——Autointitular-se『Cavaleiro Irretocável』exigia coragem.
Sentira orgulho em ser assim chamado e enaltecido pelos outros.
No entanto, nenhuma vez se autoproclamara o『Maior』, o『Melhor』ou coisas do tipo.
Sentia presunção em ter agregado empenho sem medir esforços e em ter passado dias estudando com esmero.
Contudo, em sua vivência inapta e inexperiente, esteve rodeado somente por intermináveis precursores excepcionais, camaradas dignos de respeito e calouros dignos de admiração.
Ainda que frustrante, via isso como afortunado.
Ser reconhecido por alguém deveria ser recompensa pelo afinco e pela devoção.
Sem contar que, se quisesse ser reconhecido por todas as pessoas, a diligência nos estudos teria que ser absurda naquilo que diz respeito ao afinco e à devoção, a ponto de todos ficarem completamente maravilhados somente por causa deles.
——Teria ele de fato alcançado um nível de empenho que fazia jus a isso?
Certamente sentia presunção em ter agregado empenho sem medir esforços e em ter passado dias estudando com esmero.
Contudo, teria ele transcendido barreiras? Teria ele se aperfeiçoado até exaurir toda a força que nele havia, dia após dia? Teria ele, inspirado pelo afinco dos outros, jurado se empenhar ainda mais pelos seus ideais?
Ele daria sua resposta à pergunta que ele mesmo havia feito.
Julius Juukulius viera a conquistar isso.
Havia transcedido barreiras, aperfeiçoado-se até exaurir toda a força que nele havia e jurado se empenhar ainda mais com o afinco dos outros servindo de exemplo.
——Sendo assim, diante da entidade que ocupava o pináculo da『Espada』, ele manteve-se majestoso e de cabeça erguida.
Julius: “——Eu sou o『Cavaleiro Irretocável』, Julius Juukulius. A espada do reino, aquela que irá fatiá-lo.”
Reid: “…”
Segurando a borda de seu manto e prestando reverência, Julius permaneceu em silêncio perante o『Santo da Espada』.
Reid fechou o olho que não estava encoberto pelo tapa-olho e não olhou para Julius. Mas gentilmente cruzou os seus braços parrudos e roliços, ponderando a respeito de alguma coisa.
No entanto, a sua ponderação não foi demorada. Desde o começo, as breves interações entre os dois já haviam deixado claro que a natureza dele era uma que não condizia com momentos de reflexão.
Sendo assim——:
Reid: “Ah, ah, aaah, aaaaaaaaaaaah… pra variar!!”
Coçando grosseiramente a própria cabeça, o『Santo da Espada』Reid bateu o pé no chão uma vez, com força.
Com esse único golpe, o piso branco do segundo andar sacudiu como se estivesse fissurando. Echidna, acompanhando o embate dos dois, encolheu-se; enquanto Julius, de coluna reta, não demonstrou o mínimo tremor.
Observando isso, Reid estalou a língua com um “Tsk”.
Reid: “Aparências, aparências, aparências… ah, aparências, né não? Infeliz, cê me vem tagarelar igualzinho a uma pessoa que me seguia. Cê é um filha duma puta que não me desce nem um pouco, ô infeliz.”
Julius: “Lamentavelmente, não tenho ideia de quem seja, porém simpatizo com o homem que o seguia.”
Reid: “Ah? Mas quem que falou que era homem? Primeiro que sair por aí com uns marmanjo’ nas costas né divertido não. A pessoa que eu tô falando que me seguia era mulher. Cara boa, mas a lógica da mina me irritava.”
Julius: “Uma mulher… então, qual seria a similaridade entre essa mulher e eu?”
Reid: “Ah? Faz eu repetir não.”
Franzindo o focinho, Reid estampou um sorriso feroz que nem um tubarão.
Então, descruzou os braços e bateu a mão levemente contra a bochecha.
Reid: “Lógica que fede e uma cara boa.”
Julius: “…”
Reid: “Pô, vai nem se irritar? Que desfofura… bom, ‘tá de boa.”
Reid bufou o nariz após a reação escassa de Julius e estalou vigorosamente os ossos do pescoço. Em seguida, examinou Julius com seu olho azul —— não, não só ele, o entorno dele também.
Como se o estivessem rodeando, luzes tênues tremeluziam; o brilho delas ainda mais forte do que antes.
Acima de tudo, era a primeira vez que as moças haviam se anunciado diante de Reid desta maneira.
Julius: “Tem algo a dizer a meus brotos… não, a minhas formosas donzelas?”
Reid: “Há, nada não. Quando o assunto é mulher boa, não sou de escolher na base da raça não. Infelizmente, não me interessa mulher que não dê pra transar. ——Infeliz, pode crer que cê ia ter ficado mais forte se tivesse saído da tua concha.”
Julius: “Se você diz, é sinal de que talvez houvesse um caminho desse tipo.”
Isso de dar conselhos para as novas gerações, tendo em vista a personalidade de Reid, era um capricho inimaginável.
Talvez Reid tivesse feito isso por ser uma pessoa inconstante ou por achar que o feitio desesperado de Julius, que nada fazia a não se agarrar à espada, era um desperdício.
Se vai se agarrar à espada de um jeito ou de outro, demonstre a postura de quem não liga para aparências. ——Era esse tipo de atitude e de determinação que ele esperava de Julius, era um caminho cabível.
Entretanto——:
Julius: “Optei por trilhar este caminho. Ou, como dissera, talvez eu possa me tornar mais forte se eu sair de minha concha e expuser o que chamam de eu intrínseco.”
O próprio Julius estava ciente de que, caso não se mantivesse consciente disso com firmeza, acabaria assim espontaneamente.
Em um brevíssimo instante, enquanto atacava e defendia estando no seu limite, numa situação em que um fiapo de cabelo era a diferença entre a vida e a morte; se chegasse a isso, a face do verdadeiro Julius viria à tona.
Isso, contudo, dizia respeito a uma ocasião em que ele não se mantivesse consciente com firmeza. ——Vacilar não mais ele iria.
Julius: “Ora proclamo. Que irei a fundo em meu eu cavaleiro. Além do mais, ao invés do caminho pelo qual tentou me conduzir, tornarei-me um eu que se sobressai em todos os quesitos.”
Reid: “Hã? Mas que tipo de lógica te faz dizer que cê vai conseguir isso aê, infeliz?”
Julius: “É evidente. ——O cavaleiro no qual confio é a personificação de meus ideais. Ele é imaculado, íntegro e mais forte do que qualquer outro. Desta maneira, é imprescindível que eu, que me autodenomino cavaleiro, torne-me assim.”
