—A este ponto, não seria possível recuperar o clima original do encontro.
Após ouvir as duras palavras de Felt, Priscilla, satisfeita, deixou o hotel, enquanto arrastava Al. Provavelmente, ela estava feliz, uma vez que já tinha cumprido seus objetivos no hotel.
Considerando o dano que ela causou, ela era realmente egoísta.
Aos poucos, todos voltaram a comer suas refeições, incapazes de conversar alegremente como antes.
O impacto que ela deixou foi incrivelmente doloroso para todos os presentes. Em particular, os sentimentos tanto de Reinhard quanto de Wilhelm, que certamente foi algo que ninguém de fora imaginaria.
Mesmo assim, nenhum deles deixou a ansiedade transparecer em suas emoções.
É claro, a eminente reconciliação entre avó e neto foi inevitavelmente adiada, o que foi suficiente para formar um forte nó no coração de Subaru, aquilo definitivamente o incomodava.
Otto: Nós tivemos muita sorte que Garfiel não estava presente.
Após a refeição, essas foram as últimas palavras de Otto antes dele partir para a Câmara de Comercio da Companhia Muse.
Como ele havia dito, seria problemático se Garfiel ou outra pessoa com tendências raivosas estivesse presente na refeição. Não era difícil de imaginar Garfiel partindo para cima de Heinkel, causando uma tragédia violenta.
Todos presentes no café da manhã, em sua maioria pelo menos, eram pessoas calmas e racionais. Possivelmente Priscilla tenha levado isso em conta, seria ainda mais satisfatório.
Subaru:… Como isso foi possível?! Foi uma coincidência mesmo entre as coincidências…
A sua sorte, de que Priscilla se gabava tanto, era além do impossível. Ela tinha conseguido alcançar os piores resultados possíveis durante a refeição. Embora fosse difícil de admitir, a preocupação de Emilia e Beatrice foi indiscutivelmente maior que qualquer tipo de indignação que Subaru sentiu.
Até mesmo Felt agiu de forma racional, Subaru foi o único que se deixou levar pelas emoções. Ele queria se desculpar por sua falta de consideração, tanto com seus amigos quanto com seus inimigos.
Emilia e Beatrice voltaram a seus quartos para dar uma descansada, antes de acompanhar Subaru em sua caminhada.
Subaru tentou aproveitar esse tempo para se livrar de sua frustração, seus passos estavam mais agitados que o normal. Como se fosse um reflexo da sua frustração. Pensando cada vez mais, Subaru aplicava cada vez mais e mais pressão em seus passos, tentando aliviar seus sentimentos, até que…
Julius: Não pise tão forte no chão, Subaru. Você vai causar problemas para os funcionários do hotel.
Subaru, que estava olhando fixamente para seus pés, envolto em pensamentos, voltou-se para o som.
Sem perceber, ele havia entrado no corredor que dava de encontro ao pátio, e lá estava Julius parado enquanto era banhado pelo vento.
Sua mão tocava seu cabelo roxo, aparentemente em um gesto habitual, enquanto ele aproveitava a brisa fria, fazendo uma pose bem dramática. Como sempre, o rosto bonito de Julius inspirava inveja em Subaru, que apenas mordeu a língua antes de sentar-se ao lado dele no corredor.
Julius: Emilia-sama e Beatrice-sama não estão com você, correto?
Subaru: Exatamente. Nenhuma delas são criancinhas, elas querem um pouco de privacidade, eu tenho a delicadeza de respeitar esse direito. Já marquei uma hora e um local para um encontro mais tarde.
Julius: Embora eu não esteja familiarizado com algumas das palavras que você usou, parece que você aprendeu a entender melhor o pensamento dos outros.
Subaru: “Ugh, você…
Ignorando as formalidades, Julius foi o primeiro a falar de maneira a instigar uma discussão. No entanto, após ver a expressão de Julius, a raiva de Subaru desapareceu. Julius balançou levemente a cabeça.
Julius: Peço desculpas. Se você realmente fosse incapaz de ter consideração pelos outros, você não teria levantado a voz para o vice comandante na frente de todos… Devo-lhe oferecer minha gratidão.
