Naturalmente, sindicatos do crime existem nas nações e cidades de Lambda.
Troca de mercadorias roubadas, contrabando de produtos como drogas e itens amaldiçoados, comércio ilegal de escravos, assassinatos por contrato… Eles são muito mais vis do que as Guildas de Ladrões que aparecem nas obras de fantasia da Terra, e alguns deles sequer podem ser considerados um mal necessário.
Um desses sindicatos do crime também existia na cidade de Niarki.
Uma organização com várias dezenas de membros: os “Presas das Noites Escuras.” Era um sindicato criminoso que vinha se aproveitando da crise econômica no Ducado de Hartner para lucrar com o tráfico de escravos e drogas.
Seu líder era um homem temido, conhecido como “Zagi, a Orelha Rasgada.” Quando jovem, ele foi torturado por uma organização rival, durante a qual suas orelhas foram rasgadas em pedaços — mas ele não soltou um único grito.
Zagi estava, naquele momento, encarando uma bela mulher de cabelos vermelhos e olhos vermelhos.
— Sua vadia… O que você quer? — ele rosnou.
Ele havia sido forçado a sentar-se num sofá dentro de sua própria base, que estava impregnada com o cheiro persistente de sangue. À sua frente estava uma criança de cabelos brancos, sentada no sofá oposto, e a bela mulher de pé ao lado dele.
Os capangas próximos de Zagi estavam caídos no chão, sangrando, ou encolhidos, tremendo nos cantos da sala, junto com as mulheres que serviam suas bebidas.
— O que eu quero é… — começou a criança.
— Eu não tô falando com você. Cala essa boca, seu pirralho de merda — Zagi o interrompeu, mantendo o tom arrogante. — Ei, Nee-chan, não sei que tipo de piada você tá tentando fazer, mas se achou que eu ia cair nessa de que esse moleque é seu mestre, se enganou. Não tem como uma mulher que acabou com meus homens num piscar de olhos estar servindo um pirralho desses —?!
A bela mulher de cabelos vermelhos agarrou a gola de Zagi e o ergueu no ar com uma única mão.
Estou sendo levantado com o braço fino de uma mulher?!
No momento seguinte, ela o jogou com força contra o chão.
— GAH?!
O impacto destruiu parte do piso. Zagi perdeu o ar e se contorceu de dor no chão. A mulher ainda deu um chute em seu abdômen.
Zagi soltou um grito, como se o último sopro de ar tivesse sido arrancado de seus pulmões. Quando ela se preparava para continuar o ataque, foi interrompida.
— Eleanora, acalme-se — disse a criança.
— Mas, Vandalieu-sama, criaturas inferiores que ousam falar de forma descuidada sobre você não merecem respirar — protestou a mulher. — Ele deve ser torturado e morto o quanto antes.
— Suas palavras se contradizem — apontou a criança. — Seria problemático se ele morresse. Vamos nos acalmar.
—… Sim. — A mulher olhou de volta para Zagi. — Você deveria ser grato pela gentileza de Vandalieu-sama, humano.
— Ah, não é bom usar a palavra “humano” desse jeito — disse a criança. — Eu, Eleanora, Zran, todos nós somos “humanos”, sabia? Todo mundo é humano.
— I-isso mesmo. Todo mundo é humano, todo mundo é humano… — repetiu a mulher, voltando-se novamente para Zagi. — Seja grato, seu lixo.
— Isso, isso mesmo — disse a criança.
Pelo diálogo dos dois — que estavam de mãos dadas acima de sua cabeça — Zagi, ainda lutando para respirar, finalmente entendeu: a criança realmente era o superior naquela relação. E, por dentro, sentiu alívio ao perceber que o garoto aparentemente não tinha a intenção de matá-lo imediatamente.