Reid: “——Há.”
Uma lógica absurda pelas próprias palavras dele, falas e linhas de raciocínio irracionais e uma arbitrariedade opressiva que era naturalmente ridicularizada.
No entretanto, quando Reid ouviu isso, ele não expôs a sua raiva nem direcionou-lhe aversão e desdém, apenas expôs os seus dentes afiados e riu.
Então——:
Reid: “Eu vou é te fazer chorar.”
Dizendo isso, Reid descartou o pauzinho que tinha em mãos e deu um grande salto para trás perante Julius, que assistia maravilhado. Logo em seguida, esticou vagarosamente a sua mão para o lado.
A palma enorme dele agarrou firmemente a espada de seleção que estava fincada no piso branco——.
Reid Astrea, aquele que, a princípio, deveria ter somente emprestado sua existência para que ela servisse de aplicador de provas na torre.
Por alguma causalidade, ele havia se desprendido do mecanismo da torre através de poderosa auto-consciência e, por fim, até havia conseguido uma pseudo-ressurreição por ter sobrescrito o corpo carnal do Arcebispo do Pecado da『Gula』invasor.
Foi neste estado, nesta posição em que não precisava mais acatar ao『Teste』da torre, que Reid puxou a espada de seleção pela primeira vez, em conformidade com o encargo original dele.
Assim dizendo——:
Julius: “——Consiga o perdão do Tolo que alcançara a Espada Celestial.”
Reid: “Acho que essa fala aê é minha… mas, bem, tinha me fugido completamente da memória.”
Julius: “Imaginei que fosse o caso, por isso a disse em seu lugar. ——Eu o desafio.”
Reid: “Nunca que vou te perdoar, idiota. Vou é te fazer chorar que nem um nenêzinho.”
Diante de Julius, que estava com a espada de cavaleiro a postos, Reid apontou grosseiramente a espada que havia puxado.
Inteiramente desprovido de brechas. Com uma postura relaxada, o espadachim culminante que atingira o auge——.
——O pináculo de todos aqueles que uma espada empunhavam, o『Santo da Espada』Reid Astrea.
Julius: “Então——”
Reid: “Como cê quiser.”
Julius: “——Venha-me!!”
Confiando na cavalaria que moldava o seu ser, Julius desafiou o『Santo da Espada』com tudo de si.
Tanto o corpo quanto o coração estavam leves.
Sem usar de metáforas, era o poder do entusiasmo que recobria todo o corpo de Julius enquanto ele brandia a espada de cavaleiro.
O equilíbrio mental ter enorme impacto no que remete a batalhas dispensava comentários.
Parando para pensar, desde que Julius chegara na Torre de Vigia Plêiades —— não, desde que fora privado do próprio『Nome』na Cidade das Comportas, podia-se dizer que, esse tempo todo, seu estado vinha sendo um de desequilíbrio.
Claro que Julius se precavia e se restringia o máximo possível, sem deixar que isso transparecesse.
Era um autocontrole que seria considerado uma espécie de racionalidade de aço caso as pessoas ficassem sabendo —— no entanto, não era algo a ser elogiado.
Não ter deixado a sua má condição transparecer e assim enganado não só os seus companheiros, como também a si mesmo teve como resultado aquela derrota miserável e sucessivos fracassos desde que chegara a esta torre.
Julius deveria, para início de conversa, ter confiado nos outros.
Desatinado pelo impacto de ter a própria existência esquecida e lamentando a si mesmo, que havia se desprendido do mundo ao qual pertenciam os outros, falhou em perceber aquilo em que mais precisava ter confiado.
As pessoas que eram valiosas para Julius, nas quais acreditava, às quais tinha jurado lealdade e com as quais contava; elas fariam pouco caso de Julius Juukulius, que se desprendera do mundo sem que percebessem?
——Definitivamente não, isso ele podia afirmar.
Sendo assim, tinha uma única coisa que Julius deveria ter feito.
Ele deveria ter feito um apelo a eles com sinceridade e demonstrado voluntariamente o seu afeto. ——Do mesmo jeito que fizera com os brotos.
Julius: “Eu devia ter reatado os laços que foram rompidos. Aquele que não é ninguém pode tornar-se qualquer um… pois ninguém mais, ninguém menos do que a minha pessoa é testemunha viva disso!”
O filho de um plebeu que não era ninguém tornara-se o mais estiloso cavaleiro que havia neste mundo.
Julius, que tinha virado ninguém, deveria tornar-se alguém novamente.
E——:
Julius: “Independentemente de quantas oportunidades eu receber, imagino que admirarei o rapaz chamejante daquele dia, avistarei os ideais presentes naquelas costas que representam o cavaleiro e desafiarei você que ocupa o pináculo da『Espada』——!”
Reid: “‘Cê fica que fica tagarelando, uma puta duma petulância, infeliz!!”
Em resposta ao talhar de Julius, que havia depositado sua determinação na ponta da lâmina, Reid rugiu, correspondendo com golpes de espada.
Enquanto todo o seu corpo era sujeito ao vento e à pressão dessa espada, Julius estreitou os olhos amarelados dele e maravilhou-se.
Era a quarta vez que estava batalhando contra Reid dessa maneira, recomeço incluso.
O desafio inicial veio seguido logo mais de derrota. Nesta quarta vez, além de limitar a precarização da torre de vigia, havia conseguido refazer o contrato com os brotos.
Nesse meio-termo, Reid utilizar uma arma que não fosse pauzinhos — por mais que houvesse bastante margem para a dúvida: será que pauzinhos podiam ser chamados de arma? — de um jeito ou de outro, ele brandir algo que não fosse pauzinhos era uma coisa nunca antes vista.
Com isso, agora que o『Santo da Espada』que ocupava o pináculo da『Espada』havia pegado a espada depois de tanto aguardo, ele pensou:
Julius: “Sua aptidão com a espada não alterou-se em nada em comparação à vez com os pauzinhos…!”
Reid: “Foi bem o que eu já tinha te falado. Não sou forte por causa que eu consigo balançar uma espada. Sou forte só por causa que eu sou forte.”
Recebeu por cima golpes de espada sendo casualmente desferidos para baixo e, assim que seus joelhos rangeram, o ataque consecutivo veio diretamente por baixo. Julius aparou por pouco com a guarda e foi jogado para trás pelo impacto.
Reid foi atrás apenas caminhando a passos largos, e não com uma investida.
