— A notícia de que Arakiya, que havia sido capturada, fora levada embora causou um tremor na sala de conferências.
Kuna: “Que vergonha. Nem mesmo o arco da Holly conseguiu alcançá-los, eles escaparam.”
Holly: “Pois é~.”
As duas que abaixaram a cabeça em desculpas foram Holly, com um arco em mãos, e Kuna.
Com Holly, a portadora das más notícias, ao seu lado, Kuna havia subido imediatamente ao andar superior para perseguir a fugitiva, Arakiya. Usando uma combinação da força de Holly e da visão aguçada de Kuna, elas dispararam contra os fugitivos—exatamente como haviam feito com Todd, quando Subaru e os outros escaparam de Guaral pela primeira vez.
No entanto, os fugitivos conseguiram lidar com os ataques de longo alcance da dupla e, com sucesso, as superaram, levando Arakiya consigo.
Kuna: “Um deles ficou pra trás como isca, e o outro levou a General Divina. Não dá pra deixar as coisas assim, temos que ir atrás deles…”
???: “—É inútil.”
As palavras frustradas de Kuna, com o nariz enrugado de raiva, foram cortadas por duas vozes.
Exatamente as mesmas palavras foram ditas ao mesmo tempo por Abel e Priscilla, que permaneciam imóveis na mesa redonda. Os dois trocaram um olhar rápido, e Priscilla fechou os olhos—um sinal claro de que passava a palavra para Abel.
Abel: “…Foi uma maneira de se infiltrar em nossas linhas com um pequeno grupo, cumprir um único objetivo e escapar. Eles dividiram bem suas funções caso se separassem. A coragem de decidir fazer isso e o julgamento rápido para fugir merecem reconhecimento. Não vão ser capturados, mesmo que enviemos alguém atrás deles.”
Kuna: “—Hk, mas mesmo assim…”
Abel: “Em menos de meio dia, Arakiya vai despertar. Se isso acontecer, qualquer perseguidor que enviarmos não terá a menor chance. E se mudarem de ideia e voltarem para a cidade, também será inútil. Deixe-me avisar: não teremos a mesma sorte duas vezes. No mínimo, seria uma imprudência absurda enfrentá-los com as forças que temos agora.”
Kuna: “Guh… Hk.”
Holly: “Kuna… O que o Abel tá dizendo faz sentido~.”
Despejando uma enxurrada de palavras, Abel tentava dissuadir a teimosia de Kuna. Ao lado dela, Holly a consolava com um tapinha suave no ombro.
Representante do chefe na mesa redonda e confiante em suas habilidades de arco e flecha, era óbvio que Kuna estava amargamente frustrada. Porém, apesar da dureza de Abel, Subaru concordava com sua lógica.
Os soldados imperiais que invadiram a prisão não teriam ousado agir sem uma chance real de vitória. Eles traçaram um objetivo viável, encontraram um meio de superar as probabilidades e o executaram com precisão.
Naturalmente, não fariam algo impulsivo como uma missão suicida. Devem ter preparado um plano adequado de fuga.
Priscilla: “Não importa como queira justificar, o destino daquela coisa não terminaria aqui. Sendo assim, ainda deve haver um papel para ela desempenhar.”
Subaru: “Priscilla…”
Priscilla lançou aquelas palavras ao ar com indiferença, rompendo o silêncio.
Para Subaru, que pouco antes discutia o que fazer com Arakiya, os sentimentos eram complicados. Ela não havia sido executada, mas levada antes que ele pudesse falar com ela.
Mas o que Priscilla, que até então manteve uma postura de indiferença quanto ao destino de Arakiya, pensava sobre ela ter sido levada? Não era possível decifrar nada a partir de seus olhos carmesins.
Al: “Então, no fim das contas, o que a gente vai fazer com essa garota, Arakiya? Decidiram deixar pra lá?”
Subaru: “…Se levaram ela, não tem mais nada que a gente possa fazer.”
Com uma expressão dolorida, Subaru respondeu às palavras de Al, que não conseguia perceber o clima pesado.
Depois de lidarem com os disparos de Kuna e Holly, não dava para esperar que alguém com habilidades medianas fosse atrás dos fugitivos. Isso limitava quem poderia persegui-los, e todos os mais habilidosos não podiam se ausentar de Guaral naquele momento.
Por mais que tentasse pensar em uma solução, a força de Subaru estava em ataques surpresa, o que o tornava especialmente inadequado em situações em que o inimigo tomava a iniciativa. E aquela situação deixava isso bem claro.
