Tradutor: miggigibe
No Reino de Asteria, localizado a leste do centro do continente.
Em um pequeno quarto do lado direito do segundo andar da residência do conde Palatio, na região sul.
— …Conseguiu cumprir a ordem?
— Sim, consegui.
O cavaleiro, que permanecia de pé, baixou a cabeça em resposta ao homem sentado na cama.
— Como ordenou, resgatei os órfãos do pequeno vilarejo no leste do reino… Não, melhor dizendo, os órfãos da instalação onde faziam experimentos em humanos.
— E garantiu que o orfanato fosse administrado adequadamente?
— Sim. Como instruiu, deixei o orfanato aos cuidados de uma garota chamada Yutia.
— …Terminou a conversa com a família do barão que administra aquele vilarejo?
— Sim. Assim que mostrei os documentos relacionados aos experimentos em humanos, eles cederam obedientemente a todas as nossas exigências, inclusive quanto ao castelo inteiro.
Dizendo isso, o cavaleiro Evan tirou do peito uma bolsa de couro e a colocou diante da mesinha que ficava ao lado de Alon.
— Ótimo.
Alon abriu a bolsa e sorriu satisfeito ao ver as moedas de ouro dentro dela.
— Jovem mestre, se me permite perguntar uma coisa…?
Depois de um breve silêncio, Evan falou.
— O que foi?
— O senhor disse que atacou a instalação de experimentos em humanos no território do barão Alfon para salvar aquela garota, Yutia, certo?
Alon assentiu, fazendo um gesto para que ele continuasse, e Evan prosseguiu.
— …De fato, ela era extraordinária. Eu mesmo passei muito tempo vivendo como mercenário.
Evan fez uma pausa, como se organizasse os pensamentos, e então continuou.
— Mas é difícil entender por que uma garota tão poderosa estava presa naquela instalação.
— E?
— …Por que simplesmente a deixou no orfanato?
Alon permaneceu em silêncio diante da pergunta, feita num tom de leve incompreensão.
Na verdade, a pergunta de Evan era perfeitamente razoável. Resgatar uma garota como Yutia sem tirar proveito dela de forma alguma era um ato que não trazia benefício nenhum.
Mas isso era apenas do ponto de vista de Evan. Para Alon, a situação parecia bem diferente.
‘Já eliminei um dos gatilhos que levariam à destruição do mundo. Por enquanto, isso basta.’
Yutia.
Seu nome verdadeiro era Yutia Bludia.
Daqui a dez anos, ela se tornaria um dos Cinco Grandes Pecados, o “Pecado da Ira”, e varreria do continente dois dos cinco reinos aliados, causando centenas de milhares de vítimas.
Se alguém perguntasse como Alon sabia o que aconteceria dez anos depois, a resposta era que ele havia reencarnado. Além disso, ele sabia que aquele era o mundo de um RPG de fantasia sombria chamado Psychedelia e que seria completamente destruído dali a dez anos.
— Haa…
Alon apertou a cabeça latejante ao se lembrar do momento em que recuperara a consciência pela primeira vez, dois meses antes, e soltou um longo suspiro.
‘No começo, só perceber que este era um mundo de fantasia me deixou de cama por três dias. Depois, descobrir que eu estava dez anos antes do início da trama principal de Psychedelia me deixou doente por mais dez.’
No início, quando Alon achou que simplesmente havia reencarnado em um mundo de fantasia, passou cerca de três dias em desespero. Porém, à medida que começou a se adaptar ao mundo, a situação já não parecia tão ruim.
Surpreendentemente, ser nobre era bastante tranquilo.
A vida de um nobre era incrivelmente confortável. Ele podia acordar quando quisesse, dormir quando quisesse, fazer o que quisesse e comer sempre que tivesse vontade.
Embora fosse o terceiro filho de um conde e não tivesse nenhum poder de verdade, estava numa posição em que podia aproveitar plenamente os prazeres da vida sem assumir responsabilidades.
