The Beginning After The End – Capítulo 402

Decisões Tomadas

Arthur Leywin

Feitiços deixavam rastros azuis, verdes e dourados, se misturando ao barulho da multidão abaixo, trazida pela brisa com o cheiro de carne assada e tortas. Uma garotinha, não mais do que cinco ou seis anos, passou correndo por nós, o rosto vermelho e o sorriso cada vez maior a cada passo. Logo atrás dela, um homem caolho — uma cicatriz recente, sem dúvidas, da guerra — riu enquanto a perseguia.

Um sorriso surgiu em mim quando o aventureiro dicateano tirou a menina de seus pés, provocando um grito encantado da criança. Ele a jogou nos ombros, onde ela continuou a rir, voltando cada vez mais longe para ver os fogos de artifício mágicos explodindo em uma exibição quase constante acima da cidade.

“Eu não via pessoas tão felizes desde antes do primeiro ataque a Xyrus” disse Helen, inclinada contra o lado do gazebo de mármore que abrigava o único portão de teleporte de Blackbend.

Angela estava sentada na grama, Regis esparramado no seu colo com a cabeça apoiada nos peitos.

“É como se um véu tivesse sido levantado, não é?” falou, distraída coçando o queixo de Regis.

“Bonita sábia” disse antes de lamber seu rosto. “Por que não nos conhecemos antes? Que pecado.”

Ela o recompensou com uma risada doce.

“Eu não sei sobre essa sua besta, Arthur. Tem certeza que não é você falando através dele?” Ergueu uma sobrancelha timidamente para mim.

“Se fosse, não seria tão idiota.” Lancei um olhar para ele.

Jasmine passou a noite ouvindo da rua de costas para nós – seu olhar perspicaz, sem dúvida, rastreando as muitas pessoas se movendo ao nosso redor. Manobrando uma adaga entre os dedos, se virou.

“Não foi bem um favorzinho que fez para nós, sabe?”

“Eu sei. Mas confio nos Chifres Gêmeos para manter o controle daqui sem tentar forjar algum tipo de cidade-estado da Guilda dos Aventureiros. Além disso, não será por muito tempo. Se as coisas correrem bem, nem estarão mais aqui.” Dei de ombros.

Isso causou uma agitação entre o grupo, a atenção de todos se voltando logo para mim. Durden, que mal havia dito uma palavra desde que chegou a Blackbend, de repente falou.

“O que quer dizer?”

“Eu queria” meu olhar foi de Jasmine a Helen “… Que Jasmine viesse comigo para Xyrus.”

A sua expressão não indicou surpresa nenhuma, porém mudou para algo pensativo. Ainda assim, não disse nada. Helen, por outro lado, franziu a testa, se afastando do pilar em que estava encostada.

“Por quê? Não consigo imaginar que ter todos os Chifres Gêmeos ou mesmo todas as forças em Vildorial faria diferença no resultado aqui em Blackbend. Me perdoe por dizer isso, Arthur, mas o tipo de batalhas que você vai ter… está certo de que quer alguém que você se importa ao seu lado?”

Claro, ela estava certa. Não queria, de fato. Se fosse do meu jeito, enfiaria todos eles em um buraco nas profundezas das Relictombs para mantê-los seguros. Mas também precisava de alguém ao meu lado que pudesse falar o que errei e baixar a minha bola. Talvez, se soubesse disso antes, não me envolveria em uma guerra que matou milhões devido ao assassinato da diretora Wilbeck.

Porém não falei nada disso. “Eu vou mantê-la segura.” Então, para Jasmine, acrescentei: “Se estiver disposta.”

Ela ergueu o queixo e seus olhos vermelhos capturaram o reflexo de uma explosão distante de fragmentos de gelo. “Com certeza.”

Helen olhou entre nós, os dedos inquietos com a corda do arco, depois soltou um suspiro e assentiu. “Tudo bem, mas eu juro” Jogou o braço sobre o meu pescoço e tentou me puxar para um mata-leão. “… Que se eu ver um fio de cabelo faltando nela…”

Sem esforço, a levantei e envolvi em meus braços, fazendo ela gritar de surpresa. “Sabe que cabelo cai sozinho, certo?”

Sua mão martelou no meu ombro. “Me coloque no chão, ridículo!”

Rindo, a soltei, mantendo contato visual com as mãos em seus ombros. “Entendo sua preocupação. É uma guerra, e nenhum de nós está seguro de verdade; nem eu. Mas prometo cuidar dela o máximo possível.”

Helen bufou, falhando em esconder um sorriso desanimado.