Subaru: Isso soa como um “obrigado”, mas por favor, não me agradeça. Aquele cara parece simplesmente ser aquele tipo de pessoa que ninguém gosta, mas mesmo assim… todos mantiveram a calma. Só eu que me descontrolei, devo ter agido de forma horrível…
Julius: De forma alguma. Foi graças à sua maneira precipitada de agir que os outros puderam manter a calma, me incluindo. Parece que suas ações impulsivas realmente foram úteis.
Subaru: Você…você não veio aqui pra me bajular, certo?
Subaru franziu a testa, estranhando a forma genuína como Julius falava. Julius sempre provoca Subaru de forma sutil enquanto eles conversam, Subaru também fazia a mesma coisa, então Julius não era necessariamente culpado. De qualquer forma, era quase impossível ambos conversarem de forma genuína.
Subaru: Eu sei, eu sei, eu deveria ter mantido a calma, agido como um cavaleiro faria. Mesmo com o título de cavaleiro, eu ainda não consigo manter a cabeça fria, mesmo sendo algo básico ensinado desde o fundamental.
Julius: Você está certo, de fato, da perspectiva de um cavaleiro, seu comportamento não foi de forma alguma correto. Entretanto…
Julius ficou em silencio, enquanto olhava para Subaru, que estava claramente desconfortável. Sua próxima ação fez os olhos de Subaru se arregalarem de surpresa.
Subaru: O quê… o que você está fazendo?
Julius: Exatamente o que você vê.
Subaru: Mas… o que aparenta é que você está se curvando…
Julius se abaixou, inclinando a cabeça para Subaru. Aquela não era uma cortesia, nem um ritual cerimonial, não se tratava de nenhum tipo de formalidade. Definitivamente não era algo que Julius faria.
Julius: Obrigado. Muito obrigado por mostrar a indignação que eu não pude.
Subaru: Eu não tenho a menor ideia do que você tá falando…
Julius: Valorizar a honra de um cavaleiro, significa agir sempre de forma virtuosa, independente da ocasião. Mesmo se seu amigo esteja sendo desprezado, mesmo se seu amigo esteja sendo ameaçado com palavras desumanas, você não pode agir de acordo com seus sentimentos. Mas… você é diferente, você não age dessa forma.
Mantendo sua postura, Julius continuava agradecendo Subaru repetidamente. Ele apenas se sentia perplexo, aquela era uma reação inesperada da parte de Julius.
Julius: Preso nesse impasse… escolher entre meu título de cavaleiro e as minhas emoções, rapidamente decidi suprimir a minha raiva. Mas, vendo suas palavras tão determinadas, senti vergonha de mim mesmo. Então, eu decidi vim lhe agradecer.
Subaru: Em vez de desabafar e liberar sua raiva, huh…
Julius: “——”
Subaru murmurou algumas palavras de compreensão, enquanto Julius finalmente ergueu os olhos.
Com uma única frase, Julius revelou seus verdadeiros sentimentos, que se refletiam em seu olhar. Vendo-o, Subaru não pôde deixar de resmungar.
Subaru: Que coisas estupidas você acabou de dizer. Sério, pare com essas bobagens.
Julius: “Pare com essas bobagens…”
Subaru: É claro. Por que outra pessoa ficaria com raiva em meu lugar? Eu só tava irritado porque aquele cara me tirou do sério, não é como se eu tivesse irritado com aquele velho barbudo em nome de outra pessoa. Eu também nem seria capaz de fazer algo tão inteligente como expressar a raiva de outra pessoa.
Estes foram os pensamentos sinceros que Subaru disse a Julius.
Subaru não considerava a sua raiva como algum tipo de indignação nobre. Afinal, apenas Reinhard e Wilhelm podiam entender seus próprios sentimentos. Subaru era apenas um estranho que havia se irritado pois a atmosfera calma e pacifica tinha sido comprometida. Sua raiva era puramente para seu próprio bem.
Subaru: Se você estava com raiva, então por que não disse nada? Eu não conseguiria lidar de forma calma com aquele velho barbudo por conta própria, mas se você tivesse me ajudado, então talvez…
Julius: Não adianta, ele é o vice comandante, ter ele como inimigo seria bem problemático.