Considerando a força que Eleanora havia demonstrado, Zagi sabia que nem os membros e guarda-costas mais fortes das Presas das Noites Escuras — mesmo os que não estavam ali — conseguiriam enfrentá-la. Na verdade, ele podia ver dentro de seu campo de visão o guarda-costas mais competente da organização, um ex-aventureiro de Classe C, caído com uma espada cravada no estômago.
Agora que chegou a esse ponto, só me resta ganhar tempo até o Mestre chegar.
A única esperança de Zagi era que o verdadeiro “Mestre” do submundo de Niarki, aquele que sustentava a organização por trás dos bastidores, viesse até o local ao sentir a presença do seu familiar. Zagi estava certo de que ele viria.
A questão era: ele chegaria a tempo de salvá-lo… ou só encontraria seu cadáver?
— Guh… Então… qual é o seu objetivo? — perguntou ele à criança. — Alguém te pagou por isso? Quer drogas? Não me diga que isso é algum tipo de vingança?
— É a última opção: vingança — respondeu a criança. — Mas eu só estou agindo como agente.
O coração de Zagi quase desabou ao ouvir que era mesmo um ato de vingança. Mas então ele sorriu por dentro. Se o garoto era apenas um agente, havia chance de negociação.
Pessoas atrás de vingança normalmente têm um senso distorcido de perdas e ganhos. Um vingador movido por dinheiro ou luxúria não teria ido tão longe contra o chefe de um sindicato criminoso.
Porém, se ele fosse apenas um agente de vingança, a situação mudava de figura.
— Então o que você quer? Se for dinheiro, eu pago quanto quiser. Que tal vir pro nosso lado? — ofereceu Zagi.
— Não, pretendo pegar todo o seu dinheiro depois que eu te matar — respondeu Vandalieu.
— O quê—?! E-ei, espera aí! Você não disse que seu objetivo era vingança?!
— Isso mesmo. E planejo pegar seu dinheiro e sua organização junto.
A naturalidade com que Vandalieu disse isso fez Zagi estremecer. E se fosse verdade, significava que sua morte já estava decidida. Zagi simplesmente não conseguia entender.
— Espera! De quem você está atrás? Não houve algum engano? Eu admito que sou uma pessoa ruim, mas eu não mato sem motivo! Só faço o que preciso pra sobreviver! E muitas das pessoas que matei eram canalhas de verdade! No submundo, existem as chamadas virtudes do submundo—
— Se essas palavras forem mentiras, você vai conhecer o inferno, sabia? — disse Vandalieu, já quase certo de que eram mesmo mentiras. Afinal, ele já havia escutado várias coisas dos subordinados mortos de Zagi. — E quanto à vingança… Você se lembra de um bar chamado “Sonhos Escarlates”?
—… Do que você tá falando? — Zagi perguntou, confuso. Não fazia a menor ideia de nenhum bar com esse nome.
— Vim buscar a vingança de uma mulher que foi enganada por um bardo trapaceiro que cantava naquele bar, há quinze anos — respondeu Vandalieu.
— Q-quê?! Mas que porra é essa?! — Zagi arregalou os olhos, incrédulo. — Quinze anos atrás?! De uma prostituta enganada por um vigarista?! Por que caralhos você tá se vingando de algo tão inútil?! Que idiotice é e
— GEGOH?!
Eleanora desferiu mais um chute na lateral de seu corpo.
— Favor parar de fazer comentários descuidados, lixo — ela o advertiu.
Enquanto Zagi rolava no chão, vomitando sangue e bílis, Vandalieu falou novamente:
— Sobre o motivo… na verdade, esta tarde—
Algo grande estava para acontecer.
Dona Milan, uma espiritualista que ganhava a vida com adivinhações há muitos anos na cidade de Niarki, estava certa disso desde a noite anterior.
Era um presságio claro que qualquer um notaria, desde que possuísse os poderes básicos concedidos pela Profissão de Espiritualista que ela possuía.
— Então, você veio — disse ela, dirigindo-se ao cliente que havia aberto a porta de sua pequena loja. — Os negócios estão péssimos por sua causa.