‘Bem, divirtam-se. Acho que vou ficar aqui com Angela e seus…’

Nem a pau, retruquei. Bora. É hora de ir.

Enquanto Regis terminava de ser um completo idiota e se envergonhar na frente de Angela, entrei no gazebo de pedra e comecei a calibrar o portão de transporte para a cidade voadora de Xyrus. Jasmine seguiu sem palavras.

Quando o portal deu vida dentro da moldura, dei um passo, entretanto me virei para encarar Helen, Durden e Angela antes de passar.

Regis entrou no meu corpo. Angela deu um aceno alegre. Durden coçou o coto do braço, seu olhar se fixando em algum lugar à minha direita.

“Boa sorte, general Arthur” disse Helen, batendo os dedos no pilar de pedra. “Estaremos esperando por notícias de seu sucesso.”

Meneei a cabeça para Helen e me despedi de Jasmine antes de passar.

O mundo se borrou, e tive um breve momento dissociado do tempo e do espaço para considerar o próximo passo.

Só passei horas em Blackbend, no total. A vitória exigiu um ritmo febril da minha parte, e Xyrus era ainda mais importante.

Como a cidade mais próspera e defensável de Sapin, se tornou o lar de muitos dos alto-sangues atraídos por Dicathen ou pelo menos aqueles que não dedicaram seus recursos à construção em Elenoir apenas para vê-la dizimada por Aldir.

Também era o lar de muitos dos dicatianos mais ricos, especialmente vira-casacas como os Wykes.

Meu medo era que enfrentasse uma batalha e passasse mais tempo tirando os alacryanos da cidade. E quanto mais tempo eu passava em qualquer lugar, mais tempo a próxima cidade na fila tinha que ter. Já dei a Agrona muito tempo para reagir e contra-atacar em Vildorial.

O mundo parou quando cheguei a um de vários portões de teleporte idênticos.

Um esquadrão de soldados alacryanos estava em alerta nas proximidades. O resto da rua estava vazia por completo.

Jasmine apareceu atrás de mim, a mão já nas lâminas.

Um guarda de meia-idade com um forte sotaque de Truácia deu um passo à frente. “Bem-vindo à cidade de Xyrus, General Arthur e…” Olhou para Jasmine. Quando nenhum de nós respondeu, franziu os lábios e terminou. “… Convidado de honra.”

Considerei por um momento antes de responder. O fato de que sabia quem eu era e estava preparado para minha chegada, contudo não atacou, significava que alguém na cidade queria ter uma conversa.

“Eu sou Idir do sangue Plainsrunner.” Desta vez peguei o leve tremor em sua voz. “Meus homens e eu vamos acompanhá-los ao Tribunal para nos encontrarmos com os chefes de Xyrus, se desejar. “

E se eu não quiser? Quase perguntei, todavia me contive. “E quem seriam?” perguntei.

“Aqueles dos cinco alto-sangues com participação nesta cidade são Augustine do alto-sangue Ramseyer, Leith do alto-sangue Rynhorn, Rhys do alto-sangue Arkwright, Walter do alto-sangue Kaenig e Adaenn de alto-sangue Umburter.” Devo ter dado algum sinal de reconhecimento aos nomes Ramseyer e Arkwright, porque o soldado acrescentou: “Sangues poderosos em ambos os continentes, como você sabe.”

“E o que essa reunião implicará?” questionei.

Ele fez uma humilde reverência. “Sou apenas um mensageiro. Sei que veio de uma batalha e está cansado, mas posso garantir que nenhum alacryano nesta cidade deseja cruzar as lâminas com o homem que matou a Foice Cadell Vritra.”

Não duvidei das suas palavras, porém não me deixaram à vontade. Só porque um soldado não queria lutar, não significava que ele recusaria quando a ordem fosse dada.

“Tudo bem. Mostre o caminho, Idir.”

Apesar de as ruas em sua maioria vazias, rostos estavam pressionados contra as janelas dos muitos edifícios pelos quais passamos. Das poucas pessoas que permaneceram, todas aparentavam ser trabalhadores dicatianos. Alguns até gritaram, mas foram alertados pela nossa escolta. “Lança Arthur!” gritou um homem numa túnica manchada de suor. que eu intervim.

Uma mulher robusta blindada brandiu seu cajado para ele, mas agarrei a arma. Todos congelaram.

Jasmine, já tensa, puxou um pouco as adagas em um piscar de olhos, no entanto gesticulei para que não as tirasse. “Não vou deixar vocês intimidar dicatianos na minha presença” falei, me dirigindo aos soldados alacryanos, e depois soltei o cajado.

