À noite, Angor avisou Trusan que sairia novamente por alguns dias. Depois de lhe entregar algumas moedas, ele partiu.
Ele havia ido a Água Grasse apenas para comunicar sua partida a Trusan. Precisava encontrar Sombra naquela noite no Covil dos Mortos, na Floresta Oca.
Antes que pudesse zarpar em seu barco, outra embarcação solitária aproximou-se lentamente da mansão.
Angor parou e observou o rosto marcado pelo tempo sob o luar, bem como os cabelos prateados do visitante, que se moviam com a brisa noturna.
“Faz apenas alguns dias, e você parece pior do que antes, Conde Leonrick.”, disse Angor.
Era Leonrick. Aos olhos de Angor, aquele homem de meia-idade, antes cheio de vigor e energia, havia se transformado em um ancião doente e enrugado, como se estivesse chegando ao fim de seus dias.
Leonrick pousou o remo e ergueu o olhar lentamente.
“Senhor Máscara…” Até mesmo sua voz soava distante e rouca.
“Você veio sozinho; isso significa que está preparado para enfrentar o pior?”
Leonrick balançou a cabeça e soltou uma risada impotente. “Passei esses dias pensando no que fazer. Eu… não posso usar as vidas dos meus cidadãos para buscar algo incerto.” O homem baixou a cabeça, triste, e disse: “Mas eu quero saber quem fez isso. Sempre que tentava dormir, via Margot me amaldiçoando por não ter sido um pai capaz. Aqueles que perderam suas sombras… todos eles vinham aqui para cuspir sobre o meu fracasso como líder da cidade deles.”
“E aqui estou eu, quando já não suporto mais a tortura. Não, não vou ofender o grande Mago. Mas será que posso, pelo menos, saber quem ele é?”
Angor olhou para o homem que chorava à sua frente e conseguiu compreender, até certo ponto, os seus sentimentos. Tratava-se de um dilema entre o ganho pessoal e a prosperidade da cidade; o Conde Leonrick decidira optar pela segunda alternativa, sacrificando a própria filha juntamente com os outros pacientes.
Angor refletiu sobre a questão e concluiu que, se estivesse na mesma situação, teria escolhido o “ganho pessoal”. Ele era diferente de Leonrick, que tinha a responsabilidade de cuidar de uma grande cidade e precisava fazer uma escolha honrosa na qualidade de líder de muitos.
“Posso lhe dizer um nome agora, já que cruzei com ele recentemente.”, disse Angor. Ele não via problema algum em expor a privacidade de Sombra.
“O que ele quer com as sombras?”, perguntou Leonrick. Essa era a sua maior preocupação, pois encontrar a resposta poderia ajudar as vítimas.
Angor tentou organizar as palavras.
“Geralmente, classificamos os criminosos em três tipos: aqueles que são forçados a cometer crimes, aqueles que não conseguem controlar as próprias ações e…” disse ele, tocando a têmpora com o dedo “…aqueles que têm algum problema no cérebro.”
“Quer dizer… loucura?” Leonrick ficou confuso.
“Os loucos também devem ser considerados pessoas que não conseguem se controlar. Estou falando de indivíduos que não têm problemas mentais, mas que cultivam ideias totalmente distorcidas. Você pode chamá-los de aberrações ou de pervertidos antissociais. Quanto ao motivo… Por que um pervertido mataria pessoas? Esses indivíduos tendem a insistir em uma disciplina específica para satisfazer suas obsessões doentias.”
Como alguém que conseguira recuperar uma cidade inteira, Leonrick rapidamente entendeu a dica de Angor. “Disciplina… Cabelos loiros e olhos azuis, senhor?”
Angor assentiu. “Um excêntrico obcecado por cores de cabelo e olhos; alguém que coleciona sombras para um ritual baseado em suas próprias crenças.”
“Então… o que acontecerá com as sombras?”
“Talvez se tornem parte de sua coleção, presas em baús e armários, como troféus de alguém que gosta de colecionar coisas estranhas que não deseja compartilhar com ninguém.” Leonrick entrou rapidamente em desespero ao ouvir aquilo. Ele imaginou que poderia ajudar o mago misterioso a resolver qualquer problema existente em troca das sombras roubadas, mas não havia como persuadir um “pervertido” por meios convencionais.
Leonrick lembrou-se dos rumores sobre magos, que, em sua maioria, os descreviam como aberrações de natureza estranha, propensas a incendiar cidades e vilarejos por motivos insignificantes… Então, ele olhou para Angor. Sentiu-se aliviado ao perceber que aquele jovem mago tinha um caráter melhor, visto que Margot e Tyrael haviam recebido apenas punições brandas por suas infrações.
“Mais alguma coisa que você queira saber?” Angor perguntou.
“Pode me dizer o nome dele, senhor?”
Com um estalar de dedos, uma ilusão envolveu ambos, e a imagem de Sombra surgiu diante de Leonrick.
“Este é o homem que você está procurando,” disse Angor enquanto apontava para a imagem de Sombra. “Não sei o nome verdadeiro dele, mas ele usa o codinome ‘Sombra’.”
Leonrick ficou aterrorizado com a figura que surgiu repentinamente diante de seus olhos. No entanto, acalmou-se rapidamente ao examinar o indivíduo com mais atenção.
Sombra tinha uma aparência bastante apresentável para os padrões comuns. Possuía cabelos curtos e escuros, num tom que lembrava café, traços faciais marcantes e distintos, além de sobrancelhas vivas e oblíquas que se estendiam até as costeletas.
Para Angor, contudo, Sombra não passava de um rufião mal-educado, apesar daquela aparência atraente.
“Um último aviso para você. esse homem é muito poderoso. Sugiro que fique longe dele a todo custo. Duvido que uma “aberração” dessas lhe dê qualquer chance de diálogo.”