Subaru: Isso não tem nada a ver com as posições que vocês ocupam. “Não adianta”, não seja tão mente fechada, seja mais flexível. Você só fica pensando toda hora em se comportar como um cavaleiro, agir como um cavaleiro, ou qualquer coisa do tipo. Até mesmo seu coração tá preso em uma armadura de cavaleiro?
Julius: “——”
Diante de um Julius silencioso, Subaru colocou os cotovelos sobre os joelhos enquanto apoiava seu rosto sobre as mãos. Ele suspirou, foi uma discussão boba e estupida! Subaru não só rejeitou a gratidão de Julius, mas também ficou irritado com ele. Lembrou-se de Heinkel e do incidente, apenas o deixou com mais raiva.
Julius: “Até meu coração está preso em uma armadura de cavaleiro…” ah, isso é muito duro de se ouvir…
Subaru: Embora eu ache que minhas palavras foram bem artísticas, só ignora, eu só tava zoando.
Julius: Não, levarei isso em conta. Estou feliz por ter aprendido uma lição de você. Isso é algo que nem teria passado pela minha cabeça há um ano.
Subaru: Aquela situação constrangedora já ficou para trás, mas ainda assim, eu ainda tenho pesadelos…
Às vezes, ele ainda sonhava sobre o que aconteceu no campo de treinamento dos cavaleiros, mais especificamente sobre seu duelo com Julius e as consequências. Embora o sofrimento físico que ele sofreu na época fosse doloroso de se lembrar, o sofrimento mental e emocional foi ainda maior e ainda mais doloroso de se lembrar. As memorias de sua própria incompetência estavam gravadas em sua cabeça e, de tempos em tempos, elas se repetiam em sua mente como um filme. Embora seus pesadelos não fossem somente por causa desse duelo, ainda assim, era algo capaz de rivalizar com as memorias de várias de suas mortes.
Julius: Se for possível, eu preferiria que você parasse com isso. Só de pensar em encontrá-lo nos seus sonhos todas as noites… é bem desagradável.
Subaru: Isso é engraçado vindo do culpado… Você já parou pra pensar que eu gostaria que meus sonhos fossem apenas comigo e com Emilia-tan?
Julius: Então você tem que recorrer aos sonhos para ter a chance de conquista-la, ao invés de utilizar sua própria capacidade. Isso é bem a sua cara.
Subaru: Maldito! Não me trate como lixo depois de me elogiar. Além disso, olha só quem tá falando!
Julius: Anastasia-sama é uma mulher adorável. Não há honra maior do que poder a servir de perto. Naturalmente, eu fico muito feliz com a minha posição.
Ouvindo a resposta calma de Julius, Subaru apenas resmungou. O clima desconfortável desapareceu junto com a reverencia de Julius, ele havia retomado a seu comportamento habitual. Subaru franziu a testa, ainda um pouco desconfortável, ele então tossiu, tentando mudar o rumo da conversa.
Subaru: Sobre aquele velho barbudo… ele disse que ele era o vice comandante ou o que quer que seja, isso é verdade?
Julius: É compreensível que você duvide, mas de fato, é verdade. Aquele homem é o vice comandante dos cavaleiros do Reino de Lugunica, Heinkel Astrea.
Subaru: Por acaso eles são cegos? Surdos? Ou só são doentes da cabeça mesmo?
Julius: Você realmente questiona tudo. É claro, nenhum dos cavaleiros ou escudeiros do alto escalão podem questionar as qualificações do vice comandante. Na verdade, este título serve mais como uma condecoração, e ninguém o viu cumprir com sua posição.
Julius respondeu enquanto balançava a cabeça, a imaginação de Subaru começou a imaginar como seria a imagem de um oficial de alta patente.
Receber recompensas incríveis enquanto se esquiva de qualquer responsabilidade realmente importante, — era assim como Subaru imaginava a maior parte dos oficias de alta patente, e sem dúvidas este era o caso de Heinkel. As pessoas a sua volta certamente sabiam da sua incompetência e de seu comportamento.
Subaru: Será que ele tá tirando vantagem do seu status de “pai do Santo da Espada”?
