“Uma pessoa, para começar,” sussurrou Rodcorte, que vinha observando os acontecimentos em Origin.
Kaidou Kanata havia morrido. Com sua morte, começou a surgir instabilidade entre os indivíduos reencarnados que estavam reunidos sob a liderança de Amemiya Hiroto; era provável que alguns começassem a deixar a organização em breve.
E em pouco tempo, pelo menos uma dúzia deles — talvez até metade — perderia a vida.
Rodcorte havia considerado muitas coisas para evitar que morressem facilmente, mas não os tornara invencíveis ou imortais. Poderiam acontecer incidentes em que morressem pelas mãos uns dos outros, como Kanata.
Pelo menos, Kaidou Kanata e Amamiya Hiroto não seriam os únicos a não viver até o fim natural de suas vidas em Origin.
“Hmm…? Isso é… Droga! Aquela maldita Mari, ela realmente me matou, não foi?!” gritou Kanata, ao aparecer diante de Rodcorte e recuperar a consciência.
Agora que pensava nisso, Rodcorte se lembrou de que ele também estava gritando quando chegou da outra vez.
“Ei, deus!” disse Kanata, chamando Rodcorte. “Tô implorando, me dá mais uma chance! Eu nem tinha feito trinta ainda… Não foi curta demais essa vida?!”
Parecia que Kaidou Kanata estava mais racional. Ele estava pedindo a Rodcorte uma nova vida.
No entanto, Rodcorte achava que as duas vidas de Kanata, que somavam mais de quarenta anos, não eram tão curtas assim. Afinal, havia pessoas que morriam logo após o nascimento, ou até mesmo antes dele.
E era quase certo que Kanata tinha matado diversas pessoas com menos de trinta anos em Origin — incluindo os terroristas que matou pouco antes de sua própria morte.
“Por favor! Eu faço qualquer coisa!” implorou Kanata.

“Isso não é possível. Já foi decidido que você viverá uma terceira vida,” disse Rodcorte, enquanto comunicava instantaneamente o conhecimento sobre o mundo de Lambda e as circunstâncias que exigiam que pessoas reencarnassem lá — da mesma forma como fizera com Vandalieu.
Kanata ficou paralisado de surpresa por um momento, mas depois começou a falar, abatido. “Deus, eu até te pedi outra chance… Mas não pode ser em outro mundo?”
“Você não gosta de Lambda? É um mundo de espadas e magia que todos vocês amam tanto. Há até Dragões,” disse Rodcorte.
“Não, como é que eu ia gostar de um mundo que foi oficialmente reconhecido por um deus como sendo inferior, né?” disse Kanata. “Já me cansei de ser extraordinário em Origin. E ‘desenvolver o mundo’? Também não quero fazer algo difícil assim.”
“Hmm… Se você usar seus poderes, poderá viver como realeza ou nobre, até conseguir um harém,” disse Rodcorte. “Ainda assim se sente assim?”
“Mesmo vivendo como nobre ou realeza, não vai ter eletricidade nem internet, né? Eu não tenho interesse em harém. Me contentaria em me divertir várias vezes com uma única mulher.”
Kanata estava menos interessado em reencarnar em Lambda do que Rodcorte havia imaginado. Dito isso, ele não tinha escolha; sua reencarnação não podia mais ser impedida.
“Hmm? Espera, isso quer dizer que a Mari também vai reencarnar em Lambda?” perguntou Kanata.
De repente, sua voz ganhou força novamente, mas Rodcorte teve um mau pressentimento.
“… Sim.”
“Então, dessa vez, eu vou matar aquela mulher! Não vou baixar a guarda, com certeza vou me vingar!”
Então é assim que termina, pensou Rodcorte, exasperado. Com as memórias e a personalidade das vidas anteriores preservadas, os rancores também pareciam seguir juntos.
