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The Beginning After The End – Capítulo 374

Depois

TESSIA ERALITH

Eu fiquei paralisada, sem movimento e sem vida, com olhos desfocados enquanto meus pensamentos se voltavam pra dentro.

Agrona estava gritando, mas com o sangue bombeando em minha cabeça, suas palavras estavam abafadas como um trovão nas montanhas distantes.

Este homem que supostamente já foi meu amigo – eu ignorei a sensação irritante que quase toda memória dele continuava a me causar – tentou me matar. Novamente. Mas mais preocupante do que isso, eu tinha perdido o controle do meu próprio corpo.

Eu quase havia deixado ele me perfurar. Não, isso não estava certo – ela quase tinha deixado ele me perfurar.

Entrecortados e tumultuados, meus pensamentos passaram pela curta duração da minha nova vida, e eu percebi que ela sempre esteve lá, escondida dentro deste corpo, enrolada dentro da força de vontade do guardião da besta. Enraizada dentro de mim.

E ela tinha tomado o controle. Apenas por um segundo, mas foi tempo suficiente para me mostrar que ela era mais do que apenas memórias.

Mas isso estava errado. Este corpo… Nico e Agrona disseram que tinha pertencido a uma combatente inimiga, uma princesa, que tinha sido ferida em batalha, e seu corpo continuou a viver com a mente ausente…

Mentiras, sempre mentiras –

Agora que eu podia senti-la completamente, agora que eu sabia o que ela era, eu reconhecia esse pensamento como dela, e não como meu, e a silenciei. Eu lembrei da sensação de quando Agrona abafou as memórias que tinham me atormentado constantemente nos primeiros dias depois da minha reencarnação. Procurando sentir o mesmo, eu instintivamente envolvi a vontade da besta em mana, criando uma barreira atenuante entre a mente dela e a minha.

Meus pensamentos são meus e de mais ninguém, eu pensei com raiva.

Não houve resposta.

Eu respirei fundo. O cheiro de piche e cinzas do estádio não deixava espaço pras fragrâncias sutis da mana ambiente, que ainda estava em desordem depois da batalha.

Agrona olhou em minha direção, com uma leve carranca. Atrás dele, eu vi, nas arquibancadas, fileiras e fileiras de pessoas, ainda ajoelhadas, e algumas estavam desacordadas por causa da pressão que Agrona emitia. As faces que eu conseguia ver – daqueles corajosos o suficiente pra levantarem a cabeça na presença do Alto Soberano – eram máscaras cansadas de medo e admiração.

“O que você sentiu nele, Cecil?”

Eu balancei minha cabeça e uma mecha de cabelo prateado entrou no meu campo de visão. Talvez eu devesse tingi-lo? Eu pensei, e me lembrei que Agrona estava me aguardando. “Nada. Eu não senti nenhuma mana vindo dele, mesmo quando ele claramente estava usando magia.” Eu pausei, procurando nos olhos escarlates de Agrona. “Você teria deixado ele me matar?”

O olhar dele se voltou para os céus. “Você nunca esteve em perigo. Eu sabia que ele ia tentar, e sabia que ele iria falhar.”

Concordando, eu me virei. Minha respiração parou quando eu notei a figura machucada de Nico, deitado em uma das muitas áreas de preparação que cercavam o campo de combate. Eu dei um passo em sua direção, mas Agrona segurou meu cotovelo. Sem olhar pra mim, ele disse, “Deixe-o. O garoto não tem mais nenhum valor pra nós dois.”

Fechando a cara, eu me livrei da mão de Agrona. “Ele tem valor para mim, Agrona, então ele deveria ter para você também.”

Flutuando, eu passei por cima das estacas e terra queimada, então me ajoelhei ao lado de Nico. Sua respiração estava descompassada, e seu cabelo escuro totalmente bagunçado. Seu rosto pálido e sujo estava cheio de gotas de suor.

Havia um buraco manchado de sangue em sua armadura, acima de seu esterno. A ferida não estava mais sangrando, e já estava se curando nas beiradas, mas o elixir que ele tinha tomado não podia salvar seu núcleo. A mana o ignorava. As poucas partículas de mana de terra se grudavam em sua pele, e um pouco de mana azul de água navegava pelo fluxo de sangue em suas veias, mas seu núcleo estava vazio. Quebrado e inútil.

