The Beginning After The End – Capítulo 401

A Menor das Foices

Nico Sever

O brilho fraco dos artefatos de iluminação da minha bancada iluminava uma série de peças espalhadas sobre a madeira escura. Runas prateadas passavam pela borda e através da superfície em círculos de tamanhos variados.

Peguei dois objetos quase idênticos: acessórios hexagonais com ranhuras e entalhes gravados no interior. Ambos eram ligas de prata em vez de prata pura. Especulei que teriam um melhor desempenho ao alojar cristais de mana ativos, mas teria que experimentar para ver qual das pratas aguentava melhor, resultando em uma transferência limpa de mana.

Havia milhares de variáveis a serem consideradas ao realizar um projeto de imbuição tão complicado quanto este, e não podia aceitar nada menos do que a perfeição.

Percebi uma mancha na borda de uma das ranhuras. Com um suspiro frustrado, joguei de volta à bancada.

Mais um atraso. Essa mancha vai impedir que o cristal de mana se assente do jeito certo. E vou ter que fazer um pedido de um ferreiro diferente também.

O meu olho direito tremeu, e outra memória antiga invadiu o meu foco. Nela, eu tinha talvez oito ou nove anos, sentado sozinho atrás do orfanato. Com um pequeno canivete na mão, estava esculpindo um graveto que encontrei na rua. Nada de especial, apenas um monte de círculos para que parecesse uma varinha mágica.

Havia feito pouco mais da metade da varinha até que a faca escorregou, alcançando o fundo meu polegar. Doeu, porém, tinha mais medo de ser pego com a faca do que da dor. A diretora Wilbeck teria a tomado e me repreendido, então precisaria ver aquele estúpido rosto de “estou sofrendo contigo” do Grey por uma semana. Era uma lição minúscula, mas importante.

“Tome mais cuidado. Preste, mas não chame atenção. Se esconda quando se machucar.”

Uma vida era feita de milhares de pequenos momentos que nem esse… O medo e a dor sobre todo o resto, ensinando alguém a não tocar em coisas quentes ou colocar o dedo no lado errado da lâmina. Era uma grande parte do que forjava uma personalidade. Sem essas memórias, o que uma pessoa se tornava?

Diante de perguntas que não conseguia responder, resgatei a apatia que senti antes, quando acordei no laboratório… Depois que Grey destruiu meu núcleo e me deixou para morrer; depois que Cecilia fez o impossível e me curou de novo.

Meu punho acertou a bancada, fazendo as peças saltarem. O núcleo dracônico que roubei saiu de um círculo de runas e foi em direção à beirada. A raiva que sentia foi trocada por um súbito alarme, e praticamente me joguei à mesa para agarrá-lo, o embalando com mãos.

Segurando a carcaça dura e fria, era mais fácil afastar a irritação e focar na apatia. Precisava desse controle. Por mais que essas memórias invasivas das vidas passadas — tanto em Dicathen como na Terra, sendo o idiota Elijah — fossem problemáticas, protegia elas a todo custo. Agora que as tinha de volta, não as largaria outra vez, o que significava que guardaria um segredo de Agrona.

Senti uma sensação satisfatória, embora ele não pudesse ser enganado com facilidade. Teria que fingir falta de controle pessoal e emocional para não lhe dar qualquer razão para mexer na minha mente. Esse raciocínio me deu uma pontada de culpa que não podia ignorar.

Cecilia…

Apesar da ânsia de falar com ela após o ressurgimento das memórias, só nos cruzamos brevemente, e não achei motivação para iniciar a discussão que sabia que precisávamos ter. Naquele momento, memórias falsificadas nublavam a sua mente; memórias que ajudei a criar. Mais do que isso, entretanto, não poderia saber quantos pequenos momentos de sua vida anterior ela estaria perdendo.

Quanto do que fez você a pessoa que mais amo em todo o mundo restou? Me perguntei, mordendo o interior da bochecha até provar o sabor metálico de sangue.

Fechei os olhos com força, apertando os músculos do rosto, e depois libertei a tensão. Se caísse na escuridão profunda e fria desses pensamentos agora, nunca completaria minha tarefa atual.

