Tradutor: miggigibe
Duas semanas e três dias haviam se passado desde que Alon deixara Teria, capital do Reino de Asteria.
Naquele momento, ele atravessava o deserto do sul, passagem obrigatória para chegar à Colônia.
— Ufa…
Alon lançou um olhar para o sol escaldante. Parecia que só respirar já bastava para queimar seus pulmões.
— Que calor dos infernos.
Ao ouvir Evan, que encarava o céu sem expressão, Alon assentiu com dificuldade.
Por melhor que fosse a construção da carruagem, ela não conseguia barrar o calor.
— Se eu pelo menos tivesse uma Pedra de Cristal de Gelo…
Evan lamentava não ter um artefato tão caro que comprar um único exemplar custaria o equivalente a várias mansões.
Com a língua de fora como um cachorro, ele parecia bastante ridículo, mas Alon não tinha ânimo nem para rir.
O deserto era, sem exagero, absurdamente quente.
'Eu já devia ter chegado… se tivesse me apressado um pouco mais…'
Alon soltou um suspiro baixo enquanto esse pensamento lhe passava pela cabeça.
Na verdade, ele chegara à beira do deserto pouco mais de uma semana depois de partir rumo à Colônia.
Se tivesse entrado no deserto imediatamente, já poderia ter alcançado seu destino.
Mas havia dois motivos para ter demorado tanto antes de iniciar a travessia.
O primeiro era que fizera uma breve parada em outro território para preparar um presente para Seolrang, que estava na Colônia.
'Mesmo sendo nosso primeiro encontro, e mesmo que ela não me ajude, o mínimo é levar um presente.'
Por causa disso, embora já devesse ter chegado à Colônia, Alon ainda atravessava o deserto sob o sol abrasador.
Pensando bem, não fazia diferença ter partido mais cedo ou mais tarde. A distância que precisava cruzar continuava a mesma.
Ainda assim, sob aquele sol que parecia queimá-lo vivo, Alon não conseguia deixar de achar a situação um tanto injusta.
— Ufa…
Quanto tempo teria passado desde que começara a remoer pensamentos tão pouco razoáveis?
— Vamos acampar aqui!
Quando o sol ardente começou enfim a descer, tingindo o horizonte com as cores do entardecer, Alon ouviu uma voz do lado de fora e saiu da carruagem.
Diante dele havia uma fila de dezenas de carroças sobre o terreno que escurecia, cada uma com uma pequena lanterna pendurada.
Esse era o segundo motivo para Alon ter adiado a travessia.
— Já faz cinco dias que vejo isso, mas quanto mais olho, mais seguro me sinto.
Alon assentiu ao comentário de Evan.
Ele estava atravessando o deserto junto de uma caravana.
Sabia muito bem que tentar cruzar sozinho um deserto tão vasto era uma péssima ideia.
— A propósito, conde.
Enquanto observavam os mercadores começarem a montar o acampamento conforme as ordens do líder da caravana, Evan falou:
— O que foi?
— O senhor não vai praticar magia?
Embora tentasse parecer indiferente, Evan não conseguia esconder a expectativa no rosto.
Alon ficou confuso por um instante, mas logo entendeu o que ele queria e respondeu:
— Pretendo, mas vai ser algo diferente da magia que venho estudando até agora.
— Ah.
Evan pareceu um pouco decepcionado, mas Alon não tinha intenção de ceder.
Depois de meses de pesquisa, dominara sua magia atual a tal ponto que continuar praticando do mesmo jeito já não teria utilidade.
— …Não dá para praticar só uma vez?
— Não.
— Aff…
Evan suspirou, frustrado diante da recusa firme de Alon.
Mas a decepção durou pouco.
— Nossa… ele está praticamente se rastejando. Parece até um inseto.
Quando o sol enfim desapareceu e o ar começou a esfriar, Alon acendeu uma fogueira e seguiu o olhar de Evan.
