Tradutor: miggigibe
Carmine, o terceiro filho do duque Komalon, estava de péssimo humor havia uma semana.
O recente rompimento do noivado era parte do motivo, mas o que realmente o irritava era o conde Palatio.
No último banquete, ele tentara aliviar o estresse provocando o conde Palatio, apenas para acabar humilhado em público.
É claro que a culpa fora inteiramente de Carmine.
Se não tivesse feito comentários impróprios sobre a aparência de outra nobre, as conversas sobre o casamento teriam corrido sem problemas.
E, se não tivesse provocado o conde Palatio, não teria passado por tamanha vergonha.
Carmine, porém, havia se esquecido por completo de que fora ele quem iniciara o conflito.
Só conseguia pensar na humilhação que sofrera, revivendo a cena repetidas vezes na cabeça.
Era a primeira vez na vida que passava por uma vergonha daquelas.
Afinal, como filho do duque Komalon, um dos pilares do reino, Carmine jamais havia sido submetido a tamanha humilhação, e aquele momento deixara uma marca profunda em sua memória.
Por cerca de dez dias, ele rangeu os dentes sempre que se lembrava do ocorrido.
Assim que chegou à propriedade dos Komalon, falou como se tivesse acabado de tomar uma decisão.
— Ei.
— Sim, jovem mestre?
— Para onde disseram que aquele desgraçado estava indo?
— Da última vez que ouvi falar, o conde Palatio tinha alguns assuntos para resolver em Caliban…
Sem esperar o cavaleiro terminar, Carmine entrou apressado no quarto e abriu uma gaveta da escrivaninha.
Lá dentro havia várias esferas de cristal.
Ele pegou a que estava mais à direita, tirou imediatamente uma pedra mágica do bolso e a aproximou da esfera.
O cristal começou a brilhar intensamente. Depois de algum tempo, a luz foi enfraquecendo.
[Ora, se não é meu amigo Carmine!]
Uma voz saiu do cristal.
— Vou direto ao ponto. Preciso da sua ajuda.
Carmine falou enquanto segurava a esfera de cristal.
[Hm? Precisa de ajuda? Com o quê?]
— Conde Palatio. Provavelmente está a caminho daí agora. Preciso que dê um jeito nele.
[Dar um jeito nele? Está falando do conde Palatio?]
A pessoa do outro lado, confusa com a situação, perguntou novamente.
— Não precisa matá-lo. Só o deixe meio morto.
Houve um breve silêncio antes que o homem do outro lado voltasse a falar.
[Mesmo assim, isso é meio…]
— Eu te dou cinco.
[…O quê?]
— Se cuidar dele, eu te dou mais cinco. Você precisa deles, não precisa? Para ficar mais forte.
[Ha…]
O homem soltou uma risada seca diante das palavras de Carmine.
[Está falando sério? Consegue mesmo me arranjar cinco?]
— Se fizer o serviço direito, não tem problema.
O homem do outro lado permaneceu em silêncio por um instante.
— Você consegue fazer isso, não consegue?
[Ha…]
Então, como se tivesse achado graça, o homem riu.
[Meu amigo, você me conhece bem demais. Sempre sabe exatamente como me convencer!]
— Vai fazer ou não?
[Tudo o que tenho que fazer é dar um jeito nele, certo?]
— Isso. Da forma mais brutal possível.
[Uau, ele deve ter te irritado de verdade para você chegar a esse ponto. Enfim, entendi. Vou cuidar disso e entro em contato quando terminar.]
Com essas palavras, a comunicação foi encerrada.
O quarto voltou ao silêncio, como se aquela conversa jamais tivesse acontecido.
Havia, porém, uma diferença.
Um sorriso malicioso se espalhou pelo rosto de Carmine.
'Ele realmente achou que eu ia deixar isso passar depois de me humilhar em público?'
Era o único pensamento que ocupava sua mente.
— Finalmente chegamos?
— Parece que sim.
Já fazia cerca de duas semanas desde que Alon conhecera Eliban, o protagonista daquele mundo.
Observando ao longe Kirdam, a capital, Alon desviou o olhar para a parte de trás da carruagem.
Ali estavam empilhados vários presentes, todos destinados a Deus, a quem estavam prestes a encontrar.
— Ugh, estou exausto. — Evan bocejou ao lado dele, claramente cansado, enquanto olhava para os presentes.