Com cuidado, coloquei o núcleo de volta na bancada e examinei a variedade de peças e equipamentos que consegui. Tudo seria muito mais simples se não sentisse a necessidade de manter minhas atividades ocultas de Agrona — ou pelo menos o máximo possível.

O problema era que não poderia fazer tudo sozinho. Claro, havia instalações apropriadas dentro do Taegrin Caelum, mas tudo lá era vigiado. Se pedisse os materiais dos mesmos indutores e ferreiros, estaria arriscando muito meus projetos. Então, em silêncio, juntei de pouco em pouco.

Era melhor para manter as coisas quietas, contudo não era eficiente. Além do encaixe arranhado, já recebi três cristais de mana imperfeitos, um pedaço de madeira de carvão cinco centímetros curto demais e mercúrio refinado contaminado com cinábrio.

O ressurgimento das memórias me lembrou dos meus pontos fortes de verdade. Por muito tempo, confiei no poder bruto inerente que veio ao ser reencarnado em um corpo com sangue Vritra. A capacidade de dominar uma das artes de mana do tipo decaimento me fez mais forte do que a maioria dos outros magos, e me apoiei nisso quase que durante todo o meu treinamento. Até mesmo as runas nas costas pareciam pensamentos insignificantes em comparação.

Notei ter outra coisa que nenhum outro alacryano tinha.

Na Terra, fui um mago técnico, dominando princípios científicos avançados em tenra idade para alcançar feitos como suprimir o ki de Cecilia e permitir que ela tivesse algo semelhante a uma vida normal. Após a morte dela… Me joguei nas pesquisas, aprendendo o máximo de engenharia, física e ki que pude.

Uma quantidade surpreendente desse conhecimento era aplicável a essa magia atual, especialmente indução e artífice. A energia tinha que ser fornecida e transferida com eficiência para ser emitida atrás de um resultado específico.

Eficiência, repeti para mim. Esse é o verdadeiro problema. Se é para funcionar, tem que permitir uma manipulação inteira eficiente da mana, sem atrasos ou perdas.

Em Dicathen, fui treinado para manipular a mana atmosférica, não apenas as runas e formações de feitiços específicos. Fui a uma das melhores academias de magia do continente e estudei com professores talentosos, aprendendo a teoria da mana e um tipo de manipulação não estudada em Alacrya.

Os magos aprenderam a compreender a forma de um feitiço, a moldar a mana e sua intenção com a mente através de cânticos e outros acessórios, que nem varinhas. Era mais difícil e demorado, todavia bem mais versátil. Era possível ajustar o objetivo ou as palavras do cântico para mudar a sua saída e até criar um novo feitiço.

As runas, por outro lado, podiam ser dominadas, mas nunca mudadas. Eram fixas, assim como o benefício proporcionado ao núcleo e ao corpo. Sem novas runas sendo distribuídas devagar pelos servos de Agrona, nenhum alacryano faria um verdadeiro progresso, mesmo entre as Foices.

Não havia razão para confiar nele para ganhar poder com todo o meu conhecimento e habilidade à disposição. Via com mais clareza agora que meu núcleo foi arruinado e reconstruído. Cecilia fez um milagre que eu ainda não entendia ao devolver o dom da magia para mim, porém não sem um custo.

Meu Núcleo havia enfraquecido.

E agora todos me veriam como um fraco. Mas o mundo estava mudando, se tornando mais perigoso a cada dia. Ela esteve muito ocupada desde que me recuperei, e eu sabia a única razão: Agrona estava a preparando para a guerra.

Se ela me achasse fraco demais, me deixaria. Se entristeceria na hora, acreditando que era para minha própria proteção, porém nos destruiria. Ela nunca mais olharia para mim como antes, e Agrona ia me tirar cada vez mais de cena. Ela não seria nada além de uma arma, e o pior de tudo, sem saber que no passado queria qualquer outra coisa que não fosse ser usada.

Precisava ficar ao lado dela. Precisava protegê-la.

E eu daria o mundo para ter certeza de que era forte o suficiente para a tarefa.

