Tradutor: miggigibe
A posição dos magos neste continente segue uma estrutura bastante peculiar.
Assim como em muitos outros mundos de fantasia, os magos em geral desfrutam de grande prestígio. Quando um mago pertence a uma "Torre", porém, chega um ponto em que sua posição passa a ser comparável à da nobreza.
Isso não se deve apenas à diferença de habilidade entre os magos que fazem parte de uma Torre e os que não fazem. A principal razão está na própria Torre.
Existem apenas seis Torres neste mundo, e elas monopolizam a produção de diversos bens essenciais aos Reinos Unidos, inclusive à alta nobreza.
Em outras palavras, a combinação entre o poder de combate dos magos e o monopólio da produção de bens indispensáveis eleva a influência das Torres ao mesmo patamar da autoridade nobiliárquica.
Além disso, dizem que a autoridade de um vice-mestre, o substituto do mestre de uma Torre, é tamanha que chega aos céus.
Mesmo sabendo de tudo aquilo, Alon não pôde deixar de perguntar:
— Esse tratamento não é um pouco demais?
Alon olhou para a vice-mestra da Torre com certa perplexidade, embora seu rosto continuasse impassível.
Envolta em um manto azul, símbolo da Torre Azul, e com os longos cabelos azuis caindo até a cintura, ela apoiava a cabeça em uma das mãos como se tudo no mundo fosse um incômodo, enquanto segurava uma caneta com a outra.
Seu nome era Penia Crysinne.
Em Psychedelia, ela aparecia uma ou duas vezes na história principal como uma maga que, aos meros 22 anos, havia alcançado o 7º ranque. Um talento absurdo.
Ela também era uma maga poderosa que possuía uma Origem.
Naquele momento, porém, antes do início da história original, Penia ainda não havia se tornado Mestra da Torre e parecia estar no 6º ranque, não no 7º.
— …Como mencionei antes de nos encontrarmos, vim conversar sobre o Shimon.
— O que tem ele?
Alon continuou, observando Penia lutar contra uma pilha de documentos sem sequer olhar para ele.
— Eu consigo eliminar o Shimon.
Ao ouvir aquilo, Penia ergueu os olhos de repente e encarou o rosto dele com uma intensidade quase histérica.
Havia um traço de curiosidade em sua expressão.
Mas, pouco depois, ela exibiu uma decepção descarada e estalou a língua.
— Bem, se já terminou, pode ir embora.
— …Ainda não ouvi sua resposta.
— Que resposta?
— Eu disse que consigo eliminar o Shimon.
— Ha.
Penia abriu um sorriso de puro deboche ao ouvir Alon.
— Com licença. Quem é você mesmo?
— Alon, conde Palatio.
— Então o nosso conde Palatio está dizendo que consegue eliminar o Shimon?
— Sim.
— Ah, entendi~ O nosso conde Palatio consegue eliminar o Shimon, é?
— …Por que está agindo assim?
Alon perguntou diante do sarcasmo descarado dela.
— Acha que é a primeira pessoa a dizer isso? Acha que é o único que veio até aqui atrás do tesouro que se obtém ao eliminar o Shimon? Hmm?
Vendo Penia balançar a cabeça como se já estivesse completamente farta daquilo, Alon insistiu:
— Não estou mentindo. Se me levar até o Shimon, eu mostro na hora.
— Quantas pessoas acha que já disseram isso na minha frente?
— Eu realmente consigo eliminá-lo.
Ao ouvir Alon, Penia largou de repente a caneta que segurava, franziu o cenho sem disfarçar e liberou seu poder mágico de uma só vez.
Estalo!
Aquilo não era a manifestação de um feitiço.
Era apenas uma onda de energia mágica.
A onda, dispersa de forma desordenada pelo estado emocional de Penia, provocou anomalias no escritório em um instante.
A sala inteira começou a tremer como se um terremoto tivesse atingido o lugar, e rolos e pergaminhos despencaram das estantes.
Em meio a tudo aquilo, Penia continuou:
— Com licença.
— Já está começando a vir à tona que você só virou conde porque um bando de imprestáveis morreu convenientemente, e agora está desesperado por alguma forma de reverter a situação. Mesmo assim, não deveria vir causar problemas aqui, certo?
Enquanto Penia baixava a voz, tomada por uma agitação histérica, Alon percebeu novamente duas coisas.
A primeira era que, apesar de parecer soterrada de trabalho, ela estava surpreendentemente bem informada sobre o mundo lá fora.
Na verdade, como Penia acabara de dizer, desde que se tornara conde, Alon vivia quieto, sem interferir no submundo, e rumores sobre ele haviam começado a se espalhar.
A segunda coisa que percebeu foi que a raiva que havia sentido antes, por não suportar a forma como ela o tratava, desaparecera estranhamente, como se tivesse sido curada.
'Ela é assustadora.'