Por outro lado, se ou as memórias ou a personalidade fossem apagadas, suas mentes se tornariam instáveis. Se ambos fossem apagados, não faria sentido reencarnar ninguém. Algo tão preciso quanto apagar apenas a memória do rancor era difícil para Rodcorte. Ele era especialista em alma, não em mente. Apesar de alma e mente serem intimamente ligadas, são enganadoramente diferentes.
Como Rodcorte já havia programado a série de reencarnações quando os cem morreram na Terra, nem sequer era possível que ele tivesse tempo de apagar memórias agora.
Porém, isso talvez fosse ideal. Ao contrário de Vandalieu, Kanata só tinha um alvo para sua vingança, e Rodcorte tinha um problema que precisava ser resolvido rapidamente. Talvez até fosse mais fácil fazer esse pedido a Kanata justamente por causa de sua sede de sangue.
“Antes disso, tenho algo para lhe pedir,” disse Rodcorte.
“O que é, deus? Eu, Kanata-sama, primeira baixa entre os Bravers, farei qualquer coisa que você quiser, desde que não seja algo chato.”
“Não, você não foi o primeiro a morrer entre os reencarnados naquele mundo,” corrigiu Rodcorte. “A primeira baixa foi Amamiya Hiroto.”
“Amemiya Hiroto*? Aquele cara morreu?!”
*Nota do tradutor: Lembre-se que o nome verdadeiro é Amamiya Hiroto, exatamente como o de Vandalieu no Japão, mas o nome é escrito como ‘Amemiya’ aqui para facilitar a distinção.
“Não, não é ele. Não o Ame, mas Amamiya.”
“… Tinha um cara com esse nome?”
Essa era a extensão da percepção de Kaidou Kanata sobre Amamiya Hiroto. Eles estavam em classes diferentes no ensino médio, e Amamiya Hiroto sempre foi solitário, com tanta presença quanto o ar. Kanata não se lembrava dele nem um pouco.
“Ah… Agora que você falou, ouvi dizer que dois recusaram reencarnar, e um deles tinha um nome parecido com Amemiya Hiroto. Acho que a mulher dele esqueceu disso por um tempo.”
Naruse Narumi. Como era popular na turma, até Kanata se lembrava dela, mesmo estando em classes diferentes. Ela havia se aproximado de Amemiya achando que ele era a reencarnação de Amamiya, e aparentemente os dois brigaram ao perceberem o engano — mas, após vários eventos, acabaram juntos e se casaram.
Ao lembrar do início do relacionamento dos dois, Kanata percebeu que Amamiya Hiroto era o “cara com o nome parecido”.
“Vou te dar informações sobre ele,” disse Rodcorte.
“Não, eu nem quero sab—UOH?! Aquele cara era aquele Morto-Vivo?! Jesus!” gritou Kanata.
“O que foi?”
“Não, não é com você!”
Recebendo novamente um fluxo direto de informações de Rodcorte, Kanata não pôde evitar um grito ao perceber que o Morto-Vivo de Origin — o único ser no mundo capaz de usar magia do atributo morte — era Amamiya Hiroto, e que ele já havia reencarnado em Lambda.
Nesse ritmo, será que ele não seria morto por vingança antes mesmo de conseguir se vingar?
“Oi, cancela essa reencarnação! Não tem como eu vencer um monstro desses sozinho, tem?! Ou pelo menos espera até os outros morrerem e virem pra cá!” disse Kanata.
Aquele Morto-Vivo, Amamiya Hiroto, era um ser tão anormal que Kanata havia mudado completamente de opinião e retirado tudo o que disse antes.
Primeiro de tudo, Amamiya podia se cercar permanentemente com barreiras que anulavam energia física e mágica, mas ainda assim permitiam que ele atacasse de dentro. E não era como nos quadrinhos, em que aparece uma brecha na barreira quando o personagem ataca — nada disso.
E ainda por cima, ele liberava continuamente venenos letais, doenças e fungos. Seria impossível se aproximar dele sem algo como uma roupa de astronauta.
