, todos eles, a contragosto, devolveram as espadas às suas bainhas.

Caramba, eles são totalmente impotentes contra ela. Percebi depois dos Guardiões de Anastasia, mas ela é literalmente uma idol para eles.

Aqui vai… Limpei minha garganta.

— Meu nome é Rudeus Greyrat! Represento o Deus Dragão Orsted! Juro por seu poderoso nome que não desejo ferir a Criança Abençoada!

Levantei minha mão esquerda, mostrando-lhes o bracelete brilhante que Orsted havia me dado. Não era a prova mais forte de identidade, mas era um blefe decente.

— No entanto! — continuei. — Se meu pedido para falar com o Papa for negado, não posso garantir sua segurança! Saibam que, ao fazer de Rudeus Greyrat um inimigo, a Igreja de Millis se tornará inimiga do Deus Dragão e de todos os seus seguidores!

Estava jogando duro aqui, até memorizei um pequeno discurso usando o nome de Orsted sem sua permissão, mas não tem problema. Além disso, ele não tinha muitos seguidores, mas isso são só detalhes.

Os Cavaleiros do Templo recuaram um passo para longe de mim. Com apenas algumas palavras, fiz com que me vissem não como um reles sequestrador de crianças, mas como alguém importante com uma grande organização por trás.

Minhas cartas estavam alinhadas. Excelente.

— Exijo uma explicação de Sua Santidade em pessoa para a agressão vergonhosa que sofri hoje cedo! Por que foi feito um atentado contra a vida do representante do Deus Dragão? Por que minha mãe está sendo mantida em cativeiro? As respostas a essas perguntas decidirão se sua Criança Abençoada viverá ou morrerá!

Ei, sou apenas um visitante aqui. Um dia, sem aviso prévio, fui acusado de planejar um sequestro e houve um atentado contra minha vida. Agora estou furioso. Realmente furioso. Quero um pedido de desculpas e uma indenização. E já que estou aqui, estou fazendo de Zenith o problema da Santa Igreja de Millis também.

Houve uma pausa.

— O que vamos fazer…?

— O que devemos fazer? Ele tem a Criança Abençoada como refém…

Os Cavaleiros do Templo ainda não me deixaram passar, continuaram hesitando. Acho que um grupo de soldados não quis tomar a decisão por conta própria.

Talvez se eu esperasse, o comandante deles sairia. Pelo menos, era isso que estava pensando, quando…

— Deixe-o passar!

— Saiam do caminho!

— Você vai deixar que a Criança Abençoada seja morta na nossa frente?

De repente, houve um pequeno tumulto na parte de trás do grupo. Quatro homens e mulheres abriram caminho. Eu conhecia três deles. Eram dos Guardiões de Anastasia. Doía olhar para os amassados em suas armaduras. Uma dos três era Therese. Ela me viu e olhou para baixo em vergonha.

A quarta pessoa era um homem com cerca de 50 anos e barba branca. Seu rosto estava coberto de rugas profundas, mas seu olhar era nítido e jovem. Quem era ele? Nunca o tinha visto antes. Usava uma armadura azul, o uniforme dos Cavaleiros do Templo, mas sua armadura era um pouco mais elaborada do que a dos outros. Um nível acima de Therese.

Se os caras ao nosso redor eram cavaleiros do templo normais, os Guardiões de Anastasia eram cavaleiros do templo especiais e Therese era de elite, então esse cara era o Rei dos Cavaleiros do Templo.

— Sou o comandante da Companhia de Espadas dos Cavaleiros do Templo. Meu nome é Carlisle Latria.

Ah. Então este é Carlisle. Vovô.

— Lamento que tenhamos que nos encontrar em tais circunstâncias — respondi prontamente. — Eu sou Rudeus Greyrat, filho de Zenith Greyrat. — Carlisle me olhava como um falcão. Seus olhos eram ainda mais penetrantes do que os de Claire. Nesse ponto, marido e mulher se assemelhavam. Não queria entrar em um cabo de guerra verbal com esse cara.

— Isso é tudo? — disse ele.

