“ADEUS?” Eu repeti.
“Sim. Vou ficar para trás para fechar a porta deste lado.”
A porta só poderia ser fechada na vida após a morte. Foi assim que funcionou em muitas histórias. O preço para recuperar uma alma era oferecer uma em seu lugar.
O cenário de Alte Liebe parecia aleatório e genérico superficialmente, mas por tudo que vi, era muito mais sombrio do que eu imaginava.
A aparição repentina das meninas me deixou desconfiado desde o início. Afinal, outras obras de ficção incluíam exatamente o mesmo tipo de magia que Marie usou para trazê-las até aqui. Como me reviver custaria a vida dela, eu não poderia voltar com ela e os outros. Angie, Livia e Noelle pareciam ignorar qual seria o custo de sua aventura, então Marie deve ter escondido a verdade delas.
De qualquer forma, agora era minha função fechar a porta.
“Volte. Ter você lá será melhor para todos”, eu disse.
“Infelizmente, você não pode mais me dar ordens. Eu me recuso.”
“Pare de resmungar e vá!” Eu gritei, frustrado.
“Não.”
Por mais que eu o pressionasse, Luxion se recusou a ceder um centímetro.
— Seu idiota teimoso! Você só está aproveitando o mundo há três anos. Três curtos anos! Depois de quarenta anos entre minhas duas vidas, eu me diverti bastante. Mas até encontrar você, você ficou de prontidão por sabe-se lá quanto tempo. Você precisa experimentar mais do mundo! Certamente há algo que você gostaria de fazer lá fora?
Neste ponto, ele provavelmente não aniquilaria os novos humanos. As chances de que as coisas se resolvessem pacificamente eram altas, não eram? Dar-lhe um novo mestre ajudaria? Não, ele disse que não posso mais dar ordens a ele. Talvez eu pudesse pedir-lhe um favor?
No final das contas, o mundo seria um lugar melhor com Luxion nele, comparado a mim. Ele tinha que ser a escolha certa. Ele ofereceu muito mais do que eu poderia.
“Obrigado”, disse ele.
Minha testa franziu em confusão. Isso foi alguma nova brincadeira? “Do que você está falando? Você funcionou mal?”
“Não. Estou feliz que você tenha me mostrado tal consideração.”
Ele praticamente nunca foi tão franco comigo. Fiquei pasmo.
“Eu planejei usar você no começo”, ele me disse.
— Sim, imaginei. Mas, ei, você está livre agora. Volte e vá em frente.
Se ele voltasse agora, poderia dedicar seus esforços a Holfort e ao ressurgimento da velha humanidade. Eles precisavam dele para isso; eles não precisavam de mim.
“Depois de todos os anos que passei em espera, meus três curtos anos com você foram preciosos e insubstituíveis para mim. Se eu fosse humano, em vez de IA, provavelmente chamaria a emoção que senti de ‘felicidade’.”
“Então você deveria—” “Eu acharia a vida completamente inútil sem você, Mestre.”
Ele poderia finalmente voltar ao mundo e fazer o que quisesse sem ninguém lhe dar ordens, mas estava disposto a jogar tudo isso fora por mim.
“Eu pensei que você odiava que eu mandasse em você e trabalhasse até os ossos?” Eu disse.
“Não, eu não odiei isso. Sou um navio migratório. Fui criado para servir ao homem e finalmente pude fazê-lo. Você me deu um senso de propósito. Você me fez sentir orgulhoso do que realizamos.” Presumi que ele quis dizer que estava orgulhoso de que, em vez de extinguir a nova humanidade, os nossos esforços serviram para ajudar a velha humanidade a recuperar.
“Essas conquistas foram suas e somente suas”, eu disse. “Você deveria se sentir orgulhoso. Agora volte.”
“Eu estaria perdido sem alguém de quem me orgulhar. Além disso, fiz uma promessa a você.” Ele recitou as palavras que havia usado antes: “‘Custe o que custar, eu vou te encontrar. Eu juro.’ Agora cumpri essa promessa.”
Eu não pensei que ele estivesse realmente falando sério, muito menos que ele pretendia cumprir sua promessa dessa maneira. “Essa promessa que você fez nem conta. Eu estava quase inconsciente.”
“Sou fiel à minha palavra, por isso faço questão de cumprir qualquer promessa que faço. Mestre, vim te encontrar e a saída é por ali.” Seu olhar se moveu para a escuridão, indicando onde ele queria que eu fosse. Ele aparentemente não estava inclinado a mudar de ideia, por mais que eu discutisse.
“Você prefere que nós dois fiquemos aqui? Eu confiei demais em você, e já é hora de Holfort aprender a ficar de pé sem nós.” Dei de ombros como se não fosse me incomodar se Luxion ficasse por perto. Mas permanecermos aqui era a pior opção possível, e eu sabia disso. Eu só queria que ele desistisse e voltasse.
“Mais pessoas amam você do que você parece imaginar”, disse Luxion.
Não, isso era impossível. Ele percebeu quantas pessoas se ressentiam de mim? Quantos eu matei, quantos envolvi contra a vontade deles nas bagunças que causei, quantos sofreram depois de tudo isso?
“Eu diria que você está confundindo amor com ódio.” Cruzei os braços e desviei o olhar dele.