Se fosse só isso, Kanata poderia atravessar essas barreiras com sua habilidade estilo trapaça. Mas, no laboratório de Origin, guardas que tentaram fugir enlouqueceram e começaram a arrancar os próprios olhos enquanto riam, assistentes de pesquisa foram mumificados instantaneamente, e uma pesquisadora que implorou por sua vida foi devorada de dentro para fora por criaturas parecidas com insetos. Amamiya Hiroto possuía diversos métodos de ataque ainda desconhecidos. Sem saber exatamente o que precisava ser atravessado, a habilidade de Kanata seria inútil.
Amamiya Hiroto era um ser que só podia ser descrito como um inimigo natural dos vivos.
Apesar disso, havia registros de que ele realizou uma estranha missão de resgate, arrombando as portas dos outros sujeitos de teste confinados e destruindo os dispositivos de controle implantados em seus corpos.
Considerando que ele agiu como se quisesse ser morto pelos Bravers no fim, aquele Morto-Vivo talvez ainda conservasse certa humanidade. Embora isso fosse verdadeiro, não era toda a verdade.
Aquele Morto-Vivo, assim como Kanata e os outros, havia reencarnado da Terra.
“Quero que você mate Amamiya Hiroto, que agora se chama Vandalieu em Lambda,” disse Rodcorte.
“Tô te dizendo, é impossível!” protestou Kanata.
“Atualmente, ele está mais fraco do que quando era um Morto-Vivo em Origin,” explicou Rodcorte. “Você deve ser capaz de derrotá-lo, mesmo sozinho.”
“… Tá falando sério?”
Rodcorte contou a Kanata tudo o que sabia sobre Vandalieu. Mas como era claramente imprudente contar a um ser mortal sobre a existência do sistema do ciclo de transmigração, ele manteve em segredo a habilidade de Vandalieu de destruir almas. Decidiu usar o fato de que Vandalieu queria matar todos os reencarnados em Lambda como justificativa para querer que ele morresse.
Além disso, seria problemático se Kanata voltasse a ficar com medo ao saber que sua alma poderia ser destruída.
Isso também fazia parte dos cálculos de Rodcorte.
Kanata, por outro lado, ao ouvir o resumo da situação — embora não o quadro completo — começou a pensar: “Esse cara é um idiota?” em relação a Rodcorte.
Em vez de fazer coisas complicadas como amaldiçoar Vandalieu e tentar levá-lo ao suicídio, por que ele não tentou acalmá-lo depois que morreu em Origin? Pelo menos isso é o que Kanata teria feito.
Havia várias outras opções, como fazê-lo renascer em uma família próspera, dar a ele habilidades realmente trapaçeiras desta vez, ou até oferecer um harém como fez com Kanata.
De qualquer forma, Kanata entendeu a situação. Não estava particularmente empolgado com ela e até sentia simpatia por Vandalieu. Mas ao mesmo tempo, via aquilo como uma oportunidade para si mesmo.
“Ei, não me importo de me livrar desse Vandalieu, mas só com duas condições,” disse ele a Rodcorte.
“Condições?” repetiu Rodcorte.
“Tá na cara, né? Eu tô limpando a bagunça que você fez,” disse Kanata.
“… Acredito que isso também é para sua própria proteção, não é?” apontou Rodcorte.
“Eu não ligo de implorar pela minha vida. Posso lamber os sapatos ou os pés dele e dizer: ‘Eu não sabia de nada; ninguém podia desobedecer às ordens de Amemiya Hiroto e Endou Kouya. Eu conto tudo que você quiser saber, só me poupe, por favor.’ Se eu fizer isso, ele provavelmente vai me perdoar, né? Ele parecia bem gentil, até.”
Vandalieu havia resgatado os outros sujeitos de teste; do ponto de vista de Kanata, ele provavelmente era uma pessoa de bom coração. Ao ouvir isso, Rodcorte ficou em silêncio por alguns momentos antes de pedir que Kanata continuasse.
“Quais são suas condições?” perguntou Rodcorte.