Julius: … isso não é… isso não é tudo. Assumir a posição de vice comandante não é algo que passaria despercebido pelo seu filho, Reinhard. Embora o senso de justiça e a imparcialidade de Reinhard sejam mundialmente aceitas, o cenário muda quando se trata da sua própria família, nem todo mundo confiaria nele.
Subaru: Eu não acho que Reinhard esteja disposto a quebrar seu código moral pelo seu pai.
Julius: Mesmo assim, ele ainda é o pai de Reinhard. Não importa o que os outros pensem, para Reinhard, ele é sem dúvidas um membro de sua família, alguém que compartilha do seu sangue. Ninguém sabe exatamente o que ele pensa.
Julius falou calmamente, com o intuito de tranquilizar Subaru. Rangendo seus dentes, Subaru rosnou irritado.
Como Julius havia dito, não importa o quão medíocre ele seja, ele ainda era o pai de Reinhard, o que significava que apenas o próprio Reinhard poderia decidir se renunciaria ou não do seu relacionamento com ele.
Como um cavaleiro que valoriza a justiça, ele não deveria deixar-se enganar pelos sentimentos que possui pelo pai. Mesmo assim, romper um relacionamento desses não seria fácil. Quando se apenas observa a situação do lado de fora, não é difícil se posicionar de forma rígida sobre o que Reinhard deveria ou não fazer, mas fazer isso seria incrivelmente arrogante.
Subaru: “Isso não é tudo”, você disse, então quais seriam as outras razões? O que mais poderia…
Julius: Ele também é o chefe da Casa Astrea e filho do Wilhelm-sama. Ele é parente não só do melhor cavaleiro de Lugunica, mas também do Santo da Espada anterior. Não lhe conceder uma posição de alta patente seria quase como traição, isso certamente deve ser levado em consideração.
Esta foi a resposta breve e sem emoção de Julius. Ouvindo-a, Subaru precisou apenas de alguns segundos para entender as implicações por trás dela.
Subaru: Esse país! Seja Reinhard ou Wilhelm! Isso é inacreditável! Acreditar que se Heinkel guardasse rancor do país então automaticamente toda a família Astrea também… Tratando-os com cuidado, como se fosse uma bomba relógio, se for assim… Isso não seria um insulto a Reinhard e Wilhelm?!
Ambos eram pessoas honradas, mas ainda assim o país acreditava que eles seriam capazes de traição…
A raiva que Subaru sentiu naquele momento se equiparava com a raiva que ele sentiu no momento em que encarou Heinkel. Julius balançou a cabeça e deu um tapinha no ombro de Subaru.
Julius: Sua raiva é justificável. Entretanto, o reino deve estar preparado para qualquer possiblidade.
Subaru: Não se trata de possibilidade! Esse é o tipo de coisa que claramente, obviamente, nunca vai acontecer!
Julius: … Wilhelm-sama é o ex-comandante dos cavaleiros de Lugunica.
Subaru: “Huh!?”
Subaru, inconscientemente parou de mover-se ao ouvir estas palavras.
Julius: Há quatorze anos, um membro da família real foi sequestrado na capital, naquela época, Wilhelm que liderava os guardas, foi encarregado da busca.
Subaru: O que tem demais nisso? Até eu conheço eventos famosos como esse.
Felt era aquela pessoa da família real que havia sido sequestrada ainda quando criança, esse boato espalhou-se por toda parte. Subaru, que já tinha descartado aquele boato, não entendeu o significado das palavras de Julius.
Subaru: Eu sei que a tal criança da família real nunca foi encontrada. Mas e daí? Wilhelm-san assumiu a responsabilidade e renunciou ao cargo de cavaleiro, então é por isso que ele teoricamente odiaria o reino? Mas então…
Julius: Naquela época, a ex-Santa da Espada foi mandado em uma expedição para subjugar a baleia branca—justamente na época em que Wilhelm foi enviado para procurar o sequestrador.
Subaru: ——
Pensando sobre as palavras de Julius, Subaru mergulhou em meio aos seus pensamentos. Algo que Wilhelm certa vez havia dito parecia ser capaz de preencher esta lacuna. Wilhelm disse que não estava ao lado de sua esposa quando ela morreu.
