Ricardo: “Por que essa cara? Tem algo te incomodando?”
Pouco antes de chegarem à torre de controle, Ricardo falou com o cavaleiro, cuja expressão era rígida.
Parando, Julius ergueu uma sobrancelha surpreso.
Julius: “Que inesperado, Ricardo. Nunca imaginei que você demonstraria qualquer preocupação com os problemas dos outros. Estou realmente surpreso.”
Ricardo: “Não confunda essa frase com outra coisa. Só eu estou com você. Independentemente do que me diga, guardarei esse segredo até mesmo da senhorita.”
Julius: “… Bem, você não está errado, huh.”
Embora fosse extremamente raro, Ricardo às vezes fazia observações precisas e corretas sobre as pessoas.
Se não fosse por isso, ele não teria sido capaz de assumir seu papel como líder chefe do Presas de Ferro; qualquer um pensaria assim ao ouvir qualquer fragmento de sua esplêndida carreira.
Preocupar-se apenas consigo mesmo e ignorar o que está ao seu redor não era maneira de se manter vivo. Isso se aplicava a ambos os papéis, sendo eles escravo ou mercenário.
Ricardo: “Esse garoto é muito brutal. Mesmo assim, vou desempenhar o papel que devo cumprir, então pode confiar em mim. Também irei considerar sua opinião, genro.”
Julius: “Esse ‘genro’ me assusta. Eu não tenho esse tipo de sentimento estranho em relação à Anastasia-sama.”
Ricardo: “O quê? Depende da mocinha então, hein? Talvez seja sobre a Mimi. Além disso, ela ainda não conseguiu convencer a senhora.”
Julius: “—-“
Julius sorriu amargamente. O gesto de balançar suavemente a cabeça foi gracioso como sempre, mas, desta vez, faltou precisão na escolha das palavras adequadas.
E vendo aquele gesto,
Ricardo: “Há algo estranho com a reconquista da prefeitura. A senhorita concorda e pensa assim também. Ela não ouviu muito sobre isso, porque você não quis falar, mas agora vou forçá-lo a botar tudo pra fora.”
Julius: “Você é bastante implacável e realmente não tem misericórdia.”
Ricardo: “Claro, é uma questão de vida ou morte. Eu não quero dar as costas para alguém que está confuso. Você está dando algum tipo de desculpa para negar isso?”
Julius: “…Não, é como você diz. Era eu quem estava errado. Certamente, minha hesitação em falar aumenta o risco de vida que corremos.”
Julius acenou com a cabeça para Ricardo e ergueu as sobrancelhas com elegância.
No entanto, após isso, Julius não disse mais nada. Vendo isso, Ricardo se livrou da letargia e falou em voz baixa.
Ricardo: “Por que ainda está hesitando? É triste ver que um cavaleiro renomado como você esteja tão perdido. Apenas deixe sair, fale tudo francamente. Você não pode fazer isso? O que está lhe impedindo?”
Julius: “…”
Ricardo: “Julius.”
Julius: “Peço desculpas. Não consigo escolher as palavras adequadas para expressar o que quero dizer. A razão da minha preocupação é, como você adivinhou, o Arcebispo do Pecado que foi encontrado na prefeitura. Roy Alphard da Gula, era ele, com toda a certeza. Isso é claro para mim, mas …”
Julius interrompeu confusamente suas palavras no meio do caminho, enquanto seus olhos amarelados se enchiam de incerteza.
Julius: “Assim como os outros Arcebispos do Pecado, a Gula também pode possuir uma habilidade inexplicável. O poder de se alimentar de memórias e dos nomes era perceptível e foi descoberto há muito tempo na batalha contra a Baleia Branca. Porém…”
Ricardo: “Julius!”
Ricardo gritou na mesma hora em que uma certa ansiedade e mal-estar se instalou em seu coração. Julius imediatamente reconheceu o que significava.
A atmosfera tremeu, todos os sons desapareceram do mundo e uma luz se ergueu no céu.
Só poderia haver uma situação em que aquela luz extraordinária inundasse o céu noturno. Deve ser o resultado do ataque de um dos indivíduos mais fortes deste mundo.
Ricardo: “Que técnica bonita. Posso presumir que seja o Santo da Espada, certo?”
Julius: “Ah, deve ser o Reinhard, não é? Parece que Subaru e os outros já entraram em contato com a Ganância. Também não podemos permitir mais atrasos. Devemos nos apressar.”
Quando um Arcebispo do Pecado foi atacado, os outros Arcebispos não se reuniram para se defender e contra-atacar.
Mas isso não significava que eles não tomariam alguma atitude agora.
Julius e Ricardo aceleraram o passo, enquanto se aproximavam da torre de controle.
Ricardo: “Então o que há de tão estranho com a Gula? Você disse que ele é um monstro extraordinário?!”
Carregando seu enorme facão sobre o ombro, Ricardo deu tapinhas no ombro do cavaleiro e pressionou Julius a continuar o que dizia antes da interrupção. Julius virou a cabeça e olhou para trás, encarando o homem-fera com sua expressão negando o que acabara de dizer.
Julius: “Não. Embora, da última vez, ele não parecesse atacar seriamente, a habilidade da Gula não parecia ir além do próprio conhecimento humano. Se nós dois formos seus adversários, então acho que será o suficiente para enfrentá-lo. No entanto, a aspereza e excentricidade do inimigo são um assunto totalmente diferente.”
Ricardo: “… “
A preocupação inevitável que Julius sentia era que nem mesmo ele conhecia a extensão e os limites de sua verdadeira excentricidade. E o egoísmo incomum de Julius o fizera evitar mencionar isso durante a reunião anterior de estratégia.
Para Julius, a Gula era um oponente misterioso e imprevisível; mas, ainda assim, acreditava que era seu dever cruzar espadas em uma batalha com ele.
Ricardo não sabia o porquê.
Indiscutivelmente, até mesmo Julius não sabia com total certeza.