“Primeiro de tudo, quero uma recompensa,” disse Kanata. “Se eu conseguir me livrar do Vandalieu, me reencarne na Terra ou em outro mundo com uma civilização científica parecida, um mundo sem magia nem monstros, com minhas memórias e personalidade atuais. Claro, excluindo Origin. Me faça nascer numa família rica e abençoada. E quero ser um cara com uma aparência absurdamente bonita desta vez.”
“Então você está me pedindo uma quarta vida?” perguntou Rodcorte. “Mas isso não significa que você terá que morrer em Lambda?”
“Então é só eu morrer, né? Depois de me livrar do Vandalieu, me mato logo em seguida.”
Não tenho o menor interesse em viver num mundo inferior. Quando terminar meu trabalho, vou me matar logo, reencarnar em um mundo agradável parecido com a Terra, ser filho de uma família rica e distinta e viver uma vida boa até morrer. Vou aproveitar a vida enquanto os outros se matam pra sobreviver num mundo de merda.
Esses pensamentos de Kanata estavam claros para Rodcorte, mas ele não tinha muito interesse neles, nem sentia necessidade de repreendê-lo por isso.
Afinal, Rodcorte sabia que Kanata não havia contribuído muito para o desenvolvimento de Origin — então também não seria muito útil em Lambda.
Kanata era simplesmente uma carta descartável, útil apenas por suas habilidades de combate; contanto que ele resolvesse os problemas de Rodcorte, sua vida era um preço pequeno a se pagar.
E a recompensa que Kanata desejava era algo que Rodcorte podia lhe conceder facilmente.
“Muito bem,” disse Rodcorte. “Prometo essa recompensa a você. Então, qual é sua outra condição?”
“Seu apoio, é claro,” disse Kanata. “Quero reencarnar em Lambda já no corpo de um adulto.”
“Em vez de reencarnar normalmente?”
“Claro. Quanto tempo você pretende esperar até que essa missão seja concluída?”
Mesmo com as habilidades de combate de Kanata — especialmente sua capacidade excepcional em lutar contra humanos — seria impossível cumprir essa missão no corpo de um bebê ou criança. Levaria mais de uma dúzia de anos até que ele pudesse se mover e agir livremente, longe dos pais, talvez até quinze ou vinte anos.
Mas se ele já tivesse o corpo de um adulto desde o começo, teria vantagem sobre Vandalieu, que ainda era uma criança. E sem pais incômodos, poderia agir com total liberdade.
Além disso, viver mais de uma década num mundo tão inferior era algo que Kanata queria evitar.
“Muito bem,” disse Rodcorte. “Terei que usar parte do meu poder, mas não é impossível.”
Mesmo considerando os benefícios citados, isso causaria problemas a Rodcorte, e ele normalmente hesitaria. Mas não havia escolha.
“Então vou precisar também de resistências contra veneno, doença e o atributo morte,” disse Kanata. “Ah, e se por algum acaso eu morrer, recupere minha alma rapidamente para que eu não vire um Morto-Vivo.”
“As almas de vocês, os que reencarnei, sempre retornarão para mim,” disse Rodcorte. “A transformação de Amamiya Hiroto em um Morto-Vivo foi uma exceção causada pela própria magia dele. Farei com que você possa adquirir habilidades de resistência contra veneno, doenças e o atributo morte. Mas como resistência ao atributo morte normalmente é impossível de se obter sendo humano, o máximo que posso te dar é uma habilidade de nível 5.”
“Habilidades?” repetiu Kanata.
“Em Lambda, existem habilidades e Trabalhos (Jobs), e você pode ver isso exibido no seu Status,” explicou Rodcorte.
“Mas que diabos é isso? Isso parece um jogo, não parece?” disse Kanata. “Não é por ficar brincando assim que esse mundo não se desenvolve?”
“… Há mais alguma coisa que você precisa?” perguntou Rodcorte, ignorando o comentário.
“Equipamento, suponho. Uma arma, uma faca—”
“Espere,” interrompeu Rodcorte. “É impossível levar objetos que não existem em Lambda.”
“Você tá falando sério? Nem um rifle de precisão eu posso levar?”