Certo do meu propósito, levantei um longo e retorcido ramo preto de madeira, que me arrisquei para pegar ao invadir os depósitos privados de Agrona depois da primeira amostra ter se mostrado inadequada. Aquela madeira veio da casa dele em Epheotus, e era tão dura quanto aço e perfeita para trabalhar magia rúnica, mas também muito rara e cara. O cajado de um metro e oitenta de comprimento possuía uma extremidade suave, contudo estava estilhaçado na outra ponta que era maior, onde havia sido arrancado de sua árvore.

Peguei uma ferramenta um pouco parecida com uma colher misturada com um bisturi e a pressionei contra a madeira. Mana pulou da minha mão ao cabo da ferramenta, e runas escondidas sob o couro converteram a mana em calor. Em instantes, a colher de metal enegrecida estava brilhando em laranja.

Pressionei com força a madeira bruta, e a ferramenta a mordeu, emitindo uma fumaça fina que cheirava a baunilha. Abastecendo os músculos com mana, fui mais fundo na madeira, no entanto consegui raspar apenas uma tira fina. Rangendo os dentes, repeti o processo mais vezes e tive o mesmo resultado: cascas da finura de um papel.

Após vinte minutos, formei uma depressão pequena na madeira. Em uma hora, um buraco irregular. Em duas, uma faceta precisa.

Em seguida, peguei um dos acessórios metálicos, verificando de novo para garantir que estava perfeito. O pressionei contra a faceta e peguei um pequeno martelo. A batida do martelo abafou todos os outros ruídos sutis do castelo, como servos se movendo para frente e para trás no corredor do lado de fora e explosões abafadas de magia de uma das salas de treinamento abaixo.

Depois de abaixá-lo, inspecionei os resultados: o acessório prateado havia se instalado sem problemas, e de repente, o bastão parecia ser algo mais. Não mais um pedaço da natureza, mas algo criado e com propósito.

Pegando outro item da bancada, coloquei uma joia hexagonal no encaixe. A pedra vermelha brilhante possuía uma aparência sangrenta e sombria na madeira preta e metal prateado. Mas não coloquei ela permanentemente. Em vez disso, a soltei e pus de volta na bancada, virei o cajado e peguei a ferramenta de esculpir mais uma vez.

“Parece fascinante.”

Me encolhi com tanta força que raspei a ferramenta escaldante em meus dedos. Queimou o suficiente para perfurar a barreira de mana e esfolar a carne por baixo, o que me fez xingar e jogar a coisa estúpida de volta na mesa.

“Ah, desculpa!” Cecilia correu para o meu lado, se inclinando e segurando minha mão.

Nervoso, me perguntei quanto tempo ela estava parada lá e assumi que ela entrou enquanto eu estava martelando.

Inspecionando a ferida, mordeu o lábio e olhou brilhantemente nos meus olhos. “Você está bem?”

“Estou,” falei, a voz forte. Então repeti em um tom mais suave. “Estou bem.”

Mana saiu das pontas dos seus dedos e atravessou a ferida, resfriando a carne e aliviando a queimadura. Minha própria mana já estava circulando pelo corpo para ajudar na cura também.

“Estou feliz que esteja aqui, na verdade.” Acrescentei depois de uma pausa estranha, onde nós dois somente encaramos o corte. “Tenho que falar com você sobre uma coisa.”

Ela me deu um tipo de sorriso desanimado e sutilmente revirou os olhos em direção à porta. “Acredito que terá que esperar. Agrona chamou todas as Foices e a mim.”

Seu tom carregava a mesma incerteza que eu sentia com a notícia. Era raro que todas as Foices fossem reunidas de uma só vez.

“Você—”

“Não, mas ele está… Irritado,” disse devagar. “Nunca o vi assim antes.”

Queria dizer que ela não estava com ele há tanto tempo e não o conhecia bem e que não o viu com raiva de verdade, porém guardei meus pensamentos para mim. Qualquer que fosse a notícia, não era um bom presságio que ele tivesse se permitido parecer irritado.

Antes de segui-la, tirei um momento para olhar a bancada de trabalho. Usei um pano para limpar meu sangue da ferramenta e mexi em alguns itens para alinhá-los melhor em seus respectivos círculos rúnicos. Percebendo que seria tolo deixá-lo aqui enquanto estava fora, peguei o núcleo e o coloquei no bolso interno da jaqueta.