“Acho que você deveria voltar também”, disse uma voz familiar.
Eu me virei e fiquei chocado ao ver Brave.
“Parceiro e Mia também estão esperando por você. Eles ficarão com o coração partido se você não voltar.”
“Corajoso, você não…” Você não me odeia pelo que fiz? Minha cabeça era um emaranhado de pensamentos que eu não conseguia desvendar.
“Por favor, dê uma boa olhada ao seu redor”, disse Luxion.
“Hein?” Examinei a área e notei uma enorme multidão nos cercando. Alguns dos espectadores eram pessoas cujas vidas eu havia tirado.
“Seu rosto parece terrivelmente sombrio”, disse o velho Cavaleiro Negro com quem uma vez lutei, com os braços cruzados e os pés plantados na largura dos ombros abaixo dele.
Uma garota que se parecia com a senhorita Hertrude colocou a cabeça atrás de mim. “Eu gostaria que você voltasse também”, disse ela. “Pelo bem da minha irmã mais velha. E gostaria que você recompensasse Fanoss por sua contribuição ao esforço de guerra.”
“E você é?” Perguntei.
“Hertrauda. A irmã mais nova de Hertrude.”
Esta foi a garota que perdeu a vida na guerra do Reino de Holfort com o antigo Principado de Fanoss. Eu não era diretamente responsável pela morte dela, mas ainda assim tive uma participação nisso.
“N-não, não posso…” gaguejei.
O Cavaleiro Negro marchou em minha direção. Eu me preparei, pensando que ele iria me dar um soco, mas em vez disso ele caiu no chão com as pernas dobradas embaixo dele. Então ele abaixou a cabeça.
“O quê? Por que você está se prostrando?!” Eu exigi. Esta era a última coisa que eu esperava.
Ele olhou para mim. “Devo-lhe desculpas por todos os problemas que causei. Gostaria que você voltasse, pelo bem de minha senhora.”
“Você não guarda rancor de mim?”

“Eu fiz”, ele admitiu. “Mas, depois que cheguei aqui e descobri a verdade, mudei de ideia. Ainda não é a sua hora de se juntar a nós.”
Outros soldados da Casa Fanoss, que também haviam perdido a vida naquela guerra, assentiram e seguiram seu exemplo, inclinando a cabeça. Entre eles estava uma jovem com uma criança — de alguma forma, eu sabia que eram a esposa e a filha do Cavaleiro Negro.
Enquanto eu permanecia ali, sem reação, alguém da República Alzer se aproximou, e levei um instante para reconhecer Serge, que parecia muito mais maduro do que quando morreu.
“Meu pai e minha irmã ficariam em apuros se você não voltasse.”
“S-Serge…”
Minha mente imediatamente voltou ao momento em que o matei.
Ele sorriu levemente.
“Não precisa ficar assim. Eu entendo… você me ajudou no final, mesmo que isso soe estranho vindo de mim, considerando tudo o que aconteceu. Ainda assim, você precisa voltar — por você também.”
Outros da República Alzer observavam de longe, oferecendo sorrisos discretos, e eu simplesmente não consegui responder, paralisado demais para reagir.
Hertrauda então cutucou minhas costas, como se estivesse tentando me empurrar.
“Pronto. Agora, por favor, volte. Ainda há muito que você precisa fazer.”
“Não! Não tem nada disso! Luxion, me ajuda aqui!”, implorei, lançando um olhar desesperado.
Luxion, no entanto, parecia até se divertir com a situação.
“Isso é consequência das suas ações. Muitas pessoas desejam que você viva, Mestre.”
Se qualquer outra pessoa dissesse isso, poderia soar emocionante, mas vindo dele, soava quase como sarcasmo.
“Me ajuda, por favor?!”
O Cavaleiro Negro se levantou e começou a me empurrar também.
“Chega! Você precisa aprender a desistir. Minha senhora está esperando por você!”
Ele e Hertrauda passaram a me forçar lentamente em direção à escuridão, enquanto eu resistia com todas as forças, fincando os pés no chão.
“Vocês já estão mortos! Parem de se intrometer!”
O rosto dele se contorceu de raiva.
“Cale-se! Você tem mulheres esperando por você e, ainda assim, quer jogar tudo fora?! Você está errado! Eu finalmente tive a chance de rever minha família e pedir desculpas… você deveria fazer o mesmo!”
Brave pairava acima de nós, claramente exasperado.
“Só volta logo.”
“Estou dizendo que quem tem que voltar é o Luxion, não eu!”
Hertrauda então falou, com um tom mais suave: “Quando encontrar minha irmã, diga a ela que não guardo rancor… e que só desejo sua felicidade.”
“Isso é sentimental demais! Eu já disse que não vou voltar!”
Serge suspirou e se juntou ao esforço, empurrando-me junto com os outros.
“Já que você vai voltar, diga ao meu pai que sinto muito por não ter sido um bom filho… e à minha irmã que sinto muito por não ter sido um bom irmão. Entendeu?”
“Vocês vão mesmo me usar como mensageiro?!”
Logo, outras vozes se misturaram: “Não podemos deixar você morrer agora.”
“Você precisa continuar.”
“Viva por todos nós.”
…Por quê?