Evan observava cinco pessoas.
Uma delas era um homem vestido com roupas bastante luxuosas. Outra era uma mulher de cabelos vermelho-vivos, como se simbolizassem as próprias chamas.
Atrás dos dois havia mercenários, cada um empunhando sua arma.
'O líder da caravana e a maga da Torre Vermelha. Não passa um dia sem eu ver os dois.'
Alon sabia muito bem quem eram.
Na verdade, era impossível não saber.
O homem que se desmanchava em mesuras diante da maga ruiva e dos mercenários era ninguém menos que o líder da Caravana dos Cabelos Dourados, enquanto a maga vinha procurando motivo para implicar com Alon sempre que tinha oportunidade.
— Olha só. Todo santo dia ele aparece com comida. Esse homem não tem orgulho nenhum?
Evan balançou a cabeça ao ver o líder da caravana esfregar as mãos com diligência e oferecer mais uma vez vinho e comida de alta qualidade.
No entanto, tanto Evan quanto Alon entendiam por que o líder da caravana agia de forma tão servil diante da maga.
Do ponto de vista dele, cultivar uma boa relação com uma maga da Torre de Magia trazia enormes vantagens, ainda mais quando aquela maga era filha do mestre da Torre Vermelha.
Embora ainda não tivesse assumido o cargo de vice-mestra da Torre Vermelha, ela já havia alcançado o 4º ranque aos meros 23 anos.
No mundo do comércio, em que contatos eram tão importantes quanto habilidade nos negócios, fazia sentido que o líder da caravana a tratasse com tamanha deferência.
Alon também estava numa posição em que pessoas importantes acabavam buscando contato com ele por conta própria. Ainda assim, o líder da caravana, aparentemente sem saber da recente ascensão de Alon à liderança de uma facção, decidira não se dar ao trabalho de criar laços com ele.
Mais precisamente, provavelmente quisera se aproximar dos dois. Mas, por causa do conflito constante entre a maga e Alon, acabara concentrando todos os esforços nela.
Alon observava distraidamente o homem se curvar quando percebeu que a maga havia notado seu olhar.
— Hm. O que está olhando?
A mulher de olhar afiado, Liyan Aguileras, percebeu na mesma hora e se aproximou para arrumar confusão.
— Só olhei por acaso.
— Gosta de ficar espionando os outros?
Liyan começou a provocá-lo sem hesitar, com desprezo e desdém claros na voz.
— Não tenho esse tipo de hobby.
— É mesmo? Meu engano. Achei que alguém tão empenhado em espalhar rumores também gostasse de espiar.
Mesmo diante da resposta neutra de Alon, Liyan continuou provocando. Ele soltou um suspiro.
'Que cansativo.'
Alon não sabia exatamente por que ela insistia tanto em arrumar briga com ele.
Ainda assim, conseguia imaginar alguns motivos, e um deles eram os rumores.
Começara a circular, principalmente entre os magos da Torre Azul e em Caliban, a história de que Alon tivera um papel importante ao lidar com ameaças estrangeiras usando magia.
Embora Alon jamais tivesse dito uma palavra a respeito, Liyan parecia convencida de que fora ele próprio quem espalhara os rumores.
Havia também outro motivo para ela hostilizá-lo.
— Já disse várias vezes. Não fui eu quem espalhou esses rumores.
— Você é tão esquivo quanto a Torre Azul.
Ao que tudo indicava, Liyan nutria um forte ódio pela Torre Azul.
Por trás da expressão impassível, Alon conteve uma risada.
Mesmo que ele parecesse suspeito aos olhos dela, arrumar briga de forma tão aberta não era exatamente uma atitude racional, nem mesmo naquele mundo.
Ainda assim, Alon apenas ouvia as provocações, porque eram infantis demais para despertar uma reação verdadeira.
Mas isso era apenas parte do motivo.
A verdadeira razão para tolerá-la era sua posição.
