Switch Mode

Raising Villains the Right Way – Capítulo 23

A Igreja do Embaixador (3)

Tradutor: miggigibe


As frias terras do norte, onde nenhum ser vivo deveria conseguir sobreviver, estavam sob o domínio de um frio implacável que sugava a vida.

Naquela terra desolada e amaldiçoada, eternamente tingida de cinza pela nevasca incessante, um homem havia caído.

No lugar de seu braço direito, restava apenas uma mancha carmesim de sangue, e a órbita de seu olho esquerdo estava vazia.

Aquele homem não era outro senão o grande Khlkan, um dos oito chefes dos bárbaros, agora à espera da morte depois de ser derrotado pelos covardes cavaleiros de Caliban.

Mesmo em seus últimos momentos, porém, seus olhos ainda ardiam de fúria.

— Aqueles cães sem honra…! — praguejou ele, mas não por ter sido derrotado.

Para os bárbaros, morrer em batalha era um fim glorioso, um destino nobre.

A fúria de Khlkan vinha da maneira desonrosa como havia sido derrubado. Fora pego numa emboscada depois de ser enganado por um cavaleiro que o desafiara traiçoeiramente para um duelo.

— Cof! — Sangue escorreu da boca de Khlkan enquanto o mundo ao seu redor mergulhava na escuridão.

A paisagem cinzenta ficou indistinta, e aos poucos Khlkan deixou de ouvir o vento cortante.

Apesar da raiva, sua consciência começou lentamente a afundar nas trevas.

Quando tudo estava prestes a desaparecer no nada, Khlkan sussurrou o nome do grande deus:

— Ultultus…?

Naquele exato instante, o tempo pareceu parar.

A visão turva que se apagava voltou a clarear. O vento impiedoso do norte tornou a soprar em seus ouvidos, e sua mente, que já escorregava para a inconsciência, começou a emergir novamente.

[Filho do sangue], ecoou uma voz.

[Invoque meu nome. Invoque o grande nome que você venerava. Invoque meu nome, e eu lhe concederei aquilo que deseja.]

Como se obedecesse a uma ordem divina, Khlkan, em transe, murmurou:

— Ultultus…

E, naquele momento, o deus sorriu.


Depois de ouvir rumores tão absurdos que pareciam saídos de uma webnovel sobre alguém que acorda e, sem entender como, acaba se tornando a mente por trás de Asteria, Alon enfim fechou a boca que estava escancarada. A doçura que sentira até poucos instantes antes desapareceu por completo.

— Que tipo de absurdo é esse…? — murmurou para si mesmo.

Uma enxurrada de pontos de interrogação parecia girar dentro da cabeça de Alon enquanto ele tentava compreender os rumores que acabara de ouvir.

Aquilo não fazia sentido algum.

Se ele mantivesse relações próximas com a duquesa de Altia ou com o conde Zenonia, que naquele momento estavam formando novas facções, talvez conseguisse entender de onde surgira um rumor daqueles.

O problema era que Alon jamais chegara a conhecer pessoalmente nenhum dos dois nobres.

Ele só vira a duquesa de Altia uma vez, quando ela ainda era uma jovem dama, durante um baile. Quanto a Lady Zenonia, já havia cruzado com ela, mas nunca chegara a conhecer o próprio conde.

Em outras palavras, o rumor não tinha plausibilidade alguma. Era completamente infundado.

Alon mexeu lentamente os lábios, imerso em pensamentos, e logo concluiu que a ideia de que mantinha conversas secretas com outros nobres não passava de um rumor absurdo e sem fundamento.

Afinal, suspeitas só poderiam surgir se já existisse algum tipo de relação entre eles. Como Alon não tinha ligação alguma com aquelas pessoas, não via sequer motivo para desconfiar de nada.

Assim, quando estendeu a mão para pegar um biscoito ao lado da tortinha de creme de ovos, uma voz o chamou.

— Conde Palatio.

…?

Alon virou a cabeça na direção da voz.

Ao seu lado estava um homem vestido com roupas caras, com o rosto tomado por um ar de deboche.

'Quem é esse sujeito?'

Alon examinou o homem rapidamente.

Com os cabelos longos e cacheados caindo para um dos lados, o homem parecia ter um caráter torto, embora de um tipo diferente do que Alon conhecia na família Palatio. Fora isso, Alon não conseguiu deduzir mais nada.

Pelo menos, não havia em sua memória qualquer informação sobre aquele homem.

— Ah, ainda não me apresentei. Sou Carmine, terceiro filho do duque Komalon, do Reino de Ashtalon.

Assim que percebeu que Alon não o reconhecia, a expressão de Carmine vacilou por um instante antes de ele se apresentar. Alon ficou confuso por um momento, mas logo entendeu e assentiu.

Afinal, já ouvira dizer que nobres estrangeiros às vezes compareciam à grande cerimônia religiosa, onde se reunia boa parte da nobreza de Asteria.