“Por que achou que eu permitiria isso?”
“Tch!” Kanata estalou a língua alto, tendo pensado que poderia ser tudo no modo fácil com um tiro de longa distância. Mas mesmo Rodcorte teve que recusar esse pedido.
Desde o início, se isso fosse possível, ele já teria enviado itens de outros mundos para Lambda em grande quantidade há muito tempo. Ele não fazia isso porque era impossível com o poder que possuía.
No fim das contas, Rodcorte era apenas o deus do ciclo de transmigração.
“Então posso ao menos pedir por algumas roupas?” disse Kanata. “Você não vai me fazer nascer completamente pelado, vai?”
“… Todos normalmente nascem pelados,” apontou Rodcorte. “Mas entendo, farei ajustes para que isso seja resolvido. Agora, você deve encontrar Vandalieu, então seu destino deve—”
“Pode parar aí!” interrompeu Kanata. “Ajuste esse negócio de destino também. Me dê algo como um radar pra eu não esbarrar com ele num momento inesperado.”
Quantos pedidos… pensou Rodcorte, mas aceitou mesmo assim. Na verdade, um ajuste como esse não era muito difícil de fazer.
“Um radar que detecta o portador de Mana de atributo morte poderoso, e um destino alterado para garantir que vocês se encontrem. Farei esse ajuste.”
“Certo, agora não tem mais nenhum problema,” disse Kanata. Parecia que ele tinha acabado com os pedidos.
“Então, terei você reencarnado em Lambda,” disse Rodcorte. “Depois de reencarnado, recomendo que você se registre na Guilda dos Aventureiros ou em outra guilda, adquira um Trabalho, e aprenda a usar habilidades enquanto aumenta seu nível e seus Valores de Atributo.”
“Tô te dizendo, não preciso perder tempo com essas coisas. Vou acabar com ele rapidamente mesmo sem isso,” disse Kanata, enquanto era reencarnado.
Diante dos moradores da Segunda Vila de Cultivo, com vários ingredientes preparados à sua frente, Vandalieu começou a cozinhar. Sentia como se estivesse ensinando a fazer uma refeição instantânea de três minutos.
“As primeiras coisas que vocês precisam são carne de Goblin e grama Gobubu,” disse Vandalieu. “Podem usar qualquer parte do Goblin — peito, pernas ou coração — e tentem ter ao menos um Goblin inteiro. Ah, os fígados também servem. Quanto à grama Gobubu, usem uma quantidade equivalente a metade do peso da carne.”
Enquanto ele apontava para a montanha de carne de Goblin e grama Gobubu, os aldeões soltavam gemidos de nojo. Embora a carne de monstros humanóides como Orcs fosse consumida em Lambda, Goblins e grama Gobubu nem sequer eram considerados produtos de baixa qualidade; eram literalmente lixo para ser descartado. Não dava para culpar os aldeões por essa reação.
“Depois, triturem a grama Gobubu,” continuou Vandalieu. “Durante esse processo, a grama solta um suco fedorento que mancha as roupas, então tomem cuidado para não se sujarem. Preparei um pilão especial pra isso, então vou usar ele.”
Houve um burburinho na multidão quando Vandalieu trouxe o pilão que havia feito durante a noite usando Transmutação de Golem. Eles ficaram surpresos com o fato de que aquele pilão — pesado demais até para um adulto carregar — estava sendo levantado com facilidade por Vandalieu, uma criança. Mas ele interpretou isso como um sinal de que o pilão havia agradado.
Ele esmagou a grama Gobubu, o suco malcheiroso escorrendo para um balde que ele havia colocado sob o pilão.
“Depois disso, cortem a carne de Goblin em pedaços apropriados. Não tenho uma lâmina, então vou usar minhas próprias garras, mas já as limpei, fiquem tranquilos,” disse Vandalieu, cortando a carne com as garras. Os aldeões gemeram novamente.
