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Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu – Arco 6 – Capítulo 86

Conversas a Respeito de Ontem

Desde muito tempo atrás, ela vinha nutrindo suspeitas.

Para cumprir o objetivo derradeiro de Roswaal L. Mathers, o amo ao qual dedicara sua lealdade, era necessário matar o『Dragão』que resguardava o Reino de Lugnica.

Já fazia quase dez anos desde que ninguém menos que o próprio Roswaal tinha contado para Ram que ela era um peão chave que não podia faltar nesse seu objetivo.

Tendo resgatado Ram e ■■■ do vilarejo do clã Oni que ardera em vermelhidão, Roswaal buscava retribuição.

Em troca de retaliação pelo clã Oni, Ram decidiu pagar essa retribuição.

Para isso, ela colaboraria, seja com o plano de matar o『Dragão』, seja com o que for.

Ela não foi capaz de encontrar em si mesma a resposta para um único quesito, o quesito crucial de como matar o『Dragão』.

Não seria fácil. Mesmo que preparasse coisas em demasia e tomasse providências, não iria ser algo fácil. Quando chegasse essa ocasião, o que é que Ram seria capaz de fazer?

“Saberá quando a hora chegar. ——O papel que somente você, que somente vocês ■■■■■ podem desempenhar.”

Ela sentia como se tivesse ouvido essas palavras fragmentadas em algum lugar.

Curiosamente, até o dia de hoje, nunca lhe ocorreu contemplar qual o verdadeiro significado delas, porém——:

Ram: “Ram finalmente entendeu. Qual a meta de Roswaal-sama.”

Todas as ações de Roswaal eram em prol do objetivo final que ele carregou consigo ao longo de seus muitos anos de vida.

Para isso, infiltrou-se profundamente no reino de Lugnica; para isso, resgatou Ram e ■■■; para isso, deteve o『Santuário』como uma pedra de toque para a determinação; para isso, colocou Natsuki Subaru à prova.

Mesmo que fosse obrigado a fazer emendas ao seu plano original, toda a preparação feita até aquele momento não seria em vão. ——Não, ele iria fazer questão de que não seria em vão, era assim que ele era.

Consequentemente, a resposta veio também ao íntimo de Ram.

O motivo pelo qual Roswaal havia acolhido as jovens ■■■■■ Oni para sua última carta na manga.

■■■ fora acolhida para substituir o chifre perdido de Ram.

Ele havia colocado suas mãos nas ■■■■■ Ram e ■■■ para matar o『Dragão』com as duas Oni servindo como uma só.

Claro que nem Roswaal conseguiu se safar dos efeitos da Autoridade da『Gula』.

Como consequência, também devia ter se esquecido por que havia trazido ■■■ para a mansão. No entanto, mesmo tendo esquecido, devia ter pressentido imediatamente a própria meta.

Então, ainda que observasse Ram e cia. se empenhando na tentativa de recuperar ■■■ do estrago causado pela『Gula』, não revelou esse fato. Francamente, seja onde for——:

Ram: “O aspecto meticuloso dele não mudará, não é mesmo?”

Por mais que o seu plano tivesse empacado devido às ações de Subaru, ele continuou preparando o terreno para a realização de seu objetivo por debaixo dos panos enquanto aguardava ansiosamente por uma oportunidade.

Uma índole incômoda. O que será que ele estava fazendo a essas horas, longe dos olhos de Ram?

No entanto, também pensou em outra coisa.

——Que, nesta jornada de agora, na qual Ram recebeu permissão para acompanhar Subaru e cia. enquanto levavam ■■■ com eles, quem sabe Roswaal tivesse antecipado a possibilidade de que as coisas fossem acabar assim.

Talvez ela estivesse pensando demais.

Para início de conversa, o Arcebispo do Pecado da『Gula』ter aparecido na Torre de Vigia Plêiades havia sido um imprevisto, nem havia motivos para crer que Ram e ■■■ seriam colocadas em situações perigosas.

Este talvez fosse um devaneio excessivo de Ram por superestimar o homem o qual amava com carinho.

No entanto——:

Ram: “——É aprazível pensar que o homem que ama esteve confiando em você.”

Que ele pensou que, caso Ram estivesse lá, ■■■ e todos os outros permaneceriam protegidos.

Que ele acreditou que, caso houvesse a necessidade, Ram perceberia a pressuposição que ele havia ocultado e, por livre e espontânea vontade, escolheria desvirar a carta na manga que tinha como intuito matar o『Dragão』.

Que o homem chamado Roswaal L. Mathers reconheceu esse período de dez anos pertencente à mulher chamada Ram; pensar desta maneira lhe era muito, mas muito mais aprazível.

Portanto——:

Ram: “——Neste momento, Ram está no auge do aprazer. Ela pede que você caia para nunca mais levantar.“


As façanhas estabelecidas por Neiji Rockhart, o『Rei do Punho』, meio que caíram na boca do povo em Ginunhive, a『Ilha dos Gladiadores』do Sacro Império de Vollachia. ——Não, tinham caído na boca do povo.

Agora que sofrera os estragos da Autoridade da『Gula』e fora privado tanto do『Nome』quanto das『Memórias』, ninguém mais em lugar nenhum sabia de suas conquistas como gladiador.

Em performances na Ilha dos Gladiadores que eram tidas como espetáculos de força, por conta própria e com sua única arma sendo os punhos, Neiji sobreviveu a pelo menos centenas de duelos até a morte e obteve por fim o direito à alforria.

Diante de seus punhos que abrigavam um ânimo de luta aperfeiçoado, aparavam lâminas e despedaçavam aço, todo e qualquer obstáculo mais parecia a pele delicada de uma donzela; talvez pudesse ser dito que ele sozinho havia espancado mais humanos até a morte do que qualquer outra pessoa na história.