Correndo pelos paralelepípedos, eles dobraram a esquina em direção à saída da rua. Lá estava uma das quatro torres de controle, de cor diferente em comparação aos outros edifícios ao redor, e na frente dela estava–
??: “Aah~, sabíamos que ele viria. Esperávamos mesmo que ele viesse, hein. Isso está certo, está exatamente certo, está completamente certo, talvez esteja certo, provavelmente está certo, isso é realmente certo, tsu! A espera com certeza valeu a pena~tsu!”
Em frente à entrada da torre de controle, um menino solitário jazia parado no meio da praça de paralelepípedos.
Vestido com trapos sujos, os cabelos castanho-escuros foram crescendo por muito tempo até atingirem um comprimento considerável. Seus olhos desequilibrados brilhando intensamente de felicidade, sua boca mostrando seus dentes caninos extremamente afiados e uma língua serpenteante pingando enquanto permanecia pendurada em sua boca.
Ele era um menino, com os dois braços pendurados, deixando-os cair. Não importa como você olhasse para ele, dificilmente você enxergaria força e qualquer tipo de poder, ele parecia simplesmente uma criança errante e vagabunda, mas, ainda assim, uma aura de terror perigosa emanava de seu corpo.
Ricardo: “Só para confirmar… É ele, não é?”
Não havia necessidade de perguntar. Não havia dúvida de que era. Suas ações eram totalmente convincentes.
Em resposta à Ricardo, Julius apenas abaixou o queixo silenciosamente.
Não havia dúvida ou erro: era o Arcebispo do Pecado da Gula que estava ali na frente deles agora.
Ele era o pior tipo de blasfemador, que devorava o nome e as memórias das outras pessoas.
Julius: “Roy Alphard…”
Roy: “Sim, respondeu de forma correta. Esse é o nosso nome. Estamos felizes que você se lembra de nós. Bem feliz. Muito feliz. Eu acho feliz. Porque somos felizes. Precisamente, porque somos felizes. Comer e beber avidamente~tsu. – Valeria a pena e seria útil comer e beber! E também…”
Declarando seu nome, Alphard riu com terrível brutalidade. Ele olhou diretamente para Ricardo, parado ao lado de Julius.
Ele abriu a boca e tapou suas narinas dilatadas enquanto seus olhos se encheram de êxtase.
Roy: “E desta vez parece que teremos até um cachorrinho-chan. Isso nos deixa indescritivelmente felizes. Afinal, nossos estômagos poderiam estar em apuros se fosse apenas Julius Juukulius-kun. O que quer que você diga, teria sido completamente sem gosto, não é?”
Julius: “Aparentemente, comecei a ficar totalmente entediado com seus insultos. Então, para acabar com isso rapidamente, pedi ao meu amigo para que me acompanhasse desta vez. Embora seja deselegante ter mais de uma pessoa… “
Roy: “Ah~ é bom. Fazer isso para aumentar a autoconsciência pode ser bom e típico de Julius-kun. Mas também é algo de mau gosto e bastante fraco. Nosso paladar é exigente, então saborear isso é um pouco problemático; ainda assim, estamos intrigados, já que Julius-kun é um dos melhores que vimos até agora–! É arrumado, limpo e consistente.”
Julius: “Nossa… Além da ótima recepção que recebemos, também estou grato por tais palavras.”
Roy: “É inevitável-! Nossa hostilidade é algo que sempre passa despercebido. Mas queremos que você ignore um pouco essa pequena desigualdade e incompatibilidade de personalidade, porque essa é a nossa essência -.”
Acenando com os braços, Alphard não mudou sua postura até o final. Diante dessa atitude provocativa, Julius conseguiu manter a calma, mas Ricardo não conseguiu esconder a sensação de desagrado. Ele estalou a língua e quebrou os ossos do pescoço.
Ricardo: “Ah, diga o que quiser, garoto. Seria um erro ignorá-lo, considerando-o apenas um mero pirralho. A punição que você receberá por seus pecados não será muito bonita. Eu seria capaz de cruzar dimensões apenas para bater em você. Vou quebrar sua cabeça.”
Roy: “Oh, que assustador. Não nos olhe com essa cara assustadora. Pedimos desculpas se o ofendemos chamando você de ‘cachorrinho’, Ricardo Welkin. Mesmo assim, estávamos ansiosos para te encontrar, sabe? Não nos assuste, com essa sua voz grosseiramente alta e áspera!”
Ricardo: “—?”
Chamado pelo nome, Ricardo olhou para Julius, que franziu a testa. E, ao perceber o olhar, ele balançou a cabeça. Era estranho.
As palavras de Alphard não deveriam ser nada mais do que meros delírios de um louco, mas a enorme sensação de desconforto não poderia ser facilmente deixada de lado. Essa sensação ocorreu quando ele pronunciou algo que não deveria ser do seu conhecimento, como– quando ele havia aprendido o nome de Ricardo?
Ricardo: “Maldito, pirralho assustador! De onde e como você conseguiu aprender nossos nomes?”
Roy: “Eu não fiz algo tão sábio quanto tentar investigar, não seria sensato. É apenas isso, para nós, é óbvio saber. Não é, Julius-kun~?”
Julius: “Não importa o quanto você consinta, mesmo que você queira que eu concorde, não posso lhe responder. Não sei muito sobre você. Se fizer isso, da mesma forma eu irei quebrar o fluxo.”
Roy: “Está vendo? Chegamos àquela conclusão chata e decepcionante novamente. Mesmo que nós se importemos com isso, é angustiante, insatisfatório e desagradável!~ desagradável! Desagradável!~tsu. Esconda-o em seu coração, priorize pensar nos outros antes de você mesmo—! É algo virtuoso em um cavalheiro, mesmo sendo muito chato.”
Desembainhando sua espada de cavaleiro, os lábios de Julius sussurraram algo muito baixinho.
Imediatamente depois, seis luzes extremamente brilhantes o cercaram.
Eles eram os seis semi-espíritos que sempre acompanhavam o cavaleiro.
A combinação de esgrima e artes espirituais foi o que transformou Julius no “Cavaleiro dos cavaleiros”.