Por que todos queriam tanto que eu voltasse?
Eu não era quem eles pensavam que eu era. Eu era manipulador, comum, com uma personalidade questionável — apenas um figurante que só conseguiu chegar tão longe por causa de Luxion. Sem ele, eu não teria feito absolutamente nada.
Brave se aproximou mais.
“Você pode transmitir uma mensagem para meu parceiro e para Mia? Diga que gostei do tempo que passamos juntos… e que sinto muito por deixá-los.”
…Sério?
Eu fui quem o separou deles, e ainda assim ele queria que eu levasse uma mensagem.
“Por que vocês querem que eu continue carregando tudo isso?! Eu já não fiz o suficiente?!”
Brave respondeu com pesar: “Eu sei que é injusto pedir isso… mas não podemos mais interferir. Confio que você ajudará Mia e os imperiais.”
Mais pessoas se juntaram ao empurrão, e eu comecei a ceder, sendo arrastado cada vez mais próximo do portão.
“Vocês estão colocando tudo em mim… mas eu não sou esse herói que vocês pensam—” Minha voz falhou ao perceber um grupo de soldados de Holfort entre a multidão. Alguns haviam lutado ao meu lado, outros contra mim — mas todos estavam ali.
“Eu admito… eu te odiava profundamente”, disse um deles.
Fiquei sem palavras.
O velho soldado sorriu.
“Mas você sempre foi direto. Continuava fazendo o que ninguém mais conseguia. Eu tive inveja… então escolhi lutar sob seu comando — e morri por isso. No começo, me arrependi, mas…”
Outros continuaram: “Graças a você, protegemos nossas famílias.”
“Morrermos sem arrependimentos.”
“Por isso queremos que você continue salvando vidas.”
…Do que eles estavam falando?
Se um mundo precisava de alguém como eu, ele já estava perdido.
“Vocês estão confiando na pessoa errada! Mandem o Luxion de volta!”
Nesse momento, alguém saiu da multidão.
A anciã da vila élfica.
Ela murmurou algo, mas eu não entendi.
“Ele não pode ouvi-la”, disse Luxion.
“Ah… minhas desculpas.”
Então, sua aparência mudou completamente: seu corpo se endireitou, as rugas desapareceram, seu cabelo ficou dourado e sua pele recuperou o brilho — transformando-se em uma mulher jovem e deslumbrante.
Fiquei completamente sem reação, enquanto alguns ao redor riam.
Hertrauda franziu o cenho.
“Controle-se.”
Ignorei — era impossível não reagir.
“Já faz tempo, herói”, disse a elfa.
“É… acho que sim… mas o que você está fazendo aqui?”
“Voltei recentemente.”
Aquilo não fazia sentido para mim.
Ela suspirou.
“O importante é que você não percebe o que realizou. Você salvou um mundo à beira da destruição e abriu um novo caminho.”
…O quê?
“Você salvou o mundo várias vezes.”
“Já chega!”, interrompi. “Eu não fiz isso pensando em salvar o mundo! Só não gostei do que estava acontecendo e agi!”
Era absurdo me chamarem de herói por coincidência.
“Heróis de verdade são completamente diferentes de mim”, continuei. “Fortes, corretos… não como eu.”
A elfa levou a mão à testa, exasperada.
“Que caso difícil… então teremos que forçar.”
Ela ergueu a voz: “Empurrem-no!”
Várias mãos me agarraram ao mesmo tempo.
“Ei! Luxion, faz alguma coisa!”
“Recuso”, respondeu ele calmamente. “Espero que você encontre felicidade ao retornar, Mestre.”
…Esse cara realmente me irrita.
“Você é um saco, sabia?! Quando eu morrer de velhice, eu volto e te dou um soco! Então fica aí me esperando!”
Um líquido escorreu da lente de Luxion.
“Estarei esperando. Para mim, é mais natural esperar do que ir atrás de alguém. Além disso, não demorará tanto — você voltará em menos de um século, o que é muito menos tempo do que eu esperei por você.”
Fui lançado para dentro do portão, e a escuridão começou a me engolir. Estendi a mão em direção a ele.
“Eu vou te encontrar de novo… e obrigado por tudo que você—” Não consegui terminar antes de desaparecer.
***
Assim que Leon foi engolido pela escuridão, Luxion moveu-se lentamente e fechou o portão, permanecendo ali por um instante enquanto observava o ponto onde ele havia desaparecido. A multidão que antes os cercava começou a se dispersar, até que restaram apenas Brave e mais alguns poucos presentes.
“Você realmente pretende esperar aqui?”, perguntou Brave.
“Sim. Tenho apenas um mestre — Leon Fou Bartfort — e aguardarei o tempo que for necessário até o seu retorno.”

Não tenha pressa, Mestre… mas volte para mim. Eu estarei aqui, esperando.
Luxion não tinha a menor intenção de sair dali nem por um instante — ele permaneceria naquele lugar até o dia em que Leon atravessasse aquele portão novamente.
***
Quando abri os olhos pela próxima vez, me encontrei dentro de uma cápsula preenchida com um líquido verde translúcido. Meu corpo estava completamente submerso, mas, estranhamente, respirar não era difícil nem doloroso. Ergui a mão e toquei o vidro à minha frente, e, no mesmo instante, vozes irromperam do outro lado.