Por mais que viesse a suspeitar o andar peculiar dele, não havia nada de excepcional nele.
Implementar sem dificuldades um andar desses que um grupo de adeptos levaria múltiplas gerações para desenvolver, tudo porque seguiu adiante com a intenção de perseguir o adversário que recuara, era simplesmente como Reid era.
Conforme dissera o próprio Reid, essa era simplesmente a『Existência』esdrúxula que ele era.
Reid: “Já ‘tá queren’o chorar?”
Julius: “——. Não, a sensação de estar desafiando uma lenda aviva o meu peito!”
Julius não estava se fazendo de corajoso, ele respondeu com veracidade enquanto era compelido.
Sim, era isso mesmo. Aquele perante os seus olhos era Reid Astrea. Ouvindo o folclore a respeito dele, quantas vezes será que Julius havia se admirado, o seu coração havia palpitado e os seus olhos haviam brilhado?
Tendo de fato se encontrado com a pessoa em questão, ainda que tivesse se espantado com a personalidade, o poder dele era precisamente os ideais com os quais sonhara.
Sendo esse o caso, o quanto é que já desperdiçara?
Apesar de ter a oportunidade de trocar palavras, trocar espadadas, trocar ideias e convicções——:
Julius: “Há.”
Enquanto trocava espadadas com o『Exemplar Autêntico』, Julius exalou após pensar breve e repentinamente a respeito de algo.
Foi extremamente fora de hora, mas a ideia fez o seu coração acelerar de expectativa, era gratificante de fato.
Reid: “Que é que cê ‘tá todo risonho aê?”
Julius: “Não é nada, apenas me veio algo à mente. ——Ao concluir meu objetivo aqui e retornar às ordens de minha mestra, desafiarei meu amigo Reinhard.”
Diante da pergunta de Reid, Julius colocou em palavras a ideia que tivera.
Até agora, Julius não havia competido nenhuma vez contra Reinhard no que dizia respeito a habilidades com a espada. Muito pelo contrário, até ser decidido que fariam parte de chapas diferentes da Seleção Real, nunca nem havia pensado em disputar com ele.
——Havia arrependimento em não ter tentado se equiparar a ele.
Esse também era um dos motivos pelos quais Julius servia Anastasia e participava da Seleção Real.
No entanto, mesmo que, hipoteticamente falando, não tivesse tido esses pensamentos, Julius provavelmente se encantaria com a pessoa distinta que Anastasia era, almejaria sonhar os mesmos sonhos que ela e se colocaria na mesma posição.
Sendo assim, desde o princípio, nunca necessitou seja de desculpas enfadonhas, seja de posicionamentos indiretos.
Desde o princípio, só precisava ter pegado duas espadas de madeira e ido até Reinhard.
Em uma ocasião passada, Reinhard e o mais forte espadachim do Império de Vollachia trocaram espadadas.
Naquele dia em que todos no campo de treinamento ficaram alucinados com a aura de espadachim, Julius também se emocionou.
Por essa ser a resposta——:
Reid: “Hein, não conheço esse nome aê não. Quem que é esse zé-ninguém?”
Julius: “É seu descendente. E, além de o『Santo da Espada』dos dias atuais, meu amigo.”
Reid: “Ká! O pirralho do meu pirralho já é um estranho pra mim. Nem se visse na rua eu ia me dar conta.”
Ao entretecer chutes às espadadas, Reid descreveu sua irresponsabilidade enquanto bufava com o nariz.
Havendo o que retrucar nesse discurso dele, Julius tentaria abrir a boca enquanto cruzava espadas:
Reid: “Já tô ficando cansado de falar de gente de fora. Infeliz, que tal bater um papo comigo, hein?”
Julius: “——. Eu não recusaria, porém hei de recusar.”
Reid: “…”
Julius: “Se eu ao menos tivesse o tempo, gostaria de ter trocado palavras com você por duas, três noites. No entanto, o tempo agora é precioso demais para tal. Ele está a me empurrar pelas costas, ordenando que eu me apresse. Portanto…”
Aberta a distância entre os dois, Reid alçou as bochechas enquanto fitava Julius. No olho azulado de Reid estava a figura de Julius, cujo brilho ia ganhando força.
Brilhos de seis cores, em redemoinho, mesclaram-se e logo começaram a desenhar suavemente uma aurora polar, um arco-íris.
Então——:
Julius: “——Al Clauseria!!”
——O brilho do arco-íris disparado dominou o mundo branco e partiu em direção a Reid.
O próprio Julius arregalou os olhos perante a extensão e o poder da aurora polar que fora disparada.
Uma arte espiritual eminente transformada em magia de escala tão extraordinária que já seria grosseria tratá-la do mesmo modo que a vinha tratando até então——:
«…»
Brotos —— não, não podia chamar de brotos as garotas cujos dons abotoados haviam literalmente desabrochado.
As garotas que haviam conquistado um desenvolvimento que podia ser considerado belo, charmoso, valente, distinto, garrido e até sublime não eram brotos, e sim donzelas.
Possuir somente para si as seis garotas, com cada uma demonstrando o seu respectivo encanto, talvez fizesse dele um pecador ainda maior que os Arcebispos do Pecado.
Entretanto——:
Julius: “Mesmo que me esqueçam, eu amo vocês.”
Como se para alcançar a aurora polar que fora disparada, Julius avançou.
A luz do arco-íris revestida pelos seis atributos penetrava qualquer defesa e esmigalhava o alvo. Portanto, perante a luz iridescente, as medidas que o adversário podia tomar eram duas —— aceitar o desafio ou esquivar-se.
Reid: “——Há.”
Então, conforme sua personalidade, Reid Astrea não se esquivaria da luz do arco-íris.
Contra a luz iridescente vindo em enxurrada diretamente à sua frente, Reid ergueu seus braços parrudos e talhou a ponta da luz com espada de seleção imperial que ele tinha em mãos.
Sem depender de alguma magia especial ou de alguma Proteção Divina, era uma『Técnica de Esgrima』cujo nome era violência pura —— a magia eminente disparada por Julius com tudo de si havia sido eliminada com um só sacudir.
No entanto, Julius, que avançara, também tinha levado isso em consideração.
Tendo saltado de detrás da aurora polar que havia sido eliminada, Julius pegou emprestado o poder de sua espada e o de suas donzelas.
Julius: “Ia! Aro!”
Naquele momento, os Espíritos vermelho e verde atenderam ao chamado e amplificaram a força um do outro, o vento assimilou as chamas ardentes e redemoinhou, produzindo um tornado escaldante aos pés de Reid.