Subaru: “A propósito, não acho que seja o caso, mas e se eles ainda estiverem escondidos na cidade, fingindo que fugiram?”
Zikr: “Acho que não. Embora a cidade seja considerada bem fortificada, existem outros caminhos secretos além dos dois portões principais, mas todos foram meticulosamente fechados nos últimos dias.”
Subaru: “Meticulosamente…”
Zikr: “Sim. Esperávamos que você usasse os caminhos secretos para se infiltrar na cidade. Certamente não acreditávamos que tentaria um plano tão imprudente de atravessar pela frente.”
Embora tivesse sido pego de surpresa, Zikr respondeu com calma, sem demonstrar nenhum sinal de desagrado.
Como comandante da Cidade Fortaleza, era natural estar atento a qualquer passagem secreta. No entanto, a postura defensiva sob a liderança de Zikr acabava beneficiando os soldados que haviam capturado Arakiya e fugido.
Zikr: “Talvez os soldados que levaram a General de Primeira Classe fizessem parte da equipe de busca por esses caminhos secretos. Como Abel-dono disse, eles não são do tipo que aceitam um desafio sem ter uma chance de vitória. Nesse caso, me pergunto se conseguiram escapar porque já sabiam de uma rota de saída.”
Subaru: “Não dá pra encontrar a localização dessas passagens em algum mapa?”
Zikr: “…Seria possível fazer um mapa, mas não agora. A cidade caiu, e os soldados estão muito abalados. Esse caos não vai se dissipar tão cedo.”
Subaru: “…Se isso fosse um jogo, seria tão fácil.”
Se aquela fosse uma missão em um videogame, bastaria convencer o comandante do inimigo derrotado a se juntar a eles, e as unidades subordinadas também se aliariam. Mas a realidade não era um jogo. Em um jogo, os soldados eram apenas números, mas ali, cada um tinha sua própria vida.
Depois de refletir por um momento――,
Subaru: “Holly-san, você tá machucada?”
Holly: “Hm? Tá preocupada comigo~? Natsumi é tão gentil~.”
Com um sorriso largo, Holly ergueu os braços em resposta à pergunta de Subaru, exibindo seus bíceps volumosos para mostrar que estava viva e bem.
Holly: “Tô um pouco machucada, mas nada sério. Vou ficar bem rapidinho~.”
Subaru: “Entendi. Que bom… Mas.”
Quando Subaru deixou as palavras no ar e abaixou o olhar, Holly franziu a testa em confusão. Percebendo o que Subaru estava pensando, Kuna coçou a cabeça com um “Ah”.
Então――,
Kuna: “Alguns dos guardas que estavam dentro do prédio foram mortos. Todos estavam mortos quando encontramos, não tinha mais nada que pudéssemos fazer.”
Subaru: “…Alguns? Quantos, exatamente?”
Kuna: “…Sete homens.”
Mesmo hesitando, Kuna respondeu ao ser questionada sobre o número exato de baixas.
Sete. Aquele número se cravou fundo no coração de Subaru. No andar superior, Rem vinha se esforçando para tratar os Soldados do Império e os Shudrakianos feridos no ataque de Arakiya, e até então, não haviam recebido nenhum relato de mortes. Nenhum, até aquele momento――,
Subaru: “…Que tipo de cerco sem derramamento de sangue é esse?”
Ao ajeitar a longa peruca preta, Subaru soltou um suspiro dolorido.
O cerco sem derramamento de sangue, que ele havia assumido com tanto ímpeto e prometido realizar, deveria garantir a queda de Guaral sem perda de vidas. Mas, no fim, havia resultado em várias mortes.
Sua promessa estava quebrada. Mesmo que alguém o acusasse de ser um mentiroso, ele não teria como se defender. E, ainda que ninguém o acusasse, Subaru se condenaria sozinho.
Porque, no fim das contas, ele era o maior mentiroso ali――,
???: “…Um cerco sem derramamento de sangue?”
Ao ouvir o murmúrio de Subaru, uma voz repetiu aquelas palavras como se refletisse sobre elas.
Era Priscilla, apoiada na mesa redonda com o rosto encostado na mão. Em uma expressão incomum, ela ergueu ligeiramente a sobrancelha bem definida e observou Subaru.
Com aquele olhar, Priscilla começou sua declaração com uma única palavra: “Você.”