Alon percebeu que, mesmo sem ter alcançado o 7º ranque, Penia já era claramente uma super-humana que havia ultrapassado o domínio das pessoas comuns. Bastava ver os fenômenos anormais que ela provocava simplesmente deixando sua energia mágica escapar.
'É melhor eu não abusar da sorte, ou vou acabar partido ao meio.'
Embora fosse um mago de 2º ranque, Alon entendia perfeitamente que sua vida correria perigo se Penia decidisse usar magia contra ele. Por isso, falou:
— Se não confia em mim, aposto toda a minha fortuna.
— O quê?
Apesar do medo, a expressão de Alon permanecia tão impassível quanto sempre.
— Estou falando sério. Se eu não conseguir eliminar o Shimon, doarei toda a minha fortuna à Torre Azul. Não, como este é um acordo particular, entregarei tudo diretamente a você.
— …Que absurdo.
— É claro que você não precisa apostar nada. Só eu farei isso, e estou disposto a prestar um juramento, se for necessário.
— …
Penia franziu o cenho diante das palavras de Alon, mas ele continuou com a mesma expressão impassível.
— Considerando que você só perderia um pouco de tempo, parece um acordo bastante vantajoso. O que acha?
Depois de alguns instantes de silêncio, Penia respondeu:
— Redija um contrato.
Penia Crysinne.
Uma jovem prodígio que alcançou o 6º ranque com apenas 21 anos e a atual vice-mestra da Torre Azul, subordinada a quem ocupava o posto de Mestre da Torre.
Ela conduziu Alon até o subsolo e parou diante da porta da sala onde o Shimon era mantido.
— É aqui. Assim que abrir esta porta, o Shimon estará lá dentro.
Sem hesitar, Alon avançou para segurar a maçaneta.
— Lembre-se de que já temos um contrato por escrito, então não vou facilitar para você. Se fracassar, toda a fortuna da família Palatio será minha. Entendeu?
Apesar do aviso de Penia, Alon virou calmamente a cabeça para olhá-la.
Seus olhos sem emoção, que nada revelavam, passaram por ela enquanto ele respondia:
— Isso não vai acontecer.
Creeeec…
Com essas palavras, abriu a porta sem hesitar e entrou. Enquanto observava Alon se afastar, Penia se lembrou dos rumores a respeito dele.
Houve uma época em que ele era conhecido como a figura oculta por trás da família Palatio, alguém que matara todos os outros herdeiros para se tornar conde.
Nos últimos três anos, porém, sua reputação mudara bastante.
Agora, as pessoas achavam que tudo não passara de coincidência, que ele era apenas um idiota sortudo que se tornara conde porque os outros herdeiros haviam morrido.
É claro que ainda havia quem acreditasse que ele tinha seus próprios motivos para permanecer inativo. Depois de conhecê-lo pessoalmente, porém, Penia achava que os rumores pendiam muito mais para a segunda versão.
'Pelo jeito como se comporta, até pode parecer alguém de primeira categoria. Mas, no momento em que resolveu vir fechar o Shimon desse jeito, já estava tudo perdido.'
Penia também percebia que havia algo incomum na presença de Alon.
Aqueles olhos que pareciam não ter nada de humano.
Um rosto tão completamente desprovido de emoção que era difícil acreditar que pertencesse a uma pessoa comum.
Por um instante, até ela havia ficado em silêncio diante daquela presença. Ainda assim, aquilo não passava de atmosfera. Depois de avaliar o talento dele, Penia não conseguiu evitar uma risada.
Ele tinha talento, mas apenas um pouco acima da média.
Seu núcleo de mana era pequeno demais e, mesmo sendo generosa, seu ranque mal chegava ao limite do 2º ranque.
Ele sequer possuía os "Olhos", essenciais para alcançar o 6º ranque.
Para espanto de Penia, o conde Palatio não possuía nenhum talento realmente notável.
Não tinha os "Olhos", uma característica necessária para se tornar um mago de alto ranque, nem uma quantidade vasta de mana.
Seu ranque mágico não passava do 2º ranque e, embora sua percepção sensorial fosse razoável, era só isso.
Entre os muitos talentos de que um mago precisava, a capacidade de percepção não ocupava uma posição particularmente elevada.
No fim, o simples fato de ele ter vindo até ali afirmando com tanta confiança que conseguiria eliminar o Shimon, apesar de possuir um talento tão mediano, só reforçava para Penia que os rumores estavam mais próximos da segunda versão.
Ela lançou a Alon um olhar de pena e então voltou a atenção para a "fenda" no centro da sala, que brilhava com uma luz violeta.
Aquela fenda, chamada pelos magos de Shimon (Portal do Tempo), estava literalmente conectada a algum subespaço desconhecido, o que a tornava um fenômeno extremamente problemático.
Os Shimon, que surgiam sobretudo em lugares onde muita magia era utilizada, causavam danos consideráveis ao redor.
