——Por ter sido deixado à própria sorte durante longuíssimos anos, o『Dragão Divino』Volcanica havia atingido『Morte』mental.
Falando com franqueza, ele ficou a ver navios por bastante tempo e acabou gagá.
Emilia: “Mas você estar igual um idoso me enche o saco! Ei, Volcanica!”
Volcanica: «——Ó vós que ao cume da torre chegastes. Avançai pelo primeiro andar, todo-poderosíssimo peticionário.»
Emilia: “Poxa! Você não tem salvação nenhuma!”
Emilia bateu na pata dianteira dele e o chamou freneticamente, mas teve a textura das escamas sólidas como resposta, elas pareciam ser ainda mais resilientes do que a barreira psicológica denominada esquecimento.
Um『Teste』como o de Reid, que retornava os mortos a como eram em vida, já era um desafio considerável; mas, pensando agora, aquilo estava mais para uma coisinha fofa quando comparado a isso.
Ainda que chamar aquele Reid truculento de fofo parecesse uma piada.
Emilia: “Dava pra se comunicar com o Reid e ele ensinou tudo que precisávamos saber, mas…”
Com Volcanica, esse não era o caso.
Para Emilia, que precisava transpor o『Teste』do primeiro andar, o aplicador estar gagá era o pior caso possível.
Ela não podia voltar, no entanto, sem trazer boas notícias a Subaru e companhia o quanto antes.
Emilia: “Aff… o que eu faço, o que eu faço, o que é pra fazer… Não é possível que eu vá ter que derrotar o Volcanica que nem foi com o Reid…”
Sendo assim, hipoteticamente falando, esperava-se que este fosse ser um『Teste』extremamente árduo, mas a diferença de conteúdo entre os testes do terceiro e do segundo andares fez Emilia voltar atrás com a ideia.
No teste de『Taygeta』, o terceiro andar, usar a cabeça para solucionar a questão proposta era essencial.
Felizmente, Subaru possuía conhecimento de além da Grande Cachoeira e, portanto, eles foram capazes de solucioná-la; no entanto, era provável que teria sido incrivelmente desafiador sem isso.
E no teste de『Electra』, o segundo andar, já se sabia que Reid Astrea era o obstáculo.
Emilia, de um jeito ou de outro, havia dado o seu melhor e acertado em cheio aa cabeça de Reid, saindo vitoriosa, embora também houvesse o aspecto de que tiveram êxito porque foi a primeira tentativa.
A todo caso, parecia não restar dúvidas de que, tanto no terceiro quanto no segundo andares, a vitória fora por muito pouco.
Portanto, apesar de um desafio normalmente já ser árduo o bastante:
Emilia: “E ainda tem isso de que ele não vai nem dizer qual questão que é…”
Volcanica: «——Chamo-me Volcanica. Em concordância ao pacto de outrora, pergunto o intento de vós que ao cume chegastes.»
Emilia: “Poxa! Eu já entendi! Eu queria saber o que vem depois, sabe!”
Caso tentasse várias vezes, ela tinha esperança de que ele fosse falar alguma coisa a mais, mas o tempo era precioso demais para essas tentativas.
Enquanto resistia à vontade de bater com o pé no chão, Emilia passou os olhos pelos arredores.
O『Teste』do terceiro andar havia sido proposto em uma sala branca por uma laje preta de pedra — que Julius e Subaru alegremente chamaram de Monólito.
Talvez existisse algo similar escondido neste primeiro andar.
Visto que não se podia contar com Volcanica, era uma boa ideia procurar pela questão por conta própria.
Emilia: “Tenho que fazer tudo que eu consigo no momento…!”
Prestando constante atenção na disposição de Volcanica, Emilia correu para examinar o primeiro andar.
Antes de mais nada, o primeiro andar era o andar mais alto da Torre de Vigia Plêiades — ele estava presente em um lugar elevado demais para ser visível lá de baixo. Havia seis pilares em torno daquele espaço e um pilar colossal no centro — Volcanica estava abaixado contra o pilar central, como se apoiado, e o extenso espaço devia ter um raio de cerca de cem metros.