Priscilla: “Achei que tinha ouvido algo muito tolo. Você realmente acreditou que poderia derrubar uma cidade inteira sem derramar sangue? Em meio a essa guerra, sem uma força militar esmagadora?”
Subaru: “…É, você tá certa. Foi um erro meu, não foi? No fim das contas, a culpa foi toda minha…”
Priscilla: “Foi apenas uma ideia estúpida, e isso me surpreende. Estou chocada que tenha tentado colocar em prática um devaneio desses. ――Abel, você enlouqueceu?”
Abel: “…O plano em si já era loucura desde o início.”
A pergunta foi direcionada a Abel, que cruzou os braços e respondeu em um tom baixo.
O plano proposto por Subaru era pura loucura. De fato, qualquer um que ouvisse os detalhes concordaria com isso. E, ainda assim, Abel o havia aceitado.
Priscilla, que aparentemente o conhecia bem, não parecia entender por quê.
Priscilla: “Olhar o Império do alto do trono te deixou tão complacente assim? Não existe guerra sem sacrifício. Não há orgulho sem derramamento de sangue. Esse não é o caminho do Império?”
Abel: “Não tenho intenção de desobedecer ao código do Lobo da Espada. Eu disse que era loucura, mas as chances estavam a meu favor. De fato, se não fosse pela presença de Arakiya, o cerco teria sido sem derramamento de sangue.”
Priscilla: “――――”
Abel: “O problema não foi o plano. Foi meu julgamento. Priscilla, nem mesmo você tem o direito de desmerecer a oferta do meu estrategista militar. Foi minha decisão. A responsabilidade é minha.”
Subaru: “Ah…”
As palavras de Abel, defendendo Subaru de forma inesperada, deixaram-no sem reação.
Al: “E aí, mano? Parece que ele gosta bastante de você. Tá prestes a ganhar uma promoção, hein.”
Subaru: “Minha posição como cavaleiro da Emilia-tan e guardião da Beako já é mais do que suficiente. Não quero receber mais responsabilidades com as quais não estou familiarizado.”
Empurrando Al para longe, Subaru também afastou o peso da responsabilidade que pairava sobre seus ombros.
Porém, graças à intervenção de Abel, a atenção de Priscilla parecia ter se desviado para outro foco. Ainda assim, isso não aliviava a dor que corroía Subaru por dentro.
A responsabilidade pelas vidas perdidas recaía sobre ele—o responsável por conceber e executar o plano.
Al: “Não dá pra salvar todo mundo, mano.”
Al murmurou, mexendo nos encaixes metálicos do capacete enquanto observava o perfil de Subaru. Quando o garoto lançou um olhar em sua direção, ele desviou os olhos para o teto antes de continuar:
Al: “Você não pode salvar todas as pessoas com quem se envolve. Ninguém vai te impedir de tentar, mas, no processo, seu coração vai se despedaçar. Não recomendo.”
Subaru: “Al…”
Al: “Cada um vive e morre como quer. Como você mesmo disse, mano, isso não é um jogo. No fim das contas, cabe a cada um cuidar da própria vida.”
Era aquele tom cínico que Al exibia de vez em quando.
Por um lado, ele parecia estar dando uma lição a Subaru—aceitar que tragédias acontecem e que certas coisas estão fora de seu controle. Por outro, sua postura soava como a birra de uma criança teimosa.
De certo modo, havia lógica em suas palavras.
Na prática, Al estava certo. Salvar todos era impossível, e, se ele insistisse em tentar, nunca teria um fim. Era por isso que Subaru jamais conseguira proteger tudo e todos até agora.
A escala de uma guerra era algo completamente diferente. ――Seria possível afirmar que sua escolha foi a certa?
As vidas que Subaru conseguia salvar com suas ações não chegavam nem a dez, muito menos a cem.
Priscilla: “Isso é ainda mais patético do que uma farsa, sabia?”
Enquanto Subaru e Al conversavam, Priscilla e Abel continuavam em seu impasse.
Diante do homem que aceitava a culpa, Priscilla puxou um leque do decote e apontou a ponta dele para a sala de conferências――ou melhor, para toda a cidade.
Priscilla: “Mesmo que tenha conseguido tomar a cidade com a ajuda do seu estrategista, não vai repetir o milagre de expulsar Arakiya uma segunda vez. Esse método funcionaria de novo?”
Abel: “De fato, não haverá uma segunda vez.”
Abel assentiu sem hesitar diante da provocação de Priscilla.
