Apocalypse Hunter – Capítulo 98

A Guerra em Shane (3)

Matar alguém com apenas uma maldição era muito difícil.

Mas, se você estabelecer um tabu e permitir que o Céu puna aqueles que o violaram, às vezes pessoas morrem. Assim como uma maldição e um tabu eram diferentes, também era uma maldição e uma punição do Céu.

*Bang!*

— Argh!

— O-o que? Qual o problema?

Uma bala perdida acertou um dos membros da gangue e outro tiro explodiu e arrasou os olhos de um menino que estava mirando com sua arma.

Havia infortúnios demais acontecendo na mesma hora para pensar que era apenas um defeito no equipamento.

As crianças atirando em civis sentiram um vento frio estranho cercando elas.

*Whirl!*  *Bang!*

— Ahh!

— O-o que…

Uma rajada de vento, aparentemente vindo do nada, jogou uma pedra de cima do telhado de um prédio abandonado e que caiu na cabeça de um menino. Vendo o companheiro morto com uma cabeça quebrada fez as crianças largarem suas armas e tremerem de medo. As crianças que mataram inocentes estavam caindo mortas em todo lugar.

Encarando muitas coisas horríveis acontecendo ao redor delas, as crianças se lembraram da voz do vento que sussurrou em seus ouvidos.

— O-o quê?… poderia ser por causa daquele sussurro?

— Não tem jeito… não poder ser…

As crianças estavam tentando ignorar a vozinha chata presa na cabeça deles. Elas mataram muitas pessoas inocentes e agora a punição estava vindo. Cada uma das crianças espalhadas por toda Shane estava confusa.

Elas não compreendiam totalmente o que estava acontecendo, mas o que estava claro era que foram amaldiçoadas. Do nada, pedras caindo do céu, um prédio em ótimo estado ruindo e suas armas travando.

Eles iriam ver um Salteador de longe, atirar nele e, então, descobrir que na verdade era um parceiro deles. Alucinações repentinas eram frequentes e a Punição Celestial veio para todos, ou pela realidade ou pela suas mentes.

As crianças ou estavam enlouquecendo ou morrendo uma a uma pelas mãos da Punição Celestial e não pelo contra-ataque Salteador. Na confusão braba, as crianças fugiram da maldição misteriosa e foram em direção aos seus respectivos líderes. Estes estavam liderando seus próprios grupos e cercando o prédio do governo em uma formação em triângulo.

Os Salteadores estavam todos atentos, com suas metralhadoras instaladas perto das janelas, prontos para atirar em qualquer membro de gangue se aproximando do prédio.

O prédio do governo em seu estado atual era uma fortaleza impregnável, mas ao mesmo tempo, os Salteadores eram como ratos presos em uma jarra. Se eles conseguissem tomar esse lugar, as gangues venceriam a luta contra o grupo.

— Turian! Algo está nos atacando!

— Eu ouvi…

Os líderes das gangues estavam reunidos no porão de um prédio abandonado perto do complexo do governo e as outras crianças estavam chegando uma atrás da outra. Houve um decréscimo considerável de seus números. Já que os líderes tinham um objetivo maior e não se distraiam com vingança a Punição Celestial não veio para eles.

Turian sentiu algo atacando eles quando ouviu o sussurro no vento e ele acabou de ser notificado de que houve danos significativos.

— É porque vocês só ligaram para coisas mesquinhas. Eu vou julgar o comportamento de todos de acordo com as leis da família mais tarde.

Turian rosnou se sentindo irritado que o trabalho importante foi adiado por causa de algo tão trivial. Quando a primeira operação de guerrilha deu certo, os membros deveriam se reunir no ponto de reunião, mas eles estavam atrasando porque estavam desperdiçando tempo com coisas sem importância.

Os dois jovens sucessores das outras duas gangues também estavam irritados e repreenderam os membros de suas gangues de um jeito similar. Mais de quinze pessoas foram mortas devido a infortúnios e não por causa da luta contra os Salteadores. Mas por agora, havia mais crianças vivas do que mortas.

— Parece que todos que deviam chegar estão aqui.

— Também acho.