Por mais que parecesse bem amplo quando comparado ao do segundo andar, a presença do corpanzil de Volcanica atrapalhava em parte a percepção de sua verdadeira vastidão.
Emilia: “Lá embaixo… não dá pra enxergar?”
Agarrada a um dos pilares que rodeavam o entorno do primeiro andar, Emilia verificou o que havia sob ela.
Era para Subaru, Ram e os outros estarem em batalhas árduas dentro e fora da torre, entretanto, nuvens espessas obstruíam completamente sua visão e a impediam de verificar o que havia sob ela.
Parecia que, caso talvez pulasse para dentro das nuvens, juntar-se aos seus companheiros seria possível, porém:
Emilia: “Sinto que, se alguém trapacear e subir por fora dessa maneira, vai levar um esporro… não, pra começo de conversa, eu correndo com empenho não conseguiria chegar tão rápido em um lugar acima das nuvens que nem esse aqui.”
Não se tratava de sua capacidade motora ser ruim, e sim que até Emilia estava ciente do quão elevados eram o céu e as nuvens.
Quando era menor, ainda que esticasse suas mãos, ela não conseguiria agarrar as nuvens; depois de crescida, ainda que tentasse, daria na mesma. Caso chegasse ao nível de Reinhard, talvez Emilia fosse conseguir saltar até as nuvens, até lá, ela não seria capaz.
Era por isso que Emilia devia ter chegado ao cume da torre por intermédio de algum poder misterioso.
Emilia: “Sendo assim, o『Teste』tem que ser neste lugar, senão seria esquisito!”
Encorajada por esse seu pensamento, Emilia foi olhar os seis pilares, batendo neles e vendo se conseguia escalá-los. No entanto, não foi capaz de encontrar nenhum tipo sequer de fenômeno ou de escrita que fosse condizente.
Se fosse para haver outra possibilidade:
Emilia: “O pilar grandão no meio, aquele que o Volcanica está pertinho.”
Se não havia nada nos pilares do entorno, o pilar colossal no centro era o que detinha a maior das probabilidades.
Ao contrário dos outros seis, somente esse pilar se estendia muito acima do primeiro andar. ——Ou será que, acima até mesmo do primeiro andar, estaria localizado alguma espécie de zerésimo andar?
Ela sentia que lá poderia haver meios de alterar este lugar que permanecia totalmente inalterado.
Entretanto:
Volcanica: «——Ó vós que ao cume da torre chegastes. Avançai pelo primeiro andar, todo-poderosíssimo peticionário.»
Para investigar esse pilar, não havia como evitar Volcanica, que estava a reiterar as mesmas palavras.
Emilia: “…”
Embora estivesse determinada a desafiar o『Teste』do primeiro andar, desafiar Volcanica era uma outra história.
Mantendo o nervosismo, Emilia aproximou-se do pilar central e de Volcanica.
Emilia: “Volcanica, o que eu tenho que fazer no『Teste』?”
Volcanica: «——Chamo-me Volcanica. Em concordância ao pacto de outrora, pergunto o intento de vós que ao cume chegastes.»
A resposta de Volcanica não mudaria.
A isso, em vez de desânimo ou decepção, Emilia, pelo contrário, sentiu alívio. Se a reação de Volcanica não havia mudado, ele deveria estar indiferente, similar a quando ela havia encostado na pata dianteira dele.
Convencida disso, Emilia deu a volta pelo lado oposto ao de Volcanica para tentar investigar o pilar roliço:
Emilia: “——Hã?”
Assim que tentou tocar no pilar, ela ouviu o som de vento.
Antes mesmo de verificar o que era, o instinto de Emilia criou uma parede de gelo acima de sua cabeça. Em uma fração de segundo, o impacto atravessou o gelo e a atingiu, açoitando para longe o seu corpo esguio.
Emilia: “Gah, uh.”
O impacto invadiu o peito de Emilia pelas costas, ela rolou violentamente pelo chão do primeiro andar e tossiu com força. Então, colocou a mão contra o chão para parar o embalo atual, freando assim seu corpo, que havia sido lançado por sabe-se lá o quê.