Alon também estava cansado, assim como Evan.
— Viagens longas sempre cansam.
— …Teria sido bem mais tranquilo se não tivéssemos ido àquele lugar que parecia um labirinto.
O cansaço dos dois não vinha apenas da longa viagem. Na última semana, Alon havia feito várias paradas pelo caminho.
— Era necessário.
Foi tudo o que Alon respondeu.
Na verdade, todas aquelas paradas a caminho de Caliban serviram para preparar a batalha que estava por vir contra o Deus Exterior.
O colar em forma de lótus que agora pendia do pescoço de Alon e não estava ali duas semanas antes fazia parte desses preparativos.
Ignorando o olhar de Evan, Alon mudou de assunto.
— Deus já voltou da expedição, certo?
— Sim. Ele deve estar aqui.
Alon ficou em silêncio por um instante antes de perguntar:
— …Ele vai se encontrar comigo, não vai?
— …Tenho certeza de que sim — respondeu Evan, embora Alon ainda parecesse um pouco desconfiado.
'O problema não é só conseguir encontrá-lo… O verdadeiro desafio é fazê-lo aceitar meu pedido…'
Ao longo dos anos, Alon dera bastante apoio financeiro a Deus e até o salvara de uma situação que poderia ter terminado em desastre.
Se considerasse apenas o que fizera por ele e os resultados disso, Alon certamente ocupava a posição de benfeitor.
Mas, na prática, do ponto de vista de Deus, Alon provavelmente não passava de um desconhecido sem rosto que gastara generosamente dinheiro para ajudá-lo de longe.
Afinal, Alon nunca havia encontrado Deus pessoalmente.
Sem qualquer contato direto entre os dois, era difícil esperar alguma proximidade real. Agora que finalmente chegara a Kirdam, Alon não conseguia evitar certa ansiedade.
'Só me resta torcer para que os presentes conquistem a boa vontade dele.'
Enquanto Alon refletia sobre isso, eles finalmente chegaram ao portão norte de Kirdam e entraram na fila de inspeção, como qualquer outro viajante que chegasse à capital.
Mesmo sendo nobre do Reino de Asteria, em viagens ao exterior a inspeção era obrigatória para todos.
Depois de explicar brevemente sua identidade ao soldado responsável, Alon esperou Evan terminar enquanto a fila de carruagens avançava devagar.
— Com licença, conde?
— Sim?
— Parece que surgiu um pequeno problema.
Evan enfiou a cabeça para dentro da carruagem enquanto falava, fazendo Alon inclinar a cabeça, confuso. Ele assentiu de leve e desceu.
Do lado de fora, foi recebido por um cavaleiro com uma expressão confiante até demais.
O homem tinha cabelos vermelhos e um brasão de leão no peito, além de exalar uma arrogância evidente. Enquanto Alon o observava com curiosidade, o cavaleiro falou:
— Você é o conde Palatio?
— Sou.
Embora nunca tivessem se encontrado, o cavaleiro falava sem qualquer formalidade, como se naquele mundo de fantasia bastasse olhar para a cara de alguém para saber que tipo de pessoa era.
Quando Alon respondeu, Evan se aproximou e sussurrou em seu ouvido:
— Aquele cavaleiro parece ser discípulo de Fiola.
— …Fiola?
— Sim, sabe, a Quarta Espada.
Ao ouvir Evan, Alon soltou um murmúrio baixo de compreensão.
Fiola, a Cavaleira-Mestre conhecida como Quarta Espada, veio à mente. Embora Alon assentisse, sua expressão continuava confusa.
— Então por que o discípulo da Quarta Espada está aqui? …E acompanhado de tantos cavaleiros?
Ao olhar ao redor, Alon percebeu vários outros cavaleiros usando o mesmo brasão de leão de Fiola.
— …O que quer comigo?
Alon voltou a encarar o discípulo de Fiola e perguntou. O cavaleiro, que se aproximava sem pressa com um sorriso presunçoso, finalmente se apresentou.
— Para começar, sou Vilan, discípulo direto de Fiola, a Quarta Espada.
— E?
— Ouvi dizer que um amigo meu tem uma pequena conta a acertar com você.
— Amigo?
Quando Alon perguntou, Vilan sorriu e continuou.
— Sim, um amigo.
— Não me lembro de ter nenhuma ligação importante aqui em Caliban.
— Meu amigo também não tem nenhuma ligação especial com Caliban. Ele é do Reino de Ashtalon.