— Como assim? — perguntou Vandalieu, a criança de cabelos brancos que acabara de entrar pela porta.
A expressão no rosto enrugado da Velha Milan mudou enquanto ela ria.
— Está questionando como eu sabia que você viria? Ou por que meus negócios estão ruins por sua culpa? Você saberia a resposta para ambas se pensasse com cuidado — disse ela. — Agora que todos os espíritos da cidade desapareceram, até os de ratos e insetos, o que uma Espiritualista como eu deveria fazer? E se você anda por aí com tantos espíritos assim, seria perceptível mesmo do lado de fora da cidade.
Os olhos da Velha Milan, os olhos de uma Espiritualista, podiam ver os incontáveis espíritos que cercavam Vandalieu. Eram muito mais do que centenas ou milhares — eles o rodeavam como um enxame de insetos.
Ela honestamente não conseguia compreender como o garoto à sua frente conseguia manter a sanidade.
— Alguns dos espíritos me disseram que você é conhecedora do passado — disse Vandalieu.
— Suponho que sim. Sou uma Elfa, então realmente tenho a idade que aparento — disse a Velha Milan, abaixando o capuz e revelando suas longas orelhas pontudas. — Não é que eu tente esconder isso. É só que uma velha misteriosa que está aqui há décadas atrai mais clientes do que uma simples elfa idosa, sabe?
Pelo visto, a atmosfera e a impressão deixada nos clientes eram importantes até mesmo para videntes em mundos de fantasia.
— Então, o que deseja me perguntar? Não sou uma corretora de informações, mas se for apenas sobre histórias do passado, eu faço barato para você — disse ela.
Aqueles com a Profissão de Espiritualista são capazes de realizar um pouco de adivinhação, ouvir as vozes dos mortos e ver espíritos. Além de conseguir descobrir quem cometeu um assassinato ou ouvir membros de organizações secretas que foram silenciados de maneira brutal, não é algo tão extraordinário.
Isso porque as memórias e personalidades dos espíritos se tornam instáveis com o tempo. Suas lembranças, exceto pelas obsessões em vida ou pessoas que odiavam, se dissolvem como se estivessem se desfazendo, até desaparecerem completamente.
Isso pode acontecer em questão de dias ou levar décadas.
E mesmo que mantenham suas memórias e personalidades da vida, não há garantia de que não mentirão. Houve tragédias no passado onde investigações criminais baseadas nas palavras de Espiritualistas resultaram na execução de pessoas inocentes. Não é incomum a vítima proteger o assassino, quando esse é um parente.
Mas como a Velha Milan era uma Elfa com expectativa de vida de quinhentos anos, ela própria se lembrava de muitas coisas do passado, e também recordava das histórias contadas por espíritos logo após suas mortes — mesmo que essas mortes tivessem ocorrido há muito tempo.
— Por favor, me conte o que aconteceu com a Princesa Levia de Talosheim e aqueles que estavam com ela, cerca de duzentos anos atrás — pediu Vandalieu.
— Por que você quer saber algo assim? Tem alguma ligação com aquela nação de Titãs?… Não, suponho que não vou perguntar — disse a Velha Milan.
— Eu não me importo em contar, sabia? — ofereceu Vandalieu.
— Melhor deixar quieto; esses espíritos ao seu redor estão me lançando olhares assustadores — respondeu a Velha Milan. — Pois bem… Acho que isso será desagradável de ouvir para você, mas escute e tente não se irritar.
Quando o túnel através da Cordilheira da Barreira foi descoberto, cerca de duzentos anos atrás, o chefe da família Hartner da época era um fanático por guerras, devoto fervoroso de Vida. Como Talosheim era uma nação de Titãs que acreditava em Vida, ele promoveu o comércio com ela de forma ativa.
Esse comércio trouxe riqueza ao Ducado de Hartner, melhorando sua reputação e fazendo com que o povo o elogiasse por suas políticas econômicas, mesmo tendo antes uma imagem de ducado grosseiro.