Perguntando-se o que raios havia acontecido, Emilia ergueu o rosto vagarosamente e percebeu.
——A cauda do『Dragão Divino』, apoiado contra o pilar, estava sendo lentamente abaixada até o chão.
Emilia: “…Eu fui atingida pela cauda?”
Caso fosse colocado em palavras, seria um golpe genuinamente simples.
Dragões usarem a cauda para expressar emoções era algo que ocorria bastante até na relação de Patrasche com Subaru. Quando Subaru fazia alguma travessura, Ram e Patrasche o estapeavam como se estivessem competindo entre si.
O ataque da cauda de Volcanica, no entanto, não era equiparável à expressão do amor de um animal por um humano.
Emilia não se feriu mais devido à sua defesa naquele instante, caso ela tivesse tardado a reagir, não seria de estranhar se, com o golpe, seu pescoço tivesse sido quebrado ou até a sua cabeça tivesse sido arrancada.
Além do mais, esta era, para Volcanica, uma atitude idêntica a espantar um inseto durante um estado de vaga consciência.
Era quase como se ela estivesse sendo tratada que nem um insetinho à mercê dos pés de uma criatura colossal.
Emilia: “…”
Ao se dar conta dessa realidade, suor frio seguiu pela nuca e pela espinha dorsal de Emilia.
Mas isso, simultaneamente, fez surgir outra possibilidade diante dela.
Emilia: “Então, ao que parece, esse pilar tem coisa.”
Volcanica: «…»
Emilia: “Afinal de contas, você está aqui em favor do『Teste』. Mesmo depois de ter se esquecido do『Teste』, disso você não se esqueceu. É por isso que está me explicando a mesma coisa sem parar.”
Volcanica aparentava ter se esquecido do que deveria fazer.
Ainda assim, o mero fato do『Dragão Divino』ter se mantido aqui já era prova concreta da vontade dele de manter as promessas que fizera antes de ter a mente acometida pela『Morte』.
O『Sábio』, o『Santo da Espada』e o『Dragão Divino』para desafiar o intelecto, a força e o intento, respectivamente.
Se era esse o caso:
Emilia: “——Sentimentos meia-boca não vão prestar. Tem que ser com vontade também.”
Pressupondo que seu adversário iria obstruí-la, Emilia proclamou que usaria de força bruta.
Neste instante, a atmosfera ao redor de Emilia soltou uma ululação e o mundo congelou-se lentamente. Parecendo acatá-la quase como se ela fosse uma rainha, soldados de gelo vieram a ser gerados — este era o novo potencial de Emilia, um desenvolvimento ainda maior das Ice Brand Arts.
Ela nem havia conseguido testá-lo dentro da torre enclausurada, porém, se o adversário estivesse em um espaço amplo como este, não havia por que se segurar.
Já que não havia contado para Subaru, isso não tinha recebido um nome.
Portanto, Emilia o iria nomear.
Emilia: “Os meus Soldados de Gelo e as Ice Brand Arts…!”
Sete guerreiros de gelo ganharam vida, eles, tomando forma humanoide, carregavam suas respectivas armas e heroicamente acompanhariam Emilia no desafio até o último suspiro.
Emilia: “——Lá vou eu, Sr. Dorminhoco! Se vai acordar, faça questão de acordar mais cedo!”
Enquanto falava, Emilia, com armas de gelo em mãos, aproximou-se de Volcanica junto dos guerreiros de gelo.
Volcanica, encarando-os com olhos altivos cujas emoções eram inescrutáveis, abriu a boca.
Volcanica: «——Ó vós que ao cume da torre chegastes. Avançai pelo primeiro andar, todo-poderosíssimo peticionário.»
Com sua consciência estando soterrada além da imensidão perpetuamente imutável.
——Emilia não era a única que estava, em simultâneo, desafiando um adversário poderoso que transcendia sua força.
No segundo andar,『Electra』, um andar abaixo daquele em que Emilia enfrentava um『Dragão Divino』sofrendo de demência, o embate entre espadachins que lá ocorria tornava-se cada vez mais fervoroso.
Entretanto, seguia inabalada a realidade de que era unilateral.