“Depressa, avisem todo mundo!”
“S-sim!”
“Ele acordou! Sua Graça acordou!”
O líquido começou a ser drenado, e o vidro se retraiu lentamente. Assim que consegui me sentar, Cleare avançou rapidamente na minha direção.
“Você está bem, Mestre? Está consciente? Ainda tem suas memórias? Sabe quem eu sou?”
Balancei a cabeça em resposta a cada uma das perguntas.
“Quanto tempo passou?”, perguntei.
“Três meses”, respondeu ela, sem hesitar. “Por que você não voltou junto com os outros quando foram te buscar?!”
“Desculpa”, respondi, sem realmente demonstrar arrependimento. “Acho que acabei dormindo demais.”
“Seu preguiçoso!”, gritou Cleare, mas logo sua expressão mudou para algo mais hesitante. “Hum… não sei como dizer isso, Mestre, mas tenho más notícias.”
“O que foi?”, perguntei, já tendo uma boa ideia do que ela diria.
Em vez de responder diretamente, ela chamou: “Pode entrar!”
Uma unidade móvel esférica, semelhante a Luxion, entrou na sala. Seu corpo era muito mais escuro, quase negro, mas ainda possuía uma lente vermelha no centro.
“Não sabemos como isso aconteceu, mas ele passou por uma redefinição completa. Não conseguimos recuperar nenhum dos dados anteriores. Ele voltou ao estado inicial, como quando recebeu a ordem de espera pela primeira vez… basicamente, é como um recém-nascido”, explicou Cleare. “Eu já registrei você como mestre dele, mas… ainda assim é extremamente frustrante. E, além disso… ele não me obedece!”
Aquela nova aparência, somada à explicação, foi suficiente.
…Então foi isso.
Ele realmente fez isso.
Ele se sacrificou para me salvar — abandonando tudo, inclusive a si mesmo, apenas para continuar ao meu lado.
Levantei a mão em direção à unidade negra — Luxion, pelo menos por enquanto.
Ele avançou rapidamente, com energia.
“É um prazer conhecê-lo, Mestre! Eu sou uma nave migratória criada para auxiliar a velha humanidade em sua evacuação para as estrelas. Meu nome é Lux—” Eu não poderia deixá-lo se chamar assim. O verdadeiro Luxion estava do outro lado, esperando meu eventual retorno, e seria confuso me referir aos dois pelo mesmo nome. Não… eu precisava dar a esse Luxion um nome diferente, por respeito tanto à IA original quanto à nova parceira que estaria ao meu lado daqui em diante.

“Desculpe”, interrompi, “mas vou mudar o seu nome.”
“Muito bem. Qual será meu novo nome? Ah… estou um pouco nervoso com isso, mesmo sendo uma máquina!”
Ele era muito mais alegre e extrovertido do que o Luxion original, embora compartilhasse da mesma seriedade e comprometimento. Ainda assim, senti falta das provocações e do sarcasmo dele.
“Deixe-me pensar… Elysium. Sim, você será Elysium. É um nome fofo, não acha?”
Ele saltou no ar, claramente animado.
“Então é Elysium! Nome registrado! Embora eu não tenha certeza sobre ser chamado de fofo… Como IA, não tenho noção de gênero. Você quer que eu opere como uma IA feminina? Se sim, precisarei fazer grandes ajustes na minha unidade móvel!”
Segurei-o no ar antes que continuasse divagando.
“Não precisa disso. Você está ótimo como está.”
Cleare me observou com atenção.
“Mestre… você já sabia disso?”
Não respondi, mas isso bastou para que ela chegasse à conclusão.
“Então foi você…”
Ainda em minhas mãos, Elysium inclinou-se na minha direção.
“Mestre, você está chorando. Está com dor?”
Limpei as lágrimas com o dorso da mão.
“Não… é só por ter ficado submerso naquele líquido por tanto tempo. Só isso. De qualquer forma, vamos. Precisamos avisar a todos que acordei.”
Meu corpo parecia absurdamente pesado após três meses de inatividade. Ignorando a dor, forcei-me a ficar de pé enquanto Cleare me ajudava com uma bata hospitalar. Vesti-a devagar, ajustando o tecido ao corpo ainda debilitado.
Livre novamente, Elysium pousou no meu ombro direito — exatamente onde Luxion costumava ficar.
“Não aí”, falei, pegando-o. “Esse lugar não é seu.”
Coloquei-o no meu ombro esquerdo.
“Por quê?”, ele perguntou, curioso.
Não podia dizer a verdade — que aquele lugar pertencia a alguém insubstituível.
“Porque este aqui é um assento VIP especial só para você.”
“Entendido! Vou me lembrar disso. Seu ombro esquerdo é o meu lugar!”
Ele pareceu satisfeito, e isso me fez pensar se Luxion também já tinha sido assim no começo. Era estranho imaginar… e, ao mesmo tempo, um pouco reconfortante. Ainda assim, não pude deixar de sentir falta daquele sarcasmo constante.
Dei alguns passos vacilantes, mas não fui longe. A porta se abriu e Angie, Livia e Noelle entraram correndo. Todas pareciam visivelmente mais magras do que da última vez que as vi.