Ao ouvir aquilo, Alon murmurou por instinto:
— Reino de Ashtalon…? Hã?
Então se lembrou de repente e soltou um suspiro baixo de compreensão.
— …Carmine?
— Isso mesmo. Você se lembrou. Ele entrou em contato comigo.
Ao ouvir Vilan, Alon não conseguiu esconder a incredulidade.
'Espera, eu nem fiz nada com aquele cara! …Espera, quanto tempo faz? Algumas semanas?'
Por um instante, Alon até se impressionou com aquele valentão mesquinho chamado Carmine, que correra para reclamar com os amigos pouco mais de duas semanas depois.
— Também tenho uma dívida com ele, então pelo menos preciso dar as caras.
— Então ficou esperando aqui esse tempo todo só para "dar as caras"?
— Para ser exato, eu estava esperando uma notícia. Todas as carruagens vindas do Reino de Asteria passam por este portão.
Alon sentiu uma onda de tontura diante do tom despreocupado de Vilan, como se ele estivesse pedindo desculpas pelo transtorno sem realmente sentir muito por isso.
Embora a influência de um nobre diminuísse bastante em terras estrangeiras, não era a ponto de alguém ser tratado daquela maneira nos portões da capital.
— Então, o que pretende fazer?
— Vou te dar duas opções. Aqueles bens que parecem valiosos na sua carruagem, que tal nos dar todos de presente?
— E a outra opção?
— Passar umas três semanas no calabouço subterrâneo.
— …Você sabe muito bem que sou um nobre de outro país, não sabe?
Alon perguntou aquilo porque prender um nobre estrangeiro sem motivo certamente causaria problemas.
— Sou o único discípulo direto de Fiola, a Quarta Espada.
As palavras seguintes de Vilan deixaram Alon sem reação.
O que Vilan estava dizendo, em essência, era: "Posso causar a confusão que quiser e, por causa da minha posição, não vou sofrer consequência alguma."
O mais absurdo era que havia certa verdade naquilo. Ali, Alon era apenas um nobre estrangeiro, enquanto Vilan era o único discípulo direto de uma Cavaleira-Mestre.
'Inacreditável. São mesmo farinha do mesmo saco.'
Alon suspirou ao perceber que aquele bando de arruaceiros realmente se merecia. Nesse momento, Vilan abriu um sorriso perverso.
— Mas, para ser sincero, não importa qual opção você escolha. O resultado vai ser o mesmo.
Vilan deu uma leve batida no estômago de Alon com o cabo da espada.
— Afinal, meu amigo só me pediu uma coisa.
Vilan ameaçou Alon com a maior naturalidade.
Evan, que permanecera calado até então, começou lentamente a fechar a expressão. Por instinto, levou a mão à espada na cintura, quando…
— Hm, hm!
Uma voz soou atrás deles, fazendo Alon e Vilan virarem a cabeça.
Foi então que Alon o viu.
'Deus Macallian…?'
Vestido com uma armadura de ferro negro e uma expressão fria no rosto, Deus caminhava na direção deles.
No instante em que apareceu, a atmosfera junto ao portão ficou pesada, como se o próprio ar tivesse ganhado peso.
Apesar de apenas uma pessoa ter chegado, os soldados endireitaram a postura, arregalando os olhos de surpresa. Até os cavaleiros, que poucos instantes antes pareciam relaxados, se puseram de pé, tensos.
— Sentido!
Os soldados que até então apenas observavam a situação ergueram imediatamente as espadas em saudação ao ver Deus, mas ele não lhes dirigiu sequer um olhar.
— Saudações à Grande Espada!
Os cavaleiros do grupo de Vilan, chamado Yuzon, gritaram com reverência, mas Deus também os ignorou.
Em vez disso, caminhou diretamente até Alon.
Ao ver aquilo, Vilan recolheu às pressas a espada que apontava para Alon e tentou dizer alguma coisa, mas…
Bam!
— Gah!
A mão de Deus disparou e agarrou Vilan pela garganta.
— O-O quê?!
Vilan tentou agarrar rapidamente a mão de Deus, em protesto, mas…
— O que pensa que está fazendo?
Diante daquelas palavras frias, o rosto de Vilan empalideceu. Ele lutava para respirar, com os olhos arregalados de medo.
— Como ousa pôr as mãos no meu benfeitor?