???: “Vamo’ vamo’, quequefoi quequefoi quequefoi! Tô aqui usando um pauzinho a menos c’uma mão só, cê vê? Se cê ainda não me alcança, ô infeliz, então iss’aqui nem brincadeira vai dá pra ser, ô, ô, ô infeliz!”
???: “Gh… ~hk!”
Enquanto vertia zombarias grandiosas, o homem que agitava seu cabelo vermelho comprido desferiu um chute potente.
Aparando-o com o cabo da espada de cavaleiro que tinha em mãos, o cavaleiro de perfil refinado lançou-se bem para trás. Não conseguiu eliminar o impacto. Apenas o dispersou. Então, antes que pudesse dispersá-lo por completo, veio o próximo.
Esta repetição deu-se várias e várias e várias vezes no campo de batalha do segundo andar.
E, com o cavaleiro tendo sido jogado pelo golpe do espadachim e recuado bastante sabe-se lá pela qual vez, o espadachim proferiu um “Que saco”.
???: “Se o teu humor muda, a tua espada muda junto. Eu tenho minhas expectativa de ti e dessas explosão, cê entende? Ainda assim, quando é que cê vai mudar nessa caralha, ô infeliz. Ou melhor…”
Dizendo isso, o espadachim de cabelo vermelho — Reid — torceu os lábios enquanto girava o pescoço.
Com imponência e uma postura de deboche, como se o estivesse menosprezando, o espadachim inigualável encarou o cavaleiro que tinha como adversário:
Reid: “Cê quer perder por causa que ficou teimando com esses teus modos, ô infeliz? Ia te deixar contente?”
???: “Que coisa mais hedonista de se dizer.”
Em resposta à objeção de Reid, que lhe dizia o que bem entendia, o cavaleiro relaxou os lábios.
Enquanto confirmava silenciosamente a sensação tátil de sua espada de cavaleiro, amortecida ao levar o chute, o cavaleiro recebeu o olhar afiado de Reid e, frente a frente, ergueu-se.
Era Julius Juukulius, aquele que havia renunciado como cavaleiro sem-nome e se decidido a lutar contra o destino.
Julius: “Você me dirigiu palavras como estas diversas vezes. Combate desinteressante, esgrima amaneirada, desprovido de diversão… são palavras com as quais já estou acostumado.”
Reid: “Hah, sabia. Né tanto quanto eu, mas acho que qualquer um ia sentir isso só c’uma olhadinha. Tem nada na tua espada, tirando desespero.”
Julius: “…Desespero, é?”
Os comentários inconsequentes de Reid certamente não eram fruto de pensamentos nobres.
Quem sabe estivesse dizendo exatamente o que achava. Ele havia capturado a essência, já que, mesmo com um olho tapado de propósito, tudo era transparente para aquela íris azulada.
Ele provavelmente enxergava os ideais superficiais de Julius que estavam ocultos acima de sua verdadeira natureza.
“…”
Caso olhasse para trás de relance, veria uma figura feminina assistindo à luta de Julius contra Reid.
Para Julius, era o feitio da mulher cuja existência ele mais devia estimar, agora e no mundo inteiro; entretanto, o substrato da mulher havia sido alterado para o de outra pessoa.
Embora tenha sido por força maior, passaram-se cerca de dois meses desde os incidentes que ocorreram naquela Cidade das Comportas — eles haviam mantido uma relação mestre-servo completamente vã.
Julius: “Pensando agora, tanto eu quanto você devíamos ter nos aberto ao outro e conversado mais.”
???: “Julius…?”
Julius: “Caso tivéssemos feito isso, creio que você teria se tornado uma grande amiga. Pois ambos pudemos considerar e admirar a mesma mulher.”
Ao verbalizar o que havia em seu peito, Julius desafiou o『Santo da Espada』mais uma vez.
Reid, carregando um pauzinho curto e fino em sua mão direita, bateu de frente com Julius, que havia avançado.
Afastando com cortes, efetuando estocadas, erguendo acima da cabeça e balançando para baixo: desferiu ele em combinação.