Beli Heinelga, o『Besta Carnívora』, era um assassino em série inigualável cujos métodos extremamente bárbaros estremeceram o Reino Sagrado de Gusteko. ——Não, tinham estremecido.

Agora que sofrera os estragos da Autoridade da『Gula』e fora privado tanto do『Nome』quanto das『Memórias』, ninguém mais tinha lembrança das diversas tragédias e lições que ele muitas vezes proporcionou como assassino hediondo.

Beli exibiu um crescimento anormal desde que nasceu e obteve uma força corporal inconcretizável para um ser humano qualquer. Então, abraçou até a morte os homens que gostava e ajuntou múltiplos crimes atrozes.

[N/T: 抱きしめる significa abraçar com força, mas 抱き também pode ter a conotação de fazer sexo]

Uma força sobre-humana concretizada pelo seu corpo massivo e uma pele resiliente na qual lâminas não causavam sequer um arranhão. Este assassino hediondo que buscava contato e calor foi um dos criminosos mais terríveis, temido no mesmo nível que a『Caçadora de Entranhas』.

O histórico de Dorkell, o『Saltador』, era incomum. Originalmente um mero mercador que vivia nas Cidades-Estado de Kararagi e então um divergente que havia sido desviado de seu caminho ao ouvir a voz de algo não-humano era o que Dorkell —— tinha sido.

Agora que sofrera os estragos da Autoridade da『Gula』e fora privado tanto do『Nome』quanto das『Memórias』, ninguém mais se recordava da realidade perdida de que ele era motivo de piada para multidões como divergente.

Certo dia, Dorkell abruptamente jogou fora a sua vida com esposa e filhos. Então, optou pelo caminho de crer no inexistente e se tornou uma anormalidade que escolheu entrar em contato com o Culto da Bruxa.

Ao fim, Dorkell manifestou poderes que diferiam de magia, porém eles diferiam também da doutrina do Culto da Bruxa e ele foi banido até mesmo de lá, era uma heresia dentre heresias.

Resumidamente, eles eram pessoas transcendentais da laia de gente enigmática, excêntrica e lunática em que nenhum se sobressaía sobre os demais.

Além do ser humano médio não ser páreo para eles, incompletos por serem apenas eles próprios, foram mesclados com cada『Memória』que havia no interior do『Gula』e concluídos até se tornarem algo ainda mais suprassumo.

O que Neiji Rockhart viraria caso obtivesse a durabilidade de Beili Heinelga e a técnica de Dorkell de aparecer e desaparecer que nem um espectro?

Seria uma existência plena e singular cuja atrocidade era raramente vista nos anais da história.

Até então, Rai Batenkaitos, o Arcebispo do Pecado da『Gula』, não havia feito isso.

Pois tinha receio de que, ao misturar todas as『Memórias』no interior do panelão de si mesmo, a sua própria existência fosse ser colocada dentro da caçarola.

No entanto, mesmo que bebesse tudo o que havia dentro da caçarola mista, não seria colocado nela —— pelo menos, assim supunha Batenkaitos.

E, visto que chegara a esse ponto, não havia nenhuma hesitação em experimentar fazer aquilo que nunca tinha se dado ao trabalho de tentar e em cruzar os limites estipulados sobre si próprio.

Pois o『Gourmet』que comia exaustivamente aquilo que constituía um『Prato Gourmet』— cada excepcional talento, histórico e possibilidade que neste mundo havia — e os vinha acumulando dentro de si era precisamente quem Rai Batenkaitos era.

Consequentemente, neste dia e nesta torre localizada em um mar de areia nos confins orientais do mundo, fora concebido um bruxo que aglutinava todo tipo de técnica e de poder extra-humano de dimensões elevadas, seja ele congênito, seja ele adquirido.

O bruxo tinha braços que destruíam tudo, tinha um corpo que não era lesionado por nenhum tipo de ataque, tinha habilidades mágicas que repudiavam qualquer técnica que fosse e possuía até mesmo uma sabedoria que regia sobre tudo no universo.

Não importava o quanto você esmiuçasse a história mundial, uma entidade que se sobressaía a esse nível em todas as capacidades nunca existiu e, deste ponto em diante, outra não seria concebida nem depois de terem se passado milênios.

Esta era uma seleção das possibilidades do mundo ocasionada pela calamidade abominável que chamavam de Fator da Bruxa.

Concebido de um panelão condensado somente com ingredientes esplêndidos, era o『Prato Gourmet』supremo em si——:

Ram: “——Ram lhe concederá três chances.”

Estando frente a essa entidade extraordinária, a jovem de cabelos cor de pêssego ergueu três dedos e disse isso.

A jovem sangrava da testa e abrigava em seus olhos rosa-claros uma luz gélida. Repleta de cortes por todo o corpo, em diversas partes, a sua figura esguia sofrera ferimentos graves que atrapalhavam o movimento.

Ainda que os desconsiderasse, havia uma penca de motivos pelos quais não era para ela conseguir se manter de pé. Ele estava ciente disso.

O maior e mais pivotal fator não era as feridas nem o sangramento, e sim que este corpo frágil não estava cumprindo seu propósito como um recipiente para comportar a entidade que ela era.

——É de cortar o coração, assim pensou.

Ram: “Você poderá atacar primeiro três vezes. Há algo que Ram gostaria de testar. Inusitado, não concorda?”

No entanto, sem que essas intensas emoções a afetassem minimamente, a jovem, como se para provocar, afirmou isso com três dedos levantados.

Três vezes, esse era um veredito mortífero. Para início de conversa, era improvável que ela fosse aguentar uma única vez.

E também não havia nenhum motivo em especial para rejeitar essa proposta.

É uma armadilha? — nem lhe passou pela cabeça.

Pois a jovem não era alguém que ofereceria barganhas deste tipo sem propósito. Ele acreditava ser necessário transmitir com avidez que também havia ocasiões em que autoconfiança em excesso arruinava o indivíduo.

