As folhas caíam do choupo, e dançavam no ar. As crianças perseguiam-nas, rindo alegremente A sua alegria se espalhou pela escola, a sala de aula inclusa, e Roy encostou-se na parede fina, olhando para o pentagrama incompleto na sua manga, seu rosto carrancudo destacando-se como um polegar machucado.
Vivien se aproximou dele. “Ontem não estava me sentindo muito bem, por isso não te pedi para ficar depois das aulas. Por que não te ajudo com a sua revisão depois das aulas?”.
Roy acenou com a cabeça, mas ele ainda parecia tenso, e não ouviu muito bem o que ela tinha acabado de dizer.
“Oh, certo. A Sra. Cardell quer que a veja na sua sala”, disse Vivien.
…
“Como se sente em relação à escola? Está se dando bem com as outras crianças? E quanto à sala de aula? Algo que precise ser melhorado?” Cardell pôs as mãos sobre a mesa e olhou para Roy, que estava sentado em frente a ela. Os seus olhos estavam cheios de encorajamento, mas as suas expressões faciais faziam parecer que ela estava interrogando-o.
“Acho que está tudo bem”, ele respondeu honestamente. “Especialmente a Senhorita Vivien, ela tem feito um grande esforço. Eu não estaria melhorando tão rápido se não fosse por ela. Ah sim, Senhorita Cardell, tenho uma pergunta”. Roy fez uma pausa. “Será que a Senhorita Vivien tem um irmão?”
Cardell balançou a cabeça. “Não, ela só tem um pai que é um bêbado e uma mãe que é mentalmente doente. Eles dependem dela por causa do dinheiro, e por causa disso, ela nunca se casou”.
“Isso só se acrescentou às perguntas de Roy. Não foi isso que Vivien lhe disse ontem; “Achava que ela tinha um irmão, isso explicaria o por que ela cuida tanto de mim. Talvez ela pense em mim como seu irmão”.
Cardell balançou a cabeça seriamente. “Roy, Vivien tem me ajudado com a escola há uma década. Vejo ela como minha própria filha, e conheço-a muito bem. Ela não tem irmãos e se preocupa com todos os estudantes. Vivien está prestando mais atenção em você porque é um novo estudante”.
Roy não perguntou mais nada, como se aceitasse a explicação. Cardell acariciou sua cabeça e sorriu. Alguns dos meninos da escola gostavam da jovem e bela Vivien. Eles fantasiavam com ela dando-lhes um tratamento especial, e ela pensava que Roy era um deles.
“Roy, você tem potencial. Completou dois meses de estudos em duas semanas. Isso é melhor do que todos os outros, talvez se gradue como orador em alguns anos. Vou desenhar o seu retrato e colocá-lo aqui, como uma forma de te imortalizar e encorajar as futuras crianças a serem como você”.
Cardell abriu a gaveta da sua escrivaninha e tirou alguns retratos emoldurados para Roy ver. Eram pinturas a óleo realistas que retratam jovens garotos e garotas. Roy olhou para os retratos, e congelou enquanto olhava para um deles.
“Helheim, graduado no dia 20 de dezembro do ano 1259”.
O retrato era de um garoto na sua adolescência. Ele tinha cabelo preto e sardas no nariz. O rapaz parecia normal e esquecível o suficiente numa multidão, se não fosse a cicatriz feia debaixo do seu olho direito. Roy tinha certeza de já ter visto o menino antes, mas não conseguia se lembrar de onde. “Onde os oradores trabalham?”
Cardell tinha um olhar orgulhoso depois de Roy lhe ter perguntado isso. “Sou eu que mando em algumas coisas em Ardirn, eles são talentosos, mas precisam de treino, por isso os recomendo a outras cidades como Lyria, Rivia, Alta Posada, Baixa Posada, e até Vengerberg. A maioria deles trabalha no mundo literário. Alguns se tornam historiadores, alguns escribas, alguns bibliotecários”.