O homem tinha acabado de passar da meia-idade, os cabelos até os ombros recuando nas têmporas. Demorou um momento até que eu o reconhecesse. “Jameson?” questionei, certo de que era um dos homens que trabalhavam para Vincent.

Ele assentiu animado, torcendo a frente da túnica. Ele continuou abrindo a boca para falar, entretanto parou todas as vezes sob os olhares hostis dos alacryanos.

“Sugiro que volte para a mansão, Jameson” falei com firmeza, mas gentilmente. Também abrir um pouco mais os olhos, comunicando em segredo que queria falar mais.

Ele retribuiu com um olhar vazio e assustado, mas não se mexeu.

“Jasmine, pode ir com ele?” Fiz uma pausa para enfatizar. “Para garantir que ele chegue em segurança?”

“Mas, Arthur…”

“Por favor. Certifique-se de que está tudo bem e depois venha me encontrar.” A interrompendi.

Ela assentiu, compreendendo. “Já vou.”

Então, agarrou Jameson pelo braço, o arrastando sutilmente. Desajeitado, se curvando ao aparentar ter chegado a algum entendimento, se virou atrás de Jasmine na direção da mansão dos Helsteas.

Irritado com a ideia de ser separado dela depois de dizer que a protegeria, fui atrás da conexão com Regis, todavia ele já havia começado a se mover.

Como se minha própria sombra tivesse ganhado vida, ele saltou de mim e pousou, raspando o chão com as garras e assustando os soldados. Não compartilhamos pensamentos manifestos enquanto ele trotava logo atrás dos dois, já que ambos entendíamos o que precisava ser feito.

Jameson deu um grito de surpresa quando ele caiu ao seu lado, contudo ela foi rápida em acalmá-lo.

Depois de vê-los se afastar, dei um olhar frio na direção de Idir. Ele limpou a garganta, virou e começou a marcha de novo.

Embora preferisse tê-los ao meu lado, tinha que avisar aos Helsteas de que cheguei à cidade. De acordo com Jasmine, estavam ajudando cidadãos a sair da cidade desde o início da ocupação alacryana. Isso significava que tinham contatos, uma rede e pessoas que deveriam saber que as coisas estavam prestes a mudar.

Não foi uma longa caminhada desde os portões de teleporte até o Tribunal. Fiquei um pouco surpreso ao encontrar a praça em frente ao prédio — um pátio ornamentado completo com jardins bem cuidados, árvores frutíferas e várias estátuas de magos famosos ao longo da história de Xyrus — totalmente vazias. Esperava uma demonstração de força, pelo menos. Uma centena de esquadrões teria preenchido o espaço muito bem e dado um ar militar.

“Nossos soldados dentro da cidade na maior parte recuaram” disse Idir, respondendo à pergunta não feita. “A dama Augustine não queria lhe dar a impressão errada.”

Atravessamos o pátio, mas os soldados pararam na base dos degraus de mármore. À nossa frente e acima, as linhas brancas e cinzentas do enorme edifício pareciam dominar o horizonte da cidade.

Cinco alacryanos vestidos de uma maneira impecável entraram em uma imponente linha saindo sob a incrível arcada que se abria para o Tribunal além, cada um exalando autoridade e se preparando a cada passo.

Uma mulher surpreendentemente jovem, morena de cachos apertados, estava a meio passo na frente dos outros. “Ascendente Grey. Ou… Arthur Leywin, não é?” Piscou os cílios grossos para mim. “Prazer em te conhecer. Meu avô achou que você era um problema interessante e complexo como professor. Estou interessada em entender melhor o porquê.”

Enquanto falava, suas palavras nítidas tornaram clara a semelhança familiar. “Você é Augustine do alto-sangue Ramseyer, certo? Irmã de Valen?”

“Prima” disse com o menor encolher de ombros. “Por mais que tenhamos sido criados como irmãos, sou uma graduada da Academia Central, um fato que agora considero uma grande vergonha, já que meu tempo acabou antes de seu curto período como professor começar. Vendo seu desempenho no Victoriad, tenho certeza de que suas aulas eram muito interessantes.”

“Parece saber um pouco sobre mim, senhorita Ramseyer, então tenho certeza de que também sabe por que estou aqui” falei, examinando os cinco.

Ela levantou uma mão delicada. “Por favor, planeja discutir negócios aqui na varanda, como se fôssemos traficantes?” Suas sobrancelhas finas se ergueram, dando mais espaço para seus olhos escuros serem iluminados pela luz. “Vamos a acomodações mais confortáveis para que possamos discutir seu propósito em Xyrus que nem pessoas civilizadas.”