“Sinto muito, Nico”, eu disse, limpando uma mancha de sujeira em sua bochecha. “Eu deveria ter te protegido. Você fica tão… furioso… Eu deveria ter imaginado que você ia fazer algo assim.”

O peito de Nico estava subindo e descendo. Suas sobrancelhas se moviam. Ao seu redor, havia mana no chão, na brisa do vento, nos pequenos incêndios que haviam sobrado da luta de Cadell e Grey…

Mas não ela não entrava em suas veias de mana, e nem energizavam seu corpo através de seus canais. As runas marcadas em sua pele estavam vazias e sem mana também, em nada diferentes das simples tatuagens de tinta no meu mundo anterior.

Não era justo. Não era certo.

Eu senti o poder opressor de Agrona se aproximando por trás, e podia sentir sua curiosidade sem nem mesmo olhar pra ele. Seu olhar fixo era como um holofote, iluminando o mundo onde quer que ele olhasse. “Depois de todo o seu trabalho e dor para ficar mais forte, Nico nunca mais vai usar magia.” Agrona não parecia triste, e não se esforçou para transparecer nenhuma emoção, apenas comentando o fato.

Suas palavras eram vazias aos meus ouvidos. Uma ferida que nem mesmo matava o corpo não deveria ser capaz de roubar a magia de um mago. Dar esse presente apenas para rouba-lo depois? Era um destino pior que a morte.

Agrona estava falando novamente, mas eu não conseguia processar suas palavras em meu turbilhão de pensamentos. Minha visão se focou nos ciscos de mana que rodeavam Nico. Havia algo aqui, algum potencial, algo que apenas eu conseguiria fazer.

Meu corpo começou a se mover como se em transe, atraído por algum instinto profundo. Minha mão foi até o esterno de Nico, e meus dedos penetraram na sua ferida que ainda se curava. Eles se moveram pelo seu interior quente até que eu senti algo rígido: seu núcleo.

Ciscos azuis, vermelhos, verdes e amarelos nos rodeavam, flutuando como pólen brilhante pelo ar, e então fluindo para suas veias de mana, passando pelo seu corpo e de volta para seu núcleo quebrado. Com a mana, eu podia sentir tanto a cicatriz negra que arruinara seu núcleo quanto a irregularidade lá dentro, que estava cheio de sangue coagulado e endurecido.

O núcleo em si – esse órgão estranho que existia neste mundo, mas não no meu anterior – não reagia à presença de mana. Era como se ele estivesse morto, apesar dos outros órgãos de Nico que continuavam a funcionar. Normalmente, a falência de um órgão causaria uma cascata de outras falhas, eventualmente resultando em morte. Mas humanos eram capazes de sobreviver sem um núcleo de mana…

Eu tinha sido reencarnada em um corpo com um núcleo lindo de prata, completamente formado, e nunca tive que formar o meu do zero. O processo de reencarnação em si – ou talvez a minha condição como Legado – tinha purificado o núcleo prateado para branco quase instantaneamente. Mas a mana que ainda cercava o núcleo de Nico parecia apenas como um projeto do que já tinha sido… do que ainda poderia ser.

Usando a mana como lã de aço, eu poli o sangue seco de dentro, ao mesmo tempo que queimava o resíduo com uma ignição cuidadosa de mana de fogo. Nico soltou um gemido baixo e tremeu, mas continuou inconsciente, e eu estava agradecida por isso. O processo não era rápido. Mas minha habilidade de dominar novas técnicas era, e dentro de poucos minutos eu havia limpado o interior do núcleo.

O núcleo em si estava mais rígido. Como se tivesse acabado de ter se formado, as paredes do órgão estavam contaminadas com sangue.

Agarrando apenas a mana de água, eu a puxei através das paredes do núcleo. Cada partícula individual sugava um pouco do sangue, e quanto mais eu repetia o processo, mais limpo ficava o núcleo de Nico.

Este era um processo mais lento, então eu parei quando seu núcleo ainda era de uma cor amarelo ocre. Por enquanto, eu só precisava saber que iria funcionar.

Mas apenas a presença do núcleo limpo e da mana não pareciam ter iniciado nada dentro dele. Ele estava inquieto, com suas sobrancelhas franzidas e a boca curvada pra baixo em um esgar desconfortável.