— Conde Palatio — apresentou-se Alon com cortesia.

— Já ouvi falar de você. Teve a sorte de acabar virando conde, não foi?

…?

Alon piscou, surpreso com o tom de deboche imediato de Carmine.

Desde o início, pela atitude do homem, Alon suspeitara que aquele não seria um encontro amistoso. Mesmo assim, não esperava que ele partisse direto para uma provocação tão aberta, como se lhe faltassem tanto tato quanto inteligência.

Enquanto Alon ainda tentava processar aquilo, outra voz o interrompeu, vinda de uma direção diferente.

— Com licença, mas o que pensa que está dizendo?

Alon se virou para a nova voz e, ao contrário do que acontecera com Carmine, encontrou alguém familiar.

'…Marquês Mardinyo?'

Alon o reconheceu não pelo rosto, mas pelo brasão estampado no peito e pela aparência bastante característica de um homem de meia-idade.

— Está insultando um nobre do Reino de Asteria neste momento?

…?

O rosto de Alon deixou transparecer perplexidade diante daquela defesa repentina e completamente inesperada.


Carmine, o terceiro filho do duque Komalon do Reino de Ashtalon, não estava de muito bom humor naquele dia.

Havia vários motivos para seu péssimo estado de espírito, mas o principal era que a proposta de casamento com a quinta filha do duque Rotegre, que ele se esforçara tanto para encaminhar, não estava indo bem.

É claro que a proposta só estava desmoronando por culpa do próprio Carmine, devido ao comportamento infantil e às atitudes que o faziam parecer imaturo.

Ele cometera a estupidez de comentar a aparência de outras nobres diante da própria quinta filha do duque.

Como era de se esperar de um jovem mimado que crescera sem disciplina, em vez de reconhecer o próprio erro, Carmine ficara ainda mais irritado quando a dama sugerira reconsiderar a proposta.

Se aquilo não estivesse acontecendo no Reino de Asteria, um aliado próximo, ou se a outra parte não fosse o duque Rotegre, com quem estavam sendo conduzidas inúmeras negociações secretas, Carmine já teria causado uma enorme confusão.

Por outro lado, Carmine não fazia ideia de que o único motivo para o duque Rotegre fechar os olhos ao seu comportamento era justamente a relação extremamente sigilosa que mantinha com o duque Komalon.

De qualquer forma, de péssimo humor, Carmine fora ao baile na esperança de melhorar o ânimo. Foi então que viu o conde Palatio e decidiu arrumar briga.

Havia apenas um motivo para ter iniciado a provocação: descontar o próprio mau humor.

É claro que havia muitos criados e cavaleiros ao redor que ele poderia ignorar ou ridicularizar, mas Carmine não sentia prazer algum em brincar com eles.

Não era porque tivesse um caráter admirável. Simplesmente não havia graça em brincar com brinquedos que ele poderia destruir quando quisesse.

Para nobres como Carmine, quem não nascera nobre não passava disso: um brinquedo. Nesse sentido, o conde Palatio era perfeito para aliviar seu estresse.

Pelo que Carmine ouvira, o conde Palatio era apenas um garoto sem noção que tivera a sorte de se tornar conde e não possuía aliados próximos entre a nobreza.

Mesmo um canalha como ele entendia que aquele não era seu próprio território. Por isso, tivera o cuidado, ao menos na própria cabeça, de escolher alguém que pudesse atacar sem sofrer consequência alguma.

E assim, no instante em que viu Palatio, iniciou a provocação.


— Tem noção de como é desrespeitoso insultar um nobre do Reino de Asteria?

— Não foi isso que eu—

— O Reino de Ashtalon é nosso aliado há muito tempo, mas essa aliança sempre se baseou no respeito mútuo. O povo de Ashtalon esqueceu o que significa respeito?

— Não, não foi—

— Então está dizendo que o duque Komalon, de Ashtalon, enxerga Asteria dessa maneira?

— Claro que não…!

— Então por que se dirige de forma tão desrespeitosa a um nobre sem sequer ter assumido oficialmente um título próprio?

— Isso—

O rosto de Carmine se contorceu em confusão.

Ao contrário dos rumores que ouvira, no instante em que resolveu provocar o conde Palatio, os outros nobres começaram a se reunir em torno de Alon e a repreender Carmine.

Cada vez mais desnorteado, Carmine voltou os olhos para Alon, como se esperasse alguma ajuda. Mas até Alon encarava a situação confuso, com seu habitual semblante impassível agora marcado por uma rara perplexidade.

'…O que está acontecendo aqui?'

Carmine então olhou para os três nobres que defendiam Alon.

Um deles era o marquês Mardinyo. Outro era o duque Rotegre. O último era o conde Palan.

Alon os reconheceu com facilidade, não apenas pelos brasões, mas também porque os três eram figuras extremamente influentes dentro de Asteria.

O marquês Mardinyo era uma figura de destaque da facção monarquista.