Os outros quatro lideraram o caminho, enquanto ela se afastava e gesticulava para que eu a seguisse. Reservei um momento para examinar o pátio e o que pude ver do edifício. O esquadrão de guardas liderado por Idir estava esperando nos grandes degraus, mas não havia mais nada — ninguém mais — para ser visto.

Quando passei por ela, Augustine estendeu a mão e passou o braço pelo meu. Ela era uma cabeça mais baixa do que eu, e seus braços finos pareciam varas frágeis ao lado dos meus, todavia havia uma graça líquida e confiança permanente em seus movimentos que não revelavam medo de mim.

Caminhando de braços dados nas grandes salas, encontrei meus pensamentos voltando para a Academia Central. Não tive muito tempo para considerar o caos que deixei. Aquelas crianças, as que tive mais impacto — Valen, Enola, Seth, Mayla…

Fiz mais estragos do que o bem ao ganhar a confiança deles só para jogar isso fora e desaparecer? Me perguntei.

Quem sabe que tipo de propaganda Agrona e seus lacaios se espalharam após o Victoriad.

“As crianças da minha classe…” Comecei antes de hesitar, sem saber o que queria perguntar ou se tinha o direito, dada a situação.

“Nenhuma culpa foi colocada sobre eles, e eles receberam ampla oportunidade e recursos para se recuperar do choque” confirmou Augustine. “Meu avô pode ser um homem duro, mas é dedicado à academia e seus alunos.”

Isso, pelo menos, foi um alívio. Sabia que Alaric não teria essa proteção, no entanto confiei no velho bêbado para poder cuidar de si mesmo.

Percebendo que estava deixando o sentimentalismo arrastar meu foco para baixo, fui tirando do poço de impassibilidade que me ajudou a sobreviver em Alacrya.

Ela me guiou por vários corredores curtos antes de chegarmos a um grande salão. Como o resto do Tribunal, o chão era de granito polido e as paredes esculpidas eram de mármore branco brilhante. Janelas arqueadas banhavam o salão com luz, o que só o tornava ainda mais claro. Dezenas de cadeiras finas e sofás foram espalhados com cuidado pela sala, decorados com uma centena de tipos diferentes de plantas em vasos. Uma parede possuía uma enorme barra de mármore, atrás da qual estavam prateleiras de garrafas.

No centro, notei uma mesa movida e vários assentos reorganizados para abrir espaço a uma pequena mesa redonda coberta com um tabuleiro de Disputa dos Soberanos. Duas cadeiras de encosto alto e almofadadas de veludo foram colocadas em lados opostos.

Os quatro alto-sangues em silêncio ficaram de lado, e Augustine me conduziu até o móvel. Puxei uma cadeira e ofereci a ela. Ela velou bem a surpresa, sorrindo e inclinando a cabeça em agradecimento enquanto se sentava. Depois, empurrei a cadeira de leve e me sentei.

“Conhece?” perguntou, o dedo indicador traçando um atacante ornamentado.

“Já joguei” respondi, examinando o tabuleiro. As peças foram primorosamente esculpidas, cada conjurador, defensor e atacante únicos. Suas peças eram feitas de pedra vermelho-sangue, enquanto as minhas eram cinza marmorizado e preto. “Mas não estou aqui para jogos, Augustine. Você sabe disso.”

Seu sorriso se alargou, entretanto ela estava focada no jogo e não olhou nos meus olhos. “A cidade de Blackbend foi dominada por você em, o quê, vinte minutos?” Olhando para as peças, seus dedos acariciaram o contorno de seus lábios. “Claramente, a força das armas é um fraco oponente seu, Arthur. Posso chamá-lo de Arthur?” Me encarou, aguardando confirmação.

Assenti e ela continuou. “Mas Xyrus é diferente. Centenas de alacryanos fizeram da cidade o seu lar, e há cinco soldados destacados aqui para cada civil. Muitos dicatianos já juraram lealdade ao Alto Soberano. Você planeja ir rua por rua, casa por casa, arrombando portas e arrastando famílias, crianças e servos?”

Pegando um atacante, o moveu em uma linha até a extremidade do meu campo. Um movimento agressivo.

“Normalmente, os soldados se rendem depois que destruo a liderança” disse, manobrando um conjurador para parar seu atacante.

Ela mordeu o lábio, depois moveu um de seus conjuradores para apoiar. “Quanta bravura, Arthur. Pensei que queria ter uma discussão. Espera que eu te trate bem quando você segura uma lâmina no meu pescoço?”

