Tradutor: miggigibe
Delman, conhecido como Cavaleiro-Mestre de Caliban e a Terceira Espada entre as Cinco Grandes Espadas, estava de ótimo humor.
Na expedição mais recente, ele havia matado Khlkan, um dos oito chefes bárbaros, tido como um dos mais fortes entre eles.
É claro que o método usado para matar Khlkan era algo que nem Caliban nem os bárbaros jamais aceitariam.
Delman havia desafiado Khlkan para um duelo e, quando o chefe apareceu sozinho, usou soldados escondidos, várias armadilhas e veneno para matá-lo.
Embora Caliban e os bárbaros estivessem em guerra, ambos sempre respeitavam a honra do adversário em combate. Por isso, o que Delman fizera era extremamente desonroso.
Ele, porém, não sentia culpa alguma pela trapaça.
Pelo contrário, sorria ao pensar que já não precisaria ceder seu posto de Terceira Espada a Deus, um dos mais novos integrantes das Cinco Grandes Espadas.
Com isso em mente, massacrou todos os bárbaros presentes no local, sem deixar nenhum sobrevivente.
Sozinho, jamais teria conseguido fazer aquilo. Mas os inúmeros soldados que deixara posicionados do lado de fora, justamente para que não testemunhassem o duelo, tornaram tudo possível.
Delman havia conquistado um grande mérito militar. Agora só precisava voltar e relatar suas realizações.
No caminho para uma das bases avançadas de Caliban, porém, deparou-se com algo que o fez parar.
Ele viu.
Um homem de cabelos vermelhos como o fogo, símbolo de seu poder, estava ali com uma expressão tensa.
Ele e os cavaleiros da Chama Vermelha encaravam a base.
Ou melhor, o que restava dela.
O lugar havia se transformado num terreno devastado.
O solo cinzento estava manchado de sangue vermelho, ruínas se espalhavam por toda parte e milhares de cadáveres cobriam o chão como se não fossem nada.
Mesmo assim, não eram as ruínas que prendiam a atenção de todos.
Era o homem parado bem no centro de tudo aquilo.
Vestido com as roupas de couro características dos bárbaros, ele permanecia de pé com orgulho no meio da base destruída.
Quando Delman voltou os olhos para ele, o homem também o encarou e começou a caminhar em sua direção.
À primeira vista, parecia estar indo ao encontro da própria morte.
Delman tinha ao seu lado não apenas uma centena de cavaleiros, mas também incontáveis soldados.
Por mais forte que aquele chefe bárbaro fosse, não seria capaz de enfrentar sozinho uma força daquele tamanho.
Ainda assim, mesmo diante de uma vantagem tão esmagadora, a expressão de Delman continuava tensa.
Havia dois motivos.
O primeiro era o estado da base, reduzida a ruínas.
O segundo era a aura.
Delman podia ter cometido um ato desonroso, mas ainda era um Mestre da Espada, alguém capaz de decepar o topo de uma montanha com um único corte e tirar a vida de dezenas de bárbaros com um só golpe.
Por isso, conseguia sentir com clareza a aura extraordinária que emanava daquele homem.
Então…
— Você é Delman?
A voz do homem ecoou.
Não parecia uma voz humana. Bastou ouvi-la por um instante para Delman sentir o corpo inteiro estremecer.
Ele rapidamente recuperou a compostura e, por instinto, ergueu sua lâmina de aura antes de responder:
— Quem é você?
— Então me responda, Delman. Por que profanou o duelo sagrado e honroso?
— O quê?
— Responda. Por que maculou o grande e sagrado duelo, o combate honrado entre dois guerreiros?
Delman permaneceu em silêncio.
— Fale.
Ao ouvir aquelas palavras, Delman percebeu que o bárbaro estava falando sobre seu duelo com Khlkan.
— Ha. Isto é um campo de batalha. Não é tolice acreditar num duelo num lugar destes?
O bárbaro continuou encarando Delman sem demonstrar qualquer abalo.
— Como ousa falar assim do grande duelo?
Sua voz estava carregada de evidente desagrado.
— Já disse. Isto é um campo de batalha.
— Esta é sua última chance, humano. Você é um guerreiro de força considerável. Enfrente-me em um duelo. Se vencer, deixarei que vá embora.
Diante daquela última oportunidade, Delman não respondeu.
Apenas ordenou aos cavaleiros:
— Todos, preparem-se para a batalha.
Assim que a ordem foi dada, cavaleiros e soldados sacaram as armas em perfeita sincronia.
Os cavaleiros da Chama Vermelha, que haviam lutado ao lado de Delman em inúmeras batalhas na guerra do norte e conquistado vitória após vitória, assumiram expressões resolutas enquanto desembainhavam as espadas e liberavam suas auras.