Roy: “Nem o cheiro do sentimento de inferioridade, nem a textura rica do sentimento da frustração, até mesmo a doçura de um forte desejo, ou o raro sabor de um gosto estranho de satisfação depois de envelhecer, infelizmente, você não tem nenhum deles~tsu!”
Julius: “Ricardo, vá com tudo que você tiver. Vamos trabalhar juntos.”
Ricardo: “Sim, deixe comigo.”
Balançando os braços, Alphard revelou as adagas amarradas em seus pulsos. Empunhar duas adagas era o estilo costumeiro de luta da Gula, mas não parecia o suficiente para se defender da magia de Julius ou impedir os golpes de Ricardo.
Contanto que a luta não fosse uma emboscada, a vitória e a derrota para cada um já eram visíveis.
Ainda assim, apesar de tudo, os olhos de Ricardo viram que o comportamento de Alphard não parecia o comportamento de alguém que forneceria uma experiência de batalha difícil e desafiadora.
Julius: “Cavaleiro Espiritual, Julius Juukulius.”
Mantendo sua cortesia, Julius anunciou seu nome antes da batalha.
Mas Ricardo, que carregava um grande facão e estava ao lado dele, não sentia essa obrigação moral. Ambos focaram seus olhos, esperando que a Gula apresentasse sua identidade.
Ao ver o olhar intenso de Ricardo, Alphard riu.
Roy: “Que bom, talvez seja bom, bom, não é bom, certo? Talvez seja bom, possivelmente é bom, provavelmente é bom, porque provavelmente é bom~Tsu! Gula~Tsu! Comer bizarro!~Tsu! Gourmet, saciedade, comer muito, demais!~Tsu! Picante, suavidade, delicioso~Tsu! Iremos comer tudo~Tsu! Vamos devorar tudo! Até mesmo uma vida sem gosto passa a ser uma nova experiência para nós~Tsu!”
Julius: “El Clausel.”
A intensidade das seis cores desenhou um círculo na frente dos olhos de Julius, e uma luz extremamente brilhante emanou da ponta de sua espada e atingiu o centro de Alphard.
Múltiplas afinidades se misturaram e o poder destrutivo se transformou em um raio de arco-íris que poderia engolir tudo.
Logo atrás da luz ofuscante, Ricardo avançou impulsivamente demais, quebrando os paralelepípedos e brandindo seu facão enorme, como se tentasse encurralar Alphard contra a luz intensa.
Um poderoso ataque de facão e uma luz de arco-íris destrutiva – para ambos, Alphard mostrou suas presas ferozmente.
Roy: “—Na verdade, nii-sama é tão magnífico quanto imaginamos. Que delícia.”
—— —— —— —— —— —— —— ——
Sob a lua, raios de prata cortavam o vento como faíscas que saíam de uma sinfonia de esgrima.
O primeiro a atacar foi o Demônio da Espada, que balançou um par de lâminas com notas nítidas.
Seu parceiro o recebeu; uma bela espadachim, cujos movimentos fluíram lembrando um fluxo suave de águas.
Flashes de metal dançaram no ar; o choque de aço deve ter soado cruel e, no entanto, de alguma forma, essa sinfonia soava nostálgica e melancólica. O clamor de colisões precisas e agudas lembrava as carícias suaves de um casal de amantes apaixonados.
O motivo era simples: esses dois espadachins se complementavam, chegando a um nível além da perfeição único.
Wilhelm: “Haaah!”
O Demônio da Espada endureceu sua respiração e exalou-a enquanto desencadeava e soltava incontáveis golpes elípticos de todos os ângulos e trajetórias.
Esses arcos precisos eram praticamente uma obra de arte, seus movimentos limpos eram os candidatos ideais para o padrão de todos os espadachins.
Sua habilidade natural era tão impressionante que qualquer um que se chamasse cavaleiro ficaria tão fascinado que a derrota seria garantida; no entanto, ele simplesmente, como se fosse a coisa mais natural, desencadeou incontáveis ondas de ataques, um após o outro.
Theresia: “…”
Um único golpe seria mais do que fatal, nesta chuva de morte sem fim.
No entanto, esse furacão incomparável estava sendo interceptado por uma longa espada cuja dona era incrivelmente extraordinária.
Além do mais, aquela espada tinha uma qualidade estranha, sendo mais preciso, uma característica incomum.
A altura da espada, tão alta quanto seu dono, era grande demais para ser considerada uma arma utilizável; entretanto, a esguia espadachim brandia a enorme lâmina com facilidade como se ela não tivesse peso algum.
Embora a proprietária da espada estivesse coberta da cabeça aos pés por uma capa preta, algo que deveria obstruir sua visão, a ponta da espada fluía como se estivesse dançando na água.
Seja em termos de velocidade ou perfeição, as espadas gêmeas superaram em muito a longa espada.
Mas, mesmo assim, todos e cada um dos ataques do Demônio da Espada foram interceptados e desviados sem exceção.
Em meio as faíscas e sons altos de metal, com um silvo quase de pura pena em direção ao Demônio da Espada, a espadachim saltou para trás.
Com um passo muito tardio como reação a um movimento inesperado, ele se inclinou para frente e, quando estava prestes a avançar, o brilho de uma espada se aproximou de sua testa.
Wilhelm: “–Hk.”
Brilhando e passando adiante dele estava um golpe que ele não podia permitir que o tocasse.
Este foi um golpe e ataque especializado que disparou mais rápido do que um piscar de olhos, obscurecendo a lâmina que se aproximava. Se não fosse por sua vasta experiência em duelos com ela, ele não teria sido capaz de ver através da morte iminente que estava prestes a acontecer, e aquele brilho teria perfurado seu cérebro, matando-o.
A pele entre suas sobrancelhas queimava devido ao quão perto ele estivera da morte.
Em um instante, o Demônio da Espada deixou de lado suas dúvidas e começou a perseguir a mulher que havia congelado sua pose para desencadear um ataque.
Wilhelm: “huu…”
Theresia: “…”
Antes mesmo de se recompor o suficiente para agir, a mulher afundou os pés em sua pele.