Alacrianos, ao contrário dos humanos em Dicathen, nasciam com seus núcleos de mana no lugar: uma das muitas mutações causadas pelos experimentos de Agrona e sua mistura de raças. As concessões ativavam o núcleo natural, coletando mana para que o mago pudesse acionar os poderes das runas. Em Dicathen, no entanto, eu sabia que magos jovens meditavam para coletar e purificar mana até que eles “despertassem”, usando a própria mana para manifestar seu núcleo.

Estendendo meu alcance, eu invoquei a mana que enchia o estádio, puxando-a pra mim em correntes rodopiantes. Novamente a empurrei pelas veias de Nico, até o seu núcleo, e então puxei-a pelos seus canais para chegar em suas runas, até que seu corpo estava brilhando com mana, e sua feição acesa de dentro.

Eu ouvi as Foices retornando, mas Agrona ignorou suas desculpas e conjecturas. Ele estava focado inteiramente em mim, e sua mente me cutucava curiosamente.

Eu o ignorei.

Os escudos – aqueles que haviam aguentado a batalha – enfraqueceram quando roubei a mana deles. Componentes energizados com mana piscaram e se apagaram. Artefatos imbuídos falharam. Com exceção dos núcleos das pessoas que tremiam assustadas nas arquibancadas, eu retirei toda partícula de mana que eu podia alcançar e derramei dentro de Nico.

Seus olhos se abriram. “Cecilia?”

Ele começou a tossir. Eu soltei seu núcleo e cuidadosamente puxei minha mão de dentro do seu peito, limpando seu sangue em meus robes de batalha. “Eu fiz a minha parte, Nico. Eu preciso da sua ajuda agora. Puxe a mana, controle ela. Você… você pode fazer isso?”

Nico respirou fundo, engasgou e tossiu mais um pouco. “Eu não consigo senti-la.”

Segurando sua mão, eu apertei forte o suficiente pra doer. “Crianças no outro continente podem manipular a mana em seus corpos antes de formar um núcleo. Com certeza você também pode.” Vendo a confiança deixando seu olhar, eu cuspi as últimas palavras, tentando acender um fogo dentro de Nico. “Grey conseguiu isso no corpo de uma criança de três anos, não foi?”

Ele ficou tenso, e eu sabia que tinha conseguido. Nico me encarou, então fechou seus olhos. Um momento se passou, então dois, então… houve uma ondulação na mana que eu tinha concentrado em seu corpo. Um pequeno movimento a princípio, mas foi o suficiente para trazer um sorriso ao meu rosto.

“O que exatamente você fez?” Agrona perguntou, colocando suas mãos em meus ombros enquanto se inclinava ao meu lado.

Eu expliquei o processo da melhor maneira que eu pude, mantendo minha voz baixa para que Nico pudesse se concentrar. “Mas ainda não tenho certeza se está funcionando.”

“Mais uma vez, seu controle sobre a mana surpreende até a mim,” Agrona disse, num barítono cheio de elogios. “Eu realmente acredito que não há limite para suas habilidades, Cecil. E eu peço perdão pelo que eu disse mais cedo. Me apressei ao desistir de Nico.”

“Tudo bem,” eu respondi friamente. “Porque eu nunca vou desistir dele. E também não vou deixar você esquecer sua promessa.”

As partículas de mana dentro do núcleo de Nico começaram a mudar, brilhando cada vez mais e com mais pureza. Seus canais se acenderam também, empurrando a mana recém purificada para seu corpo, ajudando-o a se recuperar. Suas runas se ativaram em breves clarões, uma por uma, como músculos se alongando.

Os olhos de Nico se abriram. O sorriso que ele me deu estava cheio de suavidade e admiração e da gentileza que eu via em minhas memórias do orfanato.

“Como?”

Eu apertei sua mão novamente e percebi que a náusea e vertigem que eu sentia sempre que ele me tocava – algum remanescente abstrato dos sentimentos que Tessia Eralith tinha por ele – tinham sumido. Eu considerei beija-lo por um momento, mas então me lembrei da promessa de Agrona.