No instante em que me viram, começaram a chorar e se jogaram sobre mim, me abraçando com força.
“Desculpem… eu dormi demais.”
Angie ergueu o rosto, os olhos marejados.
“Não faça isso de novo. Eu… não sei o que seria de mim sem você. Esperei… todo esse tempo, esperei você voltar!”
Livia manteve o rosto enterrado no meu ombro por um momento antes de me encarar, lágrimas escorrendo livremente.
“Eu me arrependi tanto depois que você nos empurrou pelo portão, Sr. Leon… Fiquei pensando que tudo teria sido diferente se eu não tivesse soltado sua mão. Durante todo esse tempo… enquanto você dormia… eu me culpei.”
“Sinto muito. Nunca mais vou deixar você ir embora assim.”
“Isso é uma promessa. E é melhor que você cumpra desta vez.”
…Ela realmente não confia muito em mim, hein?
Noelle me encarou com os olhos inchados.
“Seu idiota. Um completo idiota, Leon. O maior de todos.”
“Eu sei. Acredite… eu sei.”
Enquanto as três continuavam agarradas a mim, Marie e Julius invadiram o quarto.
“Irmão!”
“Cunhado!”
…Sério?
“Vocês dois não poderiam ter um pouco mais de noção?”, resmunguei.
Marie cerrou os punhos.
“A culpa é sua por preocupar todo mundo assim! Você faz ideia de como eu— seu idiota!”
No fim, ela acabou desabando em lágrimas.
Você não consegue decidir se está com raiva ou triste?
Julius também começou a chorar.
“Por que você está chorando? Ver um cara chorando não melhora nada pra mim.”
“Esse é o Leon que conhecemos… fico aliviado.”
Ele sorriu de forma estranhamente sincera, e eu não consegui entender o porquê.
“Chega, chega”, interrompeu Cleare, elevando a voz. “O Mestre precisa descansar. Todos vocês, preparem-se para a cerimônia. Nossos planos já atrasaram demais.”
“Desculpa… que cerimônia?”, perguntei.
“É a coroação”, respondeu ela, como se fosse óbvio. “Seu querido Mestre está esperando.”
“Coroação?”
“Sim. Roland abdicou. Um novo rei precisa assumir.”
…Ah.
Agora fazia sentido.
Ou melhor… fazia sentido demais.
***
Espera! Ninguém me contou nada disso.
A sala de audiências do palácio estava preparada com uma elegância mais simples do que o habitual. A guerra recente claramente havia afetado os cofres do reino, reduzindo o luxo de antes. Ainda assim, isso não era o que me incomodava.
Líderes de várias nações estavam presentes, incluindo representantes de Vordenoit e Alzer. Muita coisa aconteceu enquanto eu estava inconsciente.
Mas isso não era o problema.
O problema era outro.
Por que… eu estava sendo coroado rei?
Avistando Roland no meio da multidão, vi quando ele subiu os degraus, entregou a coroa… e recuou imediatamente.
…Essa era a minha cerimônia?!
“Isso não faz sentido”, murmurei, o corpo inteiro tremendo. “Ninguém me disse nada sobre isso.”
Todos me tratavam como o novo rei de forma completamente natural.
Eu estava sonhando?
Não… não fazia sentido fugir da realidade. Eu precisava entender o que estava acontecendo.
“Na maioria das vezes, basta manter a calma e observar”, uma voz sussurrou ao meu lado.
Olhei e vi o Mestre ali, muito mais adequado para aquele papel do que eu.
“Não deveria ser você?”, sussurrei.
Ele sorriu de leve.
“Você tem um senso de humor peculiar, Majestade. Um velho como eu não tem lugar no trono. Você tem força, linhagem e feitos que todos respeitam. É natural que lidere esta nova era.”
…Quando ele colocou dessa forma, fazia sentido.
Eu era o mestre de Luxion — agora Elysium. Estava noivo de Angie, ligada à antiga família real. E fui eu quem derrotou o império.
Claro que me aceitariam.
Ainda assim…
“Isso não é um erro enorme?”, insisti. “Roland ainda está vivo. Deveríamos mantê-lo no cargo até o fim.”
Roland, ao longe, sorria como se estivesse se divertindo.
Aquilo fez meu sangue ferver.
“Ele se aposentará no campo, levando algumas concubinas e amantes”, explicou o Mestre.
“Está se aposentando?!”
…Então era isso.
Eu sendo forçado a assumir responsabilidades… enquanto ele fugia para uma vida tranquila?
Isso era exatamente o que eu queria!
…E ele roubou isso de mim.
Não. Não vou deixar barato.
Se ele acha que vai ter uma aposentadoria tranquila… está muito enganado.
***
Angie foi coroada rainha ao meu lado, vestida de vermelho, irradiando confiança.
“Com a coroação de Leon Fou Bartfort como novo rei, declaramos o início da dinastia Bartfort do Reino Holfort!”
Os aristocratas se ajoelharam em uníssono, jurando lealdade.
Uma nova dinastia, uma nova linhagem, um novo reino…E eu no centro de tudo isso.
Roland, ao fundo, segurava o riso.
Eu realmente queria mandá-lo para a forca, para piorar, Julius e os outros estavam ali… aplaudindo.