Acreditava que, ao se colocar no mesmo panelão, também havia coisas a serem entendidas——:

Rai: “——Nee-sama, a caminho.”

Concentrou vigor intensivamente em seu pé traseiro e o fez irromper, desferindo um único golpe a seu bel-prazer.

Abarrotado da aptidão do Rei do Punho e da nata do poder destrutivo, foi absorvido pelo rosto bem-proporcionado dela um disparo cujo poderio era desmedido demais para destruir uma só jovem——:

Ram: “Ora, foi uma.”

Rai: “——hk!?”

Na fração de segundo em que pensou tê-la apanhado em definitivo, o rosto da jovem desviou do punho por tão pouco que até triscou os cabelos ralos dela. Então, juntamente de uma mão que ela pôs contra o braço estendido, foi projetada uma joelhada que dobrou e partiu o cotovelo direito dele.

Era um incidente inconcebível. A jovem meteu o joelho na articulação do cotovelo do braço que ele havia esticado completamente — o ponto fixo que existia somente ali — e a carne resiliente que nem mesmo uma espada sagrada atravessava foi por ela destruída.

Contudo——:

Imediatamente após o impacto que fraturou o seu braço direito, ele levantou a perna esquerda e a lançou na direção do rosto dela.

Não foi retaliação pelo braço, mas era uma joelhada que também tinha a face como alvo. O joelho claro daquelas pernas longas e esguias, que deveria esmagar o focinho macio da jovem e arruinar o lindo rosto dela:

Ram: “Segunda.”

Ouviu essas palavras serem articuladas pelos lábios franzinos dela e não acreditou nos próprios ouvidos.

Era para ele ter se certificado de que a boca dela não conseguisse mais operar. Porém, contra a joelhada que estava se aproximando pela lateral, a jovem mexeu as suas mãos de um modo que parecia descrever agilmente a trajetória do golpe e então o redirecionou para cima com suavidade.

Fez com que o joelho disparado passasse por cima dela sem complicações, quase como se ele tivesse sido disparado com o propósito de cortar o nada desde o princípio.

Então——:

Ram: “Terceira.”

Com seu braço direito e sua joelhada de esquerda esquivados, ele deu uma cotovelada de esquerda com o embalo de seu corpo rotacionado; era algo afiado e sólido que, caso atingisse diretamente a jovem, esmagaria o seu crânio igual a uma fruta e esparramaria pelo chão da torre o miolo.

Foi assim que —— era para ter sido.

A cotovelada que tinha a têmpora da jovem como alvo limitou-se apenas a ondular diversos dos fios de cabelo cor de pêssego dela.

Então, após desviar da cotovelada como se estivesse ciente da vinda dela, ela agarrou novamente o rosto dele com sua mão estendida:

Ram: “Que ignorante.”

Proferiu isso com uma frieza sem igual e arremessou a cabeça dele contra o chão com vontade.


Torcendo e contorcendo e retorcendo, Batenkaitos avançou enquanto trocava de forma diante dos olhos de Ram e foi arremessado contra o chão por ela, que apontou três dedos na cara dele.

Ram: “O homem que compete pensando possuir três chances, é derrotado em todas as três. Caso compita sem a intenção sincera de vencer, até mesmo a sorte o desamparará.”

Rai: “Buh, gah… hk.”

Ram: “Obrigada. Você pôde provar. ——Que agora, nem mesmo a sorte da ocasião é inimiga da Ram.”

Para Ram, o inimigo mais aterrorizante era sua sorte irracional em si.

Porém ela exorcizou isso com as próprias mãos e até fez com que se prostrasse diante de si.

Não havia mais com o que se aterrorizar.

Estirado no chão, Batenkaitos levantou ambas as pernas e ergueu-se com o embalo de abaixá-las. Então, em direção ao oponente que vinha arrojando o seu braço ainda fraturado, Ram o acometeu sem hesitar.

Sangue escorria de sua testa. No entanto, essa dor e perda fervilhavam o sangue dela desde o cerne.

Ah, como era enfurecedor. Esta sensação, este arrebatamento: sempre pensou neles como irritantes.

Os instintos abomináveis de um Oni, o anseio de receber batalhas de braços abertos, de entusiasmar-se ao empunhar poder e de fervilhar o sangue com o propósito de matar os inimigos que deveriam ser mortos; Ram sempre os detestou.

Foi por isso que, naquela noite, quando o chifre surgido em sua própria testa se partiu, ainda que tivesse pensado ter sido liberta:

Ram: “É de fato irônico.”

Enquanto resmungava isso, Ram segurou o braço que havia sido arrojado e, assim mesmo, lançou-o por cima do ombro. Derrubou-o no chão e o fez voar para o interior do corredor com um chute na cabeça.

Ela não podia deixar que ele chegasse perto do que havia em sua retaguarda, o Dragão Terrestre ferido e a jovem que tinha sido apoiada contra a parede.

Rem: “…”

Na testa da jovem que seguia dormindo invariavelmente, um chifre branco afirmava existir enquanto brilhava com sutileza.

Embora a jovem que seguia dormindo sem intenção originalmente fizesse parte do clã Oni, não era para ela poder fazer o seu chifre funcionar.

Contudo, mesmo que ainda estivessem perdidas as sensações dela, Ram e a jovem eram irmãs gêmeas —— isso que chamavam de『Sinestesia』era um vínculo abstrato que ocasionalmente atrelava duas entidades de parentesco próximo.

Neste ano em que cuidou da Rem que seguia adormecida, Ram veio também a sentir essa exata existência.

Foi precisamente por causa dessa sensação, não somente por causa da similaridade externa, que Ram foi capaz de aceitar objetivamente e sem complicações a realidade de que ela era a sua irmã mais nova.

Porém essa『Sinestesia』nem foi pertinente no período em que esteve adormecida.

Supondo que um único sonho assustador fosse tido por Rem, talvez houvessem vezes em que o susto fosse também transmitido a Ram; porém esse tipo de coisa não lhe foi transmitido nenhuma vez neste período de um ano.