Seus pés delgados e delicados pressionaram e perfuraram seus músculos abdominais bem treinados e fizeram seus órgãos estremecerem. O peso de seu chute dobrou o corpo de Wilhelm e um flash de prata desenhou um arco, que pairou sobre sua cabeça.
A espada brilhante voou firme e direta, como se quisesse cortar a Lua.
Tendo atingido o pico mais alto de seu voo, a espada começou a descer de volta para a Terra, cortando a atmosfera, a caminho de dividir em dois o Demônio da Espada.
O poder por trás desse ataque era incomparável a qualquer um dos anteriores; tanto a letalidade da lâmina em si quanto a habilidade de seu portador eram mais do que capazes de cortar um corpo humano pela metade.
Aproximando-se no mais curto dos flashes, esta morte certa estava se aproximando.
Wilhelm: “Pare de olhar para mim dessa maneira! Não me despreze!”
Ainda curvado, ele imediatamente levantou os dois braços, que tremeram ao colidir com a força esmagadora que vinha de cima de sua cabeça, cambaleando.
As próprias lâminas do Demônio da Espada se sobrepuseram uma em cima da outra quando eles pararam a espada longa que caiu sobre ele, o qual cerrou as mandíbulas sob seu puro poder. Incapaz de se defender completamente, seus braços começaram a baixar; ligeiramente, a lâmina perfurou sua testa.
O sangue jorrou dela, manchando e respingando seu campo de visão de vermelho. No entanto, ele não caiu de joelhos e suas espadas não foram quebradas.
Wilhelm: “Kuuu—!”
Os braços que seguravam a espada por muito tempo foram forçados para cima, empurrando a espada caída para trás novamente.
Jogando a espada pesada de lado, o choque residual sacudiu o corpo da espadachim diante dele; e, aproveitando o momento, ele a chutou para frente.
A força que deve ter impactado o solo foi, em vez disso, redirecionada para a forma aerotransportada da mulher no ar.
A combinação da força da espada na queda e no chute jogou a mulher longe. O velho Demônio da Espada se lançou em direção ao corpo esguio da espadachim, que não tinha mais para onde correr nem fugir.
–Uma abertura.
Contra a espadachim cujo corpo havia sido lançado ao ar, sem uma rota de fuga, o Demônio da Espada abaixou o ombro e desencadeou o ataque.
Aproximando-se de seu corpo em pleno voo e de sua forma em fuga, o ataque veio simultaneamente de cima e de baixo. Em uníssono, como uma, as duas lâminas desenharam um arco, pairando sobre o corpo gracioso da mulher como a mordida de uma fera.
No ar, de costas para ele, ela não poderia contra-atacar.
No entanto, sua clareza e convicção após esse ataque foram abalados.
Wilhelm: “…–hk!”
O capuz que cobria a cabeça da mulher, incapaz de ignorar e resistir à gravidade que a puxava quando a mulher virou e torceu o corpo, balançava para trás, revelando o que antes estava escondido.
Seu cabelo comprido da cor de uma bela e forte chama foi revelado.
Wilhelm: “…”
Quando isso entrou em seu campo de visão, o ataque do espadachim carregou uma imperfeição que existia por mais tempo do que um único instante.
Um erro, um ligeiro desvio da perfeição, incrivelmente sutil. Ainda assim, ninguém mais seria capaz de bloquear esse ataque.
No entanto, considerando o oponente atual do Demônio da Espada, esse erro foi fatal. Essa falha nunca poderia alcançar uma existência que uma vez ganhou o favor do Deus da Espada.
Vendo a cena à sua frente, um calafrio trancou a garganta do Demônio da Espada .
Esse golpe certeiro foi interceptado no meio do caminho, pouco antes de atingir a mulher.
Não tinha sido nada especial. A mulher apenas desembainhou e levantou sua longa espada no ar e a colocou entre as espadas gêmeas que estavam subindo e descendo.
Tão fácil quanto deslizar um pedaço de cinto entre as mandíbulas de uma fera.
A lâmina e o cabo de sua espada longa travaram completamente o avanço das duas espadas em seus rastros. O que fez o Demônio da Espada recuar foi aquela mordida de aço no aço que soou apenas uma única vez.
Parar as duas espadas com apenas um som estridente significava que ela havia calculado até os milissegundos do momento exato em que ambas colidiriam com sua própria arma.
O que era realmente terrível era a total clareza de visão, habilidade e coragem necessários para tentar fazer tal coisa sem o menor tremor.
Wilhelm: – “kuu.”
A façanha, tão distante do que o bom senso considerava possível, tirou um suspiro da garganta do Demônio da Espada.
Naquele instante, a perna da mulher ainda presa entre as espadas cortou o ar em um amplo arco, chutando as mãos do Demônio da Espada, que ainda estavam descansando onde seu ataque havia parado.
O impacto sacudiu suas armas de suas mãos que as seguravam, fazendo-o largar as espadas e, naquele momento, ele se viu completamente indefeso.
E então, com um lampejo de aço, a longa espada desenhou uma cruz.
Tamanha era a velocidade com que a espada se aproximava – e principalmente o alcance – que, mesmo que tivesse um pouco de tempo e distância, o espadachim de mãos vazias não tinha como desviar.
A longa espada perfurando sua pele continuou perfurando seus órgãos e cortando sua coluna, entrando em seu lado direito com um único movimento e partindo seu corpo ao meio – derramando e cuspindo sangue e órgãos internos, o corpo já castigado pela velhice acabou se quebrando. Esse era o destino inevitável que o aguardava.
Esse era o fim que não podia ser evitado, a conclusão daquele encontro.
No final de sua vida, tendo perdido tudo, ele não conseguia nem mesmo ter uma chance de redenção.
–Esse tipo de conclusão era simplesmente inaceitável.
Wilhelm: ‘”RAAAAAAAAAAAAH-!!”
Ele se rebelou contra o fim sangrento que passou por sua mente por um instante.
A garganta do Demônio da Espada queimou com a cena final daquela ilusão, a vitalidade de seus anos crepusculares explodindo e irrompendo. Quebrando os limites da concentração de tal forma que até mesmo a passagem do tempo parasse, somente ele e seu oponente existiam ali naquele momento, os sons e as cores do mundo desapareceram, perdendo a clareza.