O duque Rotegre, por outro lado, era uma das principais figuras da facção nobiliárquica.

Quanto ao conde Palan, ele mantinha neutralidade política, mas fora justamente essa posição que lhe permitira acumular um poder considerável.

Mesmo que Alon não tivesse interesse por política nem pelos assuntos da nobreza, era impossível que um nobre de Asteria não soubesse quem eram aquelas pessoas.

— O duque Komalon realmente nos despreza?

— N-Não é isso.

— Então por que falou de maneira tão desrespeitosa com o conde Palatio?

— E-Eu fui… desrespeitoso.

— O problema não é simplesmente ter sido desrespeitoso. A questão é por que falou com tanta condescendência com o conde Palatio.

Ao observar os nobres fecharem o cerco sobre Carmine com a habilidade de veteranos da política, Alon, que jamais se envolvera naquele meio, sentiu uma estranha familiaridade.

Uma lembrança de mais de dez anos atrás veio à tona.

Desculpe.

E pedir desculpas encerra o seu serviço militar?

— Desculpe — murmurou Carmine.

A fala se encaixou tão perfeitamente na lembrança que a resposta seguinte surgiu na mente de Alon quase por reflexo.

Eu perguntei: pedir desculpas encerra o seu serviço militar?

Ah… então era isso.

A lembrança lhe veio com tamanha nitidez que Alon começou a suar sem perceber.

— E-Eu… fui desrespeitoso…!

Sem conseguir suportar por mais tempo a pressão dos nobres, Carmine fugiu do salão de baile como se estivesse batendo em retirada. Assim que ele saiu, os nobres se aproximaram rapidamente de Alon e começaram a falar com ele.

— Conde Palatio, está bem?

— Estou bem, mas…

Alon olhou para os três nobres, perguntando-se por que estavam sendo tão gentis com ele.

Foi então que outra conversa chamou sua atenção.

— Olhe só. Parece que eles já ouviram os rumores.

— Se até aqueles figurões estão se envolvendo, então os rumores devem ser verdadeiros.

— Se a duquesa de Altia e o conde Zenonia entrarem na política, serão imparáveis. Mas olhe para os outros nobres. Parecem confusos. Ainda é segredo, então tome cuidado com o que diz.

— …Onde diabos você fica sabendo de coisas assim?

— Tenho meus meios.

Graças à audição aguçada, Alon captou a conversa abafada do nobre que antes cochichava às escondidas. Só então começou a juntar as peças do que estava acontecendo e percebeu o quanto aquela situação era absurda.

— Pensando bem, ainda não tive a oportunidade de conversar com o senhor, conde. É compreensível, claro. Imagino que esteja muito ocupado.

O marquês Mardinyo soltou uma risada e continuou a conversa com o jeito de quem sabia de tudo. Alon começou a considerar seriamente se deveria esclarecer que aqueles rumores eram um completo absurdo sem fundamento.

Afinal, se não fizesse isso, poderia acabar enfrentando complicações desnecessárias mais tarde.

Por outro lado, falar naquele momento talvez deixasse a situação ainda mais constrangedora. Enquanto Alon ponderava sobre o que fazer…

— A propósito, ouvi dizer que está estudando magia, conde. É verdade?

— Sim.

— Então pensei em lhe dar um pequeno presente. Entre os artefatos que consegui depois de eliminar algumas hordas de orcs, há um que armazena energia mágica para ser usada mais tarde. O que acha?

— Agora que mencionou isso, eu também preparei um pequeno presente.

Alon ficou em silêncio enquanto ouvia os nobres.

Naquele dia, acabou recebendo dos três nobres dois artefatos mágicos e cinco Poções de Recuperação de Mana.

Enquanto isso, ao verem aquelas figuras influentes se reunirem ao redor de Alon e deixarem os outros nobres perplexos, o conde Crylde e o conde Edolon fecharam os olhos com força, tomados pelo desespero:

'Será que mexemos com a pessoa errada…?'

'Isso é muito ruim…!!'


Quatro dias depois do início do banquete, enquanto a coleção de espólios de Alon aumentava pouco a pouco…

— …Um Deus Exterior desceu no norte?

— Sim. Foi essa a informação que recebi. Ao que parece, o cristal roxo também está relacionado ao Deus Exterior, mas… dizem que não há certeza, porque a informação vem de textos antigos.

— De qualquer forma, isso lançou Caliban no caos.

Faltando apenas dois dias para o fim do banquete, Alon, que obtivera aquelas informações por meio da guilda de informações, começou a refletir.

Então, sem hesitar, tomou uma decisão.

— Evan.

— Sim.

— Assim que o banquete terminar, conclua tudo o que ainda precisamos fazer. Depois disso, vamos direto para Caliban.

Sua decisão estava tomada, sem qualquer hesitação.

Comentários

0 0 votos
Avalie!
Se Inscrever
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais Antigo Mais votado
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários

Opções

Não funciona com o modo escuro
Resetar