Ao sentir a onda de calor sob suas sandálias zori, Reid rapidamente escapou para cima em em vez de ser tostado.
Entretanto, o que vinha a seguir era a especialidade do Cavaleiro Espiritual, do『Cavaleiro Irretocável』.
Julius: “Kua! Ik!”
O Espírito amarelo gerou uma protuberância no piso branco e impulsionou o corpo de Julius para o alto. Ao mesmo tempo, o brilho do Espírito azul congelou a umidade no ar e obstruiu a ascensão de Reid, que havia saltado para cima.
Tendo estalado a língua e invertido sua postura por meio do feito aparentemente extra-humano de chutar o nada, Reid firmou de ponta-cabeça os pés no teto de gelo que havia sido gerado em pleno ar e então fitou Julius.
De súbito, vigor adentrou os joelhos de Reid e uma interceptação estava a caminho de Julius e sua ascensão——:
Julius: “In! Ness!”
Na fração de segundo em que o contra-ataque do『Santo da Espada』vinha se aproximando, os Espíritos branco e preto interferiram no mundo com seus respectivos poderes.
A luz branca conferiu força a todo o corpo de Julius e a luz preta, ainda que minimamente, reduziu a força do oponente. A diferença ínfima que fora originada nesse instante foi peça central no resultado que veio logo a seguir.
Reid: “…”
O teto de gelo, que havia se tornado apoio aos pés, despedaçou-se e a figura arremessada de Reid ficou borrada devido à velocidade.
A postura singela dele com a espada de seleção era uma determinada arte culminante que não permitia que fossem decifradas a horizontalidade e a verticalidade da estocada —— ao invés de sentir que ele era uma ameaça, Julius ateve-se à sua resolução e o confrontou.
Quando espadada encontrasse espadada, ser repelido pelo poder mais forte era o que dizia a lógica.
Portanto, Julius abriu os olhos. ——Os olhos que sempre fitaram o que avançava e o que ascendia.
Julius: “…”
Exterminando os conceitos de som e luz, o lampejo de Reid partiu o espaço.
Ele afirmaria. Que, seja com a espada de seleção, seja com os pauzinhos, toda e qualquer coisa que havia no caminho do lampejo seria abatida pelo corte.
Pois essa era a manifestação do conceito em si de『Espada』.
『Espada』era algo que havia sido concebido com o propósito de cortar coisas.
E esgrima era o termo geral para técnicas com o propósito de cortar coisas com a espada.
Sendo assim, o lampejo que cortava qualquer coisa deste mundo era tanto o cúmulo quanto o desejo primordial da『Espada』e da『Esgrima』.
Aqueles por ele cortados jamais, para todo o sempre, iriam se esquecer da realidade de que foram cortados.
Era por isso que a cicatriz causada sob o olho esquerdo de Julius Juukulius também não iria, para todo o sempre, esvair-se.
Era o preço de ter desviado do lampejo do『Santo da Espada』por um raspão.
Julius: “…”
Abdicou da postura defensiva e sondou a espada do adversário com seu ataque e defesa momentâneos.
A base cortada do olho sangrava. Porém ele não fecharia os olhos. Ainda encarando fixamente o adversário, balançou o braço.
Abdicando da defensiva e, para sua ofensiva, concentrando cem lampejos em um——:
Julius: “——Al Clarista.”
O mais supremo golpe de espada de toda a vida de Julius Juukulius descreveu as cores de um arco-íris.
Ele apreendeu o sorriso feroz que nem um tubarão de Reid Astrea e——:
——O tapa-olho que vedava o olho esquerdo do『Santo da Espada』foi perfurado pelo golpe do cavaleiro e estava rodopiando pelo ar.
Julius: “…”
Quando caiu no piso branco com os dedos do pé, o ressoar de seus passos lhe pareceu extremamente barulhento.
Assim que ficou consciente disso, o coração de Julius, que tinha se esquecido de bater no íntimo de seu peito, voltou apressadamente à vida. Ele foi empurrado para trás pela circulação do sangue e soltou um profundo suspiro.
Virou-se então para trás e viu as costas robustas que lá estavam voltadas na direção dele.
Reid: “…”
Seu longo cabelo vermelho estava sacudindo e suas costas estavam imóveis.
O homem entroncado estava agarrando a espada de seleção com a mão direita e colocando contra o rosto a mão esquerda. O local que ele estava tateando com a mão esquerda era onde originalmente esteve o tapa-olho, contudo, não havia nada lá agora.
O tapa-olho que vedava o olho esquerdo do『Santo da Espada』agora estava caído aos pés de Julius.
Julius: “…Atingi, foi?”
Ao olhar para o tapa-olho caído no piso branco e a espada de cavaleiro em sua própria mão, a voz dele estremeceu.
O murmúrio, cujo objetivo era confirmar o que havia acontecido, estava bastante desligado da realidade. Parecia um sonho efêmero que escorreria por entre os seus dedos e desapareceria por completo.
No entanto——:
«…»
Sem ter o conceito de palavras, as seis luzes celebraram a façanha que Julius havia conquistado.
A flor calorosa de nome benquerer viria a tentar preencher o oco que se originara no coração de Julius.
Então, em conjunto com o louvor dessas donzelas florescidas——:
Echidna: “——Julius.”
Ao escutar a fraca voz, Julius voltou o olhar na direção dela.
Tendo assistido a batalha de um local à parte tanto do homem virado de costas quanto das donzelas que vinham comunicando o louvor delas, quem chamou Julius havia sido uma mulher de cabelo roxo-claro.
Possuindo um rosto igual ao da mestra prezada à qual ele havia dedicado sua espada e com a qual ele tinha uma relação em que ambos feriam um ao outro inconscientemente, ela era um Espírito Artificial que viveria eternamente——.
Será que ela prestava consideração a Julius porque se importava profundamente com Anastasia ou era consequência do funcionamento da『Proteção Divina da Atração de Espíritos』? Nunca descobriu a resposta.
No entanto, ter alguém para testemunhar a determinação de Julius Juukulius lhe havia desonerado tanto o coração, que ele ficou grato por isso e elevou a sua espada de cavaleiro.
Julius: “…”
Sem dizer uma palavra, ele elevou a sua espada de cavaleiro em direção aos céus.
Os traços vestigiais da aurora polar cintilaram e o caminho descrito pela espada desenhou literalmente um arco-íris.
Era definitivamente como se estivesse dando suas bênçãos ao cavaleiro intitulado Julius Juukulius——:
Reid: “——Se fosse aquela bosta daquele『Teste』, cê ia ter ganhado com isso aqui.”