A lâmina iminente traçou uma órbita inesperada para poder perfurar seu corpo.
Sentindo lentamente o toque da lâmina que perfurava e dilacerava sua pele fraca e frágil, junto com a dor e o calor do sangramento, enquanto sentia como se a força natural da gravidade tivesse aumentado dez vezes, ele concentrou toda a sua força nas solas dos dois pés.
Cravando os calcanhares com força suficiente para quebrar os paralelepípedos, ele redirecionou a força de seus braços para a direita, criando um movimento relativo.
Virando e invertendo o corpo com a menor distância e o melhor ângulo, e virando-se para o lado como se estivesse se aproximando da lâmina que roçava seu corpo, era uma forma de evasão que lhe permitia mover-se ao lado da lâmina que deslizava ao seu lado.
Theresia: “…”
Tendo frustrado seu ataque, a continuação do ataque da espadachim foi impedida e adiada por um breve momento.
Naquele meio tempo o Demônio da Espada recuou vários passos, pegando suas lâminas gêmeas no ar. Com um suspiro, ele colocou a palma da mão ao lado do corpo, verificando a profundidade do ferimento.
Certamente não foi apenas um pequeno arranhão.
Afinal, ele se virou enquanto a espada invadiu seu corpo. Virar-se enquanto era perfurado certamente abriria uma ferida em seu corpo.
Felizmente, por um fio de cabelo, ele conseguiu evitar que a lâmina perfurasse seus órgãos. Mas a quantidade de sangue que saiu do ferimento que estava a milímetros de tocar suas entranhas não era um qualquer que pudesse ser ignorável.
Para uma pessoa comum, esse era um ferimento grave. E embora isso fosse normal –
Wilhelm: “—Eu sabia desde o início que não persistiria por muito tempo nesta batalha.”
Se seu tempo já estava contado, agora esse período ficou ainda mais curto.
O Demônio da Espada – Wilhelm – tirou sua camisa e violentamente estancou o sangramento de sua cintura; expondo sua pele saudável e durante este tratamento de emergência ele não foi perseguido nem atacado.
A mulher na sua frente apenas observou em silêncio, com o olhar desprovido de emoção.
Em sua própria antecipação de qualquer hesitação ou mudança sutil naqueles olhos, Wilhelm sorriu amargamente. Pressionando sua ferida aberta, ele acordou com dor.
Wilhelm: “Não há tempo para fraquezas. Isso é inútil. Pare de sonhar. Um dia teremos nossa sagrada reunião, nos céus.”
Theresia: “…”
Wilhelm: “Eu não acho que estou tendo alucinações. Nem espero um milagre. Minha esposa era uma mulher relutante que se negava em seguir o caminho da espada, mas nem uma vez ela atribuiu e empurrou a responsabilidade de empunhar a espada aos outros. Isso era algo que ela nunca fez.”
Um cadáver sem emoção, uma construção revivida.
Cabelo carmim sedoso e comprido, pele lisa branca e transparente como a neve, belos olhos como pedras preciosas; fechando o seu, Wilhelm se lembrou daquele rosto lindo e fofo do qual ele nunca se cansaria.
Tudo o que estava na frente dele e que não deveria estar.
Wilhelm: “Oh, Theresia, como você é linda. E é por causa disso que você não pode ficar aqui.”
Wilhelm apertou suas espadas, assumindo uma posição de combate mais uma vez.
Neste momento, de pé aqui, não era o marido de Theresia van Astrea. Quem pediu e orou para estar aqui hoje não foi Wilhelm van Astrea.
O único presente aqui era ninguém mais ninguém menos do que o próprio Demônio da Espada Wilhelm Trias.
–Enfrentando sua falecida esposa, Wilhelm endureceu seu espírito e seu olhar, tornando-se claro e organizado.
Mesmo que seu sangue estivesse fervendo, ele não permitiria que seu ódio pela figura sinistra atingisse um ponto de ruptura.
Já que agora, naquele momento, naquele mesmo instante, nada mais importava. Qualquer outra coisa era supérflua.
Seu velho amigo, sua companheira de armas, sua esposa, certa vez disse à Wilhelm:
– “Não deixe que o calor manche a lâmina, não deixe seu sangue ferver, você deve aprender a amar o frio do aço.”
Que tal agora? Está queimando?
Wilhelm: “Não, está congelando. Como a lâmina fria de uma faca.”
Sob a luz da Lua, o Demônio da Espada perfurou seu oponente com um olhar firme e frio como o aço.
A talentosa espadachim que era seu oponente também ergueu perfeitamente a ponta de sua espada longa mais uma vez, sem falhas.
Em um instante, suas espadas mais uma vez brilharam intensamente, uma contra a outra.
Os sons do aço se entrelaçaram como um lamento, um apelo, um namoro.
A expectativa de um fim e a esperança de que o fim nunca chegasse.
Como se estivessem em uma conversa interminável sem palavras, o eco e o som de espadas tocavam incessantemente, ecoando a dança de esgrimas.
Garfiel: “Ah, droga! Sem resposta, só pode sê piada!”
Saltando do chão, das paredes e do teto, para finalmente lançar-se às alturas.
Impulsionando-se de cima de um telhado, pulando e voando diagonalmente no ar, o vento chicoteou seu cabelo loiro curto enquanto ele se afastava, expondo seus dentes numa imagem de desespero.
Rangendo suas presas e lutando contra a sensação de queimação em seu corpo e peito estava Garfiel.
Garfiel: “Merda! Que que tá aconteceno!? Olá!?”
Com suas roupas esvoaçantes, ele começou a correr no instante em que tocou o chão.
Foi pulando de um prédio para o outro, feito este que somente aqueles de força e resistência sobre-humana poderiam alcançar.
No entanto, ele, que sobrevoou a cidade, não demonstrou orgulho nenhum em relação às suas habilidades. Ao invés disso, ele apenas continuou rugindo para o espelho que não respondia.