Subaru: Por causa da investigação ele não pôde estar ao lado de sua esposa quando ela morreu… então por isso Wilhelm acabaria odiando o reino, ou algo assim…
Julius: Eu não sei qual era a verdadeira intenção de Wilhelm-sama, entretanto, após a falha em encontrar o membro perdido da família real e após o fracasso na subjugação da baleia branca, Wilhelm-sama retirou-se da posição de comandante dos guardas. Se não fosse por Marcus-sama para assumir a liderança e reorganizar os cavaleiros, a situação teria ficado complicada.
Subaru: Eu não dou a mínima! Eu tô tentando falar sobre o Wilhem-san! Você… Você realmente acredita nisso?! Que Wilhelm-san guardaria rancor de todos por causa de sua esposa?! Isso… isso é…!
Rebelar-se contra todos apenas por causa do seu próprio ressentimento. Era realmente o que eles pensavam de Wilhelm Van Astrea? Por que… alguém que estava tão profundamente apaixonado e disposto a desistir de tudo pelo amor… como alguém seria capaz de pensar que Wilhelm faria isso? Eles realmente nunca o olharam nos olhos… e viram como ele é uma pessoa admirável? Será que eles não conheciam a verdadeira natureza do Demônio da Espada?
Subaru: Ele nunca faria algo assim! Por que diabos ninguém entende?!
Julius: “——”
Subaru tirou a mão de Julius de seu ombro e o empurrou pelo peito, ele então se levantou enquanto olhava para Julius. Os olhos amarelos de Julius quase pareciam admirar a raiva de Subaru. Ele então entendeu, Subaru entendeu que não fazia sentido direcionar sua raiva a Julius, suas palavras não refletiam seu ponto de vista, a forma como Julius agia deixava isto evidente. Afinal, há um ano, depois da derrota da baleia branca, Julius confortou Wilhelm, que havia passado os últimos quatorze anos tentando vingar sua esposa. Não havia dúvidas que ele não suspeitava que Wilhelm iria se rebelar contra o reino.
Subaru: Desculpa… Eu fui idiota.
Julius: Não, não se desculpe. Você tem o direito de ficar tão irritado. Eu que estou errado, se alguém deveria se desculpar, esse alguém sou eu.
Olhando para baixo, ambos fecharam seus olhos, ambos sentiam um peso insuportável. A impotência de não poder fazer nada acerca da situação de Wilhelm os incomodava bastante.
Subaru: Então… Reinhard tá na mesma situação?
Julius: Pela mesma lógica, Reinhard supostamente teria ressentimento do reino por terem enviado Theresia na missão de subjugação da baleia branca, matando assim sua avó, mas esse não é o caso.
Subaru: Então…
Julius: No entanto, o reino não duvida que Reinhard não queira se rebelar. As suspeitas vão para Heinkel-sama.
Ao ouvir o nome do pai de Reinhard, os olhos de Subaru se arregalaram. Qualquer conversa que envolvesse aquele nome seria simplesmente desagradável, Subaru definitivamente nem queria ouvir sobre Heinkel. No entanto, ele não tinha escolha, ele não podia simplesmente tapar seus ouvidos e ignorar.
Subaru: Como é o relacionamento de Reinhard com seu pai? Além da relação de sangue, claro.
Julius: Houve uma época em que Reinhard obedecia Heinkel de forma total e absoluta. Pode parecer natural, uma vez que se trata de uma relação entre pai e filho, mas… estava ultrapassando os limites do que deveria ser.
Julius desviou os olhos de Subaru, como se falasse com um peso.
O relacionamento deles “ultrapassou os limites” de um relacionamento normal de pai e filho. Aquelas palavras eram vagas, vagas o suficiente para Subaru não entender o real significado. Julius voltou seu olhar para Subaru, ele não parecia querer entrar em detalhes sobre esse assunto.
Julius: À medida que Reinhard crescia e se tornava mais independente, essa atitude possivelmente desapareceu. Mas, não se sabe se Reinhard ainda obedeceria ou não as palavras de Heinkel, essa dúvida não pode ser respondida.
Subaru: Então… para evitar que Heinkel desse a ordem para que Reinhard se rebelasse contra o reino, Heinkel foi favorecido, certo?