Enquanto dizia isso, o homem entroncado pisou vagarosamente no chão com suas sandálias zori.
Quando Reid virou-se, seu rosto estava ileso. A ponta da espada de Julius havia definitivamente atingido apenas o tapa-olho. Porém nem mesmo Reid era tão cara de pau a ponto de contar vantagem e dizer que não tinha sido atingido.
Acima de tudo, o comentário feito previamente não era ele não aceitando a derrota, era a verdade.
Caso esta fosse a continuação do『Teste』de『Electra』, o segundo andar da Torre de Vigia Plêiades, Julius teria passado e se qualificado para desafiar o andar superior no instante em que tivesse atingido um golpe.
No entanto, a batalha entre Julius e Reid não dizia mais respeito aos『Testes』da torre.
Estavam batalhando para resolver isso de homem para homem, de cavaleiro para espadachim.
Reid: “…”
Tendo perdido o tapa-olho e aberto ambos os olhos, Reid agarrou a espada de seleção com ambas as mãos.
Apertou o cabo da espada e preparou a lâmina com ela apontada aos olhos do oponente. ——Assim preparou-se o『Santo da Espada』.
Preparou corretamente a espada não para sacudir uma vareta com singeleza, e sim para cortar o adversário.
Reid: “Mesmo que cê evapore, não vem reclamar.”
Julius: “Ainda que eu quisesse, seria dificultoso sem uma boca com a qual reclamar.”
Reid: “Há! Cê é um desgramento que não ri de piada. Infeliz, como é que era o teu nome mesmo?”
Julius ergueu as sobrancelhas ao ouvir uma lenda perguntar o seu nome.
Deveria já ter apresentado o seu nome diante dele incontáveis vezes, mas não se recordava. No entanto, não se recordar era trivial.
Pois, com essa pergunta, Julius entendeu que era a primeira vez que Reid o havia certamente reconhecido.
Julius: “Julius Juukulius. Visto que é um nome de fácil esquecimento, peço que o decore.”
Proferindo uma piada a qual não teria sido capaz de rir até pouquíssimo tempo atrás, Julius também apontou a sua espada de cavaleiro para Reid.
Dessa maneira, pediu ajuda novamente aos seis Espíritos que, agora há pouco, tinham acabado de se dedicar a ele.
Com o seu eu de agora e as garotas, era para a aurora de seu arco-íris poder alcançar altitudes ainda maiores.
Al Clauseria e Al Clarista.
A aurora do arco-íris, que pegava emprestado o poder dos seis Espíritos para reunir o poder dos seis atributos. ——Clauseria, que disparava magia eminente, e Clarista, que a alojava em sua espada de cavaleiro.
Mais além, havia um ritual sigiloso com o qual nunca tivera êxito devido à inexperiência——:
Julius: “——Venha-me.”
Reid: “——Pode vir.”
Nesse momento, a aurora polar preencheu o espaço alvo e as faixas do arco-íris estavam para desafiar o rubro homem entroncado.
O mais sigiloso dos segredos da arte espiritual do arco-íris, invenção própria de Julius Juukulius.
Ele não disparava um feixe de luz iridescente que reunia os seis atributos nem fazia com que se alojasse na espada; e sim revestia-se com ele, tornava-se a própria aurora e exterminava o adversário——:
Julius: “——Al Clanver.”
O golpe pinacular do Cavaleiro Espiritual foi confrontado diretamente por um lampejo branco.
Do princípio ao fim, o ataque e a defesa eram de dimensões muito elevadas para que olhos destreinados acompanhassem.
Seus olhos azul-esverdeados não conseguiam nem captar qual que era superior e qual que era inferior, não só das colisões das espadadas, como também do jogo de pernas e do posicionamento, que variavam freneticamente.
Isso nada tinha a ver com o fato de que este corpo não era originalmente seu.
Só que, comparado às dimensões nas quais eles competiam em uma questão de vida ou morte, o mundo em que ela vivia era simplesmente de dimensões inferiores demais.
Se o valor de um organismo estivesse em sua força como ser vivo, ela era tão fraca que beirava a inutilidade.
Também era evidência de que tinha vivido em ociosidade por um período de já quatrocentos anos e de que havia dado as costas ao caminho do autoaprimoramento.
Desde que adquiriu consciência de si pela primeira vez, teve um pressentimento.
De que o propósito de sua própria existência artificial já havia se consumado no instante em que nascera.
Se tivesse que dizer, nascer em si havia sido o seu propósito e foi com essa ocasião que ele se concretizara. Portanto, foi deixada à própria sorte, vagou pelo mundo sem rumo e se viu obrigada a vivenciar um vazio de séculos.
Não se preocupava nem com a morte. No entanto, não havia motivo para morrer.
Por isso que protelou estagnadamente o próprio fim e, por longuíssimo tempo, entregou-se à preguiça.
Nessa sua vivência delongada, topou com uma jovem.
Enfeitiçada pelo modo com o qual a jovem vivia vibrantemente; a sua vida, por inteira congelada, obteve calor.
Desejava ver com os próprios olhos que tipo de pessoa tornaria-se a jovem de corpo diminuto que proferia exorbitâncias irrealizáveis, se é que ela seria capaz de se tornar alguma pessoa.
Sem que percebesse, tais interesses e preocupações tornaram-se triviais——:
Echidna: “——Não quero perder você nem as crianças pelas quais sente apreço.”
Ela sabia que aquilo que chamavam de passagem do tempo era tanto gentil quanto cruel.
Por mais que o tempo sarasse feridas, ele também obsolescia emoções.
Viveu por longos e longos anos e, pela primeira vez, teve um pensamento. ——Que não queria deixar isto no passado.
Echidna: “Ainda que esse seja mesmo um desejo impossível também.”
Mesmo que implorasse para ele cessar, o tempo iria transcorrer sem cessamento.
Vidas que deveriam ser débeis e miúdas demonstravam todo tipo de transformação em seus decorreres.
Assim como o cavaleiro sem-nome, privado de seu『Nome』e removido das recordações de todos, provou ser um humano singular de nome Julius Juukulius.
——O cavaleiro envolto pela luz do arco-íris mergulhou de cabeça na luz alva.
Contrastando Julius, que expôs o ritual sigiloso, as ações de Reid Astrea foram terrivelmente singelas.
Balançar para baixo a espada que havia sido balançada para cima, era provável que este porte de esgrima fosse aquele que mais era repetido neste mundo inteiro —— ele bisseccionou o mundo de atravessado e tornou-se uma luz que assolava tudo em seu caminho.