“No que está trabalhando, afinal?” Perguntou enquanto saíamos para o corredor.

Eu me virei e coloquei a trava de mana. “Oh, nada demais. É…”

Ela sorriu para mim e eu parei. “Posso dizer que é algo que te deixa animado. Não precisa dizer, é claro, mas estou feliz que tenha encontrado algo para ocupar seu tempo.”

Enfiando as mãos nos bolsos, esfreguei o núcleo com o polegar no tecido do forro, mas não respondi.

Cecilia virou à direita em vez da esquerda no corredor, me pegando desprevenido.

“Não vamos à ala privada do Agrona?” Questionei, correndo atrás dela.

“Não. Ele nos chamou para a Cripta Obsidiana.”

Eu não tinha nada a dizer a respeito disso e nem certeza do que sentia. A Cripta Obsidiana era onde os mais importantes súditos dele tinham suas concessões: Assombrações, Foices, Retentores e, ocasionalmente, até guerreiros de alto-sangue ou ascendentes que chamaram a sua atenção.

Só havia uma razão para ele nos chamar para lá.

Haveria uma concessão. Talvez não fossem más notícias, afinal.

“Nico, eu queria dizer que…” A voz dela me tirou dos pensamentos.

Aceitei a mudança de aparência dela, assim como aceitei a minha. Vendo os belos traços élficos — orelhas pontiagudas, olhos em forma de amêndoa e os cabelos prateados que ela continuava ameaçando tingir — agora, embrulhados com todas as memórias de Elijah de Tessia Eralith, causaram mais conflito do que estava acostumado.

“—Sinto muito por não ter aparecido muito nos últimos dias. Queria falar contigo — tenho certeza de que superar o que aconteceu no Victoriad foi difícil — mas tem muita coisa acontecendo em Dicathen e Alacrya, e ele me manteve extraordinariamente ocupada, então…”

Isso só confirmou o que já eu já tinha adivinhado: Agrona estava se preparando para liberá-la e mandá-la para uma batalha real.

Minha mente logo foi em direção ao cajado, que mal foi começado, jogado em meu quarto, e de repente me irritei com essa perda de tempo. O que quer que Agrona tivesse a dizer, não poderia ser tão importante quanto eu garantir ter a força para defender Cecilia.

Uma mão pousou com delicadeza no meu ombro, e me toquei que me distraí outra vez.

“Nico, tem certeza de que está bem?” Cecilia perguntou, a preocupação enrugando seu rosto impecável.

“Como você disse, tem sido… Difícil. Desculpa por me distrair. É só… Muita coisa na cabeça.”

Ela abriu o sorriso mais gentil e compreensivo que podia imaginar, e seus dedos roçaram minha bochecha. “Não me peça desculpas. Somos as duas únicas pessoas que conseguem entender de verdade pelo que o outro passou.” A emoção dentro de mim ficou mais forte, enchendo meu peito com uma doçura quente, e então ela acrescentou: “Bem, exceto Agrona, é claro,” e a sensação murchou e desapareceu.

A segui por uma série de escadas estreitas e sinuosas e entramos em um túnel mal feito. No fim, chegamos a uma câmara esculpida com pedras negras lisas e ondulantes que brilhavam um roxo, quase como se emitisse a própria luz.

Agrona já estava lá, diante de um par de portas esculpidas com a imagem de um Basilisco transformado com seu corpo longo e serpentino enrolado em “V” e asas de couro dobradas, runas caindo de suas garras sobre uma série de rostos virados para cima. Agrona dando magia ao povo. Sempre achei a escultura serena, a visão de alguma forma passando uma imagem forte e pacífica simultaneamente.

O verdadeiro, parado com os braços cruzados e o rosto a própria máscara do desprazer, era o exato oposto.

Melzri e Viessa marcaram presença. Fiquei atordoado ao ver as duas mulheres poderosas com os olhos desviados, encolhidas feito ladras usando capuz para tentar parecer menores e menos ameaçadoras. Nunca vi aquele olhar em Foices antes.

Atrás de cada Foice havia um retentor.