Quem continuava correndo era Garfiel, que uivava para o dispositivo mágico em sua mão “o espelho da conversação”.
O espelho da conversa deveria poder conectá-lo aos outros que também o possuíam.
Ninguém atendeu ao chamado de Garfiel, embora houvesse dois grupos de pessoas capazes de responder.
Garfiel: “Pessoal da prefeitura! Ou os que tão lutano contra a Ira! Por que diabos eles num tão respondeno!?”
Os espelhos tinham sido designados para que todos pudessem manter contato durante as suas respectivas batalhas.
Na verdade, eles estavam funcionando perfeitamente depois que eles saíram da prefeitura. Mas agora, quando o contato foi necessário, o espelho parou de funcionar .
–Isso precisava ser comunicado imediatamente.
Garfiel: “Droga! Preciso dizê a eles prá evacuarem a prefeitura agora memo!”
Enquanto dizia isso, ele saltou para cima, pulando a rua à sua frente e pegando um atalho.
Embora sua aterrissagem descuidada tenha destruído o telhado em que pousou, Garfiel não tinha tempo a perder.
Em comparação com os danos da cidade, verificar a segurança de seus companheiros era muito mais importante.
O objetivo de sua pressa era a prefeitura.
Garfiel estava voltando para o lugar que ele havia deixado apenas há alguns minutos. Deixando para trás Wilhelm, seu companheiro de batalha, ele tentou desesperadamente chamar por alguém, através do espelho da conversação.
Não havia outro motivo.
O perigo estava se aproximando rapidamente da prefeitura, a qual eles usavam como base.
–Wilhelm e Garfiel haviam chegado à torre de controle ocupada pela Luxúria no mesmo momento em que Reinhard estava começando seu confronto contra a Ganância.
Tendo testemunhado o distante amanhecer no céu, os dois entraram na torre de controle.
Nem os membros do Culto da Bruxa, nem mesmo as pessoas problemáticas que eles esperavam encontrar, apareceram. E, sem quaisquer surpresas, os servos do Culto da bruxa espalhados pela cidade não eram nada mais do que oponentes insignificantes.
Tudo tinha corrido bem até então e não havia outras salas que valessem a pena conferir além da sala de controle do portão de água.
Então a dupla naturalmente subiu as escadas, dirigindo-se ao último andar e preparando-se para uma batalha decisiva contra a Luxúria.
Na imaginação de ambos e dado o que eles sabiam, suas expectativas eram de que a proporção de poder do grupo da Luxúria era maior e mais perigosa.
Já que, além da Luxúria, havia dois outros guerreiros excepcionais e notáveis, o que significava que eles teriam que enfrentar três inimigos – naturalmente, os dois estavam muito tensos.
Wilhelm: “Se possível, eu apreciaria e agradeceria se você deixasse a espadachim comigo.”
Garfiel: “O capitão me falô isso aí também. Parece que tem algo entre vocês. Mas meu eu incrível também tem uma conta prá acertar com aquela mulhé. Não sei se posso deixá que você fique com ela tão facilmente.”
Wilhelm: “—Essa mulher… é minha esposa. Aqueles desgraçados zombaram e desonraram sua morte, pisotearam sua alma e forçaram-na a se reerguer e apontar uma espada com a qual ela jurou apenas proteger.”
Garfiel: “…”
Wilhelm: “Isso é … absolutamente imperdoável.”
Ao longo do caminho, Wilhelm revelou seu motivo para lutar.
Mesmo sem ter a necessidade de desistir tão facilmente, esse foi um dos motivos pelos quais Garfiel não pôde deixar de ficar quieto. E sua incapacidade de formular uma resposta naquele momento foi talvez o fator decisivo sobre quem seria o melhor oponente para a espadachim.
Garfiel: “…”
Embora ele não tivesse dito nada, Garfiel deu a Wilhelm seu oponente.
Wilhelm indicou sua compreensão desse fato, e fez uma ligeira curvatura da cabeça para expressar sua gratidão.
Então, quando eles entraram na torre de controle, Garfiel sentiu a estranha sensação de seu cabelo se arrepiar.
Se Wilhelm iria lutar contra a espadachim, então ele teria que lidar com os outros dois oponentes restantes sozinho. A espadachim individualmente já era uma entidade considerável, e o gigante que a acompanhava não era mais fraco e nem menos poderoso do que ela.
Embora a luxúria parecesse ter uma habilidade de eficácia de combate inferior, Subaru enfatizou que a coisa assustadora sobre aquele Arcebispo não era sua habilidade em combate direto, mas uma tensão silenciosa e um poderoso espírito de luta penetrante.
Enquanto suas narinas capturavam um cheiro cada vez mais forte e intenso de sangue, Garfiel equipou os escudos de prata que estavam amarrados em suas pernas e invadiu a sala.
E lá, ele viu.
–Acharam mesmo que eu estaria aqui apenas os esperando de braços cruzados? Idiotas.
Palavras rabiscadas com sangue, ocupavam uma parede inteira da sala.
Quando finalmente entendeu o que a frase significava, a cabeça de Garfiel fervia de raiva.
Fugir de uma batalha como se fosse algo natural, era um tipo de personalidade que poderia dizer com toda a franqueza que não havia a obrigação de esperar.
Wilhelm: “—Fomos descuidados. Já deveríamos saber que esses malditos são exatamente daqueles que fazem coisas como esta. Meros truques.”
Wilhelm baixou a voz e puxou o espelho da conversação de dentro de suas mangas. O motivo de tentar entrar em contato com a prefeitura tão apressadamente foi porque Wilhelm pensou primeiro na ideia de que a situação iria virar nessa direção.
Wilhelm: “Se nossas forças forem enviadas para diferentes ataques ao mesmo tempo, então o poder de combate de nossa base será diminuído naturalmente. Esses caras não têm vergonha de tirar vantagem de uma fraqueza como essa.”
Diante de Garfiel pálido, Wilhelm franziu a testa para o espelho, que não estava respondendo.
Ao mesmo tempo, um sentimento profundo e opressor de hostilidade emergiu do telhado da torre de controle.