No entanto, o novo chefe da família que o sucedeu era um fervoroso devoto de Alda. Ele acreditava que quem concederia proteção divina em batalhas duras não seria Vida, que havia sido derrotada, mas sim Alda, o vencedor.
Ainda assim, não haveria problemas para Talosheim se o duque fosse de uma facção pacífica. Mas ele era, na verdade, um fundamentalista fingindo ser pacífico.
Contudo, não era apenas um fanático — como governante, ele possuía discernimento. Manteve o comércio com Talosheim enquanto este fosse lucrativo, apesar de sua repulsa pessoal.
Foi então que ocorreu a expedição da nação-escudo de Mirg a Talosheim. O chefe da família Hartner aproveitou-se disso. Quando Talosheim pediu reforços, ele arranjou desculpas, atrasou respostas e deixou os Titãs morrerem. Quando a Primeira Princesa Levia liderou cinquenta refugiados ao Ducado de Hartner em busca de ajuda, ele os enganou, fingindo que os acolheria.
Mandou envenenar seus guarda-costas e executou a princesa, acusando-a falsamente de tentar matá-lo e de planejar um golpe de estado para tomar o ducado. Ele então se apropriou dos tesouros nacionais que os Titãs haviam trazido consigo para impedir que caíssem nas mãos da nação-escudo — preciosos Itens Mágicos, como uma caixa que produzia produtos infinitamente.
Os Titãs restantes, apenas crianças e idosos, foram enviados como escravos criminosos para minas exploradas por trabalho forçado.
A cidade que servia de ponto de contato para o comércio com Talosheim, habitada por pessoas que conheciam bem a nação dos Titãs, foi abandonada. Já que o comércio havia cessado, a cidade não se sustentava mais como centro comercial — o que foi conveniente para ele.
Como o túnel havia sido selado, não havia preocupação de que a nação-escudo de Mirg fosse perseguir o ocorrido.
Como resultado, o Ducado de Hartner obteve os tesouros nacionais de Talosheim e uma força de trabalho equivalente a centenas de escravos Titãs — sem perder um único soldado para a nação de Mirg.
Considerando a alternativa de enviar reforços, lutar e perder para a nação-escudo, foi um lucro extraordinário.
— Mas duzentos anos atrás, Talosheim não deveria estar no lado da justiça na guerra entre o Reino de Orbaume e o Império Amid? — perguntou Vandalieu.
Se a história da Velha Milan fosse verdadeira, havia incoerências. No mínimo, com essa versão dos eventos, seria problemático considerar Talosheim como estando do lado da justiça.
Mas a Velha Milan apenas deu de ombros.
— Eu sou apenas uma Espiritualista, garoto. Apenas repito as palavras dos mortos. Investigar e tirar conclusões não é minha especialidade, tampouco minha função. Mas você está certo… — Ela fez uma pausa. — Os únicos que realmente sabem a verdade são a família do duque e seus assessores mais próximos, além de um número muito pequeno de governantes do Reino na época. É provável que tenham enganado o mundo com uma substituta da princesa. Pouco depois da guerra, devem ter anunciado que ela morreu de uma doença. É um método que até uma velha como eu pensaria.
Havia menos Titãs que humanos, mas ainda assim um número considerável deles vivia no Reino de Orbaume. Com algum esforço, não seria difícil preparar uma substituta.
E embora a Princesa Levia fosse conhecida por todos em Talosheim, o número de pessoas no Reino de Orbaume que sabiam como era seu rosto era limitado.
O povo seria informado de uma guerra grandiosa, onde ocorria, e que os refugiados foram “acolhidos e protegidos.” Todos ficariam satisfeitos com isso e não pensariam em investigar o que realmente aconteceu. Alguns anos depois, seriam enganados novamente com relação ao paradeiro da princesa.
Essa era uma conspiração possível, desde que várias figuras influentes trabalhassem juntas.