Ao observar a cena, o bárbaro murmurou com uma mistura de lamento e desprezo:
— Os cavaleiros realmente não possuem honra?
Então…
Creeec… Creeec…
Os cadáveres ao redor começaram a se levantar.
— O-o que é isso?!
Os cavaleiros se assustaram com a mudança repentina, mas o fenômeno continuou apesar do choque.
Um cavaleiro com a cabeça partida ao meio.
Um soldado com metade do corpo destruída.
Um cavaleiro montado cujo torso havia sido decepado.
Um após o outro, começaram lentamente a despertar.
E então…
— Dói, dói, dói, dói!
— Matem-me, matem-me, por favor, eu imploro…
Os gritos dos mortos encheram a terra cinzenta.
— Vocês, mortais sem sequer honra, não têm lugar neste mundo.
Aquela presença desapareceu.
Delman se sobressaltou.
Nem mesmo ele, que já havia alcançado um patamar sobre-humano, conseguiu acompanhar a velocidade.
Mas então…
— Ainda assim…
Delman virou o rosto na direção da voz que surgira de repente.
O bárbaro já havia golpeado o chão com a mão.
Bum!
A terra explodiu no mesmo instante.
Pedras e destroços foram lançados para o céu e, ao mesmo tempo, os soldados e cavaleiros que estavam prontos para a batalha também foram arremessados para o alto.
Bastou o bárbaro desferir um único chute no ar.
Crac!
Os destroços atingiram os soldados e cavaleiros que voavam pelo céu, reduzindo seus corpos a meros pedaços de carne.
Eles nem tiveram tempo de gritar.
Seus restos se espalharam pelo chão, formando incontáveis flores vermelhas de sangue.
Os olhos de Delman se arregalaram.
Ele tentou erguer a espada tarde demais e, naquele instante, percebeu uma coisa.
Seu braço havia desaparecido.
— Aaaaargh!
O grito de Delman ecoou.
Os soldados que ainda não tinham entendido o que acontecera finalmente compreenderam.
Em apenas um instante, o Cavaleiro-Mestre e a maior parte de sua ordem de cavaleiros haviam sido aniquilados.
O pânico se espalhou entre os soldados como uma praga e roubou deles qualquer vontade de lutar.
— Ah… Aahhh!
O terror enraizado em seus corações se alastrou depressa, deixando-os paralisados.
No meio do massacre, Delman, agora sem um braço, encarou o bárbaro sem conseguir acreditar no que via.
— Quem… quem é você?
Não se tratava de um simples bárbaro.
Aquele homem era Ultultus, o deus de todos os bárbaros e pai dos duelos.
Com as próprias mãos ásperas, ele esmagou os órgãos internos de Delman e concluiu o que viera fazer.
Depois, olhou para Delman, que jazia sob sua mão.
Um momento mais tarde…
— Dói, dói, dói, dói!
Embora seus órgãos internos estivessem completamente destruídos, Delman se levantou outra vez, cuspindo sangue sobre o campo nevado e cinzento e gritando de agonia como os demais.
Satisfeito, Ultultus abriu um sorriso.
— Todos vocês, bárbaros aqui reunidos…
Ele voltou o olhar para os soldados sobreviventes, imóveis de terror.
— Provem seu valor por meio de um duelo.
Então acrescentou:
— Provem que não são selvagens.
E lhes ofereceu um duelo.
— Se conseguirem, concederei a vocês uma morte honrada.
Naquele coliseu ensanguentado, feito de cadáveres…
Vilan, Cavaleiro-Mestre e discípulo da Quarta Espada, não conseguia entender a situação em que se encontrava.
O motivo de ter ido até ali naquele dia era simples.
Queria ajudar seu amigo Carmine, que também era um fornecedor muito valioso, dando um jeito em certo nobre do Reino de Asteria.
É claro que, como os seis reinos formavam os Reinos Unidos, em circunstâncias normais, Vilan deveria demonstrar ao menos algum grau de cortesia, mesmo que o nobre fosse de outro país.
Um passo em falso poderia facilmente se transformar em um problema internacional.
Ainda assim, Vilan aceitara o pedido de Carmine sem hesitar.
E não apenas por causa do item que Carmine lhe oferecera.
Depois de analisar as circunstâncias, concluíra que não havia praticamente nenhuma chance de a situação sair do controle.
Ele tinha três motivos para pensar assim.
O primeiro era que, entre os seis reinos da União, Caliban exercia a maior influência por repelir continuamente os bárbaros do norte.