Em outras palavras, a Rem que seguia adormecida não tinha sonhos. ——Fitava continuamente apenas a escuridão do outro lado de suas pálpebras e meramente respirava em um mundo de inexistência no qual não havia nada.

Portanto, não passava de coincidência Ram ter percebido como abusar da『Sinestesia』aqui.

Ainda que enfurecedor, foi graças à ideia de Subaru. Ele assumiu o fardo dela com um poder esquisito e, já que isso havia lhe dado forças para lutar, originou nela a ideia de fazer o mesmo.

Aqueles conectados por『Sinestesia』partilhavam emoções intensas, às vezes machucados e até mesmo dor.

Não compreendia o princípio fundamental, mas havia esta hipótese em um dos livros que leu previamente na Biblioteca Proibida de Beatrice.

——Que『Sinestesia』referia-se ao Od de dois indivíduos distintos se conectando e operando.

Od referia-se à fonte de poder que existia no âmago de um humano —— Podia até ser dito que era a alma.

Também havia vezes em que podia ser usado no lugar de Mana como o poder com o qual utilizar magia, mas o Od era originalmente a propriedade imaculada em si que tornava o humano um humano.

Não seria a『Sinestesia』o resultado de um domínio o qual ninguém mais podia transgredir que conectava por completo aqueles nascidos no mesmo útero? Assim dizia a teoria.

Ao fim, foi decidido que essa era uma crença popular que não se tratava de algo provado.

No entanto, levando em consideração que tinha sido deixado na Biblioteca Proibida, também não devia se tratar de conversa fiada. Acima de tudo, Ram havia se afeiçoado em particular a essa teoria.

Isso de você e outra pessoa estarem conectados por nascença era algo lindo.

Ram: “Por culpa daquele chifre irritante, os transtornos foram muitos.”

Ram abominava aquele impulso destrutivo que vinha se propagando do chifre branco.

O entorno que a exaltava como a segunda vinda do Deus Oni também lhe era enraivecedor. Não havia sequer traço de conexão entre Ram e essa entidade incógnita e ultrapassada.

Era Ram que deveria receber o mérito, não essa coisa.

Consequentemente, estar conectada a outra pessoa, independentemente dessa coisa, era algo lindo.

Então, se fosse para essa conexão com outra pessoa realmente existir——:

Ram: “——Parece certo que Ram ama profundamente essa garota por nascença.”

Se fosse para proteger esse laço, mesmo recém-nascida ela não daria importância a que método usar.

Para protegê-la, para prezá-la, para acarinhá-la e para amá-la, ela daria de tudo.

Sendo assim——:

Ram: “Perdoe humildemente a sua Nee-sama ruim que, numa ocasião destas, faz até você carregar esse peso.”

Por intermédio da『Sinestesia』, Ram repartiu o fardo de seu próprio corpo com a irmã mais jovem adormecida.

Foi graças a ter sentido na pele a Autoridade de Subaru uma vez. Ao ver algo uma única vez, era capaz de materializá-lo de maneira similar em quase todo caso.

Aquilo de Subaru era um engenho idêntico —— que talvez conectasse à força o seu Od ao de outra pessoa, acarretando em uma『Sinestesia』um tanto unilateral. Ele devia poder repassar o seu fardo caso pensasse em repassá-lo, mas não o fazia por ser um ignorante.

Pelo contrário, estava decidido a reduzir o fardo de seus aliados, tomando-os unilateralmente para si próprio.

Ram: “——Que ignorante.”

As mesmas palavras que dissera a Batenkaitos pouco tempos atrás.

No entanto, apesar de serem as mesmas, não tinham a mesma repercussão.

Conectada a Rem através da『Sinestesia』, era apenas com ela que Ram conseguia recriar o que Subaru tinha feito com a Autoridade.

Ela não fazia ideia do que estava havendo com Subaru e companhia. Mas era para as coisas ficarem menos piores com isto. Ram poderia também se retirar da situação asquerosa de estar continuamente conectada a ele.

No lugar, o fardo dela estava fluindo para Rem, porém——:

Rem: “…”

Nada falou a Rem que seguia adormecida.

De modo simplesmente heroico e com o catalisador sendo o chifre branco — o chifre partido de Ram, que esteve inserido no interior da varinha dela

— que a fizeram segurar com ambas as mãos justapostas, Rem seguia repassando para ela a Mana que fluía para seu próprio chifre.

Era incomensurável o quanto que pesaria no corpo de Rem ela ter que intermediar as vastas quantidades de Mana as quais Ram necessitava.

——Portanto, era uma batalha breve e decisiva.

Rai: “Nee-sa-maaaa ——kh!!”

Batenkaitos, que tinha sido chutado pelos ares por Ram, retornou para ela enquanto rugia.

Era uma técnica mágica que utilizava o poder que parecia ser do『Saltador』e zerava em um piscar de olhos a distância que havia —— contudo, até essa habilidade espectral era inútil, já que seu oponente a estava vendo de forma perfeitamente nítida.

Ram: “Como você é lerdo, lesma. Assim, Ram acabará idosa.”

Ela roubou para si o campo de visão do adversário com a『Clarividência』.

O foco, o movimento dos olhos e onde canalizava força: ao reunir esses três, ela conseguia ler qual era o alvo dele com mais facilidade do que ler uma mente.

Evitou a palma que havia saltado e torceu para trás todos os cinco dedos como forma de escapulir.

Desferiu uma cotovelada na garganta que estava prestes a urrar e chocou o adversário contra a parede com um feroz chute circular.

Rai: “Kah… hk.”

Ram: “Ainda assim, Ram seria fofa mesmo idosa.”

Enquanto dizia isso, agarrou a gola do oponente pela nuca e a abaixou, derrubando-o novamente no chão com as costas da cabeça. Ela lançou para baixo o calcanhar contra o rosto dele e pulverizou o seu focinho.