—… Então, os refugiados de Talosheim ainda estão nas minas? — perguntou Vandalieu.
A Velha Milan assentiu.
— Provavelmente. Titãs são resistentes, e apesar de serem oficialmente escravos criminosos, na verdade são mais como escravos ilegais, então devem estar sendo obrigados a trabalhar até hoje, sem o direito de viver nem de morrer — disse ela. — Talvez não os idosos, mas aqueles que eram crianças naquela época provavelmente ainda estão vivos, embora não todos. Pelo que ouvi de um dos espíritos que está perto de você, parece ser algo como uma vila de escravos administrada pelo exército.
Vandalieu refletiu por um momento antes de fazer outra pergunta.
—… Os Titãs que eram guarda-costas da Princesa Levia, onde foram enterrados?
— Vamos ver… Seria realmente incomum que um espírito com acesso a esse tipo de informação sigilosa viesse vagando até uma cidade remota como esta — disse a Velha Milan. — Mas existe um cemitério subterrâneo que seria o local ideal para esconder uma história tão sombria. Há uma lenda de que um dos Campeões selou ali uma parte do Rei Demônio. Dizem que, graças a ele, o mal não pode escapar desse lugar, até hoje.
— Onde fica isso? — perguntou Vandalieu.
— Em algum lugar debaixo do castelo do duque — respondeu a Velha Milan. — Tome cuidado.
— “Tome cuidado”? — repetiu Vandalieu. — Está dizendo isso como se soubesse que eu vou até lá.
A Velha Milan soltou um suspiro exasperado.
— Como pode ver, estou nesse ramo há muito tempo — disse ela. — E só de olhar os espíritos ao seu redor, posso ver que está lutando para conter sua raiva.
Exatamente como ela havia apontado, Vandalieu estava à beira de explodir de fúria. Os espíritos próximos tremiam de medo diante de sua ira.
Se a história da Velha Milan fosse verdadeira, como ele poderia permanecer calmo? Como não amaldiçoar os eventos do passado?
Ele até sentia o impulso assassino de sair e começar a despedaçar indiscriminadamente tudo o que visse pela frente.
Mas seu lado lógico o convenceu de que isso não o faria feliz — nem teria sentido algum.
Era verdade que o povo do Ducado de Hartner havia abandonado os refugiados de Talosheim, explorando-os. Ninguém — nem mesmo a velha elfa diante dele — tentou defendê-los na época.
Mas o Reino de Orbaume também era uma nação feudal. Um cidadão comum não pensaria em iniciar movimentos políticos. E praticamente ninguém ainda estava vivo para saber das circunstâncias reais de duzentos anos atrás. Não havia internet, nem jornalistas em Lambda. Os meios de comunicação eram escassos, e os métodos de viagem também limitados.
E quanto à punição, a mentalidade de Talosheim — compartilhada por Nuaza, Borkus, Zran e os outros Titãs — era de que “os pecados dos pais não são os pecados dos filhos.” Vandalieu também concordava com isso.
Seria errado punir os que estão vivos agora pelos pecados cometidos nos eventos de duzentos anos atrás.
Pelo menos… pelos pecados de duzentos anos atrás.
Vandalieu expirou lentamente.
—… Mais uma pergunta. Se alguém atacasse a mina escravista e todos os escravos desaparecessem, alguém investigaria. Você pode me vender informações sobre quem faria essa investigação?
O que precisava ser feito agora não era acusação ou retaliação, mas sim libertar os Titãs que foram transformados em escravos. Vandalieu não se importava com as leis daquela terra.
Mas ele não os libertaria apenas. Precisava convencê-los a ir para Talosheim. Precisava aumentar seu poder e apoio, atacar com força suficiente para parecer exagerada e enganar o Duque Hartner e seus subordinados, fazendo-os acreditar que aquilo foi apenas um acidente.