Dei de ombros, reposicionando sem cuidado um defensor. “Não vim negociar. Vim retomar a cidade. Sem sangue é melhor, mas estou preparado para fazer o que precisa ser feito, assim como em Blackbend.”

“E então?” Seus dedos bateram na mesa de madeira. “Você quer que nós” Gesticulou para os outros. “… Levemos nosso povo para casa? Simples assim?”

“Bastante. E você pode levar qualquer um que dobrou um joelho para Agrona com vocês.”

Ela se afastou do jogo, me analisando. “Antes de prosseguirmos, tenho uma confissão a fazer. Por favor, segure a mão e ouça.” Augustine compartilhou um olhar com um dos outros, que lhe deu um aceno de cabeça afiado. “Todos os soldados alacryanos à nossa disposição foram espalhados em toda a cidade. Suas ordens são simples: se algum mal vier a mim ou aos meus compatriotas, massacrarão o povo de Xyrus.” Ergueu a mão mais uma vez, as feições suavizando. “Não me engane, não sou um monstro. Fui encarregada da expansão do nosso sangue em seu continente, especificamente porque eu estava ansiosa para trabalhar ao lado de Dicathen para aprender com eles e guiá-los ao serviço de Agrona.

Mas” Por um único instante sua compostura quebrou, e vi o medo real brilhar em seus belos traços. “… Assim como você disse, farei o que precisa ser feito. Porque, pela honra do meu sangue, não posso te dar a cidade de mãos beijadas.”

Foquei no tabuleiro, não oferecendo nenhuma reação externa às ameaças. Em vez disso, falei. “Acredito que é a sua vez, Augustine.”

Mordendo o lábio, ela deslizou o atacante pela lacuna recém-formada na minha linha. “Eu sei que você não tem medo de si” continuou, falando mais alto e mais confiante. “… Mas não é insensível à vida dos outros. Mesmo em Alacrya, cercado o tempo todo por inimigos, se esforçou para garantir que os alunos sob seus cuidados fossem bem atendidos; estudantes como Seth do alto-sangue Milview e Mayla do sangue Fairweather em particular.”

“Renda-se e o povo desta cidade será poupado.” um dos outros acrescentou, seu barítono transbordando com uma arrogância pomposa.

Fingindo um bocejo sufocado, retirei meu conjurador para bloquear seu atacante indo à minha sentinela. “Tenho a sensação de que não está dando toda a atenção ao jogo.”

Sua mandíbula se apertou com força enquanto lançava um olhar incerto para os outros alto-sangues. Walter Kaenig assentiu, e ela deslizou para trás um pouco da mesa.

Várias coisas aconteceram no mesmo instante: o ar por toda a sala ondulava violentamente, e, de repente, o salão se encheu de cavaleiros armados e blindados; vários escudos sobrepostos de mana translúcida apareceram entre mim e Augustine; ao longe, um barulho semelhante a um aviso de berrante.

Ouvi o assobio de uma arma de haste se movendo e estendi a mão, pegando o eixo, e torci o pulso para que a madeira se despedaçasse. Meu agressor carregava o símbolo da casa Wykes em seu peitoral. Reconheci os símbolos de várias casas nobres entre a multidão de soldados: Wykes, Clarell, Ravenpoor, Dreyl e, o mais surpreendente, Flamesworth.

Até então, Augustine chutou de lado sua cadeira e recuou para o meio de soldados dicatianos. Os outros alto-sangues estavam ocupados saindo da sala feito roedores correndo de um celeiro em chamas.

E eu fiquei no meu lugar. Ninguém mais atacou de imediato, então voltei a examinar o jogo.

“Esses homens… esses homens de Dicathen estão dispostos a lutar para evitar que você retorne às coisas como eram!” gritou ela sobre o barulho repentino de cem pessoas de armadura batendo uma contra a outra. “Isso não te faz repensar um pouco? Ou é tão obstinado que mataria até seu próprio povo para garantir que o mundo seja como você acha que deveria ser.”

Havia uma selvageria nos olhos escuros da jovem que me lembrava uma pantera das sombras encurralada.

Levei um segundo para encará-los, vendo neles uma certeza estoica que achei surpreendente. A mera visão de mim conjurava terror nos alacryanos, porém os cavaleiros das casas nobres de Xyrus pareciam muito confiantes. Que nem as peças do tabuleiro, foram aonde tinham sido informados, alheios às ramificações de suas ações ou de suas próprias vidas.