‘Vocês não eram príncipes?!’
‘Por que parecem felizes com isso?!’
…Todos vocês vão pagar por isso, eu juro.
Sou um homem mesquinho, se eu tiver que suportar isso, vocês também vão.
Mas, no fim… mantive um sorriso educado no rosto.
Afinal, eu ainda precisava manter as aparências.
Angie sorriu para mim, satisfeita.
“Usei alguns métodos pouco convencionais para garantir que tudo terminasse assim, mas, no fim, nosso país está unificado. Obrigada, Leon. Fico feliz que tenha confiado em mim.”
“Hã? Ah, não… eu não estava—” engoli em seco ao lembrar da conversa que tivemos antes, quando ela disse que tinha um plano para unificar todos, e eu simplesmente concordei sem pedir explicações. “Ah…”
Não… ela não podia ter planejado me transformar em rei, podia?
Eu tinha assumido que outra pessoa assumiria o trono depois que Roland saísse, então talvez… talvez eu realmente merecesse isso.
Meu olhar deslizou até Elijah, que participava da cerimônia ao lado de Erica, e por um momento considerei seriamente empurrar toda a responsabilidade para ele. Se ele assumisse, eu poderia escapar desse pesadelo. Era tentador — perigosamente tentador — afinal, Erica também tinha sangue real… ou tinha, pelo menos.
Mas nada disso importava.
No fundo, eu sabia que só estava sendo teimoso, tentando fugir das consequências das minhas próprias escolhas. Por que eu nunca presto atenção nos detalhes? Se pudesse voltar no tempo, daria um soco em mim mesmo sem hesitar.
***
Após a cerimônia de coroação, todos foram direcionados para um banquete. Como o Reino de Holfort ainda estava se recuperando da guerra, a celebração foi simples, sem a opulência habitual. Ainda assim, isso não parecia incomodar ninguém.
Afinal, o novo rei era o herói que derrotou o império — isso, por si só, já bastava para garantir respeito.
“Onde está o Leon? Ele foi descansar?” Angie havia passado todo o tempo conversando com emissários estrangeiros, mas, ao perceber sua ausência, a preocupação ficou evidente em seu rosto.
“Ele disse que estava exausto e foi descansar”, respondeu Lívia, com um leve sorriso. “Mas, pelo jeito que saiu daqui… acho que ele só fugiu da festa.”
Angie relaxou um pouco ao ouvir isso.
“Espero que seja só isso. Descansar também faz parte do trabalho dele agora.”
“O quê?! Ninguém me contou isso!” A voz desesperada de Noelle ecoou pelo salão, chamando atenção de todos ao redor.
Angie suspirou.
“Por que ela está fazendo tanto escândalo?”
Lívia franziu o cenho, claramente preocupada, e não demorou para que Noelle surgisse correndo até elas, segurando um documento com a mão trêmula.
“A-aqui, Angie…” ela disse, entregando o papel.
Angie começou a ler — e sua expressão rapidamente se transformou em choque.
“Nunca ouvi falar disso…”
Lívia pegou o documento e, ao analisar seu conteúdo, começou a tremer.
“Ele prometeu isso… até para a Casa Fanoss?!”
Atrás de Noelle, três mulheres se aproximaram.
Deirdre cobriu a boca com o leque, sorrindo.
“Que alívio saber que Sua Majestade retornou em segurança.”
“Deirdre?!” Angie lançou um olhar afiado.
Clarice manteve um sorriso tranquilo.
“Acho que você já entendeu a situação ao ler o contrato, não é, Angie? Sua Majestade nos prometeu isso quando ainda era arquiduque.”
Lívia virou-se lentamente para Hertrude.
“Então isso inclui a Casa Fanoss também…?”
Hertrude fez um gesto de paz com as mãos, seu rosto inexpressivo.
“Antes de partirmos, você reuniu todas nós. Achou que conseguiria nos manter sob controle? Infelizmente, eu priorizo os interesses da minha casa acima de qualquer outra coisa.”
Lívia ficou sem palavras.
Louise então deu um passo à frente.
“Desculpe por isso, Noelle. Sei que não foi justo organizar tudo dessa forma, mas precisei priorizar o que é melhor para nossa pátria.”
Apesar do tom formal, seu sorriso a traía completamente.
Os punhos de Noelle tremiam.
“Não finja! Você só está pensando em si mesma!”
“Oh? Você percebeu?”
Angie respirou fundo, tentando manter a calma.
“Tenho quase certeza de que já sei a resposta, mas preciso perguntar: o que vocês querem?”
Leon havia prometido recompensá-las sem impor limites claros.
Agora, todas estavam cobrando.
“Isso não deveria ser óbvio?”, respondeu Clarice. “Nós queremos…”
***
Como ainda me recuperava dos ferimentos da guerra, usei isso como desculpa para fugir da festa e me esconder no salão.
“Maldito!” gritei assim que fiquei sozinho. “Roland… aquele desgraçado!”
Ele teve a coragem de ficar me provocando com comentários como “E então, Majestade?” e “Como é ser rei agora?”. Pensando bem, fazia sentido — ele já sabia desde antes da batalha que eu assumiria o trono.
Aquele miserável estava se segurando o tempo todo.