—… Não. Valorizo minha vida mais do que algumas moedas — disse a Velha Milan. — E por preocupação, vou lhe dizer que a vingança é… Não importa. Essas palavras não passam de um ideal irreal. Eu também aprendi isso logo depois de começar a ver espíritos.
A ideia de que os mortos não desejam nada, ou de que só querem que os vivos sejam felizes, não passa de uma ilusão tola.
Existem espíritos que seguem esse ideal irreal, mas se aqueles que odiavam em vida caírem em ruína, eles riem e se sentem genuinamente felizes, do fundo do coração. A Velha Milan sabia que tais espíritos existiam.
A ideia de falar sobre esse ideal a Vandalieu, de todas as pessoas, era quase cômica.
— Eu partirei da cidade amanhã. Há algum tipo de recompensa que gostaria? — perguntou Vandalieu, como se nada tivesse acontecido. Ele havia conseguido conter sua raiva.
— Pagamento pela informação? Apesar da aparência da minha loja, eu tenho economias — disse a Velha Milan.
— Tenho o suficiente para me aposentar e viver o resto dos meus dias, mas… Vamos ver, posso te pedir um favor?
Com todos os espíritos da cidade seguindo Vandalieu, seu ofício como Espiritualista estava condenado. Por isso, a Velha Milan já havia decidido fechar sua loja por um tempo. Até pensava em se mudar para outra cidade, dependendo de como as coisas se desenvolvessem.
Foi por isso que decidiu expressar o único arrependimento que ainda carregava no canto da memória.
— Na verdade, sabe… Isso foi há uns quinze anos. Uma de minhas clientes se envolveu com um bardo que cantava num bar chamado “Sonhos Escarlates.” Eu disse a ela que ele era um trapaceiro e a avisei para desistir dele, e ela disse que terminaria com ele, mas…
— Três dias depois, o espírito da mulher aparentemente voltou com uma expressão triste e desapareceu logo em seguida. A velha me contou que queria saber a verdade sobre essa mulher. E então ouvi de uma fonte confiável que você é o responsável por isso — explicou Vandalieu.
O corpo de Zagi não conseguia parar de suar de puro terror.
Em outras palavras, esse pirralho que eu nem conheço direito está prestes a fazer alguma loucura nesse ducado. E ele simplesmente decidiu nos matar no processo?!
— Não, na verdade muitos de vocês ainda estão vivos — disse Vandalieu. — Tirando seus guarda-costas, só algumas pessoas morreram. Os outros estão apenas sangrando um pouco, mas seus corações ainda estão batendo.
Esse cara acabou de ler minha mente?!
Zagi estava tão atônito que nem conseguiu falar. Mas, na verdade, o espírito de um de seus guarda-costas havia dito alegremente a Vandalieu:
— Ele provavelmente está pensando algo assim. Que idiota, né?
— Então, você se lembra dela? — perguntou Vandalieu.
Zagi não respondeu, mas de fato tinha uma ideia do que Vandalieu estava falando. Para ser mais específico, ele lembrara enquanto Vandalieu falava.
Foi há quinze anos, quando Zagi ainda estava no fundo da hierarquia da organização. Mesmo naquela época, ele já era “abençoado” com tendências cruéis, talento para o crime e uma boa dose de sorte. Até o chefe da organização da época se lembrava dele.
Um dos trabalhos que lhe haviam sido confiados era punir um bardo viajante que estava enganando pessoas e tirando dinheiro delas sem pagar tributos à organização.
No entanto, Zagi permitiu que o trapaceiro escapasse por pouco. Para encobrir sua falha, ele sequestrou a mulher que o bardo tinha como alvo, a matou de forma inimaginavelmente brutal e jogou o cadáver no quarto que o bardo usava.
Ele matou a mulher de forma cruel e fez parecer que o bardo fugira em pânico.
Também subornou seus companheiros. Pegou o dinheiro da mulher, entregou ao chefe e disse que era a compensação do bardo. E com isso, o incidente deveria ter sido encerrado.