“Depois de cortada, coloquem a carne num barril com o suco da grama,” continuou. “Vamos garantir que a carne fique submersa no líquido. Coloquem uma tampa, deixem por um dia e estará pronto. Para esta demonstração, já preparei o produto finalizado.”
“Ué? Quando você fez isso?” perguntou um aldeão mais atento.
“Usei meus poderes de Espírito Familiar para preparar,” respondeu Vandalieu. Ele não podia contar que havia usado o feitiço de Envelhecimento Inanimado para fazer parecer que já tinha passado um dia, então os enganou. “Este é o Gobu-gobu finalizado,” disse. “Sintam-se à vontade para experimentar.”
Ele abriu o barril e colocou parte do conteúdo — que se assemelhava a carne roxa — em pratos. Ao verem isso, os aldeões instintivamente deram um passo para trás. Essa era a reação normal de qualquer um ao ser convidado a comer carne roxa.
“I-isso é mesmo comestível?” perguntou o chefe da vila.
“Claro,” respondeu Vandalieu. “Vamos comer juntos?”
“N-não! Itadakimasu.” O chefe pegou um pedaço do Gobu-gobu e fechou os olhos com força ao morder. Mas, ao continuar mastigando, suas sobrancelhas franzidas começaram a relaxar. “Isso não é… delicioso, mas também não é ruim e não tem fedor,” comentou.
Ao ouvirem isso, os aldeões colocaram o Gobu-gobu na boca timidamente.
“De fato, como diz o Oyaji-dono, esse sabor não é intragável.”
“Não, isso é muito melhor do que aquele dango de casca de árvore e sopa de grama que comemos no inverno.”
“É verdade. Isso aqui é bem mais gostoso que aquilo.”
Eles já comeram coisas bem absurdas antes.
Ao ouvir os aldeões dizerem que o Gobu-gobu não era ruim — e até que era gostoso — Vandalieu sentiu uma profunda compaixão por eles. Mas as refeições substitutas que comiam durante os invernos com colheitas ruins… aquelas coisas sem nenhum nutriente, que comiam só para afastar a fome, eram de fato muito piores do que o Gobu-gobu.
“Sim, tem um sabor muito melhor do que comer carne de Goblin pura,” disse um aldeão que, em tempos de fome, aparentemente já havia comido carne de Goblin de um que exterminou. Com as colheitas fracas, essas pessoas realmente só haviam conseguido sobreviver por pouco. Se um comerciante de escravos tivesse visitado a vila, talvez até vendessem seus filhos para não vê-los morrer de fome.
Foi nesse momento que Vandalieu apareceu e lhes ensinou como preparar comida preservada a partir da carne de Goblin — que normalmente era descartada — e da grama Gobubu. Por conter carne, devia fornecer muito mais nutrição do que casca de árvore.
Não havia como os aldeões não ficarem felizes com isso.
“Hum… se vocês construírem um santuário para Vida agora, eu incluo vinte pilões e barris de madeira, além de sal — que melhora o sabor se aplicado antes de submergir a carne de Goblin no suco da grama,” disse Vandalieu. “O que me dizem?”
“Com prazer! Dedicaremos nossas vidas a Vida!” exclamou um aldeão.
“Não, não precisam ir tão longe a ponto de se dedicarem por completo—” Vandalieu começou.
“Pensar que você até nos daria sal precioso. Muito, muito obrigado!” disse outro aldeão.
Um deles estava até em lágrimas. “Me contive de construir um santuário por causa do lorde e do sacerdote-sama, mas venho orando já há muito tempo. Minhas preces realmente chegaram até Vida-sama.”
Por compaixão, Vandalieu havia trazido o sal que trouxera de Talosheim, originalmente reservado para pagar pedágios. Ainda havia sal-gema disponível por lá e ele já havia conseguido moedas dos bandidos, então provavelmente não seria um problema.
Por curiosidade, Vandalieu havia perguntado aos aldeões sobre isso, e aparentemente, no Ducado de Sauron, a religião de Vida era mais forte que a de Alda. Olhando para os moradores das vilas de cultivo, ele via mais humanos do que outras raças, e não havia Elfos Negros. Mas havia um bom número de Pessoas-Fera e Titãs nas vilas.