Eu estava mais do que familiarizado com Mawar, a “Rosa Negra de Etril”. Vestida com vestes pretas e finas, quase desapareceu na escuridão da antecâmara, exceto, é claro, por seus cabelos brancos curtos, tão claros que pareciam brilhar. Apesar de ser apenas um pouco mais velha do que eu, ou, pelo menos, esse corpo, foi Retentora de Viessa por quase quatro anos, e treinamos bastante juntos.

A bruxa venenosa Bivrae, por outro lado, evitei em grande parte. Era uma criatura horrível de se olhar, semelhante a um punhado de paus quebrados sujos de lodo de pântano com alguns trapos velhos, rasgados e nojentos de roupa. Seus irmãos eram magos fracos. Bilal dificilmente pôde segurar Tessia Eralith por tempo suficiente para que eu chegasse e, claro, morreu no processo.

Mawar teve o bom senso de manter os olhos nas costas de Melzri, contudo Bivrae olhou para mim e Cecilia quando entramos e não desviou o olhar até que, vários segundos depois, passos pesados anunciaram outra chegada.

Dragoth teve que se curvar para caminhar pelo túnel sem raspar os chifres, e quando entrou, se levantou e se esticou casualmente. Dando um sorriso descuidado a Agrona, passou por mim e Cecilia para ficar bem na nossa frente, as costas tão largas que bloquearam nossa visão do Alto Soberano de Alacrya.

Ele foi seguido por um mago que eu conhecia pelo nome e reputação, mas não pela visão: Echeron, seu novo Retentor. O homem era alto e escultural. Chifres curtos de ônix se projetavam que nem espinhos de seus cabelos dourados arrumados com cuidado. Seus olhos cinza-prateados encontraram os meus, e as feições esculpidas dele se contorceram em uma carranca antes de suavizar de novo. Ele ficou ao nosso lado e logo atrás de Dragoth.

O silêncio encheu a antecâmara, ficando mais desconfortável quanto mais demorava. Ao meu lado, pude sentir a frustração de Cecilia enquanto seus olhos turquesa queimavam buracos nas costas de Dragoth. Qualquer sensação da intimidação que eu sabia que ela costumava sentir na presença das Foices desapareceu, porém não tinha certeza do que estava impulsionando suas emoções atuais. Um nó incômodo surgiu em meu estômago quando conectei o medo estridente das mulheres com a raiva fervilhante de Cecilia.

As Foices falharam com Agrona em algo. O que não me importava, mas ver o quão leal e apegada ela se tornara a ele era um horror que não sabia processar. Era quase como olhar para um espelho que mostrava uma versão muito mais jovem de mim, quando me joguei no monte Nishan sob o seu comando.

Um frio de congelar ossos de repente começou a se infiltrar pela sala, conjurando cristais de gelo nas paredes e no chão e até no tecido da minha jaqueta, antecedendo a sua fala.

“Primeiro, falham comigo no Victoriad, permitindo que Arthur Leywin, um garoto, escape. E depois, de algum jeito perdem Sehz-Clar para um traidor.”

Minha mente ficou presa nessas palavras.

Sehz-Clar, perdido? O quê?

Foi aí que processei a ausência de Seris e seu Retentor.

“Finalmente, duas das minhas Foices recuam diante de um oponente ferido e talvez quase morto, deixando Dicathen sob a autoridade de um único Retentor, com o qual agora perdemos contato.”

Os seus olhos escarlates furiosos varreram a sala, queimando feito fogo do inferno onde quer que pousassem.

“Perdoe-nos, Alto Soberano. Temíamos que—”

O ar dos pulmões de Melzri quando ele direcionou toda a sua ira a ela foi sugado, e quaisquer que fossem os apelos que pretendia proferir morreram em seus lábios.

“Você é fraca.” Ele fez uma pausa, deixando essa proclamação martelar na mente dela. “O inimigo cresceu sob seu nariz. No entanto, por mais que tenha me desapontado, não colocarei toda a culpa em suas costas.” Ele abriu os braços e se moveu para ficar na frente dela, acariciando seu chifre.

“Te dei o poder que precisava para o papel que queria que desempenhasse. Agora, parece que seus papéis terão que mudar. Nosso inimigo evoluiu, e você também deverá.”