Roy fingiu ter um olhar de desejo em seu rosto, mas achou que Cardell estava mentindo. Essa escola não era tão simples como parece, eles têm outro motivo.
…
Vivien estava explicando algumas palavras complexas a Roy depois da escola quando um homem desgrenhado, gordo e de meia idade entrou na sala de aula. Parecia uma almôndega de tamanho humano que usava uma camisa escura e castanha encharcada com licor e restos de comida. O seu cabelo estava bagunçado e oleoso, era evidente que já não o lavava há algum tempo. Ele cheirava a mofo e parecia um mendigo.
Mancou até eles e olhou desconfiadamente para Roy antes de se virar para Vivien e estender a mão. “Por que não voltou para casa ontem à noite, Vivien? Dê-me o dinheiro”, ele exigiu. “Estou sem bebida”.
Vivien ficou na frente de Roy, puxando-o para trás dela, seu olhar gentil foi substituído por um de raiva. “Não tenho dinheiro para você”.
“Sua garota maldita, você gastou tudo? Sabe que deveria deixar um pouco para mim”. O homem franziu as sobrancelhas. Ele mostrou seus dentes amarelos e cuspiu no chão. “Me traga o dinheiro de volta amanhã, ou então…”, ele ameaçou antes de partir, murmurando algo sob sua respiração.
“É o seu pai?” Roy perguntou cuidadosamente, ele notou que Vivien não parecia muito feliz.
“Sim, ele é o meu pai, Bob”, respondeu Vivien calmamente. “Ele é assustador, não é?”
“Bem…” Roy não achou apropriado criticar os pais de outra pessoa. “Talvez ele só esteja agindo assim porque está bêbado”.
“Não se preocupe, pode falar o que quiser dele. Aquele homem nunca esteve sóbrio em toda a sua vida, e não se preocupa com a sua família. A primeira coisa que faz quando acorda é beber, e ele só dorme se estiver bêbado”. Vivien parecia acostumada com as ações do seu pai, ela nem ligava mais nesse ponto. Vivien parecia que estava conformada com isso. Qualquer pessoa com um pai assim é apenas azarada, muito azarada. “Bob nunca fez o seu trabalho como pai, ele nem sequer se importa com o seu filho desaparecido”.
O seu filho? O irmão de Vivien? Aquele que a Cardell disse ser inexistente? Roy olhou de forma estranha para ela. “O que é que está acontecendo, Vivien? Pode me falar sobre isso?” Como ele precisava persuadir ela, Roy acrescentou: “Tenho vivido seguindo um bruxo por aí há algum tempo. Para ser preciso, o meu professor é um bruxo da Escola da Víbora, ele me ensinou formas de lidar com acontecimentos estranhos e bizarros. Talvez eu possa te ajudar”.
“Isso é verdade?” Ela levantou uma sobrancelha, duvidando do que Roy tinha acabado de dizer. “Pelo o que vejo, a forma e cor dos seus olhos são diferentes daqueles bruxos”.
“Porque eu ainda sou um discípulo, e eu não passei no Teste das Ervas, por isso não sou mais forte do que um humano comum”. Roy então falou da sua jornada com Letho.
Vivien permaneceu calada durante algum tempo. “Muito bem então, Roy. Confio em você, embora ainda não entendo por que é que um aprendiz de bruxo está trabalhando numa barraca de ervas no mercado. Como está disposto a me ouvir e tem experiência, posso te contar o que aconteceu. Pelo menos não vai me achar louca”. Ela respirou fundo, “Mas é incrível, sequer posso ter certeza de como meu irmão se parece, sua idade ou até mesmo onde ele está nesse momento”. Ela riu para si mesma, e parecia estar dividida. Até ela mesma achava que era ridículo.