Por isso, no começo, ficou até um pouco feliz.
Para alguém que trabalhava 78 horas por semana em um emprego mal remunerado, a vida de nobre era um luxo inacreditável.
É claro que não ter acesso à internet, o ápice da civilização moderna, era uma desvantagem grave. Ainda assim, a vida de nobre era satisfatória o bastante para fazê-lo relevar esse problema.
Mas isso durou pouco.
O humor de Alon despencou assim que ele percebeu que o continente se chamava Ampelan.
…E piorou ainda mais quando se lembrou de que a família nobre na qual havia reencarnado era a família do conde Palatio.
Ampelan era o nome do continente de Psychedelia, o jogo que ele jogava no pouco tempo livre que lhe sobrava enquanto se matava de trabalhar.
E a família do conde Palatio era mencionada brevemente em uma das missões do jogo.
Além disso, o desespero que sentiu ao perceber que estava dez anos antes do início da trama principal de Psychedelia foi tão esmagador quanto na época em que seu salário atrasou por três meses consecutivos.
O mundo de Psychedelia era um lugar onde, dali a dez anos, todas as criaturas vivas, fossem nobres ou plebeus, seriam impiedosamente reduzidas a pó.
Entre os mais condenados estava o Reino de Asteria, ao qual pertencia a família do conde Palatio. Em qualquer rota do jogo, no instante em que um dos Cinco Grandes Pecados aparecia, o reino era apagado do mapa.
Em outras palavras, era destruído.
O reino desapareceria. A nobreza sumiria. As cidades seriam obliteradas.
Em resumo, a vida de Alon como terceiro filho da família do conde Palatio inevitavelmente chegaria ao fim dali a dez anos.
Assim, se quisesse continuar desfrutando de sua pacata vida de nobre, Alon teria de eliminar todos os Cinco Grandes Pecados, destinados a se tornar máquinas de matar seres humanos no futuro.
E o que estava fazendo agora fazia parte desse plano.
— Bem… é isso.
No entanto, não havia como explicar tudo aquilo a Evan.
— É só que ainda não chegou a hora.
— …Ainda não chegou a hora?
— Sim. Enfim, garanta que esse assunto não vaze e continue apoiando o orfanato como pedi. Ah, e mais uma coisa.
Alon tirou uma carta do peito e a entregou a ele.
— Entregue esta carta a ela.
— …Esta carta?
Evan perguntou, curioso, e Alon respondeu.
— Sim.
Na verdade, aquela carta era importante.
A carta continha uma frase que sempre aparecia em um evento obrigatório ao encontrar o Pecado da Ira no jogo Psychedelia.
‘O sofrimento das trevas, a iluminação da luz. Um único desespero e pertencimento.’
Essa frase era dita por um NPC arcebispo um tanto suspeito de certa nação sagrada, que acompanhava o protagonista e tentava acalmar o Pecado da Ira. Porém, no momento em que a pronunciava, o arcebispo se transformava em um monte de sangue, e o Pecado da Ira dizia “É tarde demais”, com uma expressão irritada, antes de a batalha começar.
Alon decidira usar aquela frase agora porque o momento atual era aquilo a que o Pecado da Ira se referia como “o passado” durante o jogo.
Ele tinha visto a frase repetidas vezes enquanto jogava de novo e de novo, descrita pelo NPC arcebispo como um “encantamento que permitia fazer amizade com a Linhagem”.
‘Claro que é ridículo pensar que recitar um único encantamento faria você virar amigo daquelas criaturas insanas que fazem pactos com Cthulhu e detêm poder… Mas, considerando que são pessoas que veneram seres assim, estranhamente até faz sentido.’
Era impossível prever o que se passava na cabeça de gente cuja mente beirava o fanatismo.
Enquanto observava o cavaleiro mercenário se curvar respeitosamente e sair do quarto, Alon deu de ombros e pensou consigo mesmo.