— …Não. — Levei um momento para entender o que ele queria dizer, mas então me lembrei de minha conversa com Claire e balancei a cabeça. Aqui, eu era seguidor de Orsted. Ainda era o filho de Zenith, é claro, mas esse não era o papel que estava assumindo aqui. Não poderia haver negociações justas a menos que nos víssemos como iguais.

— Sou Rudeus Greyrat, representante do Deus Dragão Orsted — disse estufando o peito e colocando o queixo para fora, como tinha visto Eris fazer. — Vim para exigir uma audiência com Sua Santidade, o Papa.

Quando terminei, o rosto de Carlisle se suavizou por um breve momento.

— Hmm — disse ele. Então, sua expressão se fechou novamente. — Eu levo você. Venha comigo.

Com aquele olhar duro fixo em seu rosto, ele se virou e saiu andando. Therese e os outros o seguiram, parecendo preocupados.

— O que você acha? — perguntei à Criança Abençoada em voz baixa.

— Parece que Therese estava apenas seguindo as ordens do cardeal — respondeu ela. — Carlisle não quis olhar nos meus olhos, portanto, quanto a ele, não posso dizer.

Esse é um truque útil. Portanto, Carlisle era um mistério. Ele não parecia ser um inimigo, mas não confiava nele. É melhor ficar atento. Deixando para trás os Cavaleiros do Templo, que ficaram nos observando de uma distância segura, fui atrás de Carlisle e dos outros.

Ele me conduziu diretamente ao santuário interno. Enquanto caminhávamos, os outros membros dos Guardiões de Anastácia se formaram ao nosso redor. Dessa vez, não estavam usando seus capacetes. Todos estavam de pé, provavelmente graças à magia de cura. Não baixei minha guarda, mas o plano deles não era me atacar, claramente.

Em uma batalha corpo a corpo, rompi a preciosa barreira de nível rei e dei uma surra em cada um deles. Embora também não estivessem lutando para matar, eu tinha sido brando com eles. Eles sabiam disso. Estávamos todos bem cientes sobre quem era mais forte aqui, e em que medida. Além disso, eu tinha a Criança Abençoada. Eles não estavam dispostos a brigar com o cara que os havia nocauteado apenas algumas horas atrás, quando a vida dela estava em risco. Por que todos pareciam tão desconfortáveis, afinal? O Sr. Dust era o pior. Estava evitando meus olhos o tempo todo.

No entanto, eu não estava sentindo hostilidade. Essa não era a vibração aqui. Na verdade, não pareciam nem um pouco desconfiados de mim. Se não soubesse, diria que estavam me protegendo.

Hmm…

Continuamos caminhando pelo santuário interno por um tempo. Antes que percebesse, havia perdido todo o senso de direção. A culpa é da ligeira curva na passagem, combinada com o número de curvas de setenta graus que fizemos…

Da última vez que estive aqui, achei que isso era um labirinto sinuoso de passagens muito parecidas.

— Isso parece um labirinto — comentei.

— De fato. Foi construída dessa forma para que o Papa e eu possamos escapar rapidamente, se necessário — informou-me a Criança Abençoada. Portanto, não se tratava de magia de barreira ou algo do gênero. Não precisava me preocupar em ser colocado para dormir de repente ou cair em uma armadilha.

— É isso aí! — Os fanboys começaram a conversar orgulhosamente ao nosso redor.

— A Criança Abençoada conhece cada centímetro dessas passagens!

— Ela sempre costumava fugir de nós quando brincávamos de pega-pega!

Portanto, isso foi projetado dessa forma para permitir que as pessoas importantes saíssem. Segurança padrão, mas estava começando a perder a noção de onde estava. Se fosse emboscado por trás, não teria como sair… Espere, não, eu poderia simplesmente quebrar o teto e sair por ali. Ou as paredes… Bem, elas provavelmente tinham magia de barreira, mas a pedra de absorção deve dar conta disso.

Tudo bem. Provavelmente, eu deveria ter pensado um pouco mais antes de começar, mas vai dar tudo certo.

— Estamos chegando? Prefiro não ir muito longe…

— Só mais um pouco — disse Carlisle, sem olhar para trás.