Algum dia, Nico e eu teríamos nossas vidas de volta. Nossas vidas reais – incluindo o relacionamento um com o outro. Mas por agora, neste corpo… a intimidade parecia um tipo de profanação. Eu quase dei uma risada com a infantilidade desse pensamento. Um limite bobo, eu disse a mim mesma. Tudo bem lutar uma guerra com o corpo de outra, mas compartilhar um beijo era errado?

Mas a verdade era outra. Algo mais complexo, e mais estranho.

Esta não seria uma vida de verdade, eu tinha decidido. Estava mais para um… purgatório. Apesar de que eu não seria apenas uma arma no arsenal de Agrona, eu também não seria eu mesma, não exatamente, enquanto eu vestisse essa pele. Nico também não seria. Mas nós trabalharíamos juntos, mudando este mundo para os propósitos de Agrona, e quando vencêssemos a guerra, nós poderíamos ir embora. Juntos. Pra ser nós mesmos novamente.

Juntos.

Ficando de pé, eu puxei Nico junto de mim. Ele fez uma careta, alongando os ombros e o pescoço. Os seus olhos pularam até Agrona e piscaram pra longe, se focando na distância. “O que aconteceu com…”

“Grey?” Agrona perguntou, levantando uma sobrancelha em seu rosto impassível. “Depois do seu fracasso impressionante, ele sumiu novamente.”

O olhar de Nico foi ao chão, mas eu o peguei pelo queixo e o forcei a olhar em meus olhos.

“Não se perca no desespero e na raiva,” eu disse, o repreendendo suavemente. “Eu preciso de você. Se nós vamos matar o Grey, precisamos fazer isso juntos.”

ARTHUR

Meu núcleo gritava em protesto quando completei o God Step.

Com o estômago embrulhado, eu despenquei até o chão, e meu corpo caiu em um grosso tapete de folhas de pinheiros.

Por alguns segundos, apenas olhei para cima. As copas cheias das árvores altas bloqueavam o céu. Troncos marrom acinzentados se erguiam até as alturas, e grossos membros se espalhavam até que eles se enroscavam em seus vizinhos.

Minha mão agarrou um punhado de terra abaixo de mim. Eu bati com meu punho no chão, e golpeei novamente enquanto um grito frustrado escapava da minha garganta.

Eu sabia que tinha cometido um erro. Mas eu ainda não tinha certeza se eu havia errado em não conseguir matar a Cecilia, ou em simplesmente ter tentado.

Era óbvio agora que ela não era a mesma pessoa que havia morrido pela minha espada no Torneio do Rei. Agrona tinha feito algo com ela durante sua reencarnação, ou depois. O olhar de desprezo que ela me deu… não era o olhar de uma garota torturada que se jogou na espada de um amigo para acabar com a própria vida.

Mas havia algo a mais. Eu só não sabia ainda se isso era bom ou ruim.

Tessia ainda estava lá. Ela tinha tomado controle de seu corpo, apenas por um instante, longo o suficiente pra me dizer.

Eu poderia ter pegado ela, e usado o God Step pra fugir…

Mas eu também sabia que Agrona não deixaria isso acontecer.

Um pequeno peso pressionou meu peito de repente, e Regis apareceu em sua forma de filhote. O pequeno lobo das sombras pulou pra longe de mim e começou a patrulhar o perímetro da pequena clareira onde tínhamos aparecido.

Obrigado, eu pensei, incapaz de juntar energia para dizer em voz alta ainda.

‘Pelo quê, salvar sua pele?’ Regis pausou, levantando uma minúscula sobrancelha lupina. ‘Não foi a primeira vez. Não será a última.’

Eu parei para reunir meus pensamentos. Por isso também, mas por me deixar ter minha batalha contra o Cadell. Foi egoísta, até mesmo perigoso, mas foi algo que eu precisava fazer.

Regis caçoou de mim, fingindo um choro. ‘Nem me diga’

Então, aquele poder que você usou…

‘Eu já te disse antes… minha força não está conseguindo acompanhar a sua,’ Regis pensou sem rodeios. ‘Eu treinei, é claro, mas também passei muito tempo pensando. Meditando.’

Uma visão de Regis sentado numa rocha, com os olhos fechados, as patas nos joelhos, banhado pela fria luz do sol da montanha fez meus lábios tremerem. Meditando, hein?