Esquivou-se dos dois braços que tentaram agarrá-la e desferiu incontáveis lâminas de vento.

Rai: “——Gih, ahhhh!!”

Ram: “Que berro extremamente feio vindo de um rosto fofo.”

Enquanto todo o seu corpo era lacerado por lâminas de vento e esguichava sangue, Batenkaitos foi soprado para longe.

Como anteriormente, a carne dele estava se retransformando sem nunca se consolidar; porém, do início ao fim, apenas aquilo acima do pescoço, o qual ela reconhecia bem, não tentava se alterar.

Tinha vontade de vomitar. Mas não iria, já que seria deselegante.

“…”

Enquanto sangrava copiosamente, Batenkaitos voou contra ela sem nenhum virtuosismo.

Ele muito provavelmente faria bom uso dessa aptidão que mais parecia divina. Ao multiplicar os poderes de diversos seres transcendentais, ele deveria estar, desde o princípio, elaborando técnicas que ninguém mais era capaz de recriar.

Essa investida fenomenal, que se especializava em cada abordagem, foi esmagada por Ram com uma violência ainda mais extrapolante.

Ela avassalou as grandiosas técnicas de centenas e de milhares com um poder de centenas de milhões. A batalha já havia chegado a isto.

Não deixaria Batenkaitos sequer encostá-la. Estava em boa condição.

Como de se esperar, sintonizava bem com ela, diferente de Subaru. Removera mais uns dois grilhões.

Provavelmente cinquenta por cento do seu auge —— não, já que a Ram daquela época era pueril, as porções dela que amadureceram eram bem mais fortes na Ram de hoje em dia em comparação àqueles tempos.

E o ponto forte dela era não se perder nessa força.

Ram: “No final das contas, o chifre ter se quebrado foi o correto.”

Se aquela noite não tivesse ocorrido, talvez ela fosse ceder à tentação do chifre em algum momento.

Era algo que Ram queria declarar inconcebível, mas não sabia ao certo se era. Era por isso que ela acreditava que o agora vigente era o correto e se orgulhava do alento do caminho pelo qual trilhava.

Por ter perdido o chifre, Ram acabou não se tornando o『Oni』que ela mesma abominava.

Ram: “Para início de conversa, se não fosse por aquela noite, não teria sido possível encontrar-se com Roswaal-sama, logo, não há por que comparar.”

Sem maior conclusão do que esta, Ram estendeu adiante a palma da mão em resposta a tal.

A milímetros dessa palma, surgiu Batenkaitos, que havia saltado pelo espaço. O rosto, espantado por ela ter previsto o seu local de surgimento, foi agarrado com firmeza e:

Ram: “Não consegue pular sucessivamente, consegue? Ram se cansou de ver os seus truques de mágica. O seu rosto também.”

Rai: “Esp——”

Ram: “Nada de esperar.”

Ao proferir isso com frieza, Ram produziu uma lâmina de vento na palma agarrada à face do adversário.

Naquele momento, com os olhos, o nariz, os lábios, as orelhas e mais cada parte imaginável do rosto dele simultaneamente dilacerados, Batenkaitos urrou enquanto vomitava sangue.

Deste mesmo modo, ela esburacou o rosto dele com lâminas de vento até que fosse reduzido a nada.

Então, da palma da Ram que estava efetuando isso, a figura de Batenkaitos sumiu em um instante.

No entanto, mesmo que fugisse, não fugiria nem dos ferimentos, nem da agonia, nem da realidade.

Rai: “Ah, ahh, ahhhhh—— gh!!”

Enquanto chorava ruidosamente, Batenkaitos se debatia de dor, vertendo abundantes quantidades de sangue no lugar de lágrimas.

Vendo isso, Ram avançou vagarosamente os seus pés na direção dele.

Ao ouvir os passos dela, que vinha se aproximando, Batenkaitos mudou de forma.

Uma alta estatura que era detentora de um corpo parrudo. ——Ela derrubou o punho iminente e despedaçou-lhe o joelho.

Foi derrubado com um chute e, para fugir de Ram, Batenkaitos mudou de forma.

Um gigante barbado que se arredondou e solidificou a própria defesa. ——Ela chutou esse corpo para cima, cravou-o no teto com sucessivos punhos e transformou lerdamente em amontoados de carne o subcutâneo da pele da qual ele se orgulhava.

Para matar Ram, que lhe causou interminável flagelação, Batenkaitos mudou de forma.

Um idoso careca e sua técnica mágica espectral. ——Enquanto sentia pena do truque de mágica cujo segredo já havia sido revelado, ela o apanhou, pressionou-lhe o rosto contra a parede e correu como se para ralar o corpo inteiro dele.

Rai: “Ah, babababababababaAAAH—— kh!!”

Prensado pela potente força de Ram, Batenkaitos teve o corpo inteiro ralado sem ter para onde fugir. Com sua forma se remexendo dentro da mão dela, ele transfigurou-se como se em busca da solução ideal.

Reprimindo isso em totalidade, Ram condoeu-se com as centenas e milhares e dezenas de milhares de vítimas usando toda a força que possuía.

Com poder, realizou pompas fúnebres aos homens e mulheres tomados pela『Gula』cujas técnicas por eles forjadas, caminhos por eles trilhados e emoções por eles amadas tinham sido pisoteadas e desconsideradas.

Não utilizaria mais técnicas, caminhos nem emoções.

Pois não funcionariam em nada contra Ram.

Ram: “Ram pede que assuma a sua responsabilidade por conta própria.”

Ela rodopiou o braço e largou o blasfemador que tivera todo o corpo ferozmente ralado.

Batenkaitos rolou pelo chão da torre de vigia e estremeceu de medo. Vagarosíssimamente, sua forma foi se transformando.