Por exemplo, seres de outra dimensão podiam atravessar a fenda, ou ela podia absorver de repente toda a energia mágica das proximidades e criar um vazio de mana em toda a região.
'Ouvi dizer que, no começo, tentaram eliminar os Shimon de várias maneiras por causa disso.'
Até onde Penia sabia, nenhum mago jamais conseguira eliminar um Shimon.
'Se a pesquisa sobre os Shimon tivesse continuado por muito tempo, talvez acabassem descobrindo uma forma de eliminá-los.'
Por enquanto, porém, esse método não existia.
Para começar, mesmo quando um Shimon surgia de repente, ele desaparecia naturalmente depois de um a três meses e deixava uma relíquia para trás.
Embora ainda não entendessem o princípio por trás disso, os magos não viam motivo para gastar tempo e recursos pesquisando métodos que não mostravam perspectiva alguma de sucesso.
No caso da Torre Azul, porém, o Shimon que deveria ter desaparecido em poucos meses já causava problemas no subsolo da Torre havia mais de dois anos, sem dar qualquer sinal de que sumiria.
Perdida nesses pensamentos, Penia observava Alon, que havia se aproximado do Shimon sem fazer nada.
O tempo passou, mas Alon continuou imóvel.
Quando Penia estalou a língua e estava prestes a falar…
Toc!
Alon formou um selo com a mão.
?
Penia ficou um pouco intrigada ao vê-lo erguer a mão de repente e formar o Selo do Punho da Sabedoria.
Em vez de usar um cajado como meio para a magia, ele empregava a própria mão, recorrendo a um método considerado "primitivo" até mesmo nos antigos textos mágicos e que raramente era estudado sequer nos círculos acadêmicos.
— Saia logo daí.
Ainda assim, a curiosidade de Penia era apenas superficial. Ela não pretendia dar mais tempo a Alon.
Jamais imaginaria que alguém usando um método tão ultrapassado, encontrado em algum livro estranho, pudesse fechar o Shimon.
Mas não foi o que aconteceu.
No instante em que ele murmurou algo em voz baixa…
— Ah, saia logo daí—
As palavras irritadas de Penia foram interrompidas.
Não apenas suas palavras.
Tudo parou.
Sua boca entreaberta.
Os olhos franzidos de irritação.
Seu corpo.
Até sua respiração.
Tudo havia parado.
Foi então que ela viu.
Aquilo que surgiu diante do conde.
Kriiii…
Diante do olhar fixo de Penia, algo que até então era inteiramente negro produziu um som desagradável ao abrir os "olhos".
Quando conseguiu compreender o que via, percebeu que aquilo era um globo ocular.
Um globo ocular com dois anéis vermelhos.
Ele apenas a encarava.
Se tivesse terminado ali, não haveria problema.
Mas não terminou ali.
Os "Olhos" de Penia, o talento de que precisava para avançar além do 6º ranque, discerniram instintivamente a essência daquilo diante dela.
Penia não sabia o que era.
Mas compreendeu.
E isso lhe permitiu captar uma única informação.
A essência daquilo era tão simples que cabia em uma única palavra.
E essa palavra era…
— Ghh…!
No instante em que começou a compreendê-lo, Penia interrompeu os próprios pensamentos à força.
A magia dentro dela, que até então mantivera sua respiração paralisada, reagiu por instinto e bloqueou seus pensamentos.
Porque ela sabia.
Aquilo diante do conde era algo que jamais deveria compreender.
Entendê-lo seria como beber de um cálice envenenado que inevitavelmente a levaria à destruição.
No exato instante em que interrompeu o pensamento e mal se lembrou de voltar a respirar…
Heh…
O globo ocular que a encarava até então sorriu.
Em seguida, com uma mão negra que havia se formado em algum momento, ergueu suavemente os dedos indicador e médio até os lábios dela.
Uma ordem absoluta para que guardasse silêncio.
Entendendo que aquela era a exigência de Alon, Penia, tomada por um medo repentino, piscou os olhos. O globo ocular desapareceu, e a magia chegou ao fim.
O lugar onde a fenda violeta estivera agora estava calmo, e Alon soltou um pequeno suspiro.
— Pronto.
Para Alon, que havia fechado o Shimon inúmeras vezes no jogo e sabia como fazer aquilo, fechá-lo não era particularmente difícil.
Afinal, o Shimon não era fechado com magia, mas por meio de um método especial…
— E-eu juro que não contarei a ninguém.
— …? Bem, agradeço, mas não precisa—
— E-eu estou falando sério. Eu juro. Não contarei a ninguém. Na verdade, sou muito discreta.
Penia agora ofegava, tinha lágrimas nos olhos, assentia com fervor e até falava num registro formal. Diante daquela mudança repentina, Alon ficou ainda mais confuso.
— …?
'Por que ela começou a agir assim de repente…?'
Alon apenas inclinou a cabeça, sem entender.