A sensação de que suas costas estavam sendo golpeadas por uma espada, foi o que alertou Garfiel sobre a presença do inimigo.
Wilhelm também sentiu a entidade hostil.
Wilhelm: “Garfiel-sama, confiarei a prefeitura a você.”
Garfiel: “Se possível, meu eu incrível pode chegá lá mais rápido do que qualqué um.”
Eles trocaram ideias em um instante.
O inimigo possuía uma lâmina clandestina incrivelmente afiada. Expor suas costas em uma tentativa de fuga resultaria em ambos sendo cortados por trás.
Dos dois, entre eles, um precisava ficar.
E o outro teve que retornar para a prefeitura.
Wilhelm: “Continue tentando fazer contato. E também, eu confio a vida do meu mestre a você.”
Garfiel: “Nem é preciso dizê. Você sabe o que dizem: ‘A voz de Libre sempre desperta o sangue dos soldados’.”
Garfiel pegou o espelho da conversação, lançado em sua direção por Wilhelm, e disparou, deixando a torre de controle a toda velocidade.
E foi assim que ele atravessou a cidade, cruzando os canais, ele continuou chamando ajuda pelo espelho que não dava resposta. –A batalha de Wilhelm provavelmente já deveria ter começado.”
Garfiel: “Droga! Tudo isso por nada…!”
Se a Luxúria lançasse um ataque surpresa à prefeitura, haveria muitas poucas forças capazes de lidar com isso.
Anastasia e Ferris não eram combatentes e não tinham capacidade para usar algum poder de combate e Crusch desmaiou devido aos seus graves ferimentos. Embora vários membros do “Presas de Ferro” estivessem de guarda, suas habilidades não eram suficientes para se igualarem nem mesmo a Mimi.
No instante em que pensou em Mimi, Garfiel sentiu um aperto no peito.
A garota dividida entre a vida e a morte que ele resgatou, salvou e protegeu.
Mantê-la viva e salvá-la, aquele certamente deveria ser seu dever.
Esse dever tinha sido concedido a outro devido aos seus sentimentos e além do mais, sua chance de vingança aumentava a cada segundo. Entretanto, mesmo a tarefa que ele assumiu como alternativa não pôde ser concluída de forma satisfatória.
O que esteve fazendo? O que ele fez até agora? O que diabos ele estava fazendo?!
Ele não conseguia levantar a cabeça para encará-los diretamente. Nem para Mimi, Subaru, sua irmã, nem mesmo Ram, ou qualquer outra pessoa.
Garfiel: “Meu eu incrível, de novo—!”
Não pode fazer nada?
O espelho da conversa mudo refletiu um rosto igualmente assustador e pouco promissor. No momento em que ele se amaldiçoou,
Garfiel: “-!?”
Quando ele quebrou o telhado com um salto, ele demorou um pouco para reagir à sombra que voava em sua direção do seu lado.
Esse corpo, essa forma muito maior e maciça que a sua, atingiu-o com um impacto horizontal.
A razão pela qual ele não conseguia nem soltar um grito de dor era porque sua garganta estava bloqueada por um cotovelo. Com o sangue e o oxigênio incapazes de circular pelo cérebro, ficar consciente tornou-se cada vez mais difícil.
A força de um impacto em todo o seu corpo foi o que gradualmente o trouxe de volta à realidade.
Garfiel foi lançado ao ar contra um prédio próximo, quebrando a parede com todo o seu corpo e levantando uma grande nuvem de poeira.
A dor surda dos ossos quebrados fez Garfiel gemer quando ele sentiu que foi liberado da restrição. Usando a elasticidade de seu corpo, Garfiel bateu no chão o mais forte que pôde, ficando de pé novamente.
Garfiel percebeu que ele estava em um prédio sem iluminação. A poeira que enchia a sala havia se transformado em fumaça branca ao luar e, além de sua silhueta que tossia sangue, ele pôde detectar outra presença.
Este foi, sem dúvidas, aquele que o atingiu.
Garfiel: “Maldito, cê realmente sabe com–”
No instante em que ele assumiu uma posição de combate, um punho foi cravado em seu estômago.
Toda a área abdominal de Garfiel recebeu a força dos enormes punhos do seu oponente e seu corpo foi lançado para cima. Ele foi esmagado pelo outro punho que já estava no ar, e o chão já rachado quebrou embaixo dele fazendo-o cair no andar de baixo.
Garfiel: “–o que … agh !?”
A sola de um pé bateu em seu corpo em queda, enquanto ele continuava a cair.
Os danos causados por tamanha massa e velocidade fizeram com que ele cuspisse sangue, e seu corpo, chutado mais uma vez, bateu com força na entrada do prédio, terminando espatifado na rua.
Garfiel continuou a tossir com o ataque poderoso e o impacto, enquanto se levantava. Ao mesmo tempo, uma simples magia de cura foi aplicada, reconectando seus ossos quebrados enquanto ele levantava a cabeça.
Aquele quem o perseguiu do topo do edifício até aqui era uma figura corpulenta e titânica que fazia com que Garfiel esticasse totalmente a cabeça para vê-lo.
Mesmo estando coberto da cabeça aos pés por uma túnica preta, apenas isso não conseguia esconder a espessura de seus braços e pernas largas. Em vez de dizer que ele era musculoso, não seria exagero dizer que ele usava uma armadura muscular.
Para Garfiel, aquela seria a terceira vez que enfrentava aquela figura.
Seu nome também já era conhecido.
Garfiel: “Kurgan dos Oito Braço…”
Ele foi um dos heróis espadachins do Império Vollachia .
Embora seja dito que ele morreu em combate durante a Batalha de Defesa da Cidade Imperial décadas atrás, se ele estava aqui agora, ele poderia ter sofrido a mesma humilhação que a esposa de Wilhelm sofreu durante a morte?
Kurgan: “…”
Quando Garfiel disse esse nome, o gigante, Kurgan, estendeu os braços.
Naquele instante, seu manto cedeu, revelando sua figura. Em outras palavras, o herói Kurgan revelou a razão de sua grande perícia no combate corpo a corpo a curta distância.