Ao contrário de Penia, Liyan não ocupava nenhum cargo formal na Torre Vermelha.
No entanto, ser filha do mestre da Torre Vermelha era um título muito mais intimidador do que qualquer posto oficial.
O mestre da Torre Vermelha morreria de forma dramática depois de avançar sozinho contra um dos Cinco Grandes Pecados que destruiriam a torre, mas ele não era um personagem irrelevante nem mesmo no jogo.
Em outras palavras, seu temperamento explosivo o levaria a correr de braços abertos para a própria morte.
Simplificando, era considerado um lunático.
Ao ver o calibre dos mercenários que cercavam Liyan, mesmo ela não sendo particularmente poderosa para uma maga de 4º ranque, ficava evidente o quanto o pai a valorizava.
'Bom, não é como se eu fosse vê-la de novo depois de atravessar o deserto.'
Por enquanto, Alon decidiu simplesmente ignorar as provocações.
— Hmph…
Ao perceber que ele só respondia sem entusiasmo, Liyan franziu o rosto, virou-se bruscamente e voltou para sua carruagem.
Alon balançou a cabeça enquanto a via partir.
No dia seguinte.
Rad era o líder da Caravana dos Cabelos Dourados, que percorria vários reinos, com exceção do Império, onde uma comitiva de mais de trinta carroças não conseguia passar.
Sob o sol intenso, ele sorria.
O suor escorria por seu corpo corpulento, deixando evidente o quanto sua carne sofria com o calor. Seu rosto, porém, estava cheio de satisfação.
E não era para menos. Agora ele tinha a oportunidade de criar uma conexão com a filha do mestre da Torre Vermelha.
Se tudo desse certo, talvez até conseguisse fechar um contrato de fornecimento regular de mercadorias para a Torre Vermelha na cidade para onde seguiam.
Por isso, apesar do calor escaldante, Rad estava bastante satisfeito.
'Teria sido bom criar laços com aquele nobre também…'
Rad olhou para trás com um leve arrependimento.
A carruagem do conde Palatio, que viajava com a caravana, estava no fim da fila. Fora aquela pequena pontada de pesar, porém, Rad não parecia particularmente preocupado.
Veterano daquela rota comercial, ele sabia muito bem que não dava para correr atrás de duas oportunidades ao mesmo tempo.
Além disso, não lamentava tanto ter deixado de se aproximar de Alon. Afinal, os rumores sobre seu poder mágico pareciam um tanto exagerados para alguém de 3º ranque.
Liyan garantira repetidas vezes a Rad que o poder mágico de Alon não correspondia aos rumores. Por isso, abrir mão daquela conexão não parecia uma perda tão grande.
É claro que, se Rad estivesse mais atualizado com as notícias recentes, a situação poderia ter sido diferente.
Infelizmente, tudo o que sabia era que Alon tinha alguma ligação com um dos Cavaleiros-Mestres de Caliban.
De qualquer forma, Rad continuou a viagem sob o calor abrasador, relativamente satisfeito com a própria situação.
— Todos, preparem-se para a batalha!
Diante do grito repentino de um mercenário na dianteira da caravana, Rad franziu a testa.
Se os mercenários estavam convocando todos para uma batalha no meio do deserto, só podia haver um motivo.
'Tsc, bandidos…'
Rad suspirou ao pensar nos bandidos que percorriam aquele vasto deserto em busca de caravanas para atacar, mas seu rosto não demonstrava medo algum.
E por que demonstraria? A Caravana dos Cabelos Dourados contava com dezenas de mercenários contratados por Rad, além de mais de dez mercenários de ranque B encarregados de proteger a filha do mestre da Torre Vermelha.
Em outras palavras, Rad tinha certeza de que um grupo comum de bandidos não seria capaz de fazer mal à caravana.
No entanto, no instante em que viu a enorme bandeira à distância, seu rosto perdeu a cor e seus olhos se arregalaram de horror.