Julius: Talvez seja ainda pior. Embora isso seja apenas um boato, vou lhe contar, afinal, você é amigo de Reinhard e sentiu raiva por ele.
Julius olhou em volta, certificando-se que ninguém estava bisbilhotando, ele então se aproximou de Subaru, e disse:
Julius: O vice comandante era um suspeito na investigação do sequestro do membro da família real há quatorze anos.
Subaru: “——!?”
Julius: Não tem nenhuma prova concreta. Entretanto, ele foi supostamente questionando sobre o seu suposto envolvimento.
Subaru: Se isso for verdade, então o sequestro foi…
Julius: A verdade por trás disso não é mais relevante. O problema agora é uma pessoa tão suspeita ocupando uma das maiores posições no reino.
A benção gloriosa que acompanha o título de Santo da Espada… no entanto, à medida que a situação se tornava cada vez mais clara, Subaru começou a se questionar se realmente se tratava de uma benção, parecia mais uma maldição.
Subaru: Mas, se ele está mesmo relacionado com o sequestro, então foi por causa dele que Wilhelm e Theresia não puderam se encontrar uma última vez.
Julius: Isso não é tudo… Eu também ouvi que Heinkel-sama foi quem sugeriu que Theresia-sama, que já havia abandonado o caminho da espada, tomasse seu lugar na subjugação contra a baleia branca.
Subaru: Ele realmente mandou a própria mãe pra lutar com a baleia branca?!
Julius: Há um registro bem preciso disso, o vice comandante se recusou a participar da batalha contra a baleia branca, recomendando que a própria mãe participasse da batalha.
Completamente sem palavras, Subaru não foi capaz de formular uma resposta.
Ao contrário do boato sem fundamento que Julius havia citado, o que Julius tinha acabado de falar era sustentado por evidencias concretas. Registros e testemunhas… aquilo era de fato real. Heinkel mandou a própria mãe em seu lugar na batalha contra a baleia branca.
Sua mãe morreu em batalha e seu pai trilhou o caminho da vingança, incapaz até de passar os últimos momentos com sua esposa. Ao invés de receber uma punição, Heinkel usou o talento de seu filho como um escudo, para proteger sua vida estável e confortável. Como é possível? Como poderia existir um ser humano capaz de fazer isso?
Subaru: Tem que ter algum tipo de erro em algum lugar, certo…?
Ele não queria acreditar.
Não se tratava de querer acreditar na humanidade de Heinkel, Subaru já havia o reconhecido como o pior tipo de pessoa possível, qualquer pessoa que falasse com Heinkel perceberia de imediato. No entanto, ele estava relutante em admitir que tamanha maldade, imoralidade e depravação poderiam existir. Ele queria acreditar que a ética, honra, ou até a natureza humana, seriam capazes de limitar o quão mal uma pessoa poderia ser. Porém, coisas que seriam um pecado até mesmo na imaginação, poderiam acontecer na realidade.
Julius: Desculpe… Isso não é algo que eu deveria falar a alguém que não estava completamente preparado.
Julius suspirou, sua voz estava envolta em tristeza, Subaru estava simplesmente sem palavras.
Subaru poderia ter empatia total com os sentimentos que o tom de Julius expressou, algo que era muito raro, considerando a forma calma como Julius falava.
Subaru: Não… não é sua culpa, eu que quis saber da história. Embora eu preferiria que eu simplesmente pudesse culpa-lo.
Julius: Eu não estou em posição de aceitar suas palavras. Obviamente, tudo que eu relatei é apenas rumores sobre os assuntos de outra família, mas mesmo assim, eu falei como se tivesse testemunhado pessoalmente. De qualquer forma, falei sem pensar na gravidade desses rumores. Como um cavaleiro, eu deveria sentir vergonha.
Subaru: Mas você testemunhou, certo? Já que você é amigo de Reinhard.
Subaru replicou as palavras autodepreciativas de Julius.
Julius ergueu a cabeça novamente para Subaru, que acenou de volta para ele.
Subaru: Embora eu não saiba os detalhes de sua amizade com Reinhard, eu percebo que você tá preocupado com ele. Eu não culpo sua raiva e nem a julgo como agressiva. Acho errado não se envolver só porque não é da sua conta.
