Tradutor: miggigibe
Pouco mais de duas semanas haviam se passado. Embora o avanço tivesse sido mais lento do que o esperado por causa dos soldados feridos, eles finalmente chegaram a Kirdam, a capital de Caliban, onde foram recebidos pelos aplausos entusiasmados dos cidadãos. Para onde quer que olhasse, Alon via pessoas de expressão radiante, aclamando-os com orgulho. Liderados por Deus, os cavaleiros e soldados foram recebidos no palácio real, onde relataram a subjugação do Deus Exterior, encerrando assim a expedição.
Alon, sem hesitar, começou a se preparar para partir outra vez. Para ele, não havia mais motivo para permanecer em Caliban depois que o Deus Exterior fora eliminado.
'Ganhei presentes de sobra.'
Com uma expressão satisfeita, ele olhou para a carruagem, que estava abarrotada de presentes. Tudo cortesia do perspicaz rei de Caliban, que buscava estreitar a amizade entre eles. Depois de contemplar satisfeito aquela quantidade um tanto exagerada de presentes, Alon se dirigiu a Deus.
— Bem, até a próxima.
Ao se virar para partir, depois de uma despedida tipicamente coreana equivalente a "vamos comer juntos qualquer dia", Deus o surpreendeu, pela primeira vez, com uma pergunta.
— Posso lhe perguntar uma coisa?
Alon, que estava prestes a se virar por completo, parou.
— O que foi?
Depois de passar cerca de um mês com Deus, desde a expedição ao norte até o retorno à capital, Alon nunca o ouvira fazer uma pergunta tão direta. Em geral, Deus apenas demonstrava um respeito cada vez maior, sem perguntar muita coisa. Alon esperou pacientemente que ele continuasse.
Após um breve silêncio, Deus enfim perguntou:
— Eu também posso ficar mais forte?
Alon ficou momentaneamente surpreso com a pergunta inesperada, sobretudo porque Deus já era bastante forte. Pensou no que poderia tê-lo levado a perguntar aquilo e logo chegou a uma conclusão.
'Talvez a magia que usei na luta contra o Deus Exterior tenha causado uma impressão forte e aumentado ainda mais o respeito dele por mim.'
Depois de concluir isso, Alon respondeu:
— Claro que pode ficar mais forte.
— Sério?
— Sim. Desde que se esforce, você pode alcançar qualquer coisa que desejar.
— Isso é verdade?!
— …Sim, é verdade — respondeu Alon, sem entender a súbita empolgação de Deus.
Ele não estava mentindo. Na verdade, Deus, assim como os demais Cinco Grandes Pecados, já possuía capacidades inatas extraordinárias mesmo antes da descida dos deuses. No caso de Deus, mesmo sem usar suas habilidades únicas, ele poderia se tornar um Mestre da Espada apenas com sua técnica. Considerando que havia alcançado aquele nível em apenas um ano, era apenas questão de tempo até ficar ainda mais forte.
Pensar nisso fez Alon sentir uma pontada de inveja diante de tamanho talento.
'Ah, teria sido bom se eu tivesse renascido num corpo mais talentoso.'
Alon pensou nisso por um instante antes de continuar.
— Então não se preocupe.
— Entendido.
— Nesse caso, vou indo.
— …Espere. Posso perguntar mais uma coisa?
— …O que foi agora? — perguntou Alon, parando no meio do movimento.
— Por que o senhor sempre pede em vez de dar ordens?
…?
Por um momento, Alon ficou confuso com a pergunta e tentou entender aonde Deus queria chegar.
'Será que ele acha que existe algum motivo oculto por trás do meu apoio?'
É verdade que havia um motivo maior por trás de tudo: impedir a descida dos Cinco Grandes Pecados. Ainda assim, o apoio financeiro e material que Alon lhes dera vinha, acima de tudo, de boa vontade.
Mesmo que houvesse certa tensão relacionada aos Cinco Grandes Pecados, suas ações ainda tinham como base uma intenção genuinamente bondosa. A desconfiança de Deus, porém, parecia colocar em dúvida a sinceridade dessas intenções, fazendo Alon se sentir um pouco injustiçado.
— Quem é que dá ordens à própria família? — respondeu Alon, na esperança de transmitir sua sinceridade com aquelas palavras de despedida.
Depois disso, despediu-se de Deus pela última vez e partiu de carruagem rumo a Asteria.
Naquela noite…
Deus estava sentado no escritório da mansão, fitando com o olhar vazio a lua suspensa no céu e mantendo-se em silêncio.
— Hah…
Um suspiro baixo escapou de seus lábios. Mas o motivo não eram as várias tarefas acumuladas sobre a mesa nem o trabalho que teria de resolver dali em diante. Era o fato de ter sido confrontado com a própria ignorância durante a recente expedição.