Ao ouvir a menção do método que havia repelido Arakiya, uma ideia também surgiu na mente de Subaru, que franziu o cenho. ――Houve um momento, durante a luta entre Al e Arakiya, em que o comportamento dela ficou estranho.
Subaru: “Aquilo… não foi você, Al?”
Al: “O quê? Claro que não. Se fosse eu, teria feito de um jeito bem mais inteligente. Na verdade, eu é que fui lançado longe, lembra?”
Subaru: “É… faz sentido.”
Pensando bem, nem mesmo com as habilidades de Al aquilo tinha acontecido de forma natural.
A conversa dos dois fez os olhares da sala se voltarem para Abel. Só ele parecia saber o que tinha ocorrido, e, incomodado com a atenção, soltou um suspiro irritado.
Abel: “Arakiya é uma Devoradora de Espíritos. Ela se alimenta dos espíritos no ar e absorve o poder deles.”
Subaru: “Devoradora… de Espíritos?”
O termo era novo para Subaru, e a simples menção dele fez seus olhos se arregalarem em surpresa.
Ele já sabia que as regras do Sacro Império de Vollachia eram bem diferentes das do Reino de Lugnica, mas a existência de algo assim ultrapassava suas expectativas.
Subaru, que também usava Artes Espirituais ao emprestar o poder de Beatrice, entendeu de imediato a gravidade do que aquilo significava.
Subaru: “Definitivamente não quero a Beako envolvida nisso… Esse tipo de coisa é comum?”
Priscilla: “Não, nem um pouco. A Devoradora de Espíritos era um dos segredos das tribos que viviam nas terras fronteiriças de Vollachia. Mas a técnica era tão poderosa que foi banida e o método para obtê-la se perdeu.”
Abel: “Pelo menos até onde eu sei, Arakiya é a única Devoradora de Espíritos que existe. Se houvesse outros, eu teria cuidado para protegê-los adequadamente. Isso fazia parte do papel dos Observadores… Não importa mais agora.”
Subaru: “Então, foi assim que você confundiu a Devoradora de Espíritos, Arakiya?”
Abel: “Eu não a confundi. ――Eu apenas a envenenei pela mana”
Al: “Envenenamento por Mana… Haha, entendi. Isso foi bem esperto.”
A resposta de Abel fez sentido, e Al assentiu com um sorriso, coçando o queixo com uma expressão de admiração.
Subaru já tinha ouvido o termo “envenenamento por Mana” antes, e, ao conectar os pontos, tudo se encaixou em sua mente.
Subaru: “Se bem me lembro, é algo como… Pessoas que são muito sensíveis à Mana acabam passando mal em lugares onde a concentração de Mana é muito alta, certo?”
Priscilla: “Arakiya é vulnerável a esse tipo de influência por causa de sua característica como Devoradora de Espíritos. Para consumir espíritos, é necessário possuir uma resistência considerável à Mana. No entanto, se você ultrapassar esse limite e saturar o ambiente, acaba tornando o próprio poder dela em veneno.”
Abel: “Sim, e para isso, precisei usar um dos meus tesouros. Agora, somando ao que já utilizei antes, não tenho mais nada em mãos.”
Enquanto falava, Abel lançou um olhar discreto para Subaru, como se estivesse se referindo a ele. Confuso, Subaru arqueou as sobrancelhas, tentando entender do que ele estava falando.
Subaru: “Tesouro? Quando foi que eu usei alguma coisa sua?”
Abel: “Durante o Ritual de Sangue e Vida, você quebrou o anel para arrancar o chifre da Besta Demoníaca. Esse foi um deles.”
Subaru: “Ah…”
A menção despertou lembranças de um anel que ele havia pegado emprestado. No calor da batalha, ele o usara para destruir o chifre da Elgina, quebrando tanto o anel quanto seu próprio braço no processo.
Então, dando continuidade, Abel havia usado algo parecido naquela luta contra a Arakiya?
Abel: “Quando saltei da sacada, destruí um anel que mantinha escondido. Levou um tempo para que a Mana se espalhasse pelo ambiente… Mas funcionou.”
Al: “Então foi isso que deixou aquela garota daquele jeito. Hah… E eu ali, levando uma surra.”
Subaru: “Você ainda conseguiu fazer isso enquanto caía…?”
Mesmo exausto e encurralado, Abel não desistira em nenhum momento. Sua capacidade de encontrar uma saída, mesmo enfrentando a segunda General mais poderosa do Império, era impressionante.