— O mesmo para a gente.

Eles percebendo ou não, os outros dois líderes de gangue estavam reconhecendo que Turian estava no controle agora. Todos sabia que era tolice lutar onde eles estavam.

— De agora em diante, retaliações privadas estão proibidas. Se alguém fizer algo idiota, eu vou arrancar seus olhos.

Todos assentiram ao comentário gélido. Havia mais ou menos sessenta crianças reunidas no segundo ponto de reunião. Alguns estavam com ARs que roubaram dos Salteadores, mas a maioria possuía seus fuzis comuns.

— Ouçam com atenção. O armamento deles é melhor do que o nosso. Não há chance de vitória em uma guerra total. — Turian permaneceu quieto enquanto julgava a situação. — O único jeito é explodir o prédio e enterrar eles.

O melhor jeito de neutralizar os Salteadores era destruir o lugar onde eles estavam reunidos. Não havia outra alternativa e confronto direto não era uma opção.

Entretanto, essa estratégia era inaceitável para pelo menos uma pessoa.

— Não.

— O quê?

Era o sucessor da gangue Xerife que se opôs ao plano de Turian.

— É onde a história da nossa organização está. Eu não posso concordar em explodir aquele lugar.

O sucessor da gangue Xerife balançou sua cabeça com um rosto sério e contorcido. Na verdade, apesar deles terem perdido o prédio do governo para o Grupo, ainda era o prédio mais importante para eles e um símbolo do controle da cidade da gangue Xerife.

— Você tem outra ideia? Se você tiver um plano alternativo, me conte. Eles colocaram metralhadoras nas janelas. Você vai encará-los de frente?

— Cala a boca! Se nós fossemos destruir a casa da sua família, você diria não também. Eu sei que você está sugerindo isso só porque não é o seu prédio.

Só foi preciso de um momento para uma rachadura aparecer na solidariedade frágil que eles conseguiram manter. Conforme o herdeiro da gangue Xerife, as crianças daquela gangue começaram a ficar hostis também.

*Click!*

— Cuidado com o que você fala.

*Click-clack!*

— Vocês estão falando bobagem. Nós viemos tão longe, mas você não consegue desistir de um prédio?

Com suas armas apontadas um para o outro, o ar ao redor deles congelou. Era natural querer tomar o que você tinha originalmente, tudo até o último pedaço.

Entretanto, se os sacrifícios estavam focados em um único grupo, seria psicologicamente difícil de aceitar.

Com a vitória tão perto, as crianças animadas esqueceram do que era realmente importante e no meio da comoção, ninguém notou que uma sombra negra estava indo em direção ao escritório central.


Não havia tiros, mas a atmosfera estava tensa. Era o sucessor da gangue Shandoo que acalmou a situação. Ele foi a frente para mediar e desinflar os egos ao encorajar ambos os lados a fazerem pequenas concessões.

Eles destruíriam o prédio do governo, mas Turian daria o prédio da Família Caveira para a gangue Xerife usar como quartel-general e a gangue Shandoo iria procurar um novo prédio para ser o novo quartel-general da Família Caveira. Todos tinham que dar um pouco.

Felizmente, não houve fricção internas, mas eles perderam tempo.

A operação era simples. A gangue Xerife iria usar a passagem subterrânea para ganhar acesso ao porão do prédio do governo e explodi-lo ao instalar bombas em cada pilar.

Quando o prédio começasse a cair, os Salteadores não teriam outra escolha além de sair de lá. E se algum Salteador conseguisse sair do prédio, as gangues os emboscariam. O Grupo seria completamente aniquilado.

Simples, mas possível apenas porque eles sabiam do design do quartel-general inimigo bem.

Os Salteadores estavam esperando porque eles sabiam que lutar nas ruas de Shane seria desvantajoso para eles. Entretanto, aquela decisão estava prestes a exterminá-los de uma vez por todas.

O líder da gangue Xerife, que conhecia bem o prédio, começou a liderar seus companheiros em direção a passagem subterrânea. Já que matar civis estava proibido, não houve mais punição do Céu.