Deus sempre acreditara ser forte o bastante. A habilidade inata transmitida por sua linhagem era tão poderosa que até Yutia a elogiara. Além disso, seu talento com a espada, um dom concedido pela Grande Lua, superava até o de Reinhardt, o maior Mestre da Espada de Caliban. Deus tinha plena consciência disso. Na verdade, era impossível não ter. Os incontáveis elogios e a reverência que recebeu enquanto ascendia rapidamente ao posto de Cavaleiro-Mestre tornavam impossível ignorar a própria força.
Por isso, ele havia presumido vagamente que a força que possuía bastaria para se vingar dos Seres Negros. E, mesmo que ainda lhe faltasse um pouco, acreditava que seu talento com a espada acabaria sendo suficiente para levá-lo até aquele nível.
Ao menos até encontrar o Deus Exterior.
…
Para Deus, a própria presença do Deus Exterior, somada àquela força esmagadora, fora um choque profundo. Só de ficar diante dele, sentira a garganta apertar, como se o medo a estivesse comprimindo. Aquilo o fez perceber, da maneira mais dolorosa possível, que não passava de um sapo no fundo de um poço, ignorante da vastidão do mundo lá fora.
Essa constatação o atingiu com ainda mais força quando testemunhou o poder da Grande Lua.
Ele não conseguia deixar de se lembrar daquele momento. Da imagem da Grande Lua usando magia contra o Deus Exterior, tendo o pôr do sol ao fundo. E dos dois olhos que surgiram atrás da Grande Lua.
É claro que Deus não fazia ideia do que eram aqueles olhos. Tudo o que conseguia discernir era que cada um representava uma entidade diferente e que a Grande Lua utilizava o poder delas. Ainda assim, só de olhar para aqueles olhos, Deus compreendeu instintivamente uma coisa crucial: "aquilo" era algo que não deveria ser percebido, e até mesmo tentar compreendê-lo era proibido.
Embora fosse a primeira vez que presenciava aquilo, essa compreensão se gravou em sua mente com a mesma naturalidade de algo que sempre estivera ali. Assim como o sol nasce no leste e se põe no oeste, ou como toda vida que nasce um dia morre, a noção de que aquele conhecimento não deveria ser buscado se tornou uma verdade incontestável em sua mente.
Ao refletir sobre isso, Deus de repente sentiu vergonha. Ao contrário de Penia, que apenas vira a força de Alon, ele nem sequer havia percebido o verdadeiro poder da Grande Lua.
Na verdade, Deus chegara a pensar que a Grande Lua era fraca. Aos seus olhos, tudo o que conseguia sentir vindo da Grande Lua era uma quantidade ínfima de poder mágico. Mas aquilo não passava de ignorância. Enquanto Deus permanecera paralisado, incapaz de resistir ao Deus Exterior, a Grande Lua ficara calmamente diante dele, enfrentando-o de frente e, por fim, aniquilando-o.
Deus seguira a Grande Lua decidido a retribuir um favor, mas, em vez de saldar a dívida, acabara apenas recebendo ainda mais ajuda. Assim como antes.
— Não. Isso não pode continuar assim.
Deus voltou a pensar na mesma coisa que lhe passara pela cabeça repetidas vezes desde que retornara a Caliban após a derrota do Deus Exterior.
No entanto, apesar de ter tido esse mesmo pensamento dezenas de vezes, ele nunca se transformara em algo maior. A razão era a dúvida, mais especificamente a dúvida sobre si mesmo.
Depois de testemunhar o Deus Exterior e passar a nutrir um profundo respeito pela Grande Lua, a quem devia a própria vida, Deus começou a duvidar se algum dia conseguiria alcançar aquele nível.
Embora soubesse que seu talento era excepcional, o poder esmagador demonstrado pelo Deus Exterior e pela Grande Lua esmagara toda a confiança que tinha nas próprias capacidades.
E assim, até aquele dia, Deus permanecera preso num ciclo de dúvidas sobre si mesmo, repetindo a mesma pergunta sem jamais encontrar uma resposta.
Mas naquele dia, enfim conseguiu pôr fim à dúvida que o atormentara por semanas.
"Claro que pode ficar mais forte."
"Sim. Desde que se esforce, você pode alcançar qualquer coisa que desejar."
"É verdade mesmo."
Ele se lembrou das palavras que Alon lhe dissera naquele dia. Não havia nenhuma emoção particular nelas, mas também não havia a menor hesitação. Alon afirmara de imediato que Deus tinha talento para derrotar os Seres Negros, que poderia chegar àquele nível se se esforçasse o bastante.