O segundo era que os rumores sobre o conde Palatio ainda não tinham voltado a se espalhar. Sua reputação continuava sendo a de um nobre imprudente que só se tornara conde por pura sorte, além de não possuir nenhuma ligação em Caliban.
O terceiro era que, mesmo se alguma coisa desse errado, Vilan acreditava que sua mestra, Fiola, que estava no auge de Caliban, daria um jeito de resolver a situação.
Embora não fosse tão talentoso quanto Deus, Vilan tinha grande aptidão para a espada e sempre estivera sob a proteção de sua mestra.
Por esses três motivos, acreditava que não sofreria consequência alguma por lidar com o conde Palatio.
E, para falar a verdade, seu raciocínio não estava errado.
Havia apenas uma coisa que Vilan não sabia.
E essa coisa era…
Crac!
— Ugh!
O conde Palatio era, na verdade, um benfeitor de Deus Macallian, um Cavaleiro-Mestre atualmente aclamado como herói em Caliban.
— Guh…!
Deus havia recebido o apelido de "Sem Espada" depois de derrotar Kurga das Planícies Nevadas, um dos oito chefes bárbaros, em um duelo.
— Aagh!
Vilan foi arremessado contra uma árvore.
Com uma expressão que misturava medo e desafio, tentou falar:
— E-espere! Lorde Deus…!
Mas não conseguiu terminar.
Antes que conseguisse continuar, o pé de Deus atingiu seu estômago.
Os cavaleiros de Yuzon, que pouco antes demonstravam todo o respeito por Deus, levaram as mãos às espadas por instinto.
— No instante em que sacarem as espadas, o que acontece depois fica por conta da imaginação de vocês.
Os cavaleiros se enrijeceram.
Bastou Deus voltar o olhar para eles e dizer aquelas palavras.
Eles prenderam a respiração e ficaram em silêncio.
Então começou o espancamento unilateral.
Alon observava Deus socar Vilan sem piedade. Por fora, mantinha o rosto completamente impassível. Por dentro, porém, sorria com profunda satisfação.
'Você cresceu tão bem…!'
Alon olhava para Deus como um pai que contemplava com orgulho o filho que crescera de maneira esplêndida.
Não que um pai costumasse sentir orgulho ao ver o filho espancar alguém daquele jeito.
Ainda assim, naquele momento, Alon sentia algo muito parecido com orgulho paterno.
Na verdade, era ainda mais do que isso.
Ele sentia até uma estranha gratidão.
Durante todo o caminho até Caliban, Alon acreditara que Deus provavelmente não gostava muito dele.
Talvez Deus o tolerasse, mas Alon imaginava que isso seria tudo.
Nunca esperara que houvesse qualquer sentimento mais profundo.
Afinal, Alon jamais tivera uma conversa pessoal com Deus.
Mais importante ainda, Deus nunca lhe escrevera uma única carta.
Por isso, quando Deus o chamara de benfeitor pouco antes, Alon sentira como se todo o esforço que dedicara a fazê-lo crescer finalmente tivesse sido recompensado.
Um sorriso satisfeito surgiu em seu rosto.
— Ele bate bem.
— É verdade.
Alon assistia com um sorriso tranquilo enquanto Deus desmontava Vilan na pancada bem diante de seus olhos.
Depois de cerca de três minutos, sentiu o coração ficar mais leve.
Estava profundamente grato a Deus por ir tão longe por ele.
Mas, cinco minutos depois…
— Conde.
— O quê?
— Ele não vai morrer?
Ao perceber que talvez houvesse algo errado, Alon voltou a olhar para Deus.
Vilan estava agarrado às pernas de Deus num estado deplorável, chorando e implorando perdão, enquanto continuava a ser espancado sem piedade.
— Não… Ele não vai matá-lo, vai?
— É… bem…
Mesmo assim, Alon continuou observando por mais cinco minutos.
'Ele não vai mesmo matá-lo… vai?'
Quando viu que o rosto de Vilan estava tão deformado que já não lembrava em nada a expressão ardilosa de dez minutos antes, Alon começou a suar frio.
Foi então que se lembrou de uma coisa.
'Ah…?'
Deus, afinal, era um dos Cinco Grandes Pecados.
É claro que isso não fez a gratidão desaparecer.
Ela continuava ali, mas…
'É bom que ele tenha ido tão longe por mim, mas…'
Alon observou Deus deixar Vilan, agora praticamente incapacitado, para trás e caminhar até ele.
— Estou às suas ordens.
Deus baixou a cabeça como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Ao ver a cena, Alon percebeu os soldados e cavaleiros ao redor começarem a murmurar.
Ele lançou um olhar para Vilan, coberto de sangue.
'Hã… Isso não é um pouco… demais?'