Às vezes, seja através da empunhadura de sua espada, seja através do seu jogo de pernas, Julius o incitava enquanto entretecia o verdadeiro ao falso; dos quais Reid se defendia facilmente com a atitude de quem nem os estava levando a sério.
Reid: “De novo com essa? Quanto que eu vou ter que te dizer que não vai rolar…?”
Julius: “Mesmo assim! Que você a chame de tediosa, esta é a minha espada!”
Reid: “Aí sim!”
Negando com um brado o avaliamento que veio acompanhado de um bocejo, o talhar da espada de Julius encontrou-se com o chute de Reid.
Julius teve a postura arruinada pelo chute e deu brecha para que Reid chegasse nele diagonalmente com o pauzinho — nesse instante, Julius fez esvoaçar o manto que estava vestindo e escondeu seu corpo atrás dele de imediato.
Reid: “Heh.”
Com esse movimento, Reid riu e tentou bisseccionar tanto o manto quanto o Julius que estava do outro lado.
Entretanto, quando o manto foi arrancado do lugar pelo poderio do golpe, Julius já havia voado horizontalmente para trás e saído da área de massacre do pauzinho.
Reid: “Opa, é assim mesmo!”
Julius: “Não, você está enganado!”
Reid: “Hã?”
Reid o elogiou por ter usado sua veste branca como cortina de fumaça, deixando de lado o caminho dos justos. Porém Julius descartou esse elogio de imediato e correu até o manto que havia sido arrancado do lugar.
Então, pegou o manto que fora rasgado pelo golpe do pauzinho e o colocou novamente no corpo.
Ao engatar o fecho com esmero e sobrepor o manto alvo ao seu uniforme alvo, ele era a personificação de um cavaleiro.
Mesmo se ele deixasse de ser um sem-nome, não seria capaz de deixar de ser um cavaleiro.
Vendo a atitude de Julius, que parecia indicar isso, Reid mais uma vez estalou a língua, descontente.
Reid: “Ô, seu porra, quando brotaram aquele pitelzão de mais cedo e esse pitelzinho aí atrás de ti, eu ‘tava na expectativa de que cê fosse mudar, saca? Que cê ‘taria indo atrás da vitória cagando e andando pra tua aparência. Que eu ia poder dar uma zoiada em ti agindo desse jeito aí. Cê não ‘tá sem saber porra nenhuma de ti mesmo?”
Julius: “…”
Reid: “Cê se paga de certinho como cavaleiro e tals, mas por dentro cê né assim não. Por dentro cê é um『Balançador de Vara』igualzinho eu. Tô conseguindo nem olhar pra essa tua cerimônia toda.”
Cuspiu fora Reid, de cara fechada, enquanto apontava o pauzinho a Julius.
Ao ouvir o comentário de Reid, ele fechou os olhos. Então, após algum tempo em total silêncio, murmurou brevemente “É mesmo?”.
Julius: “Sinto como se tivesse por fim entendido.”
Reid: “Hã? Que que cê entendeu?”
Julius: ”O porquê de você ser assim tão obstinado comigo.”
Mesmo quando irritado, Reid nunca parou de dirigir a palavra a Julius.
Seu jeito de fazê-lo era violento e, por mais que a pessoa em questão realmente não tivesse essa intenção, era quase como um líder tentando ensinar e guiar Julius.
Finalmente compreendeu o motivo pelo qual Reid o havia arrastado de um lado para o outro até agora.
Julius: “——Você viu alguma coisa em mim que é igual a você?”
Ele havia, em múltiplas ocasiões, caçoado de Julius dizendo que seu estilo de luta era desinteressante e que sua esgrima era amaneirada, tudo porque acreditava que um leão adormecido estava oculto no interior da carapaça que Julius vestia.
O próprio Julius achava, entretanto, que crer que havia um leão era uma enorme superestima——:
Reid: “E eu lá vou saber dos detalhezinho, magricela. Só tô fazendo as coisa do jeito que eu quero. É o meu instinto que ‘tá me dizendo. Que ia ser interessante se cê ‘trocasse de pele’.”