Julius: Então, o que você faria?
Subaru: É errado interferir quando se ouve alguém chorando perto de você? Se eu visse que meu amigo está sem esperanças, eu certamente iria ajuda-lo. Se você se importa com Reinhard, então é completamente natural que você faça isso. Especialmente considerando que seus sentimentos não são como os meus.
Se Julius interferisse apenas por curiosidade, Subaru o trataria com desprezo. No entanto, seus reais sentimentos passavam longe de serem apenas por interesse, suas palavras e atitudes mostravam que ele realmente se preocupava com Reinhard.
Subaru: Eu já não te falei? Não precisa se apegar tanto ao seu título de cavaleiro ou sei lá o que for. E mesmo que você continue agindo assim, às vezes é bom tirar essa sua armadura e se tornar “Juli”, não seria tão ruim. Quem disse que agir com naturalidade não levara a uma situação melhor?
“Juli” foi o pseudônimo que Julius adotou durante a batalha contra o Culto da Bruxa.
Devido a sua posição, Julius não poderia se juntar a um grupo de mercenários, ele então escondeu elegantemente sua identidade por meio de outro nome. Foi um nome que eventualmente todos pararam de usar, até mesmo o próprio Julius. “Juli” foi o Julius que menos agiu como cavaleiro.
Julius: “Juli” hein… esse nome realmente veio do nada!
Subaru: É de muito tempo atrás, e só foi usado uma vez. Me impressiona eu lembrar.
Julius: “Não se apegue tanto ao seu titulo de cavaleiro ou sei lá o que for” Isso é bem complicado… tenho certeza que você sabe como eles me chamam.
Subaru: É exatamente porque eles te chamam dessa forma que você se tornou tão apegado tanto fisicamente quanto mentalmente a esse título de cavaleiro. Você deveria tirar essa tal armadura quando for tomar banho, e depois fazer uns alongamentos comigo antes de colocá-la de novo.
Subaru dobrou as costas para frente, até conseguir colocar as palmas das mãos no chão, como se exibisse sua flexibilidade. Embora seu corpo estivesse bastante rígido antes de aprender parkour, ele aprendeu a se movimentar de forma mais suave e flexível. E então, voltando-se para Subaru que ainda estava se gabando de sua flexibilidade,
Julius: Se você está tentando se exibir, eu não posso fazer nada além de suspirar.
Subaru: “Oh!?”
Enquanto ele falava, Julius abriu bem suas pernas e estendeu a mão para o chão. Subaru não podia deixar de admirar o controle que ele tinha de suas pernas finas e a flexibilidade com que ele realizava o movimento.
Isso significava que Julius podia superar Subaru facilmente em qualquer área?
Subaru: Gah… mas se fosse pra tocar algum instrumento, eu definitivamente venceria…!
Julius: Apesar de eu não ver muito mérito em triunfar em hobbies, eu também comecei a tocar instrumentos musicais. Embora é bem complicado.
Subaru: Grr! O hobby de um cara como você só pode ser algo muito superficial! Eu nunca vou formar uma banda com você. Meu lugar como vocalista seria roubado!
Julius reorganizou suas pernas e levantou-se, ele balançou sua franja na frente de Subaru, como se estivesse esbanjando sua vitória.
Julius: Entendo, então é assim que “Juli” olha para o seu eu e sente a brisa.
Subaru: Quê?
Julius: O céu que eu vi antes também parece um pouco diferente que o normal. Então é por isso.
Subaru: Você tá ficando cada vez mais irracional, tá difícil te entender, seu maldito.
Subaru encolheu os ombros, aborrecido, e caiu sobre o chão do corredor. Julius estreitou os olhos, como se ainda estivesse deslumbrando da luz do sol.
No final, o ar estranho e desconfortável da conversa se dissipou.
É claro, o que eles haviam discutido ainda ressoava em suas cabeças, eles ainda sentiam o incomodo no próprio peito. Mas, mesmo assim, eles ainda poderiam ao menos superar aquela frustração juntos.
— Vendo aquela cena, aqueles dois pareciam dois amigos normais.