Ela se ajoelhou de imediato.

“Por favor, Alto Soberano, permita-me ser a primeira a entrar na Cripta Obsidiana.”

Nenhuma emoção marcou os traços suaves dele enquanto olhava para a parte de trás da cabeça dela. Após uma breve pausa, disse simplesmente: “Não.”

Ele se virou e cruzou a antecâmara para ficar diante de Dragoth. Quando o fez, as proporções da sala e de todos nela pareceram mudar, de modo que a Foice e o Alto Soberano eram de igual altura.

Pisquei várias vezes, lutando para afastar a sensação estranha.

Quando esvaziei a cabeça, ele estava falando. “Das minhas quatro Foices restantes, somente uma foi corajosa o suficiente para enfrentar Arthur Leywin em batalha. O resto de vocês ficou à margem do Victoriad, deixando o melhor e o pior de vocês ir à ruína.”

Toda a massa muscular prodigiosa de Dragoth ficou tensa, e ele se afastou, me oferecendo uma visão clara do Basilisco.

Agrona estava olhando para mim. “Hoje, a menor das Foices será a primeira a entrar na Cripta Obsidiana.”

Enrijeci, pego de surpresa. As provocações e brincadeiras não eram nada de novo, no entanto, neste caso, parecia me elogiar em vez de insultar. Uma mão macia descansou abaixo da minha nuca, e me virei para ver Cecilia, sorrindo encorajadoramente.

Dei um passo à frente.

As portas da cripta se abriram quando dois magos vestidos de preto saíram de dentro. Ele gesticulou em direção à entrada enquanto eles colocavam as costas contra a parede e esperavam.

No começo, hesitei. Não que pudesse recusar, mesmo que quisesse por alguma razão, porém não podia deixar de me perguntar o real porquê dele me enviar primeiro. Seria apenas uma tática para irritar as outras Foices, ou talvez quisesse ver o efeito que uma concessão teria sobre mim depois que meu núcleo foi destruído e reparado…?

Jogos dentro de jogos, me lembrei.

Me movendo devagar, entretanto com propósito, entrei e passei pelos dois magos, que fecharam as portas atrás de mim.

A Cripta Obsidiana era um lugar estranho e sombrio. As paredes, o teto e as escadas descendentes eram formados por obsidiana negra e brilhavam com reflexos roxos.

A escadaria lisa descia por um longo tempo. Atrás de mim, os passos suaves dos magos seguiram, seus sussurros feito um eco de meus próprios passos barulhentos. Depois do que pareceu vários minutos, as escadas terminaram em uma abertura arqueada.

A sala além do arco não era grande, contudo, a maneira como a luz brilhava nas milhões de dobras e facetas do teto fazia parecer que o céu noturno se abria acima de mim, brilhando com uma aurora roxa.

Como a Constelação de Aurora em Dicathen, pensei, distraído, a primeira lembrança desse fenômeno distante ressurgindo na mente.

O centro da câmara era dominado por um altar, uma placa de obsidiana coberta de madeira grande o suficiente para um homem se deitar. Irradiava energia.

É estranho, pensei. Nunca senti esse poder antes, mesmo que tivesse ido em criptas várias vezes ao longo da vida.

Algo mudou.

Meus pensamentos se voltaram de imediato ao conteúdo do meu bolso, a coisa que não poderia deixar desprotegida em meus aposentos. Recordei, também, das luzes roxas que vi quando toquei no núcleo nas masmorras. Embora tenha tentado recriar aquilo várias vezes, falhei.

Quase por sua própria vontade, minha mão deslizou para o bolso e o segurou.

Nada aconteceu.

A cerimônia de repente parecia trivial e sem importância. Pretendia investigar essa sensação ainda mais, todavia os dois magos — oficiais da cerimônia — que me seguiram pelas escadas estavam de cada lado de mim, tirando minha jaqueta e puxando as laterais da camisa, tentando tirar a roupa de mim.