A forma que dependia das diversas『Memórias』transfigurou-se——:

Ram: “Ora, há quanto tempo. Esse rosto era um que Ram queria encontrar. Seria, no entanto, mais ou menos a terceira vez.”

Rai: “——Ah, kah, ah.”

Diante de Ram, que relaxou os lábios enquanto enxugava o sangue na própria testa, encontrava-se Batenkaitos.

Era Batenkaitos no sentido genuíno da palavra. Não era a entidade manhosa que tinha pegado emprestado as técnicas e os rostos dos outros até então, e sim Batenkaitos, que retornou à forma e ao rosto próprios.

Não importava em quem você se tornasse, em quem contasse ou em quem dependesse, não havia como fugir de si mesmo.

Assim como, mesmo depois de ter perdido o chifre, Ram ser um Oni não mudou.

Assim como, mesmo depois de ter as『Memórias』roubadas, Ram ser a irmã mais velha de Rem não mudou.

Ram: “Ao menos no fim, tentará resistir com a própria força?”

Rai: “…”

Ram: “Por falar nisso, Há algo curioso que você disse na escadaria em espiral, não? ——Parece que você tem um irmão e uma irmã mais novos. Que tal, por eles, demonstrar a sua obstinação?”

A respiração penosa de Batenkaitos, deitado no chão, conteve-se abruptamente.

Não foi por perder a vida. Reagiu às palavras de Ram.

Irmão e irmã mais novos — assim que ouviu isso ressoar, a respiração de Batenkaitos acalmou-se um pouco. Então, ele vagarosamente endireitou-se ali——

Rai: “A irmã mais nova… da gente… de nós…”

Ram: “Não coloca as mãos nela ou algo assim? Sinto muito, porém acha que está em posição de fazer uma insistência dessas? Você deu ouvidos aos apelos de alguém uma vez sequer?”

Rai: “Ainda… assim…”

Ram: “…”

Batenkaitos, contorcendo o rosto amassado e ensanguentado dele, suplicou em tom choroso.

Em resposta ao ressoar tristonho desse apelo, Ram estreitou os olhos ligeiramente. Em seguida, baixou os olhos junto de um suspiro.

Ram: “Ram pensará no seu caso——”

Rai: “——Nee-sama é gentil demais.”

Nessa fração de segundo, o instante em que ela desviou o olhar, Batenkaitos deixou apenas essas palavras para trás e evaporou-se.

O salto espacial de Dorkell, o『Saltador』—— sem nem deixar vestígio, o blasfemador desapareceu do campo de visão dela.

——Havia fugido.


Rai: “Há, há, gh! Ah, há, há, há, gh! Ah, háá, há, há, há, há~!”

Fazendo uso integral do superpoder do『Saltador』Dorkell, Batenkaitos escapou do domínio de Ram.

Não pensaria mais na maluquice que seria devorá-la. Sem se importar com a impressão que passaria, optou por fugir.

Não podia vencer. Não podia vencer. Contra aquilo, não podia vencer.

Bem como havia pensado, aquilo era uma monstruosidade. Mesmo que ganhasse tempo, ficasse mais forte e viesse a retornar, não entraria nos conformes.

Aquilo era uma existência do tipo que nunca seria adicionada à bandeja do gourmet nem à bandeja da comilança.

Rai: “Rui e Roi, foi mal pra vocês dois, mas, sabe~! Em uma iguaria, a preparação dos ingredientes é essencial.”

Enquanto colocava pressão nos ferimentos de todo o seu corpo, Batenkaitos escarneceu os irmãos que estavam atrás da mesma presa.

Rui havia desertado o campo de batalha prontamente e Roi estava tumultuando em um local diferente. Se, ao invés disso, aquela Oni fosse atrás dos dois, ele poderia também se retirar livre de preocupações.

Já que Roi, da『Comilança』, não sabia quando desistir, talvez fosse morrer no final, mas fazer o quê?

Ou melhor, já estava ficando farto da『Comilança』de Roi. Pois o sujeito havia devastado suas áreas de caça como bem entendia, roubando iguarias que deveriam ter parado nas mãos do outro.

——Não, aquilo que comera até então eram realmente『Iguarias』?

Rai: “Cada uma delas não presta… Ahh, merda! merda, merda, merda! Uma coisa daquelas existe, sabe~! Se bem que teria sido melhor se a gente não ficasse sabendo, sabe~!”

Esses não eram sentimentos ocasionados pelos de uma irmã mais nova que idolatrava a mais velha.

Aquelas eram emoções que almejavam algo enorme e imensurável —— nascidos no interior de Batenkaitos, eram sentimentos intensos que ansiavam de modo genuinamente genuíno por um desejo do fundo de seu coração.

Queria comer aquilo inteiramente. Queria saborear de corpo e alma inteiramente.

Como um『Gourmet』confesso, vinha planejando devorar todo tipo de emoção e de talento excepcional. Contudo, agora que acabou ciente da existência do『Autêntico』neste mundo, tudo desbotou-se.

Tudo aquilo que a entidade de nome Rai Batenkaitos, como Arcebispo do Pecado da『Gula』, vinha reunindo e acreditando possuir valor entrou em colapso e se transformou em lixo.

As faustosas mesas de jantar que pareciam cintilar tanto foram reduzidas a tanques de areia com bolotas de lama colocadas em cima.

Rai: “Queremos aquilo.”

Queremos, queremos, queremos, queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos queremos——:

Se for para saborear aquilo, mesmo se absolutamente tudo for descartado, pouco importa.

Se for por esse propósito de comer aquilo, não haverá arrependimentos em perder tudo o que foi acumulado até agora.

Não queremos saborear o que não for aquilo. Não queremos nos preencher com o que não for aquilo.

Rai: “Obhh, uehh.”

Enquanto corria, vômito estava vazando do canto da boca de Batenkaitos.

Não era por dor nem por angústia. Era apenas insuportável. As coisas que ele acreditou serem as melhores não eram bem assim e, tendo conhecido o sublime por completo, tudo que o preenchia era nojento.