Julius: “…”
Reid: “Por isso que tô tentando te fazer trocar. Cê também ‘tá ligado, não ‘tá? Desse jeito aí, cê não vai conseguir alcançar eu nem dar uma de maneiro pro pitelzinho que ‘tá atrás de ti.”
Quando Reid ergueu o queixo e apontou para Echidna, Julius deu um sorriso amargurado.
De fato, os olhos de Reid eram grande coisa, eles o enxergavam bem.
——Eles entendiam bem que Julius Juukulius era um homem que queria apenas manter as aparências.
Julius: “É exatamente por este motivo que não irei renegar que eu sou eu.”
Reid: “Do que que cê ‘tá falando?”
Julius: “Creio que suas palavras estejam corretas. Há muito o que me vem à cabeça… Neste mundo em que todos me esqueceram, eu nunca cheguei a contar, mas não sou um filho legítimo da família Juukulius.”
Ele começou a falar de modo que tanto Reid, carrancudo, quanto Echidna, olhando adiante com firmeza, o ouvissem.
A história de Julius Juukulius, da qual ninguém tinha lembrança exceto Natsuki Subaru.
Julius: “Meu pai, fugido de família aristocrata, e minha mãe, uma plebeia, uniram-se em matrimônio e da relação entre os dois nasci. Sendo assim, minha naturalidade é a de um plebeu. Meus pais faleceram e, até ser adotado por aquele que é meu pai atualmente, o meu tio, a sofisticação da nobreza era algo que não tinha nada a ver comigo… por consequência, minhas circunstâncias tratam-se de invenções.”
Reid: “Uma puta duma fachada mal-feita.”
Julius: “Pode ser que seja. Minha essência deve ser como a da criança rústica que não conhecia ideais lá da época em que eu vestia roupas cotidianas, não vestes formais, e corria pelas campinas enquanto ria junto de meus amigos.”
Desconhecia decoro, carecia de ideais pelos quais buscar e vivia cada dia seu com avidez.
Eram essas mesmas circunstâncias as que deveriam ter sido o futuro que lhe havia sido prometido por natureza.
No entanto, esse futuro fora arrastado por uma enxurrada juntamente de seus pais biológicos até sumir de vista ao longe.
Era exatamente por isso:
Julius: “Exatamente por isso que irei me fingir de cavaleiro. Obcecado com as aparências, irei enclausurar o meu eu intrínseco.”
Reid: “Ô infeliz…”
Julius: “O meu eu ignorante que tudo desconhecia deparou-se, entretanto, com ideais. ——Eu admirei o cavaleiro. Admirei seu aspecto solene e íntegro. Por consequência, irei me prender à admiração.”
Ao ruidosamente reconectar o fecho do manto, o olhar amarelado de Julius encheu-se de força.
Reid estava em estado descontente, sua expressão facial havia mudado de frustração para dúvida. Era surpresa por suas palavras terem sido negadas, mas ele não ter voado no seu pescoço em troca.
O homem que parecia pintar um retrato de insolência teve a consciência cativada pelas palavras de Julius.
Sendo esse o caso, Julius prosseguiu em tom grandioso.
Julius: “Sou um homem desajeitado. Não capto nada senão o exterior das coisas. Se eu empunhasse uma lâmina esplendorosa, trajasse vestes elegantes e usasse de palavras bem-educadas, eu acreditava que me tornaria digno delas, foi assim que cheguei aqui. É exatamente por isso que irei seguir com tal obstinação. Que irei preservar tais aparências.”
Ele estava ciente da existência de pessoas que detestavam palavras como ‘aparências’.
Recordou-se sem querer de Natsuki Subaru, seria ele o cúmulo disso?
‘Mas’ — pensou Julius.
Julius: “Endireitando a coluna, atendo-se ao recato, dissimulando a forma que deseja ter, mantendo firme a vontade e a usando de suporte. Essa é precisamente a fachada que decidi assumir por toda a eternidade.”
Reid: “…”
Julius: “Deve haver os que ridicularizam aparências também. Entretanto, estou confiante de que o mesmo tanto as considera radiantes. ——Que eu anseie continuamente o modo do cavaleiro.”