“Você acha que passou a perna em mim.” Pressionei o indicador na cabeça do atacante agora atrás da linha dos meus escudos, perto até demais da minha sentinela. “Isolou uma fraqueza e a explorou, me deixando sem boas escolhas para tomar.” Pegando a sentinela, a movi para o lado do atacante adversário. “Mas eu não desisto, Augustine.”

Deixei meu olhar cair pesadamente em todos aqueles mais próximos de mim. “Então, me derrube.”

Nem mesmo uma respiração interrompeu o silêncio que se seguiu.

O comando dividiu o silêncio, ressoando nas paredes de mármore. “Ataquem!”

Um cavaleiro Dreyl avançou com a espada ao meu lado. Um pico de gelo voou por trás de Augustine, lançado por um Clarell. Outro ataque veio, e outro, e logo eu estava no centro de uma barragem de golpes, alguns mágicos, outros por espadas, machados e lanças.

Todos se chocaram contra a armadura negra, que se desdobrou sobre mim em um instante. Me levantei, absorvendo o peso do ataque sem revidar. Cinco segundos se passaram, depois dez. Aos vinte segundos, houve uma calmaria quando a realidade da situação começou a atingi-los.

Naquele momento, caí sobre eles feito uma pantera prateada entre esquilos raptores.

Tomando a espada da mão do cavaleiro Dreyl, a enfiei no peito de um homem, o peguei pela garganta e joguei na lança que se aproximava de um Flamesworth. Ativando o Realmheart com um lampejo de éter, desviei uma bola de metal derretido, a enviando para o rosto de um soldado Clarell enquanto conjurava uma lâmina de éter e a girava em arco, cortando vários.

Conforme avançavam, Augustine recuava, saindo até que estivesse na porta. Não correu para mais longe pela vida ou tentou desaparecer nas ruas do lado de fora. Em vez disso, parou e observou. Encantada ou petrificada, eu não podia dizer.

Direcionando o éter para o meu punho para formar uma explosão concentrada, me virei para um grupo de magos carregando o brasão da casa Wykes. “Por favor, general Arthur” implorou um deles. “… Eu servi com você n…”

O apelo foi cortado, engolido pelo rugido de fogo do éter explodindo os conjuradores em pedaços.

Com a eficiência de uma máquina, cortei o restante. Dezenas e dezenas caíram em montes sangrentos no chão de granito, seu sangue se acumulando e dando um fim ao cinza abaixo do tapete encharcado de vermelho.

A luta mal durou um minuto antes que o último caísse.

Limpei o sangue do meu rosto e me virei para Augustine. Para seu benefício, ela não fugiu. Quando virei em sua direção, ela me observou se aproximar como alguém que aceitou a morte.

A sala ficou em silêncio de novo. E agora que era, podia ouvir os sons de gritos e magia à distância.

“Ordene seus soldados a recuarem” disse, a voz um vazio apático. “Não tem mais dicatianos a serem feridos. Todos os alacryanos devem se reunir e se preparar para se realocar. Se não for agora, não pouparei ninguém.”

Seus olhos escuros estavam desfocados, olhando através de mim para a distância onde os cadáveres dos cavaleiros estavam espalhados pelo chão.

“Dama Ramseyer” exclamei, e ela saltou e tropeçou para trás, o horror surgindo em seu rosto.

Começou a recuar desajeitadamente para trás, o olhar incrédulo fixo em mim. Atrás dela, vi as vestes dos outros alto-sangues desaparecerem em um canto.

“Não me teste mais.”

Acenando, começou a correr, frenética. Então, fiquei sozinho.

Meus olhos se fecharam e as pálpebras de repente pesaram. Eu estava cansado. Muito cansado. Não era do corpo ou do núcleo, mas do espírito.

Soltei minha conexão com a armadura, e as escamas negras que me envolviam caíram em nada. Forçando os olhos a abrir, olhei fixamente para a carnificina que fiz.

Aço brilhante foi coberto com manchas marrom-avermelhadas de sangue oxidante. Restos mortais cortados ficavam como ilhas horríveis em meio ao mar escarlate. Os emblemas coloridos das casas nobres eram indistinguíveis sob as manchas.

Muitos dos nossos estavam prontos para receber Agrona antes mesmo que a guerra começasse a se voltar contra nós. Não deveria ter me surpreendido que, com Alacrya no controle, tivessem jurado a seu serviço. O medo sozinho levaria muitos a esse fim, e a ganância a muitos mais.

Que pena. Encarando os cadáveres, sabia que essas mortes eram um peso que teria que carregar.

