Tradutor/Revisor: miggigibe
[Apartamento de Mira]
Jason ficou do lado de fora da porta da mãe enquanto observava, com calma, Cerci ir embora por meio do [Olho do Rei]. Ele havia colocado um de seus Esquadrões Fantasma no rastro de Cerci e ordenado que o vigiassem, informando caso ouvissem Cerci falar qualquer coisa sobre sua família. Jason já sabia que Cerci estava tentando fazê-lo confiar nele, então não ficou surpreso ao ouvir aquilo. Também não estava irritado, porque já esperava. Ninguém deveria se irritar quando uma cobra tenta morder, já sabendo que ela é uma cobra.
Jason decidiu que seguiria os passos do pai no que dizia respeito a Cerci. Cerci era um homem útil, e sua organização, Gaia, também era útil por causa do poder e das conexões que possuíam dentro do governo. Então Jason os usaria enquanto precisasse. Mas não se tornaria menino de recados nem escravo deles. Se precisassem da ajuda dele, ele decidiria por conta própria se queria ajudar ou não. Eles não o convocariam nem lhe dariam ordens como se mandassem nele.
O olhar de Jason se moveu dos Fantasmas que seguiam Cerci para o subordinado Fantasma encarregado de proteger sua mãe dentro da casa, e ele viu sua irmã e Riyala sentadas no sofá da sala enquanto a mãe trabalhava na cozinha. Riyala parecia tensa e tentava afundar no sofá, muito nervosa, enquanto Janet apenas assistia ao noticiário na TV, esperando Jason voltar.
Jason abriu a porta e entrou no apartamento. Viu todos se endireitarem ao se virarem para ele.
Mira se inclinou para fora da cozinha e sorriu para o filho ao falar.
— Está com fome, Jason? Sobrou macarrão de hoje cedo. Vou esquentar para você.
Jason balançou a cabeça.
— Desculpe, mãe. Riyala e eu precisamos ir. Tenho algumas coisas para resolver.
Mira piscou, surpresa, enquanto saía devagar da cozinha, enxugando as mãos. Era a primeira vez que o filho recusava uma oferta de sua comida, e aquilo era chocante demais para ela ignorar. Mira olhou para a TV, que ainda mostrava imagens daquele dia. Ouvira falar do dragão que as pessoas diziam ter sobrevoado a cidade, e sabia que todos suspeitavam que seu filho estava montado nele, mas não era isso que a preocupava.
Pelas imagens que viu, Mira conseguia perceber que Jason não estava montando aquele dragão por diversão. Ele cavalgava com urgência, tentando chegar em casa o mais rápido possível. Mira se aproximou de Jason e tomou as mãos dele entre as suas.
— Jason, quero que seja sincero comigo agora. Não vou perguntar sobre as notícias nem sobre o sangue que você está tentando esconder com esse casaco. Entendo que há coisas que você está mantendo longe de mim, e tudo bem. Mas, por favor, preciso saber o que aconteceu com Gina.
Jason teve de se esforçar ativamente para manter a calma. Odiava mentir para a mãe. Desde pequeno, fizera disso sua regra principal: sempre dizer a verdade a Mira, porque ela era quem o aconselhava sempre que precisava tomar uma decisão difícil. Mas como diabos ele deveria explicar aquilo? Como diria à mãe que a garota que ela via como filha estava morta? Que Jason a havia esfaqueado no coração e matado com as próprias mãos?
Jason não podia fazer isso. Despedaçaria o coração de sua mãe, e ele jamais se perdoaria por colocar esse peso sobre os ombros dela. Mesmo que Mira soubesse que Gina ainda poderia ser ressuscitada, isso não impediria a dor. Não. Jason consertaria tudo aquilo. Não precisava sobrecarregar a mãe com algo que não era permanente. Jason suspirou e falou em um tom baixo e tranquilizador.
— Gina foi atacada por alguém mais cedo, mãe. Mas ela vai ficar bem. Está descansando agora, mas vai acordar logo. Eu prometo.
Mira arregalou os olhos assim que ouviu que Gina havia sido atacada, mas, à medida que Jason explicava melhor, seu rosto preocupado relaxou um pouco, até restar quase nenhuma preocupação. Mira levou a mão à testa, olhou para o chão e soltou um suspiro. Então se virou para Jason e o puxou suavemente para um abraço.
— Eu sei que você vai cuidar de tudo, Jason. Então, por favor, cuide dela.
Ouvir o alívio na voz da mãe partiu o coração de Jason. Mira tinha tanta fé nele, e ele havia mentido para ela. Jason segurou a mãe com delicadeza e assentiu contra a curva do pescoço dela. Mesmo tendo contado uma mentira, Jason não precisava se preocupar com isso. Tudo o que precisava fazer era garantir que ela se tornasse verdade. Rasgaria a própria realidade se fosse necessário para trazer Gina de volta à vida.
Ao lado, Riyala observava com curiosidade. Ela não conseguia entender o que Jason e Mira diziam, mas ouvira o nome “Gina” e sabia que aquilo tinha relação com o que acontecera mais cedo. Jason realmente diria à mãe que Gina havia morrido? Não, isso era impossível. Sua mãe não estaria tão aliviada se ele tivesse contado a verdade. Então isso significava que ele mentiu.
Jason deve estar muito confiante de que conseguirá trazer Gina de volta. Imagino que tipo de desafio terá de superar para isso. Espero que consiga.
Riyala gostava muito de Gina. Se Gina não tivesse convencido Jason antes, Riyala tinha certeza de que teria sido capturada pelos Fantasmas no instante em que voltasse a Radagan. E, se Gina não tivesse cuidado dela nos últimos dias, Riyala jamais teria se sentido tão confortável na Terra. Gina era uma boa pessoa, com um bom coração, e Riyala estava disposta a fazer qualquer coisa para garantir que ela ficasse bem.
Riyala ficou perdida em pensamentos por alguns segundos, mas foi trazida de volta à realidade quando uma voz falou ao seu lado.
— Ei, seu nome é Riyala, né?
Riyala se virou para Janet em choque e recuou assustada ao perceber que Janet estava inclinada mais perto do que antes. Janet ergueu uma sobrancelha diante da reação dela, mas apenas balançou a cabeça e ignorou. Olhou para Jason e Mira por um segundo antes de falar.
— Pode me contar o que aconteceu? Você estava lá, certo?
Riyala ergueu as mãos e as balançou rapidamente, tentando fazer Janet parar de falar. Riyala não entendia uma única palavra do que Janet dizia. Nenhuma das palavras que Gina ensinara era útil ali. Janet franziu a testa quando Riyala começou a acenar daquele jeito e se aproximou mais.
— Ei, o que há com você? Você é muda? Não consegue falar?
Os acenos de Riyala ficaram ainda mais frenéticos, e suas bochechas começaram a corar quando ela abriu a boca.
— Obrigada! D-desculpa! Desculpa!
Hã?
Janet inclinou a cabeça para o lado, surpresa, e por um momento nem conseguiu começar a decifrar que diabos Riyala estava tentando dizer.