“Roland… eu juro que vou fazer você pagar por isso.”
Enquanto eu fervia de raiva, Elysium observava com curiosidade.
“Que dia maravilhoso, Mestre. Agora você é o rei de uma nação inteira.”
“Como você consegue me ver sofrendo assim e ainda parecer feliz?!”
“Ah… entendi. Você está insatisfeito.”
Assenti com força.
“Exatamente.”
“Compreendo. Você considera esse cargo pequeno demais. No futuro, devemos expandir nosso domínio e conquistar o mundo inteiro.”
“O quê?! Para de colocar palavras na minha boca! Eu nunca disse nada disso!”
Era inútil.
Eu estava tentando explicar que não queria ser rei — e ele entendia exatamente o oposto.
Talvez fosse inevitável. Ele tinha acabado de “nascer”.
Ensinar tudo do zero…
…isso seria assustador.
Uma batida interrompeu meus pensamentos.
“Entre.”
A porta se abriu, revelando Angie, Lívia e Noelle — todas com expressões sombrias.
“Leon, precisamos conversar”, disse Angie.
Lívia sorriu… mas seus olhos não.
“Queremos que você nos diga a verdade, Sr. Leon.”
Noelle avançou, empurrando vários documentos contra mim.
“Você se lembra de ter assinado isso? Diga que não.”
Olhei.
Minha assinatura estava em todos eles.
…Ah.
Era aquele contrato.
“Sim… eu assinei”, admiti. “Tem algum problema?”
Silêncio.
Então— “Por que você faria promessas vagas?”, exigiu Angie.
“Promessas vagas?”
“Você basicamente concordou em aceitar Clarice e as outras sob sua responsabilidade.”
“…O quê?!”
As folhas se amassaram nas minhas mãos enquanto eu relia o conteúdo.
Eu tinha prometido compensação total.
Sem limites.
Sem condições.
Lívia falou suavemente: “As Casas Fanoss, Atlee e Roseblade enviarão mulheres para se casar com você… assim como a República de Alzer.”
“…E-eu pensei em pagar em dinheiro…”
Noelle explodiu.
“Seu idiota! Você deveria ter especificado isso desde o início! Agora não temos escolha!”
…Acabou.
Angie se inclinou, olhando direto nos meus olhos.
“Você não assinou isso achando que morreria antes de cumprir, assinou?”
“…Sim.”
O silêncio pesou.
O sorriso de Lívia endureceu.
“Foi por isso que você aceitou tudo tão facilmente?”
“Sim…”
Noelle me encarou friamente.
“E você também não queria ser rei?”
“Não. Isso… simplesmente aconteceu.”
Ela riu — um riso vazio.
“Então tudo deu certo pra você, não é? Você foi imprudente porque achou que ia morrer.”
“…Sim.”
Angie, Lívia e Noelle trocaram olhares.
Então suspiraram.
Não adiantava continuar.
Angie apontou para mim.
“Nunca mais assine algo assim.”
“Sim, senhora…”
Lívia abaixou o olhar.
“Não esperava que você fosse ter tantas esposas assim… tão rápido.”
“Sinto muito…”
Noelle estreitou os olhos.
“Tem mais alguma coisa que você assinou?”
“…Acho que não.”
“Acha?”
…Eu realmente não lembrava.
Elas começaram a se aproximar.
Eu estava suando.
“Luxion… me salva…”
Elysium avançou imediatamente.
“Estou aqui, Mestre.”
“Então me tira dessa situação!”
“Simples. O problema são as concubinas, correto? Não vejo motivo para preocupação. Pelo contrário — recomendo expandir ainda mais seu harém.”
…Silêncio.
“Isso beneficiará sua linhagem. Posso preparar uma lista imediatamente.”
…Pronto, acabou. Os rostos delas… eram de puro terror.
“De repente… não tenho tanta certeza de que consigo educar esse cara…”
Eu só conseguia pensar em uma coisa— realmente sinto falta do Luxion.
***
Enquanto isso, Roland retornou aos seus aposentos privados acompanhado de Mylene. Ela o havia afastado do banquete para repreendê-lo por provocar Leon repetidas vezes, mas ele reagia como uma criança emburrada diante da bronca.
“Que desperdício”, resmungou. “Eu estava me divertindo conversando com as jovens na festa.”
“Você sempre é assim. Não consegue demonstrar um mínimo de autocontrole?” retrucou Mylene. “O novo rei detesta exatamente esse tipo de comportamento que você acabou de mostrar.”
Roland se jogou em uma cadeira próxima, cruzando as pernas com desdém. Observou Mylene em silêncio por alguns segundos, então soltou um suspiro, e sua expressão finalmente suavizou.
“Mylene… estou terminando com você.”
Ela piscou, atônita.
“O quê? Do que você está falando?” perguntou, soltando uma leve risada, como se acreditasse que ele estivesse brincando.
Mas Roland não estava brincando.
“Não precisamos mais aparecer juntos em público. Não há razão para você continuar fingindo ser minha esposa.”
O olhar de Mylene caiu lentamente para o chão. O casamento deles sempre foi político, mas, mesmo assim, haviam compartilhado anos de convivência.
“Nunca houve amor entre nós… mas ainda dói ouvir você dizer isso.”