A determinação de Subaru era sólida, mas a astúcia de Abel operava em outro nível. Diante daquela engenhosidade, Subaru sentia que ainda tinha um longo caminho a percorrer.
De qualquer forma――,
Subaru: “Esse plano não foi preparado especificamente pra Arakiya? É bem ousado da sua parte ter algo assim pronto, considerando que você nem sabia que ela ia se voltar contra você.”
Abel: “Quanto mais pessoas alguém mantém por perto, mais se deve estar preparado para o momento da traição… Em relação à Arakiya, nunca tive certeza de quando ela se voltaria contra mim.”
Priscilla: “――No entanto, só se pode usar artimanhas assim uma vez. Não é fácil conseguir Pedras Mágicas o suficiente para causar envenenamento por Mana. Será essencial reunir uma força de combate decente da próxima vez. Mas.”
Após declarar isso, Priscilla interrompeu suas palavras de forma sugestiva.
Com o leque ocultando parte do rosto, seus olhos carmesim se estreitaram ao encarar Abel. Havia em seu olhar um ar investigativo, como se estivesse testando algo, e, soltando um leve suspiro, continuou:
Priscilla: “Adicionar os Shudrakianos às suas fileiras era esperado… Porém, é difícil imaginar que você seria tolo o bastante pra aceitar o plano ingênuo de um estrategista amador para um cerco sem derramamento de sangue à Cidade Fortaleza.”
Abel: “――――”
Priscilla: “A esse ritmo, jamais poderei aconselhar meus colaboradores a te apoiarem.”
Subaru: “Colaboradores!?”
Subaru ficou boquiaberto com a forma casual e natural com que Priscilla falou. E, ao que parecia, não era o único surpreso. Exceto Abel e Al, todos na sala de conferências reagiram com espanto.
Era estranho que Abel, assim como Al, não demonstrasse surpresa, mas Subaru decidiu deixar isso de lado por ora.
Subaru: “Espera, espera, espera, isso tá indo rápido demais! Colaboradores… Pra começo de conversa, eu nem entendo qual é a sua posição. Achei que você tinha vindo ajudar o Abel, mas…”
Priscilla: “Eu não vim para prestar auxílio. Não leve a sério as bobagens que meu palhaço diz.”
Subaru: “Tá, entendi! Não importa se você veio ajudar ou não. O que eu quero saber é qual é o seu objetivo final.”
O que tinham ouvido até aquele momento sugeria que o próximo passo era estabelecer um diálogo com Abel.
Mas o que Subaru queria, de fato, era entender por que Priscilla―― ela, Al e, possivelmente, outros colaboradores estavam no Império de Vollachia desde o princípio.
Além disso, seria ainda melhor saber se tinham a intenção de apoiar Abel ou não.
Subaru: “Responde logo. Pra ser honesto, ninguém aqui sabe o que pensar de você.”
Priscilla: “Que presunção… Eu não me importo com o que vocês, plebeus, pensam de mim. Faço o que desejo fazer. Afinal…”
Subaru: “――O mundo existe pra te servir, não é?”
Priscilla soltou um risinho ao ouvir Subaru repetir sua filosofia, algo que já lhe era bastante familiar.
Então, percebendo que os olhares dirigidos a ela estavam ficando mais penetrantes, fechou um dos olhos e declarou:
Priscilla: “Meu objetivo é restaurar o Imperador ao trono do qual foi deposto. Se não o fizer, terei que lidar com visitas incessantes e irritantes.”
Abel: “É desnecessário dizer que esses assassinos não foram enviados por mim.”
Priscilla: “Nem por um instante eu suspeitei disso. Por isso, tive o trabalho de vir até aqui. Ou, seria mais correto dizer que fui trazida pelas minhas asas.”
Com um olho fechado, ela respondeu a Abel e ergueu o olhar. Se não houvesse um teto, o que se veria seria o céu noturno se estendendo além.
Mais do que isso, não era apenas o céu, mas algo que o transformava em seu domínio――
Subaru: “Não me diga que você e o Al chegaram voando?”
Al: “Ah, foi tipo um serviço expresso de dragão voador. Pra ser honesto, achei que seria o fim do mundo quando a Princesa simplesmente pulou sozinha. Eu não tinha como seguir, então só consegui descer quando a criatura se aproximou do chão.”
Subaru: “Um dragão voador… Os dragões aquáticos em Pristella já me deixaram apavorado.”
Além dos dragões terrestres e dos aquáticos, mais uma criatura fantástica entrava em cena: os dragões voadores.