Não tinha certeza de quanto tempo fiquei lá em silêncio, surdo a tudo além do próprio tumulto interno. Entretanto, o som de passos apressados me tirou de minhas próprias emoções.

Jasmine entrou na sala, pisou no sangue e parou. Seus olhos se arregalaram antes de se concentrarem em mim. Ela devia ter visto algo em mim que revelou o que eu estava sentindo, porque seu exterior rígido se suavizou.

Percebi que Regis não estava com ela e entrei em contato. Eu podia senti-lo lá fora, ajudando a acabar com a luta.

“Você está bem?” perguntou ela após um momento.

“Eu…” Quando minha voz saiu rouca, reprimi as palavras, hesitante em parecer fraco na frente dela. Tolo, repreendi a mim mesmo, me lembrando por que pedi para que viesse comigo. “Eu trabalhei tanto para evitar que essa guerra se tornasse um massacre.” Pausei por um momento. “… Mas esses homens…”

Levantei a mão, apontando pela sala em um gesto fútil. “Eu não dei a eles uma chance.” Enfim terminei.

Ela cutucou um corpo com o dedo do pé para que o peitoral ficasse voltado para cima. Havia muito poucos traços identificáveis do cavaleiro, cujo rosto foi deformado por um machado, mas claro em seu peito estava o símbolo da casa Flamesworth: uma rosa estilizada, as pétalas formadas por chamas onduladas de leve. O rosto dela permaneceu inexpressivo.

“Eles tiveram suas chances” disse sem rodeios. “Muitos deles. E eles fizeram sua escolha todas as vezes.”

Ela se arrastou entre os corpos, cada passo deixando para trás uma mancha vazia de granito no sangue. “Eu não sabia que meu pai havia sido liberado de sua cela sob a Muralha.”

Trodius Flamesworth havia mandado a própria filha embora por usar mana de vento ao invés de fogo. Ele planejou sequestrar a si e os amigos nobres para se salvar da guerra. E ele traiu a confiança dos soldados quando se recusou a derrubar o muro no exército de bestas mutantes que os alacryanos fizeram, um ato que resultou na morte do meu pai.

Mas ele não era um marginal da sarjeta dentro de uma instituição altruísta. Não, cada líder de cada uma dessas casas fez coisas egoístas, cruéis e traiçoeiras; disso tive certeza.

“Durden ainda se culpa pela morte de seu pai, sabe” contou do nada.

Me senti ceder e me recostei no balcão, empurrando um cadáver para fora a fim de abrir espaço. “Não foi culpa dele. Aquela luta… até os magos mais fortes teriam caído nas presas daquelas bestas.”

“Você está certo, não foi culpa dele.” “Foi de Trodius. Ele foi descuidado com a vida dos homens que confiavam nele.” Ela parou de andar no matadouro e apontou para um torso que havia sido cortado em dois. “Lorde Dreyl foi descuidado com a vida deste homem.” Ela cutucou um mago cheio de sangue com o pé. “E lorde Ravenpoor com este.” Parou, os pés em ambos os lados de uma cabeça decepada. “E Trodius mandou essa mulher para a morte também.”

Nossos olhos se encontraram. Havia um fogo intenso atrás do vermelho de suas íris. “Não se castigue pelos atos dos outros, Arthur.”

Tive que limpar a garganta antes de falar. “A guerra não terminará quando o último alacryano deixar essas costas. Temos muitos inimigos que nasceram aqui e se autodenominam dicatianos.”

Jasmine assentiu, indo para o meu lado. Ela estendeu a mão pela barra e puxou uma garrafa para baixo, girando o líquido dourado dentro. Tinha algo distante e assombrado em seu rosto, então jogou a garrafa fora. “Os continentes têm que exorcizar seus demônios, creio eu.”

Mais passos anunciaram a chegada de várias pessoas. A mão dela foi para suas adagas, mas senti com a conexão mental de Regis que a luta acabou. Augustine e seus companheiros haviam retirado suas tropas, como ordenei.

Pressionei as palmas das mãos com força nos olhos, até que a vista ficou embaçada. Então, com um suspiro constante, me movi rápido para a porta, não querendo ter mais conversas no salão transformado em uma chacina.

Apesar de esperar por algumas reuniões, ainda fiquei surpreso com os números que se aproximavam. Todos pararam quando me viram.

Vincent Helstea parecia estranho em sua armadura de couro e elmo. Ele envelheceu desde a última vez que o vi e engordou pouco, além de agora ter um cansaço abatido por trás de seus olhos antes brincalhões.