Porém, no Ducado de Hartner — que os acolheu — a maioria dos nobres, incluindo o próprio duque, eram devotos de Alda e de seus deuses subordinados. Era a Igreja de Alda que prosperava naquele ducado. Os santuários construídos pelos soldados nas vilas de cultivo eram dedicados a Alda, e foi um sacerdote de Alda — o da Sétima Vila de Cultivo — quem veio pregar nessa região.
Embora não fosse expressamente proibido, o povo sentia pressão e acabou decidindo não construir santuários para Vida e outros deuses, como faziam em suas terras de origem perdidas.
Aprendi mais uma verdade desagradável.
Isso pesava um pouco na mente de Vandalieu, mas o que o preocupava mais era a Primeira Princesa Levia, que supostamente havia evacuado Talosheim, bem como os outros refugiados, incluindo a filha de Borkus.
Será que eles ainda estavam vivendo nesse ducado, onde a religião de Alda se tornou tão dominante?
Ou será que se mudaram para outro ducado? Seria melhor ir rapidamente até a cidade e investigar.
Estou preocupado com essas vilas de cultivo, mas… acho que vou posicionar Lemures ao redor delas. Também vou enterrar alguns Golems de Pedra por perto. Se eu entalhar o símbolo sagrado de Vida em seus peitos, os aldeões vão pensar que são aliados… eu acho?
Provavelmente vai dar certo.
“Finalmente te alcançamos!”
Depois de Vandalieu passar vários dias produzindo Lemures em massa e os posicionar em todas as vilas, o grupo de Kasim e o sacerdote o abordaram apressadamente. Eles estavam na Sétima Vila de Cultivo — o que estariam fazendo agora na Segunda?
“Eu não imaginava que você passaria por todas as vilas de cultivo…” disse Kasim.
“Volte, todos estão preocupados com você,” disse Fester.
“No dia seguinte àquele em que você levou Kyne voando, fomos até a Quinta Vila de Cultivo,” contou Kasim.
O amigo deles, que também viera do Ducado de Sauron, estaria seguro? E a pessoa que havia salvado suas vidas? O grupo de Kasim e o sacerdote, os quatro, correram até a Quinta Vila para descobrir.
Lá, encontraram Kyne e os outros aldeões discutindo onde deveriam construir um santuário para Vida.
“Depois disso, soubemos que você voou até outra vila de cultivo e corremos atrás de você… Sério, quem é você, afinal? Você é incrível demais,” disse Kasim.
“É isso mesmo; estávamos preocupados que você e Kyne tivessem caído em algum lugar pelo caminho, mas no fim das contas, você passou por todas as vilas de cultivo,” disse Fester.
“E fez feitos incríveis para salvar as pessoas em todas elas,” disse Zeno. “Estávamos nos perguntando se estávamos perseguindo um santo ou algo assim. Não é, sacerdote-sama?”
“Vocês estão absolutamente certos,” o sacerdote concordou. Ele usava uma expressão estranhamente tensa enquanto enxugava o suor da testa com a manga. Mostrava mais fraqueza humana do que quando usava seu sorriso forçado. “Anteontem, eu disse que devíamos buscar fazer boas ações juntos, mas talvez eu devesse estar pedindo por seus ensinamentos,” disse. “Como, em nome dos deuses, você curou todas as doenças dos aldeões, tratou uma queimadura que nem mesmo técnicas especializadas de cura dariam conta, e cavou um poço num piscar de olhos? Também ouvi dizer que doenças foram curadas por gotas sagradas produzidas por suas mãos. Por favor, me diga.”
Uau, eu fiz coisas incríveis, não fiz? Vandalieu pensou, agora que o sacerdote lhe fazia todas aquelas perguntas. Ele achava que chamar as gotas secretadas de suas garras de “gotas sagradas” era um pouco exagerado, no entanto.