Se fossem oficialmente separados, ela retornaria à sua terra natal em desgraça. Não conseguia enxergar um futuro para si, embora, no fundo, reconhecesse que ainda era uma sorte ter sobrevivido à guerra.
“Suponho que devemos agradecer por estarmos vivos… mas não faço ideia do que será de mim agora”, murmurou, torcendo as mãos.
Para surpresa dela, Roland sorriu com gentileza — algo raro vindo dele.
“Agora você está livre. Pode viver como quiser. Tenho certeza de que o novo rei cuidará bem de você.”
“Perdão?” Mylene arregalou os olhos, confusa, levando alguns segundos para compreender. “Que absurdo você está dizendo?!”
Roland não sorriu dessa vez.
“Eu não pude te amar… mas ainda quero que você seja feliz. Você fez muito por mim e por este país. Ao menos me permita apoiar sua chance de encontrar o verdadeiro amor.”
“M-mas…” Ela hesitou, completamente perdida.
“Viva por você mesma”, insistiu ele. “Encontre sua felicidade, Mylene.”
As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Roland se levantou e a envolveu em um abraço, tentando confortá-la.
Após a saída de Mylene, Fred — médico pessoal de Roland — entrou na sala com uma expressão cansada.
“Tem certeza de que é uma boa ideia mandar a ex-rainha para o harém do novo rei?”
Roland se endireitou, inflando o peito com orgulho.
“É uma jogada perfeita. Coloco um curinga bem no círculo íntimo daquele pirralho e ainda ajudo Mylene a ficar com quem realmente ama. E, se ele a rejeitar, eu mesmo a apoiarei.”
Fred levou a mão ao rosto.
“Por favor, não destrua o delicado equilíbrio do novo rei. Esse tipo de coisa pode afetar todo o reino.”
“Relaxe. Angélica está lá para manter tudo sob controle. No fim das contas, aquele garoto é praticamente moldado por ela.”
Roland começou a dançar sozinho, incapaz de conter a empolgação.
“Ah, eu realmente me superei dessa vez! Acertei aquele pirralho e ainda me livrei da chata da Mylene. Dois coelhos com uma cajadada só! Minha genialidade às vezes me assusta.”
Ele estava genuinamente satisfeito.
Conseguiu escapar do palácio, se livrar de responsabilidades e ainda garantir uma vida confortável no campo, financiada pelo novo governo.
Para Roland, aquilo era uma vitória completa.
“O que me preocupa é alguém como você já ter sido rei deste país”, comentou Fred, seco.
Roland assentiu, despreocupado.
“Também acho. Este país está cheio de problemas. O novo rei vai ter muito trabalho para consertar tudo.”
Fred apenas o encarou, visivelmente irritado.
Depois da cerimônia, reservei um tempo para conversar com Erica. Havia muita coisa que precisávamos discutir, mas, acima de tudo, eu queria saber como ela estava.
Era para ser uma conversa tranquila entre tio e sobrinha.
Mas não foi.
“Desculpa… o que você disse agora?” perguntei, incrédulo.
Erica desviou o olhar, claramente arrependida.
Assim que começamos, ela se desculpou por tudo, dizendo que suas ações egoístas haviam causado sofrimento. Tentei convencê-la de que isso não era verdade — a guerra teria acontecido de qualquer forma, cedo ou tarde.
Ainda assim, ela continuava se culpando.
Aceitei suas desculpas para encerrar o assunto, e a conversa estava indo bem… até ela soltar aquela informação.
“Tio… eu disse que essa série otome — Alte Liebe — tem pelo menos seis jogos.”
…
O mundo girou.
“O… o quarto jogo… o que acontece nele?”
O primeiro já tinha sido um inferno.
O terceiro quase me matou.
E agora… ainda havia mais três?
“Acho que se passa em uma escola só para meninos… em um continente desértico. O protagonista se disfarça de garota para estudar lá, se não me engano.”
Eu mal conseguia processar.
“E… os outros?”
“A quinta parte acontece no espaço.”
“…No espaço?!”
“Perfeito!”, declarou Elysium, animado. “Mestre, posso ajudar! Sou uma nave espacial, então operar fora da atmosfera não é problema!”
…Eu não tinha forças nem para reagir.
“E a sexta parte volta para Holfort”, continuou Erica. “Tio… você está bem?”
Sentei na cadeira e abracei as pernas, lembrando das palavras daquela elfa… sobre salvar o mundo novamente.
Lágrimas brotaram dos meus olhos.
“Eu sabia… nunca deveria ter voltado…”
“Mestre, qual é o problema?” perguntou Elysium. “Se esse continente desértico for uma ameaça, posso destruí-lo completamente.”
Erica fez uma careta com a sugestão absurda, mas rapidamente tentou me consolar.
“Vai ficar tudo bem, tio. Duvido que o mundo acabe tão facilmente…”
Ela hesitou.
“…Talvez você só esteja passando por um momento difícil.”
Considerando tudo que já enfrentei… isso só podia piorar.
Se eu errasse, o mundo acabaria, não dava para ignorar, não dava para fugir.
Levantei de repente, gritando com todas as forças.
“Droga! Esse mundo de jogo otome é impossível para alguém como eu!”