Não era uma magia especial nem uma técnica especial.
Com o simples sacudir de uma espada, o mundo foi sendo tostado com a luz. Incompreensível.
Será que Reid Astrea era anômalo ou será que todos os『Santos da Espada』eram assim?
O que se sabia ao certo era que——:
Echidna: “——Julius.”
Ela desejava se empenhar ao máximo para que a aurora polar não fosse suplantada pela luz alva absurda.
Suas verdadeiras intenções eram essas sem sombra de dúvidas, no entanto, interromper diretamente esta batalha seria um pecado de deselegância do qual ela não seria capaz de reclamar nem mesmo se sua alma fosse esmigalhada por ele ainda antes do ato suicida.
Assim, a jovem — Echidna — deveria estar consciente de que não podia fazer nada por conta própria.
Neste local, e se houvesse algo que ela podia fazer por Julius Juukulius, que havia se transformado em aurora polar?
“…”
Colocou a mão contra o peito esguio e sentiu o ser que lá dentro estava adormecido.
Em busca do motivo pelo qual o proprietário original desta carne e osso não havia despertado de seu sono profundo, Echidna viera a esta torre no mar de areia. ——Porém isso era mentira.
Echidna já estava ciente do porquê da jovem não despertar.
A garota se gabava por ser gananciosa e se vangloriava por querer ter tudo.
Já que o que ela mais detestava era perder algo — ter que perder algo — e não abria mão daquilo que havia conquistado por nada nesse mundo, podia-se apenas pensar em um único motivo.
Echidna: “Você, que cedeu o corpo a mim e se escondeu temporariamente no próprio Od, não está em condições de sofrer interferência do mundo externo. ——Graças ao Od ser uma espécie de mundo próprio.”
Então ela, por vontade própria, retirou-se para esse lugar.
Era óbvio o motivo. ——Caso saísse do Od, sofreria por completo os efeitos. Os efeitos da asquerosa Autoridade do Arcebispo do Pecado da『Gula』.
Seria obrigada a esquecer aquilo que não queria esquecer e a renunciar aquilo que não queria renunciar.
Anastasia Hoshin se esqueceria por completo de Julius Juukulius.
Por isso que ela o fez. Contudo——:
Echidna: “Pelo visto, todo mundo que veio a esta torre é um cabeça-dura decidido. ——Nenhum deles é fofo ao ponto de deixar que fique perdido.”
Nestes quase dois meses, tentou imitar o jeito dela de fazer as coisas à própria maneira, mas já estava chegando a hora.
Além do mais, ao vê-lo como cavaleiro sem-nome de perto e tanto os pontos bons quanto os ruins, mesmo que a jovem o tivesse esquecido, poderia ensiná-la.
Echidna: “Ah, é mesmo?”
Um Espírito Artificial que não tinha qualquer propósito e que havia cumprido o seu dever no instante em que viera ao mundo.
Pensava que esse era o seu papel, porém, ao contrário do que esperava, não acabava aí.
Construir a ponte que faltava entre os dois, entre a jovem e o cavaleiro prezados.
Não era oneroso este importante papel?
Não era tão oneroso que ela podia se divertir com a ideia de que era para isso que havia nascido?
Portanto——:
Echidna: “——Uma atitude de desperdício como essa, de não ver o seu cavaleiro no momento mais maneiro dele, não combina nem um pouco com a pessoa sovina que você é, combina?”
——A luz alva investiu a aurora polar como se para pintar por cima dela.
De toda a alma e pegando emprestado a força dos seis Espíritos com os quais refizera o contrato, ele ainda estava sendo pressionado.
Desvelou um segredo dentro segredos, enquanto o adversário estava somente sacudindo a espada com sinceridade e vontade. ——Realmente, a anomalia que chegava até a ser irracional o havia deixado profundamente assombrado.
Ao mesmo tempo, já que fervilhava em seu peito o pensamento de que era assim que as coisas deveriam ser, ele também já não tinha mais salvação.
O mundo partia-se quando a espada era sacudida.
Era a técnica especial do『Santo da Espada』que também ocorria nas ocasiões em que Reinhard sacudia a espada.
De repente, durante este duelo de resistência de vida contra vida, Julius imaginou.
Que, se fosse para Reinhard e Reid batalharem, qual deles seria o mais forte?
Que, na batalha impraticável de lenda contra lenda, de『Santo da Espada』contra『Santo da Espada』, qual deles sairia vitorioso?
Infelizmente, era bem provável que não viesse a oportunidade de averiguar isso.
Julius: “Sendo assim, não me resta outra opção, senão confirmar eu mesmo.”
Talvez a oportunidade de trocar espadadas tanto com Reinhard van Astrea quanto com Reid Astrea não fosse concedida a ninguém a não ser àqueles que alcançaram esta torre.
Além disso, era possível somente para Julius e para a mulher chamada Emilia, que havia se dirigido ao andar superior. ——Ele não pretendia ceder esse dever a ninguém.
Portanto, restava apenas triunfar.
Tirar esta luz alva do caminho e abater Reid Astrea com a luz do arco-íris.
Para isso, toda a sua alma e, ainda mais, o poder de sua espada——:
Caso um pouco de orgulho e de poder habitasse a ponta da lâmina do『Cavaleiro Irretocável』——:
Echidna: “——Julius.”
Um chamado que não deveria alcançá-lo.
Os impactos eram tantos que haviam deixado a passagem do tempo nebulosa, em meio a eles, contudo, o tempo necessário para que uma espada cruzasse com a outra era menos até de um segundo. Estes eram o ataque e defesa do mundo de uma fração de segundo.
Nesse lugar, ainda mais no meio de uma batalha de vida ou morte, a voz de ninguém deveria alcançá-lo.
Julius: “…”
Entretanto, a voz certamente atingiu Julius.
Talvez não tivesse alcançado os tímpanos, e sim algo mais profundo, o íntimo de seu peito.
Visto que o seu coração estava decidido a continuar usando um invólucro de cavaleiro, seria inconcebível não responder.
Era por isso que, ao ouvir a voz que não deveria ter ouvido, Julius voltou-se àquela que não deveria ter visto e trocou olhares com aqueles olhos azul-esverdeados.
A luz que habitava aqueles olhos grandes e redondos havia visivelmente se alterado de como era antes——:
“——Vai lá, meu cavaleiro.”
——Nessas poucas palavras, residia o empurrãozinho final de poder de espada que lhe era necessário.