Ao lado dele, sua filha, Lilia, uma mulher adulta, feroz e bonita, coberta de sangue. Ela estava pálida, e havia lágrimas grudando nos cantos dos olhos enquanto olhava para mim em choque.

Atrás de ambos estava Vanesy Glory, ilesa das batalhas lá fora.

Enquanto ele olhava para mim com uma espécie de confusão delirante, como se não tivesse certeza se era tudo um sonho ou não, Lilia fervilhava com uma intensidade furiosa, vendo as linhas do meu rosto até se encontrarem com os meus e pararem.

Atrás deles, Vanesy parou e estava em pé com uma mão atrás das costas, a outra na lâmina, sua ponta para baixo, apoiada no granito. Seus olhos pareciam brilhar, e os lábios estavam pressionados com tanta força que ficaram brancos.

“Art, meu garoto, é realmente você?” Vincent perguntou da porta.

Tentei mostrar um sorriso caloroso, porém senti mais uma melancolia esquisita. “Surpresa.”

Tensa, Lilia soltou um suspiro choroso e correu para me envolver em um abraço. “Arthur… eu… eu não posso acreditar que você está vivo!”

E eu aceitei com gratidão. Ela pressionou o rosto no meu peito, o corpo tremendo com soluços suprimidos. “E a Ellie? Alice? Não nos falamos por tanto tempo…”

“Bem” falei consoladoramente, minha mão ensanguentada acariciando seu cabelo. “As duas estão bem, Lilia.”

Ela se soltou e enxugou os olhos, fazendo uma careta de vergonha. “Ah, sim, a líder rígida da rebelião” disse em ironia. “Mas suponho que seja mais coisa da comandante Glory, de qualquer maneira.”

“Nunca se envergonhe de suas emoções, querida” falou Vincent, entrando em seu tom paternal. “Não pode controlar como se sente, e aqueles que o amam e respeitam não o julgarão por se expressar.”

Sorrindo, passei por Vincent e estendi a mão para Vanesy. Ela relaxou a postura dura e pegou minha mão com firmeza. Quando a conheci como professora na Academia Xyrus, havia uma exuberância juvenil em todas as suas ações. Logo após o início da guerra, descobri que ela era firme e séria em seu papel, com muito daquele ar leve subjugado, mas no geral inalterado.

Agora, ela foi alterada por anos de conflito. Ao contrário de Vincent, a guerra não a envelheceu por fora; a mesma Vanesy ainda estava diante de mim, com o de sempre cabelo moreno puxado para trás e amarrado. No entanto, seu sorriso bobo desapareceu, assim como o olhar divertido que sempre enrugava os cantos de seus olhos.

“Sinto muito, não haverá mais tempo para uma reunião adequada” contei. “Mas a situação aqui foi apaziguada. Preciso tirar esses alacryanos de Xyrus o mais rápido possível.”

Depois de apertarmos as mãos, ela soltou e deu um passo para trás. “Claro, Arthur.” Ela hesitou. “Eu… todo mundo pensou que você estava morto.” Ela olhou para o chão, a mandíbula apertada.

“Bem, não estou. Eu prometo que vou contar tudo, mas por enquanto, precisamos de olhos em toda a cidade. Pode enviar patrulhas? Necessitamos de uma presença na rua para garantir que os alacryanos não tenham um surto com o que aconteceu.”

Ela estava franzindo a testa, e só se aprofundou enquanto eu falava. “Eu não entendo. Por que estamos permitindo que eles apenas…”

Não pude evitar o suspiro profundo que saiu de meus lábios. Ela parou de falar e sua mandíbula começou a ir para frente e para trás.

Isso é algo que eu preciso lembrar, eu pensei. No outro continente, aprendi a vê-los como pessoas, todavia aqueles aqui testemunharam somente a mais monstruosa de suas ações. Não posso culpá-los por não quererem acenar para seus opressores marchando à liberdade.

“Sei que muitos deles cometeram crimes que valem a pena punir. Guerra é guerra, e isso é difícil de perdoar. Não vou fingir que sei tudo o que fizeram a você e aos seus desde o fim da guerra. Mas, por favor, agora não é o momento de exercer qualquer raiva acumulada.”

Segurei seu olhar por um longo momento. Suas luvas rangiam contra o cabo da espada. Então ela se inclinou para a cintura e me deu um aceno pequeno. “Claro, general.”

Comentários

  1. Gabrielz disse:

    Finalmente apareceram eles, tava até esquecido já kkkk
    POR FAVOR NÃO PAREM DE TRADUZIR A OBRA, AGRADEÇO MUITO POR ISSO

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