‘Agora que eliminei a primeira bomba-relógio, está na hora da segunda.’
Alguns dias depois.
— Aqui está a carta.
Cumprindo as ordens de Alon, Evan chegou mais uma vez ao orfanato e entregou a carta a ela, sem conseguir esconder o desconforto.
Era compreensível, pois a garota diante dele, Yutia, era estranha.
Seus olhos vermelhos, em forte contraste com os cabelos brancos, não continham emoção alguma.
Não, não dava para detectar sequer um vestígio de emoção.
Apatia absoluta.
A garota, que parecia considerar todos os seres do mundo meros objetos, estendeu a mão e recebeu a carta com a mesma expressão que tinha quando Evan a resgatara do orfanato pela primeira vez.
Frrr, frrr…
Yutia começou a abrir a carta em silêncio.
Evan continuou com uma expressão intrigada, sem conseguir compreender por que ela havia sido confinada em uma instalação daquelas.
Embora ainda não tivesse alcançado a maestria, Evan conseguia manipular mana e, com isso, também era capaz de sentir a energia dos outros.
Além disso, o talento de Evan para sentir mana era muito superior ao dos outros cavaleiros, o que lhe permitia percebê-la com uma precisão muito maior.
Por isso, ele sabia.
‘Não importa por que lado se olhe, isso não faz sentido.’
A garota diante dele era poderosa demais para ter ficado presa em um lugar daqueles.
E, enquanto Evan refletia sobre isso, outra pergunta surgiu em sua mente.
Era sobre o terceiro filho da família do conde Palatio, que o contratara alguns meses antes em uma taverna.
Durante o tempo em que trabalhou como mercenário, Evan ouvira dizer que o terceiro filho da família do conde Palatio era tratado praticamente como um excluído da família, o típico filho bastardo e sem talento de uma casa nobre.
Também corriam rumores de que, por causa de sua natureza tímida, ele era frequentemente intimidado pelos irmãos mais velhos, notórios canalhas.
Então como aquele terceiro filho do conde sabia dos experimentos secretos em seres humanos que a família do barão conduzia naquela instalação escondida?
‘Não entendo nada disso.’
Enquanto Evan estava perdido em pensamentos, seus olhos de repente se arregalaram.
O motivo era…
Yutia, que até um instante antes permanecera ali sem expressão, agora exibia um largo sorriso nos lábios.
Não, era mais do que apenas um sorriso.
‘A mana dela… está ficando visível a olho nu…?!’
Ela demonstrava, sem o menor esforço, uma habilidade que só podia ser exibida por quem havia alcançado certo grau de maestria.
E então…
— A pessoa que enviou esta carta… foi o senhor Alon?
Enquanto Yutia falava, suas pupilas verticais, características da Linhagem e semelhantes às de um réptil, encararam Evan diretamente.
Mesmo com apenas aquele olhar, Evan, que havia alcançado o nível de especialista, sentiu seus sentidos dispararem um alerta instintivo. Embora puxasse o ar em choque, sem fazer um som, recompôs-se rapidamente e respondeu.
— Sim.
— Por que ele não me chamou?
A pergunta de Yutia.
Embora lhe passasse pela cabeça que não sabia, Evan evitou dizer isso sem pensar.
Seus instintos diziam que seria uma péssima ideia.
Em vez disso, Evan se lembrou de um comentário casual que Alon fizera e respondeu.
— …Ele disse que ainda não era a hora certa.
— Entendo.
Uma resposta curta.
Mas era a resposta correta, como mostrava o sorriso que se alongava, arqueando-lhe os lábios.
Ela…
Yutia Bludia… não.
— …Entendo.
A primeira filha da Linhagem, Yutia, Rainha Sangrenta, moveu seus fascinantes lábios vermelhos e disse:
— Entendo a vontade dele.
Mantendo junto de si a carta que continha uma frase secreta conhecida apenas por seu mestre, ela retorceu os lábios num sorriso bizarro.