Pelo que sabia, essas criaturas eram extremamente ferozes e exigiam habilidades especializadas para serem domadas. Como poucos eram capazes disso, montar um dragão voador era algo raro.
Subaru: “Em outras palavras, quem quer que tenha fornecido o ‘serviço expresso de dragão voador’ é um dos seus colaboradores?”
Priscilla: “Não se rebaixe a atos tão mesquinhos como dissecar as palavras alheias. No seu caso, sua baixeza supera sua inteligência. Ao menos cuide da sua aparência. Ainda há esperança se melhorar a maquiagem.”
Subaru: “Se eu mexer na maquiagem agora, vou parecer um lunático, não vou…?”
Agora que ela mencionou, o fato de ainda estar usando as roupas femininas podia ser um problema, mas, até o momento, ninguém ali havia tocado nesse assunto.
De qualquer forma, ele estava se desviando do ponto novamente, mas――
Subaru: “Se o objetivo é colocar o Abel de volta no trono, isso significa que podemos cooperar um com o outro?”
Priscilla: “Na verdade, não posso te dar uma resposta direta. ――Ainda não esqueci o que disse antes. Se ele não possuir as qualidades de um Imperador, não há sentido em restaurá-lo.”
Abel: “――――”
O olhar de Abel ficou mais afiado diante do questionamento direto sobre sua capacidade de ser Imperador.
A preocupação de Priscilla não residia apenas na execução do Cerco Sem Derramamento de Sangue proposto por Subaru e aprovado por Abel―― mas na ideia em si.
No Império de Vollachia, ingenuidade podia significar a morte. E, de fato, vidas já haviam sido perdidas por causa da visão ingênua de Subaru. A crítica de Priscilla era incontestável.
No entanto――
Abel: “Eu vou recuperar o trono. Não importa o que digam, isso é certo. ――Priscilla, por mais que você insista, esse fato permanece inegável.”
Com Subaru em silêncio, Abel tomou a palavra e fez uma declaração firme.
Era a mesma declaração fervorosa — ou talvez ainda mais intensa — que ele havia feito quando revelou sua verdadeira identidade e anunciou a Subaru que retomaria o Império.
Priscilla: “――――”
Ao ouvir a determinação de Abel, as expressões dos presentes na sala de conferência mudaram.
Kuna e Holly demonstravam a disposição de continuar lutando como o Povo de Shudrak, enquanto Zikr inclinava a cabeça como se estivesse diante de algo divino. Al lançou um olhar para Priscilla, esperando sua reação, mas ela apenas estreitou os olhos, mantendo sua postura altiva e imperturbável.
Priscilla: “Seu espírito permanece inabalável, mas a realidade não. Afinal, você foi forçado a abandonar o trono.”
Abel: “――――”
Priscilla: “As circunstâncias já são claras. A questão é: quem as desencadeou? De quem foi o plano?”
Abel: “――Estou certo de que foi o Primeiro-Ministro Berstetz quem orquestrou tudo.”
A resposta de Abel veio com um tom de hostilidade em seus olhos sombrios.
O cargo de Primeiro-Ministro ocupava o topo do governo civil, intimamente ligado ao Imperador. Se o ápice das forças armadas era representado por um general ou pelo líder da ordem de cavaleiros, então o Primeiro-Ministro poderia ser considerado o mais alto escalão da administração civil.
Em outras palavras, estar em segundo lugar no comando tornava a traição mais fácil de ser executada.
Priscilla: “Aquele velho tolo. Como ousa desperdiçar o que recebeu de Lamia?”
Abel: “É claro que previ suas intenções rebeldes e me preparei para isso. Mas…”
Ele interrompeu a frase e soltou um suspiro discreto.
Foi um gesto inesperado para alguém como ele — a primeira vez que mostrou algo próximo à fragilidade. Até então, como Imperador, jamais vacilara, mesmo após ser forçado a deixar sua posição.
Mas a causa dessa brecha não era apenas a traição do Primeiro-Ministro――,
Abel: “Com Chisha Gold ao meu lado… fui incapaz de perceber as intenções traiçoeiras do Quarto Rank dos Nove Generais Divinos.”
Zikr: “――Ridículo, o General de Primeira Classe Chisha!?”
Ao ouvir a amarga confissão de Abel, Zikr não conseguiu conter o choque em sua voz.
Como General de Segunda Classe do Império, ele certamente conhecia o nome desse membro dos Nove Generais Divinos — um nome que Subaru desconhecia.