Ele não conseguia recordar quem, no início, havia feito sua admiração pelo cavaleiro florescer.
Ainda assim, Julius tornara-se um.
Não o chamavam de『Irretocável』apenas por causa de sua esgrima dedicada, de suas artes espirituais polidas ou do patamar de sua habilidade, que tinha fundamento nas anteriores.
E sim porque este mesmo modo de Julius Juukulius era tido como o modo do cavaleiro.
Era o modo do『Mais』『Excelente』dos『Cavaleiros』, pois sua figura que mantinha as aparências era tida como radiante.
Ao declarar isso, Julius relaxou os lábios e voltou-se para Echidna.
Em direção a ela, que havia pego emprestado a forma da mestra que ele amava e respeitava, Julius balançou a cabeça de um lado para o outro levemente.
——Em direção a ela, que sentia-se arrependida no íntimo de seu coração por não se lembrar dele.
Para transmiti-la que não havia necessidade de carregar tal culpa…
Julius: “Não há qualquer necessidade de sentir receio, perda ou lástima por eu ter sido esquecido. Pois é no interior do código de cavalaria, o qual todos conhecem e ao qual todos anseiam, que encontra-se a existência intitulada eu.”
E ele podia dizer a mesma coisa às『Garotas』 que estavam neste lugar.
Julius: “Me desculpem pelo que fiz até agora, ó brotos meus. Fiquei apegado a vínculos perdidos, não abri mão de vocês e as deixei incessantemente ansiosas. Dessa prisão eu agora as libertarei.”
Atraídas pelo sussurro de Julius, luzes tênues cuja tonalidade era vibrante tornaram-se visíveis — eram belos espíritos que atestavam os seis atributos — os semi-espíritos de Julius Juukulius.
Eram entidades das quais era difícil se separar, elas estiveram por perto desde antes de Julius Juukulius tornar-se cavaleiro.
Elas também haviam se esquecido dele, que fora privado de seu『Nome』pela Autoridade da『Gula』.
No entanto, devido ao contrato indelével firmado entre espírito e contratante e ao encanto da『Proteção Divina da Atração de Espíritos』com a qual nasceu, elas permaneceram próximas e distantes.
Julius também teve fé de que recuperaria sua relação com elas caso recuperasse o nome, então não abriu mão delas.
Que coisa mais tola.
Já que praticamente tudo havia mudado por completo, ele parecia não querer que o remanescente mudasse.
Entretanto:
Julius: “Fizeram muito bem em acompanhar o meu antigo eu, ó brotos meus. Dependente do amor de vocês, custei a abrir mão dos seus corações calorosos. Eu ainda tinha esperança de que retornaríamos sem nenhuma complicação àqueles tempos. ——Renuncio a esse meu eu fraco, patético e deselegante.”
Como se perplexos, os seis semi-espíritos oscilaram enquanto rodeavam o entorno de Julius.
Voltando-se a elas, Julius ofereceu gentilmente o braço. Seu braço se estendeu como um poleiro e, ao vê-lo, os semi-espíritos reuniram-se nele com suavidade.
Feito isso, Julius sorriu para as luzes tênues que haviam parado em seu braço.
Julius: “Havia um eu que temia mudança. Porém, quando não se está disposto a perder, há coisas que não se pode obter. Como, por exemplo, o florescimento dos brotos, este que recebe o nome de amor. Um futuro no qual confirmo com os próprios olhos quais serão as pétalas que irão desabrochar dos brotos que por tanto tempo estiveram ao meu lado.”
«…»
Elas não responderam.
No entanto, pareciam antecipar o que viria a seguir.
Portanto, Julius agiu de acordo:
Julius: “Ó brotos meus! Eu as liberto. Me desculpem por continuar apegado por tanto tempo a um vínculo que se escoou.”
Simultaneamente a essas palavras, os semi-espíritos rodeando o braço de Julius afastaram-se como se tivessem sido repelidos.
Isso, que aparentou vir acompanhado de um choque físico, percorreu apenas Julius e os semi-espíritos categoricamente; era uma sensação impiedosa, quase como um raio.
A conexão, o vínculo e o contrato que atrelava duas almas, os quais existiam por definitivo, foram rompidos.