“Todos acharam que eu tinha ficado louca quando falei a eles pela primeira vez sobre meu irmão. Nunca ninguém tinha o visto, nem a Senhorita Cardell, nem nenhum dos meus alunos queridos. Ninguém se lembra que eu tenho um irmão, tentei provar àquele bêbado que ele tinha um filho, mostrando a ele roupas de menino que estavam por perto, mas ele disse que eu tinha um filho bastardo. A minha mãe não sabe do que eu estou falando, foi então que eu percebi que todos achariam que eu havia sido possuída por um demônio se continuasse falando disso. Eles iam me queimar na fogueira, desde então, mantive isso em segredo e segui minha vida normalmente. Já se passaram dois anos desde então”. Vivien voltou a ficar calada.
A sua explicação só aumentou as perguntas de Roy. “Isso é estranho, Vivien, se ninguém se lembra dele, então como pode ter certeza de que tem um irmão?”
“Porque eu tenho provas. Eu te disse que tinham roupas que pertenciam a um menino em minha casa. Eu poderia te mostrar, mas aquele bêbado queimou todas elas”. O arrependimento brilhou em seus olhos, depois ela se resolveu. “Além disso, desde que comecei a trabalhar com a Senhorita Cardell, tenho o hábito de registrar a minha vida no meu diário de duas em duas semanas ou uma vez por mês. É por isso que eu fiquei com uma impressão disso, seja em casa, na escola ou nas ruas. Já se passaram dez anos”. Ela parou por um momento. “Eu lia o meu diário de vez em quando, estabeleci uma meta para mim. O meu sonho é se tornar alguém respeitado e amado como a Senhorita Cardell algum dia, por isso eu corrigia minhas ações inapropriadas depois de ler o meu diário”.
“Mas você já fez isso, Vivien. Todos na escola gostam de você, e até seus pais gostam”, respondeu Roy com seriedade. Ele pensou que Vivien estava sendo muito dura com si mesma.
“Não, eu ainda tenho um longo caminho a percorrer”. Ela sacudiu a cabeça e olhou para o céu. “Quando eu vi o meu diário, há dois anos, encontrei alguns registros estranhos”. Ela parou, mas depois disse solenemente: “Além de mim, aquele bêbado e minha pobre mãe, havia outra pessoa em minha casa”.
Roy sentiu arrepios na sua pele, pois a história de Vivien tinha tomado um rumo sinistro. Ela tirou o seu colar, o pressionando para abrir. Ela tirou um pedaço de papel enrugado e o colocou. Tinha o tamanho de uma palma, e sobre ela estava um desenho simples de duas pessoas. Uma delas era mais alta do que a outra, e estavam de mãos dadas. À esquerda estava uma senhora alta, e à direita um menino com as bochechas vermelhas. Estavam radiantes, e os dois pareciam próximos; obviamente eram irmãos.
“Depois encontrei um monte de roupa para meninos em minha casa. As roupas são muito mais pequenas do que o bêbado poderia aguentar, e há também esse desenho esquisito no meu colar. É por isso que tenho certeza de que tenho um irmão. Mas por alguma razão desconhecida, eu não consigo me lembrar dele”. Vivien parecia frustrada e confusa, e ela só continuou depois de algum tempo. “Esse sentimento ficou mais forte quando te ajudei nas favelas. Eu sei que você e ele devem ser muito parecidos. Apesar de não saber como ele é, tenho a sensação de que ele existe.
Oh, isso explica porque ela é tão simpática comigo, embora fosse a primeira vez que nos encontramos. Mas Roy ainda achava que algo estava errado. Ele decidiu seguir a história dela para descobrir o que estava acontecendo. “Me desculpe, Vivien, mas posso ver essa parte do diário?”
“Claro que sim, me pergunte se encontrar palavras que não conheça. Eu posso explicá-las”. Vivien parecia tensa, e sussurrou com cuidado: “Mas não conte a ninguém sobre isso antes de termos qualquer prova definitiva. Isso é para o seu próprio bem, entendido?”.