Com os olhares dos presentes voltados para ele, Zikr passou a mão pelos cabelos espessos antes de falar:
Zikr: “O General de Primeira Classe Chisha é único entre os Nove Generais Divinos em termos de habilidade. Ele é mais famoso por sua sabedoria do que por sua força militar, e foi o principal apoio de Sua Excelência Vincent durante a Cerimônia de Seleção Imperial…”
Subaru: “Então ele era tipo o braço direito dele? Quer dizer que esse cara foi traído não só pelo Primeiro-Ministro, que é o braço direito na política, mas também por um general de longa data?”
Abel: “Não repita essas palavras. Meu braço direito ainda está preso ao meu ombro.”
Subaru: “Quando você fala assim, só parece que tá tentando bancar o durão…”
Ouvindo a explicação de Zikr, Subaru ficou surpreso com o que parecia ser a falta de popularidade de Abel.
Porém, considerando a ideologia radical do Império de Vollachia, um Imperador que fosse considerado fraco seria rapidamente deposto — talvez situações como essa não fossem tão incomuns.
Subaru: “É normal os Imperadores fugirem por aí nesse país?”
Abel: “Desde que assumi o trono, só fui perseguido formalmente duas vezes.”
Subaru: “Mas já tem um histórico, né?!”
Abel: “Besteira. Na última vez, foram os Cavaleiros Reais do Reino que me arrastaram pra isso. Se quer reclamar, fale com eles.”
Ele lançou um olhar de desprezo para Subaru, que entendeu a indireta e calou-se.
Subaru lembrou que Julius havia mencionado uma vez que fora enviado ao Império como emissário, mas não imaginava que estivesse relacionado a isso. Se fosse o caso, o mundo era realmente pequeno.
Al: “Ah, então Sua Excelência foi expulso do trono pelos próprios aliados e até a Senhorita Arakiya virou inimiga… Isso não parece perigoso? Não tem ninguém do seu lado?”
Abel: “Outro dos Nove Generais Divinos, Goz Ralfon… Foi ele quem garantiu minha fuga. Se não fosse pelo tempo que ele ganhou para mim, eu não teria conseguido ativar o mecanismo de transferência.”
Zikr: “Ah, como esperado do General de Primeira Classe Goz…!”
Abel: “No entanto, se os outros Nove Generais — além de Chisha e Arakiya — também se voltaram contra mim, não vejo como Goz poderia ter sobrevivido. É mais provável que ele tenha sido morto.”
A possibilidade de um General Divino ter arriscado a vida para proteger Abel era uma fagulha de esperança, embora tênue. Porém, Zikr balançou a cabeça em negação:
Zikr: “Se me permite, não recebi qualquer notícia sobre a morte do General de Primeira Classe Goz. Seja em batalha ou por doença, a morte de alguém do calibre dele não pode ser ocultada por muito tempo.”
Abel: “Então, existe a possibilidade de que ele esteja sendo mantido como prisioneiro.”
Zikr: “Talvez. Não, com certeza! Para um guerreiro do calibre do General de Primeira Classe Goz, isso é bem provável!”
Diante das palavras de Abel, Zikr se curvou com reverência.
Se até Zikr o respeitava tanto, esse Goz devia ser um homem bastante confiável. Ou, quem sabe, uma mulher, apesar do nome severo.
Priscilla: “―Com o Primeiro-Ministro e os Nove Generais Divinos como inimigos, o Império é, sem dúvida, um lugar de morte certa.”
Depois de ouvir toda a conversa, Priscilla lançou esse comentário como se quisesse provocar. Concordando com as palavras dela, Subaru ergueu a mão e disse:
Subaru: “Ei. Eu sei que já passou um pouco do momento, mas e se o Abel se apresentar como Imperador? Assim, as pessoas que estão governando em silêncio na Capital Imperial poderiam ser marcadas como rebeldes e traidoras…”
Al: “Infelizmente, não dá pra esperar que um povo revoltado e os soldados derrotem a administração do golpe antes mesmo da batalha começar, mano.”
Subaru: “Não tava pensando em algo tão maluco assim, mas por que não?”
Abel: “―Porque este é o Sacro Império de Vollachia, onde o poder é o que vale.”
A sugestão de Subaru foi rejeitada, e Abel complementou a explicação de Al.