O estandarte que avançava em meio à nuvem de poeira era um que comerciante nenhum desejaria encontrar.
'Areia Sangrenta…'
O nome do infame grupo de bandidos surgiu na mente de Rad, e o terror tomou conta de seu rosto.
Mesmo de longe, dava para ver que havia dezenas deles, e diziam que cada integrante da Areia Sangrenta era tão forte quanto um cavaleiro.
Vupt!
Antes que Rad sequer concluísse o pensamento, um dos bandidos da frente lançou uma foice presa a uma corrente contra um mercenário e tirou sua vida no mesmo instante.
E assim a batalha começou.
Não. Aquilo estava mais para um massacre.
Sem qualquer intenção de negociar, os bandidos massacraram em poucos instantes os mercenários que protegiam as carroças.
Foi então que…
— Impressionante, não acha?
Menos de dois minutos depois, a maioria dos mercenários já havia sido morta pelos bandidos da Areia Sangrenta, e um homem avançou.
Com um tapa-olho cobrindo um dos olhos e duas cimitarras presas à cintura, ele observou a cena ensanguentada com um sorriso frio.
— Oh…
Entre os mercenários de elite que ainda resistiam por pouco, o homem encontrou Liyan. A maga estava tomada pelo medo e pela tensão, e o sorriso retorcido dele se alargou.
— Ora, ora… Parece que tiramos a sorte grande.
Sua voz transbordava empolgação.
— Quem é você?
Liyan franziu a testa e perguntou em tom cortante, mas o homem apenas sacou uma das cimitarras da cintura antes de responder:
— Vai descobrir quando vier comigo.
Ele abriu um sorriso perverso e infundiu magia na espada.
Quando uma energia azul começou a arder na lâmina como fogo, a expressão de Liyan ficou sombria.
Apesar da postura descontraída do homem, ela sentiu um pavor profundo ao perceber a força da aura que emanava da espada, muito além da de cavaleiros comuns.
Naquele instante, Liyan percebeu que não havia como escapar.
Talvez um destino pior que a morte a aguardasse.
Assim que esse pensamento aterrorizante passou por sua mente, velhos traumas vieram à tona de uma só vez. Seu corpo começou a tremer de forma incontrolável diante da simples lembrança.
Ela sentia aquelas memórias horríveis corroerem sua sanidade e tomarem conta de sua mente.
Mas, quando a consciência de Liyan estava prestes a desabar…
…?
Algo a trouxe de volta à realidade.
O ar.
A hiperventilação provocada pelo trauma cessou de repente.
Devagar, ela expirou, e sua respiração formou uma névoa visível.
Foi naquele instante, ao ver o vapor branco diante de si, que Liyan percebeu uma coisa.
O ar que até poucos momentos antes era sufocantemente quente havia se tornado gélido.
— O quê…?
Liyan ficou parada, atônita, e percebeu que o sorriso retorcido do homem também dera lugar à confusão.
Não era apenas o chão, antes escaldante, que agora estava frio. Geada começava a se formar sobre a areia.
E então…
Passo.
No silêncio absoluto, o som de passos ecoou.
Os bandidos voltaram a atenção para a origem do som.
Os mercenários, que até instantes antes estavam tensos e amedrontados, também desviaram o olhar.
O homem que empunhava as cimitarras e tinha Liyan como alvo também se virou.
E ali, para onde Liyan, que acabara de ser engolida pelos próprios traumas, agora olhava…
Um homem caminhava em sua direção.
Passo.
Seu ritmo não era apressado nem lento.
Passo.
Sua expressão permanecia impassível, como se toda aquela situação não tivesse importância alguma para ele.
Passo.
A energia cinzenta que fluía de seu bracelete se misturou ao frio ao redor e, por fim, ele parou.
Naquele momento…
— Congele… — murmurou o conde Palatio, pronunciando uma fórmula.