Por que foi que, em relação às coisas diferentes daquilo, ele as achou maravilhosas? Ele as louvou? Ele as degustou?

Mas o que é que ele teria de『Gourmet』se amasse algo diferente daquilo que era verdadeiramente maravilhoso——?

Rai: “Ah~, isso mesmo, é isso mesmo, não seria isso mesmo, deve ser isso mesmo, deve sim ser isso mesmo, já que é isso mesmo, já que queremos que seja isso mesmo! Bebendo que nem um glutão, gh! Comendo que nem um glutão, gh!”

Uma apetite fervilhante, uma fome a ser preenchida e um clamor que queria e que implorava do coração.

Sendo o ato de tomar para si entidades externas o apetite de querer se tornar um e de querer se mesclar, a『Gula』que o impelia era amor derradeiro.

Rai: “Ama, ama… Sim! Ama, gh! Nee-sama… não, Ram! A gente te ama——”

As palavras dele, tentando bradar emoções culminantes que haviam germinado no interior de si, foram interrompidas repentinamente.

A causa tinha sido dor, era graças a uma aflição inédita que lhe ocorreu.

Rai: “——Ah?”

Batenkaitos pegou na própria bochecha e verificou a palma de sua mão, lambuzada de sangue.

Uma incisão inédita, um ferimento rasgado na bochecha dele, que estava se dirigindo ao exterior da torre para fugir —— a causa tinha sido o espaço sem nada.

Rai: “…”

Quando esticou em silêncio o dedo até ali, viu a ponta dele ser cortada.

No espaço sem nada havia uma lâmina que não podia ver.

Rai: “Há.”

Era a mesma técnica que Batenkaitos havia apresentado a Ram na escadaria em espiral.

A técnica de implantar lâminas invisíveis no ar era uma arte shinobi lendária, mas já não importava mais de quem eram as『Memórias』, pois ele as havia descartado.

O problema era haver aqui uma lâmina que ele não se recordava de ter posicionado.

Rai: “Não pode ser…”

Batenkaitos evitou a lâmina que cortou ligeiramente o seu dedo e tentou avançar mais ao interior —— seus dedos do pé foram arrancados e ele se torceu para trás soltando um grito de “Ah, hi~”.

Então, a parte traseira da sua cabeça torcida para trás também foi arranhada de leve e ele parou no lugar com o rosto enrijecido.

——Ele estava cercado por lâminas que não podia ver.

Rai: “…Há, há, é sério?”

Ele só lhe havia mostrado uma vez.

Uma vez no meio da batalha e, já que essa era também uma técnica invísivel, significava que ela nem deveria tê-la visto.

Além do mais, ela não tinha sequer colocado os pés neste lugar de verdade. Apesar disso, captou a rota de fuga dele e implantou lâminas invisíveis antecipadamente.

Rai: “…”

Batenkaitos não colocou a mão no olho esquerdo que tinha sido lacerado e arruinado pela lâmina de vento, e sim no olho direito que por pouco estava saudável. ——Com a『Clarividência』, Ram estava partilhando deste olho.

Ela não deixou Batenkaitos fugir. Sincronizada a este olho, ela não o deixaria fugir.

Rai: “Hi, há~.”

Riu Batenkaitos debochadamente. Nada mais podia fazer a não ser rir.

Ele amou. Pela primeira vez, desejou intensissimamente algo. Foi fascinado por aquela desproporção.

Então——:

Rai: “Ah! Espere, espere, por favor! Espera, espera mais um pouquinho! É só mais um pouquinho! Já que é só mais um pouquinho, gh!”

Não importava o quanto apelasse à『Clarividência』, a sua voz não a alcançaria conforme o que sabia ele.

Portanto, não era para os chamados frenéticos serem ouvidos pelo adversário. Era para eles o impulsionarem.

Com bastante pressa, Batenkaitos agarrou-se à parede logo ao seu lado.

Ele foi afobado em jogar fora aquilo que comeu. Se tivesse restado pelo menos a prodigiosidade do『Rei do Punho』, teria encerrado isso sem problemas.

Deixando essas emoções para depois, jogou seus braços contra as lâminas que não podia ver. Os pulsos de ambas as mãos foram arrancados e sangue esguichava da ferida aberta.

Dói, dói, dói, dói, dói, mas pouco importa a dor agora.

Rai: “Por favor, aceite os nossos sentimentos, gh! Por favor, seja testemunha dos desejos da gente, gh!”

Pressionou contra a parede os braços esguichando sangue e, com toda a força que tinha, escreveu letras.

Com sangue escurecido e usando toda a força de seu pequeno corpo, escreveu grandes e grandes letras na parede da torre arenosa.

Rai: “Bh, há~.”

Então, deu alguns passos para trás e olhou para essas letras com o olho direito arregalado.

Para que essas letras de sangue desenhadas na parede alcançassem aquela que, do íntimo de seu coração, ele profundamente ansiava.

Pois, sendo dela quem estamos falando, ela com certeza iria, ainda sincronizados um ao outro, dar-se ao trabalho de testemunhar até o último dos instantes finais da vida dele.

Rai: “Ah, te amam…”

——Antes que pudesse terminar a frase, o Arcebispo do Pecado da『Gula』foi decapitado por uma lâmina de vento.


Ram: “——Fula.”

Tendo brandido os dedos e disparado uma lâmina de vento, Ram murmurou apenas uma palavra.

Mesmo que o tamanho da magia impactasse o alcance efetivo, o poderio em si pouco se alterava. Sem contar que, com a afiadez de uma lâmina de vento, se fosse só para arrancar fora um pescoço esguio, o mínimo de poderio já bastava.

Perseguindo as costas do『Gula』escapulido, Ram lançou somente uma lâmina de vento.

Usando a『Clarividência』, acompanhou com facilidade a rota do『Gula』que fugia freneticamente.