Ei, não se engane com meus dentes maravilhosos. Eu sou um intelectual. Mas o que quero dizer é, eu pensei muito sobre como eu podia nos manter sãos quando você utiliza os seus conhecimentos do éter…’

Então, ao restringir a aplicação de Destruição a um feitiço específico…  Eu considerei, me lembrando das chamas violetas que imbuíam a arma etérica.

‘Exatamente,’ Regis pensou, então se enrijeceu.

Um momento depois, eu ouvi as folhas se amassando com os leves sons de passos, e virei minha cabeça para olhar com calma pela floresta.

Um tapete pesado de folhas douradas e laranjas cobriam o chão da floresta, interrompido por arbustos verde escuros que cresciam ao redor da base das árvores, impedindo a visão por mais de alguns metros em qualquer direção.

Atrás de mim, um arco desgastado interrompia o cenário natural. Era esculpido em mármore branco, mas os detalhes entalhados já haviam desaparecido há muito tempo, e a pedra estava amarelada. Vinhas se erguiam pelos lados, se grudando como se quisessem puxa-lo pra baixo e arrasta-lo de volta à onde ele pertencia.

Um velho enrugado, com uma barriga mais encorpada, mas com ombros largos que ainda não tinham perdido toda a definição, saiu de trás de uma das enormes árvores, com suas sobrancelhas levantadas. “Eu achei que você tinha dito que seria uma operação quieta, garoto. Cair do céu e gritar como um louco não é exatamente o conceito de quieto, é?”

Eu me forcei pra me colocar de pé, e dei a ele um aceno cansado. “Mais razão ainda pra eu sair daqui.”

Alaric enfiou os polegares em seu cinto e me olhou de cima a baixo. “Bom, considerando as dicas que você me deu, eu imaginava que você estivesse em um estado muito pior se tivesse que chegar aqui. Tirando isso, as coisas foram de acordo com os planos?”

“Mais ou menos.” Eu fiz uma careta e acariciei meu esterno que doía. “Você pegou tudo?”

Alaric soltou um bufo. “Direto ao assunto, né?” Ele pegou um anel simples de pedra polida, e depois o jogou pra mim. “Tudo está aí.”

“Obrigado,” eu disse, colocando o anel em meu dedo médio. “Eles vão me procurar. Eu acho que eles vão manter as coisas por baixo dos panos, mas imagino que vão investigar todos com quem eu tive contato.”

Alaric olhou diretamente em meus olhos e soltou um arroto. “Que todo mundo vá pro inferno. Eu sou só um ascendente antiquado mesmo. Muito burro e muito bêbado pra recusar um dinheiro fácil quando um estranho me paga pra guiar ele por aí, e fingir que sou seu tio.”

Eu bufei, observando o velho homem cuidadosamente, e sentindo uma rachadura que corria pelo gelo que me consumia como nevasca por dentro. “Obrigado, Alaric. Eu espero que não tenha deixado sua vida ainda mais difícil.”

Ele chutou o chão um pouco, espalhando folhas mortas. “Realmente você deixou, mas também acho que você tá dizendo essas palavras como uma desculpa de boca pra fora, porque você já sabe disso.” Os olhos dele seguiram o Regis, que continuava sua ronda. “Eu não estava vivendo a vida de um Soberano quando você me encontrou, afinal de contas.”

Eu fiquei quieto, me concentrando apenas em metade das suas palavras, e tentando imaginar o que o futuro me aguardava.

“Eu, ummm…” Alaric limpou a garganta, e seus olhos inflamados passaram por mim, e depois foram pra longe. “Eu tive um filho, sabe. Nascido Vritra.”

Pego de surpresa, eu olhei pra cima com a testa franzida enquanto ele continuava.

“Ele foi levado, é claro, no instante que ele foi identificado. Tirado de nós e colocado sob a guarda de algum alto sangue.” Alaric se inclinou em uma das árvores próximas e fechou seus olhos. “Não descobri até muitos anos depois o que eles fizeram, mas aparentemente eles tinham a mentalidade de que, para o sangue se manifestar, eles tinham que pegar pesado com ele. Muito pesado.”

“Eles… o mataram.”

Alaric deixou que as palavras penetrassem o ar denso da floresta. “A mãe dele já tinha ido embora há muitos anos antes. Nunca a vi novamente. Não podíamos ter nenhum contato com ele, nem mesmo pra saber qual sangue o tinha levado, e eu acho que ela não via motivo pra continuarmos juntos. Eu não sei.”