Era algo que ninguém a não ser um espiritualista entenderia, eram dor e pesar por ter perdido entidades genuinamente ligadas à alma.
Julius não sabia, mas esta mesma dor já foi tanta que levou Emilia às lágrimas e a fez se encolher.
Ele, por conta, passou pela experiência de se despedir de seis espíritos de uma só vez, gerando um ferimento em sua alma.
Uma sensação que lembrava torção arranhou fora o íntimo de Julius e ele sentiu sua alma se desagregar.
Esta dor era uma que divergia, desde a origem, daquela de quando ele havia sido esquecido pelos seus brotos por causa da Autoridade da『Gula』.
Não foi somente Julius, os semi-espíritos também deviam ter provado da mesma dor e se arrependido.
Talvez execrassem a ferida que havia recaído em suas almas, pensando que não deveriam ter firmado um contrato com um humano.
Entretanto:
Julius: “——Eu, além disso, as chamo mais uma vez.”
«…»
Julius: “Eu amo vocês. Caso tenham a boa-fé de aceitar os flertes deste homem espalhafatoso, que nós o reestabeleçamos. ——Um novo contrato entre vocês e eu!!”
Julius estendeu aos céus o braço que ele havia abaixado anteriormente e clamou em voz alta.
Ao ouvir a convocação de Julius, os semi-espíritos, que tinham se dispersado como se por repulsão, tremeluziram calmamente por um único segundo.
A hesitação e a indecisão trataram-se de um mísero segundo.
Uma luz tépida envolveu todo o corpo de Julius Juukulius.
Ela permeou tênue e gentilmente o ferimento que havia sido entalhado em sua alma devido ao rompimento do contrato.
Houvera júbilo. Houvera fúria. Houvera pesar. Houvera amor. Houvera também ódio.
Houvera também múltiplas emoções nesses mais de dez anos de Julius com elas.
Decidindo que não houve primeira vez, eles estavam a tecer o futuro novamente.
Ele não sabia se esta era ou não a resposta correta. Mas eu quero que seja — assim pensou.
Ele poderia vir a se enganar diversas vezes.
Ele poderia também se equivocar ao jamais escolher o caminho certo.
Todavia, nessa jornada ele iria moldar a si próprio.
Mesmo que se enganasse, ele não era um só. Não estava sozinho.
Caso quisesse seguir adiante, haviam ideais que tinham sido edificados por fenomenais antecessores.
Caso parasse de andar, havia o calor dos brotos que vinham cuidando dele com profundo amor.
E, caso olhasse ao seu lado, lá havia o perfil da mestra que jurava dedicar convicções que moldavam o individual.
Do que é que Julius Juukulius tinha que temer em relação ao que viria?
Julius: “——Deve ser verdade. Ó lindas donzelas minhas, em flor.”
Ao chamado responderam seis brotos — não, donzelas florescentes deram suas respostas.
Originou-se uma luz——:
Julius: “De agora em diante também, de modo profundo, de maneira tenra e por mais que machuquemos uns aos outros, irei trilhar por este caminho.”
A dor de ter rompido o contrato foi curada por causa do vínculo que havia sido reatado.
Revestindo-se de seis luzes ainda mais místicas do que antes, Julius Juukulius olhou adiante.
Lá tomava forma o pináculo, aquele que havia cedido seu corpo à espada e pelo qual ele sentia admiração.
No entretanto, os ciúmes de Julius Juukulius estavam voltados a um local que não era esse cume.
Consequentemente, ele haveria de cortar essa admiração de atravessado, sem titubear, com as luzes de um arco-íris.
Julius: “Agradeço por ter aguardado,『Santo da Espada』Reid Astrea. ——É um prazer conhecê-lo.”
Balançando sua espada de cavaleiro, Julius agarrou o manto e fez reverência elegantemente.
Ele então ergueu a cabeça, tomou por completo a forma『Daquilo』que mais admirava neste mundo e nomeou-se.
Julius: “——Eu sou o『Cavaleiro Irretocável』, Julius Juukulius. A espada do reino, aquela que irá fatiá-lo.”