Ansiedade e medo ondularam ao pensar que encontrariam o núcleo de Sylvia. Queria afastá-los, mas sabia que era inútil. O que quer que estivesse acontecendo aqui, tinha que seguir os protocolos exigidos. Eles não permitiriam nenhuma alteração, e temia pensar no que Agrona faria se eu os machucasse de algum jeito. Não eram meros pesquisadores escondidos nas masmorras, e sim a chave para o domínio de Agrona sobre Alacrya, e ele pessoalmente esfolaria a pele de qualquer homem ou mulher que os atacasse, até eu.

De uma maneira mecânica, segui as exigências. Um homem que não vi por estar distraído saiu das sombras e se posicionou no lado oposto do altar. Esculpida na obsidiana ao meu redor havia um círculo de runas largas, e sabia que uma característica semelhante adornava o chão em torno do terceiro oficial.

Os outros dois me guiaram ao centro do círculo rúnico, onde me ajoelhei. Minhas mãos descansavam na superfície de madeira, colocadas com cuidado sobre dois símbolos complexos, cada um feito de muitas runas pequenas e interconectadas.

À frente, o oficial ergueu o cajado de onde estava encostado no altar e o bateu no chão três vezes, interrompendo a quietude. Os outros dois se moviam atrás de mim, cada um pegando um cajado encostado nos lados da entrada em arco.

Não havia cântico. Não havia palavras de orientação. Nada além do poder silencioso do altar, o peso sutil da montanha e o movimento suave e seguro dos três magos encapuzados.

Um cristal frio foi pressionado em ambos os lados da minha espinha por trás.

Em resposta, calor e um poder vibrante e estressante correram pelas minhas mãos e braços, traçando através dos ombros e arrepiando os pelos da nuca. Enfim, desceu na espinha para interagir com os dois pontos frios.

Por um instante, fiquei com medo. Nunca senti nada assim durante uma concessão antes.

O que diabos está acontecendo?

A vibração transformou o formigamento e dor em agonia total. Estava certo de que algo ia errado. Queria gritar com os oficiais, no entanto minha mandíbula estava presa, meus músculos tão tensos que não respondiam.

Em algum lugar muito distante, ou assim soou ao meu cérebro dolorido, uma voz rouca proferiu uma oração aos Vritra.

Comecei a tremer e suar da cabeça aos pés. E feito um punho se soltando, a dor diminuiu. O quarto oscilou, e eu teria desabado se não fosse pelas mãos fortes dos dois oficiais. Eles me puxaram para cima e, desajeitados, puseram minha camisa de volta e puxaram meus braços à jaqueta.

Suspenso entre eles, fui arrastado escada acima, um passo de cada vez. Atrás de mim, ouvi o virar do pergaminho e o murmúrio silencioso do terceiro oficial.

Meu núcleo começou a doer ferozmente.

Um me segurou enquanto o outro lutava para abrir as enormes portas de pedra sozinho. Quando um lado da porta enfim se moveu para fora, lágrimas brotaram em mim devido ao brilho, e só pude piscar conforme fluíam, esquentando meu rosto.

Fui puxado da escada para a antecâmara. Lento, olhei em volta e notei rostos surpresos. Quando meu olhar instável pousou em Cecilia, se fixou nela. O brilho de seus belos cabelos e roupa turquesa se destacavam como fazia a lua nas noites sem estrelas. A preocupação estava gravada em seus traços, porém se segurava.

“O que tem de errado com ele?” A voz de Melzri com uma pitada de preocupação.

“A cerimônia falhou?” Uma voz barítono profunda; Agrona. Arrastada, quase entediada. Sem nenhum tom de surpresa. Como se já esperasse que eu ia falhar…

De repente, fui virado, e minha camisa foi levantada, fazendo o ar frio me gelar. Palavras e mais palavras, cada vez mais difícil de entender.

Lutei para virar a cabeça, olhando por cima do ombro. A mão de Cecilia tapando a boca, as sobrancelhas franzidas de preocupação. Uma série de emoções em rostos embaçados — curiosidade, confusão, irritação — as feições de Agrona se fundiram quando se inclinou para dar uma olhada melhor, a expressão indecifrável.

Uma regalia, o oficial dizia. No entanto… Algo novo?

Algo não registrado nos tomos antigos.

O cansaço, incerteza e a dor profunda do núcleo provaram muitas coisas, e a escuridão me alcançou. Com prazer, a abracei.

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