Aquela afirmação, pronunciada sem o menor traço de hesitação, foi suficiente para dar a Deus uma certeza inabalável.
— Preciso ficar mais forte.
Deus cerrou o punho com força.
'Mais.'
Pela primeira vez, seus pensamentos, antes estagnados, começaram a avançar.
O desejo vago de vingança contra os Seres Negros começava a ganhar contornos concretos, impulsionado por aquela nova certeza.
Esses pensamentos concretos logo se multiplicaram, ramificando-se em dezenas de outras ideias.
Assim, pela primeira vez, o sapo no fundo do poço, agora convencido de que poderia se aventurar no mundo exterior, começou a se preparar.
'Forte o bastante para me tornar a espada dele.'
Movido por um novo propósito.
'Família…'
Ele se agarrou ao calor daquela única palavra. A simples lembrança daquele reconhecimento que a Grande Lua lhe concedera por último bastava para encher seu coração de calor.
Agarrando-se àquilo como a um talismã, Deus começou de fato a seguir em frente.
O luar azul incidia sobre Deus, sentado no escritório escuro.
Pouco depois, ainda em silêncio, Deus se lembrou daquele momento e, instintivamente, ergueu a mão esquerda à frente.
'Naquela hora, foi assim, não foi?'
Assim como Alon fizera ao enfrentar o Deus Exterior, Deus estendeu os dedos médio e anelar e liberou um pouco de magia para sondar os arredores em busca de qualquer presença.
— Primeira Linha do Silêncio — murmurou ele em voz baixa no escritório vazio, enquanto a mão esquerda se contraía levemente.
É claro que nada aconteceu.
Mesmo sozinho no escritório, imitando os movimentos de Alon, Deus não conseguiu evitar uma mistura de leve constrangimento e satisfação.
Ele tornou a ajustar a postura enquanto pensava por um instante:
'Seria bom ter tanto talento para magia quanto ele.'
Naquele momento…
— Meu senhor.
— Sim?
— Percebi que, de vez em quando, o senhor parece gostar bastante de batata-doce.
— São deliciosas.
Alon respondeu ao comentário de Evan enquanto assava batatas-doces junto ao fogo.
— Hmm.
De fato, as batatas-doces estavam realmente deliciosas.
Era tarde da noite, cerca de um mês depois, quando Alon finalmente chegou às terras do conde Palatio.
'Que cansativo.'
Fazia cerca de três meses desde a última vez que voltara, e Alon não pôde deixar de murmurar aquela breve reflexão para si mesmo.
Na verdade, nada de significativo havia acontecido desde que deixara Caliban.
A única coisa levemente irritante fora a curiosidade incessante de Evan em relação aos poderes de Alon, que resultava em perguntas quase todos os dias.
Fora isso, a única novidade digna de nota eram os rumores cada vez mais difundidos entre os reinos de que o conde Palatio havia desempenhado um papel importante na captura do Deus Exterior em Caliban.
Depois de concluir sua longa viagem, Alon estava pronto para descansar.
Embora o retorno de Caliban às terras do condado tivesse ocupado quase toda a sua atenção, agora havia várias questões que precisava investigar.
Precisava visitar a Colônia e descobrir mais sobre os Seres Negros e os Seres Azuis. Também precisava entender por que o Deus Exterior havia aparecido e por que Ultultus possuía um nome verdadeiro.
Em outras palavras, havia muito trabalho pela frente.
Mesmo assim, Alon escolheu descansar.
Afinal, desde o início, seu objetivo sempre fora desfrutar de uma vida tranquila como nobre.
Embora gostasse de estudar magia, o principal propósito disso era preservar a própria vida, e não alcançar alguma grande realização.
Em resumo, todo aquele esforço tinha como objetivo final garantir uma vida pacata. Do ponto de vista de Alon, portanto, nada mais justo do que se recompensar com algum descanso depois de tudo que enfrentara.
Pensando nisso, Alon planejava não fazer absolutamente nada por cerca de uma semana assim que voltasse às terras do conde.
Antes, porém, sentou-se no escritório para resolver de uma só vez, em um único dia, as tarefas que haviam se acumulado.
Ao abrir as cartas de Yutia que ainda não lera, Alon de repente congelou.
— …O quê? — murmurou Alon, atordoado.
E havia um bom motivo para isso.
— Evan.
— Sim?
— Qual é a posição de um cardeal na hierarquia de Rosario?
— Um cardeal…? Bem, tecnicamente, só fica abaixo do papa ou do santo. Por quê?
— Yutia virou cardeal.
— …O quê??
Dentro da carta estava a notícia chocante de que Yutia havia se tornado cardeal do Reino Sagrado de Rosario.