Como esperado, seu corpo forte e atarracado estava coberto por uma espessa armadura de músculos.
Um físico poderoso que rivalizava com a dos gigantes, e no pescoço um rosto que só poderia ser descrito como demoníaco, com a expressão dominante de um deus da guerra.
O que fez deste indivíduo um deus da guerra, foram os oito braços que lhe permitiram realizar aquelas estranhas técnicas de luta.
Além dos dois braços que cresceram naturalmente dos ombros, mais dois braços brotaram do mesmo lugar. Mais abaixo no tronco, seu corpo revelou mais dois braços usando seus ombros como ponto de partida, e os dois restantes esticaram as palmas para frente por trás.
Foi isso que tornou o apelido “Oito Braços” de Kurgan significativo. Ele era alguém capaz de roubar de seu inimigo a vontade de lutar só de olhar para o seu corpo natural.
Kurgan: “…”
Diante de Garfiel, que engoliu em seco, Kurgan permaneceu em silêncio enquanto sacava suas armas.
Amarrados às pernas, que coincidentemente estavam amarrados da mesma forma que os escudos de Garfiel, estavam um par de espadas grossas, longas e distorcidas: –Os Cutelos Fantasmas. Isso era o que o Deus da Guerra exercia.
Nota da tradução: Cutelo é uma ferramenta de cozinha. Ele consiste em uma faca com uma lâmina retangular de afiação em um só lado (semelhante a um machado). Sua principal função é cortar carnes duras e ossos. São usados principalmente por açougueiros.
O Deus da Guerra sacou outras duas Lâminas Demoníacas de suas costas, contando um total de quatro. Mesmo que os quatro braços restantes ainda estivessem desarmados, Garfiel ficaria completamente sobrecarregado.
Ele não tinha tempo para subestimar o inimigo.
Garfiel: “…”
Seu corpo tremeu.
Na frente de um verdadeiro herói, o corpo de Garfiel tremia das profundezas de seu núcleo.
Garfiel olhou para o herói, a figura lendária, o grande homem que deixou sua marca na história.
Não saber o nome de Kurgan dos Oito Braços era impossível para ele.
Garfiel realmente teve um profundo e grande interesse pelas milhares de lendas sobre ele vindas do mundo todo.
E, hoje, ele estava diante de seus próprios olhos, em sua presença, como um inimigo.
Isso foi um pesadelo. Um tormento contínuo que começou na véspera e que ainda não acabou.
O que mais poderia ser? O que poderia ser mais malicioso e maléfico que isso?
Garfiel: “… Ha,ha.”
A respiração de Garfiel acelerou quando ele direcionou os braços para as pernas.
Montado da mesma forma que os “Cutelos Fantasmas” de Kurgan, havia um par de escudos de prata.
Sem saber quantas vezes seus dedos escorregaram, finalmente as alças se desfizeram quando ele as desamarrou.
Colocando seus escudos em seus braços de forma que seus punhos estivessem cobertos, ele os bateu um contra o outro como forma de confirmação, criando um som agudo que ecoou pelo céu noturno.
Seu equipamento estava pronto e seus ferimentos já haviam cicatrizado o suficiente para não se debilitar.
No entanto, seu espírito estava, no momento, desesperado.
Garfiel: “Idiota, agora não é hora de pensá merda, estúpido!”
Cerrando as presas, Garfiel deu um tapa no próprio rosto.
Balançando a cabeça para se livrar da dor estonteante e do choque, ele voltou a olhar para frente novamente. Assumindo sua postura mais uma vez, ele mostrou suas presas para o Deus da Guerra.
“Garfiel: Se cê só vai ficá parado aí, por que diabos meu eu incrível está aqui, hein ?! Seja o capitão! Ou os outros! Todos tão lutano! E, obviamente, essa é a única coisa no que cê é bom, então o que diabos cê tá esperano ?!”
Kurgan: “…”
Aos rugidos de Garfiel, Kurgan permaneceu impassível.
O Deus da Guerra apenas observou Garfiel em silêncio.
Franzindo a testa e fazendo beicinho, Garfiel quebrou o chão em que estava e se lançou para frente, tudo em um passo.
Através da sola de seus pés, ele absorveu o poder da terra, permitindo que sua “Proteção Divina dos Espíritos da Terra” convertesse e redirecionasse toda aquela energia em um único e poderoso golpe.
Seu punho foi verdadeiramente infundido e carregado com o poder de destruir um edifício de pedra.
Seu escudo de prata reforçou o poder do golpe, forte o suficiente para quebrar até mesmo um herói.
Seu braço voou direto para o estômago de Kurgan –
Garfiel: “O que tá aconteceno?!”
Kurgan: “…”
Usando toda a força de seu corpo, o ataque de Garfiel foi bloqueado por uma lâmina do Deus da Guerra, Kurgan.
A lâmina, bloqueando o ataque direto contra seu abdômen, resistiu ao poder do golpe de Garfiel.
Ele não fugiu, nem recuou.
Com apenas um bloqueio rígido um ataque de corpo inteiro foi repelido e dissipado. O herói de Oito Braços usou apenas um único braço.
Garfiel: “—hk!”
A expressão rígida de Garfiel foi conduzida em um soco direto no ombro.
Seu corpo tentou recuar, mas ele foi pego pelo braço que se projetava de lado e, não podendo escapar, só pode aguentar uma surra brutal e violenta.
Suas maçãs do rosto foram quebradas em um instante, a parte de trás de seu olho foi esmagada e o campo de visão de seu olho direito estava coberto de um vermelho brilhante. Uma de suas presas afiadas quebrou e se estilhaçou. Com o corpo ainda preso, ele foi jogado no chão, chutado rua abaixo por uma perna poderosa e rolou, rolou, rolou e rolou para um dos cursos d’água mais próximo.
Garfiel: “-gah!”
Tudo aconteceu em um instante, e então ele olhou diretamente para a Lua que flutuava bem alto, acima dele.
Parecia que ela estava zombando dele. Finalmente, o corpo de Garfiel afundou na água.
– A superfície da água foi tingida de vermelho lentamente.