Regis tinha se juntado a nós, aparentemente satisfeito com a nossa segurança, por enquanto.

“Investiguei os registros da Associação de Ascendentes com a ajuda de amigos alguns anos depois, quando ele já seria velho o suficiente para participar de ascensões. Não encontrei nada, mas eu continuei procurando. Não sei porque, na verdade.” Alaric coçou sua barba, que ocultava um sorriso doloroso. “Mas se tornou um tipo de obsessão. Uma conexão levou a outra, e eventualmente eu descobri pra qual alto sangue ele tinha sido enviado.”

“Me inscrevi pra ir em uma ascensão com um pessoal deles. Trouxe um bocado de álcool, e deixei eles falarem. Mas nem teria precisado da bebida.” Os olhos dele estavam distantes agora, penetrando o abismo de suas memórias. “Orgulhosos em falar sobre como eles o tinham forçado. Forçado e forçado. Eles já tinham cuidado de três nascidos Vritra, e ele teria sido o quarto. Mas…”

Alaric parou um momento para limpar sua garganta. “Ele quebrou. Morreu quando tinha apenas oito anos. Foi levado pra Taegrim Caelum pra ser dissecado e pesquisado. Impactou muito o nome deles. Foram rebaixados para um sangue nomeado apenas. Por matarem o meu filho.”

Uma brisa fresca soprou por entre as árvores, e uma besta de mana uivou na distância… ainda assim, um silêncio pesado pairava no ar enquanto palavras de consolação falhavam em se formar.

Afinal de contas, eu tinha sido aquele garoto. Tirado da minha família, criado primeiro pela Sylvia, depois pelos Eraliths, e meus pais não tinham ideia do que havia acontecido comigo…

“Eu sinto muito, Alaric,” finalmente consegui dizer.

Ele limpou as palavras do ar com uma mão, enquanto abria uma garrafa com outra. “Não precisa. Estou te dizendo isso para que você não saia daqui preocupado comigo, pensando que você bagunçou a minha vida. Além disso…” Alaric formou um sorriso. “Onde seria melhor pra soltar os meus demônios interiores do que em um garoto que eu talvez nunca mais veja?”

“Certo,” eu sorri de volta, estendendo a minha mão. “Mesmo assim. Obrigado por tudo que você fez por mim.”

Alaric a apertou. “Você pagou bem e me ofereceu algum tipo de… droga, eu não sei, um tipo de propósito ou algo assim, mesmo já velho.” Sua voz grave ficou embargada. “Bom, é melhor você ir, Grey, antes que uma Foice desça aqui e faça com que essa história triste tenha sido pra nada.”

Eu acenei, dando um aperto firme em sua mão. “Arthur. Me chame de Arthur.”

“Arthur,” ele respondeu devagar. Sua sobrancelha se franziu enquanto ele pensava, e seus olhos de repente se estatelaram. “Arthur? Tipo o –”

“É melhor eu ir,” eu disse com um sorriso entretido.

“Certo.” Alaric soltou uma risada forçada, se atrapalhando com o token de runa em sua mão antes de tocar o mármore com ele. Com um zumbido suave, um portal opalescente apareceu no arco. “Você vai voltar de… onde quer que você esteja indo agora?”

“Não tenho certeza,” eu admiti. “Mas eu imagino que vou, eventualmente.”

“Bom, quando você voltar, procure seu velho tio Al.” Ele se inclinou na moldura do portal e cruzou os braços em cima da barriga. “A não ser que eu já tenha morrido de tanto beber, e nesse caso você demorou demais.”

Regis andava ao meu lado, e ao nos aproximar do portal, Alaric se inclinou para o acariciar na cabeça. “Cuide bem do garoto, certo?”

Regis deu uma voltinha, mordiscou o dedo de Alaric, e depois pulou de volta pra dentro de mim.

Eu vou sentir falta desse velhote,’ ele disse, com uma pitada de choro em sua voz.

Eu dei um último sorriso para o bêbado. “Adeus, Alaric.”

Ele piscou. “Vejo você depois, garoto Arty.”

Balançando minha cabeça, eu me preparei pelo que estava por vir, e dei um passo pra dentro do portal.

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