Com isso, Angor se afastou.
Leonrick observou as costas de Angor com um olhar suplicante. Ele desejava poder pedir ao jovem mago que ajudasse seu povo, sua filha.
Mas não podia.
Angor suspirou novamente ao sentir a melancolia do Conde Leonrick.
…
A lua pairava no alto, sobre a cabeça de Angor, quando ele chegou ao local do encontro.
As árvores da Floresta Oca cresciam rapidamente, absorvendo os nutrientes de todos os cadáveres enterrados no subsolo, e bloqueavam qualquer luz, fosse dia ou noite.
Angor lançou a magia “Luz” e saltou para dentro do Covil dos Mortos.
O Campo de Purificação em sua cartola bloqueava todos os odores de podridão. Angor caminhou pelo caminho escuro, repleto de corpos despedaçados e larvas que se contorciam, até finalmente chegar à pequena câmara de pedra onde estivera uma semana antes.
“Finalmente. Como eu esperei por você.” Sombra sorriu. Havia oito marionetes paradas atrás dele, todas exibindo um sorriso sinistro em seus rostos pálidos.
“Vamos começar agora mesmo?”
“Sim. Siga-me. O círculo mágico fica um pouco mais à frente.”
Sombra assumiu a liderança, enquanto todas as marionetes os seguiam.
Angor pensou que o que vira da última vez era a área completa da câmara. Em vez disso, Sombra o conduziu em direção a uma pequena abertura lateral.
Lá dentro, havia um cheiro ainda mais intenso de imundície e uma escuridão infinita.
“O antigo círculo mágico, perdido há dez séculos, está bem al.i”, disse Sombra, entrando primeiro na pequena abertura.
Angor percebeu que a aura terrível que emanava daquela pequena passagem era a mesma que sentira vindo do Sombra pela manhã; isso significava que Sombra passava seu tempo ali dentro.
O caminho escuro já não cheirava a cadáveres, mas algo dizia a Angor que aquele lugar era ainda mais imundo do que a mistura de corpos e larvas. Seu Campo de Purificação não conseguia eliminar totalmente aquela sujeira avassaladora.
“Esse seu chapéu vai te render pelo menos alguns milhares de cristais se você vendê-lo na Cidade Mecânica Flutuante.”, disse Sombra. Ele parecia estar com inveja novamente. “Será que a Caverna Brutal te considera um aprendiz de elite ou algo do tipo? Não me lembro de eles treinarem aprendizes dessa maneira. Eles sempre deixam os recrutas fazerem o que bem entendem… Ou talvez você venha de algum clã de magos ricos?”
Em vez de responder a essas perguntas, Angor apontou para as marionetes que os seguiam. “O que você vai fazer com elas depois de meio mês, quando seu plano terminar?”
Sombra deu de ombros. “Vou deixá-las ir, é claro. Não posso levá-las de volta para a Cidade Mecânica Flutuante. Bem, a menos que eu encontre alguém tão encantador quanto você; nesse caso, eu trocaria qualquer coisa pela chance de levá-lo para casa, mesmo que isso significasse levar uma surra do meu mestre.”
“Como assim? Achei que você fosse matá-las depois de terminar…”
“Ha. Não tenho interesse em intimidar esses fracotes.”
“Meu próprio mestre uma vez me disse que até o cachorro mais fraco pode ter o seu dia de glória. Quem sabe? Talvez um deles se torne extremamente forte no futuro e você acabe sendo o inimigo dele.”, disse Angor, lembrando-se dos romances aleatórios que lera no tablet holográfico. Aqueles que pareciam fracos no início geralmente acabavam se tornando figuras poderosas mais tarde.
“Sabe de uma coisa? Concordo. Mas isso não vai acontecer tão facilmente no mundo mafo, onde os fracos são rapidamente devorados pelos fortes.”
Após percorrerem o terrível caminho por cerca de dez minutos, finalmente chegaram a outra câmara escondida.
Angor imediatamente sentiu uma energia estranha emanando dos padrões desenhados sob seus pés.
Ele já estava bastante familiarizado com matrizes mágicas e podia ver que a sala tinha uma matriz típica, ativada. Não conseguia determinar o nível ou o efeito exato, mas os padrões antigos sugeriam que se tratava de algo de tempos muito remotos.
“Você consegue ver alguma coisa?” Sombra percebeu que Angor estava inspecionando a matriz. No entanto, não acreditava que o jovem aprendiz pudesse realmente decifrar uma matriz mágica tão complexa. Um alquimista dessa idade, no máximo, conheceria algumas runas simples.
“Está aqui há pelo menos dez mil anos”, disse Angor.
“Como você sabe?”
“Os desenhos são primitivos. Quem criou isso nunca aprendeu sobre a ‘Regra da Tri-Interseção de Bental’. Há muitos pontos que podem ser simplificados, como este canto aqui. Não sei o que isso faz, mas posso dizer que este canto está exagerado. A maioria dos livros de alquimia ensina como corrigir isso. Você pode usar o ‘Método das Seis Sobreposições’ para desenhar uma linha reta simples aqui sem desperdiçar mana ”, explicou Angor lentamente, apontando para uma pequena borda dentro da matriz.
“Você… aprendeu sobre matrizes mágicas?” A boca de Sombra se abriu em espanto. Ele não sabia se Angor estava certo, e era isso que tornava aquelas palavras tão incríveis.
“Não. Mas eu vi isso em um livro antes.”
Sombra respirou fundo e olhou para Angor com uma expressão mais séria.
“Há mil anos, quando os Krakoks sofreram um terrível desastre, um mago do Castelo das Trevas veio e ativou este portal para levar os Krakoks para o ‘Mundo Médio’, onde eles desfrutaram de vidas pacíficas.”