Usou artifícios confinadores para que a sua mira fosse precisa e eles pareceram funcionar bem, levando em conta que foram feitos às pressas.

Então, logo antes da lâmina terminal chegar, o『Gula』agiu de maneira incomum.

Cortou fora os próprios braços e, com o sangue deles, escreveu letras de sangue na parede.

Isso, imundo e terrivelmente arbitrário, era uma importunação mal-intencionada sem mérito algum em assistir, porém——:

“…”

No último dos instantes finais da vida dele, ela testemunhou as letras de sangue rodopiarem em círculos e fechou os olhos.

Teve que fazer isso, pois não conseguiria se sentir aliviada até que fizesse. Ela não sentia a mínima obrigação em ter que testemunhá-lo até o fim.

O blasfemador se equivocou em sua escolha final.

Caso tivesse arriscado a própria vida pelo irmão e irmã mais novos, Ram também não teria lhe negado clemência. No entanto, o sujeito a ludibriou usando isso de isca, fazendo deles uma ferramenta para a própria sobrevivência.

Também não deveria saber um meio de recuperar o que havia comido. Caso soubesse, era para ele ter implorado pela própria vida o usando como moeda de troca. ——Não o fez. Portanto, levou o troco.

Ram: “Quem se agarra à espada, pela espada cairá, quem se aferra ao mal, pelo mal cairá, quem se entrega às chamas, pelas chamas cairá. ——E quem deseja o Oni, pelo Oni cairá, arruinados por aquilo no qual se escoravam.”

——Essa era a providência cármica na qual Ram acreditava.

Baixou o braço e soltou um longo suspiro.

Em seguida, virou-se para trás e retornou ao corredor extremamente arrasado. Já que não podia lutar nas proximidades, manteve distância deliberadamente.

Devido à irritante sensação de distanciamento, os passos de Ram inquietaram-se espontaneamente.

Patrasche: “——σσ.”

Assim que escalou a parede desmoronada e retornou, o que a recebeu foi o grito de um Dragão Terrestre alto.

Ela, negra como a noite, tinha utilizado o corpo dela para ocultar Rem atrás de si astuciosamente. No pior dos casos, se quem voltasse não fosse Ram, a intenção deveria ser servir como alguma espécie de escudo.

Ainda que estivesse surrada desse jeito, acatou às ordens de Subaru heroicamente; era um Dragão Terrestre realmente bom demais para ele——:

Ram: “——Não, não é isso. Você queria proteger a Rem também?”

Patrasche: “…”

Ram: “Sim… que boa garota, Patrasche.”

Acariciou o pescoço dela gentilmente.

Deveria ser indispensável carregá-la, toda salpicada de feridas, à『Sala Verde』também. Nem mesmo um Dragão Terrestre símbolo de lealdade poderia se forçar com ferimentos assim.

Ram também não queria agir de maneira irracional com a pessoa — com o dragão — que foi solidário a sua irmã mais nova.

Assim, ao agradecê-la, Ram foi até Rem, que estava sendo defendida atrás do dragão.

O compartilhamento do poder do chifre por meio da『Sinestesia』já tinha sido desfeito e em sua testa não havia chifre. Contudo, a repercussão de ter assumido o peso do poder de Ram, análogo ao do Deus Oni, havia certamente erodido o corpo dela.

A ponto de pesar no peito da própria Ram ao pensar sobre a repercussão que deveria chegar em breve.

Mas——:

Ram: “Agora não é hora de se pensar em nada deselegante.”

Tendo ajoelhado-se vagarosamente ali, Ram levou sua mão à bochecha da irmã mais nova que seguia adormecida.

Esse vínculo de irmãs vinha acompanhado de sentimentos concretos bem mais categóricos quando comparados a antigamente, quando carecia deles; ela sentia o afeto e o apreço transbordarem.

Teve o chifre partido, perdeu seu poder como a segunda vinda do Deus Oni e viveu até o dia de hoje.

Com que propósito ocorreu aquela noite de chamas? — até então, Ram havia concluído que ocorreu com o propósito de torná-la ela, também não achava que estava enganada a respeito disso.

Entretanto, a partir deste instante de hoje, isso mudou.

O chifre de Ram ter se partido naquele dia deu-se——:

Ram: “——Para que Ram entendesse, aqui neste dia, que ela é a Nee-sama da Rem.”

Pois, com a『Sinestesia』e o contato de uma alma com a outra, ela foi capaz de sentir na pele que elas eram gêmeas que haviam compartilhado um só mundo e que eram uma irmã mais velha e uma mais nova insubstituíveis.

Ram: “Ram, como nunca antes, quer conversar com você. Que tipo de tempo será que passamos, você e Ram? Que tipo de ontem reunimos? Vamos juntas preencher as lembranças em falta.”

Pelo tempo fluir sem cessar, as lembranças do futuro podiam se amontoar o quanto for.

Logo, para que tudo não fosse sumindo, inteiramente incógnito e esquecido; para que desabrochassem as memórias, noite após noite e quantas vezes for preciso:

Ram: “Teremos diversas conversas a respeito de ontem.”

A『Bela Adormecida』não respondeu.

Entretanto, sem que o seu peito fosse comprimido pelo silêncio dela, e sim que fosse enchido de algo quente, Ram sorriu.

Sorrindo, ela, sem mais duvidar dos próprios sentimentos, mexeu os lábios.

Ram: “——Te amo, Rem.”

Certamente, seja qual for o tempo que as duas reuníram, somente estas emoções não lhe puxariam o tapete.

Estranhamente, apesar de ter verbalizado algo idêntico às palavras finais do perverso Arcebispo do Pecado, mesmo que tenham tido o mesmo som, não tiveram a mesma repercussão.

Aquilo que desconhece o amor e aquilo que vive o amor jamais teriam a mesma repercussão.

Jamais eles teriam a mesma repercussão.

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