Julius: “Ia! Kua! Aro! Ik! In! Ness!”
Buscando o empurrãozinho final em si, fez um apelo aos Espíritos que haviam se tornado parte da aurora polar em conjunto com ele.
O aspecto do oponente o qual deveria sobrepujar encontrava-se do outro lado da luz alva à sua frente, para atravessá-la——:
Para fazer a ponta de sua lâmina alcançar o outro lado da luz——:
Julius: “Oh, OOOOOOooooooooh—— kh!!”
Abriu tanto a boca a ponto de ser incondizente e levantou tanto a voz a ponto de cuspir sangue.
Com a expressão facial de alguém pronto até mesmo para a morte, tendo descartado a sua elegância e, para não fraturá-los, ostentado ao extremo os ideais que compunham o tutano que sustentava o seu ser, Julius avançou.
Reid: “…”
Então, atacado pela aurora do arco-íris cujo brilho se intensificava, a luz alva que ia de encontro a ela também intensificou de vigor.
Tornaram-se mais e mais potentes até que a luz do arco-íris e a luz alva colidiram violentamente——:
Julius: “——Ah.”
Isso, que parecia que iria se prolongar por toda a eternidade, chegou abruptamente ao fechar das cortinas.
Julius: “——Ah.”
Julius escutou, pasmo, o pequeno ruído que havia escapado de sua própria garganta.
O embate entre o poder máximo de fogo dos dois teve esse fechar abrupto das cortinas. Entretanto, o vigor não cessou e a aurora polar carregada pela sua espada perfurou diretamente os pontos vitais do adversário.
Julius: “Por quê…”
Reid: “Tsk, aaah, que bosta, que porre de fechamento, né não?”
Julius, aquele que havia perfurado, parecia conturbado, enquanto Reid, aquele que havia sido perfurado, parecia sereno.
Apesar de seu peito ter sido furado, nem sequer fez uma careta de dor.
Era um feito que podia ser atribuído a sua força de vontade tenaz ou, não sendo esse o caso, talvez fosse justamente por causa da anormalidade que havia ocorrido no corpo entroncado dele?
No peitoral robusto de Reid Astrea, havia se originado um ferimento — não, uma rachadura — que destoava do furo feito pela espada de Julius.
E isso não estava limitado somente ao peitoral. Um ferimento que parecia vidro trincado foi se propagando para diversas partes do corpo dele, como os braços, os pés, o pescoço e as bochechas.
Julius compreendeu instintivamente do que se tratava.
Uma distorção originalmente inconcebível sendo retificada. Este era um indício desse processo.
Reid: “Afinal, é aquilo. Que tem nem como eu caber num recipiente que não seja eu.”
A habilidade de observação de Reid, que murmurou isso enquanto assistia a palma da própria mão trincar, estava correta.
Reid Astrea tinha sido incorporado pela Autoridade da『Gula』e havia adquirido substrato ao se apossar da soberania sobre esse corpo —— no entanto, seguia inalterada até o fim a realidade de que esse corpo era de Roi Alphard, o Arcebispo da『Gula』que tinha servido de ponto originário.
Resumidamente, o receptáculo daquele de nome Roi Alphard não conseguiu aguentar o funcionamento da alma esdrúxula daquele de nome Reid Astrea.
E enguiçou nos estágios finais da batalha contra Julius.
Julius: “Eu iria, então, preferir esse você!”
Reid: “Bom, se não fosse por esse sujeito aí ter me devorado, capaz de eu ter ido direitinho até o fim. Nesse caso, ia ter acabado de um jeito ou de outro quando cê me derrubou o tapa olho, sabe né?”
Julius: “Kh…”
Reid: “Ká, ká, ká. Pra um fracote, nada rola do jeito que cê quer. Já ‘tá queren’o chorar?”
Reid jogou fora a espada de seleção e riu maldosamente com os dentes à mostra.
Como será que ele conseguia rir desse jeito? Nesse ritmo, desaparecer já era um futuro definitivo.
Por mais que talvez pudesse trilhar novamente a vida que uma vez encerrara se tivesse sobrepujado Julius. Por mais que essa possibilidade tivesse escapado de suas mãos…
Reid: “Cê é idiota por acaso, infeliz? Isso aê de viver outra vez, quem é que ia passar um sufoco desses? Primeiro que eu ia fazer o que se topasse comigo mesmo por aí?”
Julius: “…Sinto em informar que você já sucumbiu à velhice há diversos séculos. Mesmo que o seu eu de agora estivesse à solta, o seu eu original não estaria.”
Reid: “Há! Então, cê ‘tá me dizendo que veneram até a fuça do pirralho do meu pirralho que ‘tá mais pra um estranho? Que besteirada.”
O comentário recente sobre tratar os próprios descendentes como se fossem desconhecidos parecia ter sido genuíno.
Reid, realmente sem interesse em viver pela segunda vez, estalou o osso do pescoço.
Reid: “Primeiro que cê ia querer que eu fizesse o que quando voltasse à vida, infeliz? Me divertisse com a pitelzão que passou faz pouquinho tempo, se bem que até a pitelzinho ali ‘tava de boa. Sobrou também a mina boazuda…”
Julius: “Ah, teria você realmente nenhum encargo residual de consciência…?”
Reid: “Neca. Fazer o que me dá na telha quando me dá na telha é como eu faço as coisa’. Ia ser tão sussa pra ti se cê fizesse isso também.”
Julius: “…Agradeço-o pelo conselho. Porém esse seria um caminho muito espinhoso para mim.”
Havia escolhido usar a concha por livre e espontânea vontade.
Podia-se até dizer que ele estava se autoenganando ou que estava fingindo que parte de sua própria essência era um item à parte.
Já que Julius entendia perfeitamente que essa opção iria condizer melhor consigo mesmo e com seus desejos, por mais que achasse deslumbrante a ingovernabilidade de Reid, não optaria por ela.
Ao ouvir essa resposta de Julius, Reid bufou pelo nariz, irritado.
Em seguida, apontou para os ferimentos em seu peito —— para os trincados que haviam surgido devido a ele ter extrapolado barreiras e também para o ferimento singular que destoava desses:
Reid: “Infeliz, não pega a ideia errada, ‘tá bom? A tua espada ter me alcançado foi cagada. Se esse fosse o meu corpo, cê não ia ter conseguido nem encostar a meleca do teu nariz em mim.”
Julius: “Eu, para início de conversa, jamais faria algo do tipo…”
Reid: “Há! Que chateza!”