Com os braços cruzados, o Imperador deposto franziu ligeiramente as sobrancelhas bem desenhadas antes de continuar:
Abel: “Se eu me apresentar e declarar minha intenção de retomar a Capital Imperial, seria recebido de braços abertos. Mas isso não significa que me apoiarão. O que é tomado de você, você mesmo deve tomar de volta. É assim que as coisas funcionam aqui.”
Subaru: “Não só bens e terras, mas até o trono do Imperador…”
Abel: “Não há exceções… Por isso, eu sei o que precisa ser feito.”
As palavras decididas de Abel surpreenderam Subaru, que ainda tentava entender a situação. Quando achava que ele não tinha saída, a resposta veio com uma confiança inabalável.
Então, Abel se levantou lentamente, colocando as mãos sobre a mesa redonda.
Abel: “General de Segunda Classe Zikr, o mapa.”
Zikr: “Sim! Imediatamente!”
Ao receber a ordem, Zikr deu instruções aos soldados imperiais que aguardavam em um canto da sala. Eles logo retiraram o mapa pendurado na parede e o estenderam sobre a mesa.
Era um mapa mundial que mostrava, entre outras regiões, o território do Império de Vollachia.
Abel: “Estamos aqui, no leste, na Cidade Fortaleza de Guaral. Já a Capital Imperial, Lupugana, que devemos recuperar, fica mais ou menos no centro do Império.”
Subaru: “…Vollachia é bem grande.”
O mapa deixou claro para Subaru a verdadeira dimensão do Império, algo que ele não tinha percebido até então. O Sacro Império de Vollachia, que dominava a região sul do mapa, era disparado o maior território em comparação com os outros países.
A Selva de Buddheim, que tinha sido um pesadelo para Subaru e os outros atravessarem, não passava de um pequeno ponto quando vista em escala maior.
Abel: “Cada cidade do Império é governada por um Prefeito ou Senhor local. Assim como Guaral, todas elas têm suas próprias forças militares autônomas e não hesitarão em lutar em caso de emergência. ――Devemos reunir esses exércitos para fortalecer nossas forças e retomar a Capital Imperial.”
Subaru: “…Isso parece com aquele esquema de reinos em jogos de estratégia.”
Abel: “Você parece descontente.”
Subaru: “Claro que tô. Foi um inferno só pra tomar Guaral. Achar que isso vai continuar dando certo parece um pouco otimista demais.”
Embora estivesse acompanhando a explicação, Subaru não conseguia ignorar o peso da realidade. Por mais lógico que fosse o plano de Abel, a prática era bem mais complicada do que num jogo de simulação.
Mas então――
Abel: “Há uma maneira de aliviar suas preocupações. Ou melhor, há condições essenciais que devemos cumprir para alcançar meu objetivo.”
Subaru: “Condições essenciais…”
Abel: “――Conseguir o apoio dos Generais Divinos.”
Subaru arregalou os olhos ao ouvir aquilo.
Era natural. Afinal, foi justamente a traição dos Nove Generais Divinos que o tirou do trono.
Entre eles, os poucos que ainda poderiam estar do lado de Abel eram um mistério, e os dois Generais que eles conheciam já haviam se declarado inimigos.
Restava a pergunta――
Subaru: “E quanto aos outros Generais Divinos…?”
Abel: “Estão aí.”
Apontando um dedo para o mapa, Abel assentiu diante do espanto de Subaru e, em seguida, lançou um olhar afiado para todos ao redor da mesa, exceto Subaru.
Abel: “As pessoas do Império devem ser fortes. Os Nove Generais Divinos são a personificação dessa regra. Em outras palavras, quem deseja governar o Sacro Império de Vollachia deve reunir os Nove Generais sob seu comando.”
Subaru: “Então, em resumo…”
Quando Subaru começou a processar o que acabara de ouvir, Abel curvou os lábios em um sorriso desafiador.
E então――
Abel: “――O Relâmpago Azul, Cecilus Segmunt. A Devoradora de Espíritos, Arakiya. O Velho Ardiloso, Olbart Dunkelkenn. O Aranha Branca, Chisha Gold. O Cavaleiro Leonino, Goz Ralfon. Mestre de Itens Encantados, Groovy Gumlet. A Vistosa, Yorna Mishigure. O Homem de Aço, Moguro Hagane. E a General Dragão Alado, Madelyn Eschart.”
Subaru: “――――”
Abel: “O vencedor desta guerra será aquele que conseguir o maior número de Generais Divinos ao seu lado. Esse é o caminho para a vitória, e essa é a condição absoluta que devo cumprir.”