Mas como responder? Ele não imaginava que conseguiria enganar o sacerdote dizendo que era poder de um Espírito Familiar, mas também não tinha intenção de contar a verdade.
Vandalieu decidiu contar uma parte da verdade, mas manter o resto em segredo.
— Eu possuo algumas habilidades especiais — respondeu.
O sacerdote e o grupo de Kasim arregalaram os olhos.
— Por habilidades especiais, você quer dizer, por acaso, Habilidades Únicas?!
Neste mundo, existem as Habilidades Únicas, como a habilidade God Slayer (Assassino de Deus) de Vandalieu. São vários tipos de talentos e poderes especiais, extremamente raros. Em termos de proporção, cerca de uma em cada dez mil pessoas possui uma.
O sacerdote e o grupo de Kasim entenderam errado, achando que as várias façanhas de Vandalieu tinham sido possíveis graças a alguma dessas habilidades especiais.
— Q-que tipo de habilidade seria essa?! — perguntou o sacerdote, inclinado para frente, empolgado.
Mas Vandalieu balançou a cabeça.
— Estou planejando me estabelecer como aventureiro, então não posso contar — disse.
— Não diga isso! Por favor, conte-me! — insistiu o sacerdote. — Eu guardarei seu segredo!
— Não pode, sacerdote-sama!
Kasim e seus amigos impediram o sacerdote de continuar a insistir.
— Para nós, aventureiros, ganhamos dinheiro com nossos corpos — disse Fester. — Forçar alguém a revelar suas habilidades é uma falta de ética.
— Isso mesmo — disse Zeno. — Entendemos sua curiosidade, mas tentar forçar o Vandalieu a contar suas habilidades depois dele salvar todos vai contra nossos princípios.
De fato, como disseram, as informações exibidas no status de um aventureiro são tanto as suas forças quanto suas fraquezas. Se o próprio aventureiro não quer revelar essas informações, tentar arrancá-las dele é como dizer: “Me conte suas fraquezas”.
Como Vandalieu declarou que seria um aventureiro no futuro, isso também se aplica a ele.
— É… verdade. Peço desculpas — disse o sacerdote. Segurando-se por Kasim e seus amigos, ele recuou relutante.
— Não tem problema. Só entenda isso — disse Vandalieu.
— Mas se você é capaz de tais coisas, acredito que existam muitos caminhos de emprego sem precisar se tornar aventureiro — disse o sacerdote.
… Por que Vandalieu via um olhar estranho e pesaroso no rosto do sacerdote? Duvidava que um sacerdote itinerante tivesse conexões para intermediar ofertas de emprego.
— Pode ser verdade, mas ainda sou inexperiente — disse Vandalieu. — Mesmo que entre para algum emprego, quero fazer isso depois de ser aventureiro, expandir meus horizontes e ganhar experiência.
Se fosse empregado por alguma família nobre ou comerciante, se tornaria um vassalo ou servo, e seria difícil conquistar uma posição na corte. Além disso, não poderia simplesmente desistir facilmente se as coisas ficassem complicadas.
Ele queria evitar isso.
— Entendo. Expandir seus horizontes é realmente importante — concordou o sacerdote. — Apesar da sua juventude, você já pensou nisso…
— É, pelo menos ele pensa mais no futuro do que o Fester — disse Kasim.
— Por que você me citou do nada?! — protestou Fester.
Com as coisas resolvidas sem precisar mentir (já que sua Magia de Atributo Morte era de fato uma habilidade), Vandalieu acompanhou Kasim e os outros de volta para a Sétima Vila de Cultivo de bom humor.
De repente, sentindo o corpo físico sem qualquer aviso prévio, Kaidou Kanata experimentou uma profunda sensação de satisfação e excitação.
Ele sentia força enchendo seus membros antes inertes, como se tivesse saído de um sonho, e podia sentir seu próprio coração batendo forte no peito, cheio de vida.
— Eu consegui! — gritou ao abrir os olhos, mas um momento depois soltou um berro. — EU ESTOU NU, DE QUALQUER FORMA!