Tendo cuspido isso, Reid deu uma batida no ombro de Julius com a mão que havia usado para apontar ao próprio peito.
Enquanto enrijecia o corpo em resposta ao impacto, Julius soltou um longo suspiro.
Ele ainda não havia se convencido nem sequer assimilado tudo.
No entanto, desatinar-se com o que havia ocorrido diante de seus olhos, conturbar-se e deixar esta ocasião passar em branco lhe seria intragável.
Os trincados se ampliaram e já se podia enxergar o fim.
Portanto, Julius elevou diante de seu rosto a espada de cavaleiro que ele mesmo havia desembainhado:
Julius: “Reverencio o poder de sua espada das profundezas de meu peito.”
Reid: “Eu lá preciso da admiração dum desgramento. ——Tô é vazando daqui com a vitória, Julius.”
Julius: “…”
Julius assistiu, maravilhado, o seu nome ser chamado ao fim da frase.
Entretanto, sem se conturbar, como havia decidido o seu coração, e ocultando o espanto por detrás de um sorriso, ele prestou reverência.
Como o mais excepcional dentre os cavaleiros, do mesmo modo que havia se apresentado majestosamente a este ser lendário.
Em prol de que os ideais de Julius Juukulius tomassem uma forma que carecesse de acanhamento a respeito de sua admiração.
Julius: “Exato, até o fim. ——A vitória é sua, Reid Astrea.”
Reid: “Há, essa sim é uma bela duma cara, perdedorzão.”
Ao fim dessas palavras, os trincados em Reid Astrea se ampliaram——:
???: “…”
Ao contrário da impressão passada visualmente, os trincados que haviam se ampliado até o fim não vieram acompanhados de sons.
Sem nem se assemelhar a vidro se estilhaçando, o homem entroncado de cabelo vermelho extinguiu-se tal como luz que fraquejava —— em seu lugar, um garoto diminuto de olhos arregalados encontrava-se caído no piso branco.
Um blasfemador de『Comilança』que comia os『Nomes』e『Memórias』dos outros como bem entendia.
Roi Alphard, o Arcebispo do Pecado da『Gula』, estava caído e naufragado.
Roi: “…”
Sem dar a entender se estava vivo ou morto, o『Gula』não moveu sequer um músculo.
No entanto, assim como Reid, havia uma ferida profunda em seu peitoral esquerdo que não deixava dúvidas de que se tratava de um ferimento fatal.
Tendo averiguado apenas isso, Julius baixou a espada de cavaleiro que havia erguido em sinal de respeito, colocou-a de volta na bainha e virou-se.
Desfeita a aurora polar, no entorno de Julius estavam seis Espíritos cuja luz tinha se intensificado.
Sem a força das moças que haviam florescido de brotos a donzelas, era provável que não teria sido o adversário quem estaria caído assim no piso branco, teria sido ele próprio.
Era necessário transmitir os seus sentimentos de gratidão e de apreço em relação a isso.
Entretanto, por mais que sentisse muito pelas moças, a demonstração de agradecimento ficaria para outra hora.
Julius progrediu vagarosamente.
Adiante para onde estava se dirigindo, havia uma mulher miúda e delicada cujos olhos azuis-esverdeados fitavam Julius. Uma pessoa deixando seus longos cabelos roxo-claros ondularem e vestindo um traje branco que não condizia com as dunas.
Aos pés dela havia uma raposa alva cujos olhos negros oscilavam de inquietação.
Era para o aspecto da raposa estar sempre mimetizando um cachecol, ela estar ali detinha significado.
Consciente disso mais uma vez, Julius fechou os olhos.
Então——:
Julius: “——É um prazer conhecê-la.”
Reiterou a frase que, como desafiante, havia sido dita ao『Santo da Espada』pouco tempo atrás.
Mas a sensação agora presente no íntimo de seu peito divergia do entusiasmo de ter desafiado alguém para o combate.
Havia algo, no entanto, que permanecia inalterado.
Era como virar uma nova página em um conto de aventuras, era o espírito aventureiro de um jovem que ansiava pelo cavaleiro.
???: “Eu sou…”
Julius ajoelhou-se ali e proferiu as primeiras palavras, às quais a outra pessoa correspondeu.
Julius, ainda de postura baixa, aguardou as palavras que viriam a seguir. Independentemente de quanto tempo fosse preciso, sentia que seria capaz de aguardar.
Quão afortunado era ele em ter fé de que escutaria as palavras daquela pessoa caso aguardasse?
Anastasia: “——Eu sou Anastasia Hoshin.”
Julius: “…”
Anastasia: “Quero é tudo que tenha nesse mundo aqui… ora, rapaz boniteiro, qual seria o teu nome?”
Ele sabia perfeitamente o quanto ela iria sorrir com elegância e vivacidade e o quanto iria inclinar a cabeça em confusão.
Ainda ajoelhado e cabisbaixo, Julius respondeu com um breve “Há” e:
Julius: “Eu sou Julius Juukulius. ——Seu cavaleiro primeiro.”
Anastasia: “…”
Julius: “Pode ter se esquecido. Porém sou quem lhe dedicou a espada. Quem irá, em prol de você, empenhar toda a força que possui e prestar apoio à sua vontade.”
Julius prestou uma reverência cortesíssima com a espada de cavaleiro contra o chão e, ademais, ergueu por fim o rosto.
Seja qual for o olhar que houver no rosto da mestra perante ele, não se arrependeria.
Isso de ficar desatinado, perplexo e olhando para baixo não era apropriado a um cavaleiro.
Pois o ser aquele que vivia se portando com vaidade e se dissimulando, mais do que qualquer outro, era justamente o qual Julius ansiava.
E, ao olhar para esse Julius, ela estreitou os olhos circulares dela:
Anastasia: “É mesmo, é? Num me alembro… mas…”
Julius: “…”
Anastasia: “Eu pensei, à primeira vista… ——que eu tenho mas é muito que fazer esse rapaz ser meu.”
À curta proximidade estavam os olhos da mestra que seguia cobiçando, eles brilhavam escaldantemente, afirmando que jamais abriria mão de absolutamente nada.
Julius dedicou novamente sua espada à『Ganância』que queria pôr as mãos em tudo.
Era uma peça teatral sublime, quase idêntica aos mestres e cavaleiros de contos——:
A restauração do vínculo roubado entre『Mestre–Servo』foi efetuada no segundo andar,『Electra』.
Haviam sucedido em eliminar um dos cinco obstáculos descritos por Natsuki Subaru.
Segundo『Teste』da Grande Biblioteca Plêiades: ——Concluído.