Sério? É melhor que não esteja me levando para uma armadilha. Olhei com cautela para os outros caras atrás de nós. Todos se encolheram e começaram a protestar.

— Lorde Carlisle! Você não deve ser rude! Pelo menos se vire quando se dirigir a ele!

— Quem sabe o que ele pode fazer com a Criança Abençoada se ficar chateado!

— Meu senhor, olhe para esses amassados! Você viu o que ele fez com minha Armadura de Cavaleiro do Templo? Ele tem um poder incrível!

— Imagine a marca horrível que ele poderia deixar na Criança Abençoada se o ofendêssemos…

— Silêncio, todos vocês! — gritou Therese, então os otakus se calaram. Carlisle parou de andar e se virou lentamente para me encarar.

— Só mais um pouco.

— Obrigado — respondi com um aceno de cabeça, e continuamos.

Demos apenas mais dez passos, mais ou menos, então Carlisle parou em frente a uma porta e bateu.

— Trouxe Rudeus Greyrat para vê-lo, Sua Santidade — anunciou ele.

Era realmente só mais um pouco. Eu me senti um pouco mal por tê-lo apressado. Agora que pensei nisso, não sabia mais para qual direção estava virado, mas na verdade só tínhamos virado duas esquinas. Se precisasse de uma rota de fuga, tinha uma.

— Entre — disse a voz do Papa. Carlisle ficou de frente para a porta, fez uma breve oração e depois a abriu. Ele segurou a porta e fez um gesto para que eu entrasse.

— Vá em frente — disse ele. Segurando firmemente a Criança Abençoada, entrei no quarto. Parte de mim pensou que agora eu certamente poderia deixá-la ir… mas não, não podia baixar a guarda ainda.

Encontrei-me no que parecia ser uma sala de reuniões. Havia uma mesa comprida na qual dez pessoas se sentavam de frente uma para a outra. Uma delas era o Papa. Cliff também estava lá, e um homem idoso usava uma veste luxuosa semelhante à do Papa. Devia ser o cardeal. Havia também um homem vestido com uma armadura branca. No fundo da sala, sete cavaleiros estavam de pé com as mãos cruzadas atrás das costas. Dois deles reconheci como guardas do Papa. Todos estavam olhando para mim. Parecia que minha entrada havia interrompido um debate acirrado. Olhavam sem palavras em nossa direção.

Na extremidade mais distante da mesa, havia mais duas pessoas. Uma delas era uma senhora idosa, com os lábios rígidos e o olhar fixo em mim. Claire Latria. E ao lado dela…

Ela está aqui, pensei. Finalmente a encontrei. Sentada ao lado de Claire, uma mulher olhava para o teto com olhos vazios. Ela tinha quase quarenta anos, mas parecia mais jovem. A mulher que meu pai amava mais do que qualquer outra pessoa no mundo.

Minha mãe, Zenith.

Espere, pensei. Por que elas estão aqui?

O que estava acontecendo? Eu ainda não havia feito nenhuma exigência. Não havia dito a ninguém para trazer Zenith.

Bang.

O barulho da porta se fechando atrás de mim quebrou o silêncio. Os Cavaleiros do Templo se posicionaram em frente a porta, ficando em uma fileira como se fossem enfrentar os cavaleiros no fundo da sala. Somente Therese se posicionou à mesa.

— Agora que todas as peças estão no tabuleiro — disse o Papa de seu assento na extremidade mais distante —, vamos conversar, certo?

Aparentemente, muita coisa havia acontecido nas últimas horas. Coisa demais para dar o primeiro passo. Eu era um peão no plano de outra pessoa… De novo.

— Ugh — suspirei com os dentes cerrados.

— Rudeus e Criança Abençoada — continuou o Papa —, vocês dois não querem se sentar?

Parecia que eu tinha um talento para ser pego de surpresa, mas ainda não havia perdido.

Vamos ver onde isso vai dar.


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Flemyz
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Flemyz
2 dias atrás

tragam o próximo o mais rápido!

gabjumel
Visitante
gabjumel
4 dias atrás

obrigado pelo capitulo

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