S-se eu contar a verdade aqui, vou morrer! Maldição, como se eu fosse morrer por causa daquela mulher que ninguém liga!
— Eu não sei, deve ter sido outra pessoa… Provavelmente aquele guarda-costas morto ali — disse Zagi. — Ele era um maluco que adorava matar mulheres, sabia?
— Mentira! Eu matei umas cinco pessoas, mas eram todos homens! — gritou o espírito do guarda-costas.
Embora Zagi estivesse fazendo de tudo para sobreviver, seus esforços eram inúteis e até um pouco cômicos para Vandalieu, que podia ver os espíritos.
Droga, o Mestre ainda não chegou?! Ah!
A porta foi escancarada com força. Um homem de olhos vermelhos e pele branca entrou, junto com um Titã com o rosto coberto por uma máscara negra e várias pessoas de aparência pequena.
— Mestre! Obrigado por vir!
O Vampiro que liderava o grupo era um espião enviado pelos Vampiros de Sangue Puro que adoravam Hihiryushukaka, o Deus Maligno da Vida Alegre. Era ele quem dava apoio a Zagi.
Ao se tornar cão desse Vampiro, Zagi pôde agir como uma figura poderosa no submundo dessa cidade de dez mil habitantes, sem que outras organizações ganhassem força.
Zagi nunca tinha visto o Titã nem os pequenos homens que acompanhavam o Vampiro, mas presumiu que fossem subordinados dele.
— Então, Mestre, mate esse pirralho de merda e a vadia dele! Eu vou te pagar esse favor com certeza! — gritou Zagi.
— Zagi… você sempre foi um homem leal, me serviu bem. Eu te valorizava muito…
O Vampiro se aproximou de Zagi, como se fosse atender ao pedido. Mas então, passou direto por Vandalieu e Eleanora e olhou diretamente para Zagi.
— SEU DESGRAÇADO DE MERDAAAA! NÃO OUSE FALAR MAL DESSAS PESSOAS! — ele rugiu, cravando a sola dura da bota no peito de Zagi.
— GUAAAAAH! — Zagi gritou ao ouvir suas costelas se partirem. — M-Mestre, o que você—?!
Foi então que ele percebeu que as roupas do homem que chamava de ‘Mestre’ estavam manchadas de vermelho escuro.
— Ainda tenho planos para ele, então deixe assim — disse Vandalieu.
— Sim… Goshujin-sama — respondeu o Vampiro, abaixando a cabeça respeitosamente diante de Vandalieu e beijando seus pés.
Ao ver isso, Zagi finalmente entendeu tudo. A “fonte confiável” que Vandalieu mencionara antes era esse Vampiro morto-vivo.
Sua última esperança havia sido aniquilada antes mesmo do ataque à sua organização começar.
— I-isso… isso não pode estar acontecendo… Só porque eu matei aquela mulher que ninguém se importa, uma qualquer que se acha em qualquer lugar… minha organização… eu estou…
Com a esperança destruída, Zagi começou a murmurar para si mesmo, com uma expressão mais parecida com a de um cadáver do que de um vivo.
Vandalieu o olhou com perplexidade.
— Do mesmo jeito que ela era o tipo de mulher que se acha em qualquer lugar, alguém que você não se importava em matar… você é o tipo de vilão que se acha em qualquer lugar, e eu também não me importo em te matar — disse ele. — Não é assim que as coisas são?
E assim, Zagi, o chefe das “Presas das Noites Sombrias”, morreu.
Mas no dia seguinte, ele foi visto com perfeita saúde, ainda dando ordens aos seus subordinados.
Zagi, cuja personalidade agora era estranhamente alegre, passou a governar o submundo com muito mais competência do que antes. Levaria algum tempo até que as ações de certo aventureiro revelassem que ele era, na verdade, um Morto-Vivo.
— Rei, eu finalmente consegui uma namorada! — anunciou Braga.
— Hein? Quando isso aconteceu?