Cada gangue assumiu suas posições, onde as pessoas operando as metralhadoras no prédio central não podiam ver elas e esperando pelo momento certo.

Qualquer inimigo que escapasse do prédio caindo seria destruído na praça aberta.

Segurando seus fôlegos, as crianças cercaram a área ao redor do prédio central. Cada pessoa escolheu um lugar único para se esconder: nos prédios abandonados, sob os prédios, nos telhados, etc.

Mas, então, as crianças cercando o portão da frente claramente viram alguém sair para a praça.

Havia apenas uma pessoa e todas as crianças sabiam quem ele era.

Seu corpo grande, pele cinza e tatuagens macabras em seu rosto mostravam que ele era o Administrador da Cidade de Shane e o líder dos Salteadores. Por algum motivo, ele saiu sozinho das muralhas que o protegiam.

Em seus braços musculosos estava um M134 gigante ou mais comummente conhecido como mini-metralhadora. Deixando seu peso de lado, a mini-metralhadora tinha um carregador de tambor gigante preso a ela. O homem estava sozinho na praça, segurando a mini-metralhadora que não seria útil sem força sobre-humana.

As gangues já eram inimigas do Grupo. Talvez pensar que não havia necessidade de se comunicar, ele permaneceu quieto. Os Salteadores sabiam que as gangues estavam cercando o prédio e estavam esperando uma oportunidade para atacar.

Eles só não sabiam onde as crianças estavam se escondendo e não podiam atirar.

Um pensamento passou pela mente das crianças, especialmente dos líderes das gangues.

Se um deles fosse atirar e matar o bruto, a honra de matar o líder do Grupo iria para aquela pessoa e sua gangue.

Entretanto, era possível que o inimigo estivesse esperando por aquele momento. Não havia como saber  se o Administrador da Cidade era um chamariz, mas o que estava claro era que uma batalha de tiros começaria quando eles atirassem nele.

Não posso atirar nele rapidinho e fugir? Vamos atirar. Atirar primeiro, pensar depois. 

O desejo por fama fez os olhos das crianças brilhar. Se ele cair, os Salteadores estariam praticamente destruídos.

Algumas crianças pensaram mais a frente.

As crianças sabiam que não poderiam vencer uma guerra contra o Grupo. Se o Grupo voltar, ninguém sairia vivo.

Se elas iriam morrer de qualquer jeito, por que não se tornar heróis antes de morrer? Por que não libertar Shane e, então, morrer, em vez de ser só mais uma estatística entre aqueles mortos na guerra?

O pensamento não passou somente pelas mentes dos líderes, mas também, nas mentes de muitos membros. O Administrador de Shane ficou parado lá. Era quase como se estivesse provocando eles a atirar e conforme Turian assistia seu movimento corajoso, ele teve um lampejo de discernimento.

Quando ele percebeu que outras pessoas estariam pensando o mesmo que ele, Turian pensou reflexivamente que não deviam atirar.

Era uma armadilha.

— Espera, não atirem…

*Bang!*

Porém, um lampejo saiu do telhado de um prédio.

Isso foi o começo.

*Rat-rat-at-ata-tat!* *Rat-at-ata-tat!*

Assim que a primeira pessoa atirou, as outras se juntaram, atirando uma verdadeira barragem de tiros. Cegos pelo desejo de fama, as crianças voluntariamente desistiram da vantagem que elas tinham por estar escondidas. Como se acreditassem que um tiro a mais faria com que fossem eles que mataram o Administrador da Cidade, eles atiraram por um bom tempo. No fim, eles olharam para onde os tiros acertaram. Mesmo considerando que alguns tiros  possam ter errado por causa da escuridão, não deveria haver um pedaço de carne intacta depois de ser acertado por tantos tiros.

Apesar de Turian não fazer um anúncio, ele não conseguia acreditar no que seus olhos estavam vendo.

— O-o-o quê?

O Administrador da Cidade estava de pé, em roupas esfarrapadas e com vários buracos de tiro em seu corpo. Ele foi claramente acertado e havia até buracos de tiros  intactos em seu corpo.

Nem foi o caso dele morrer enquanto estava de pé.

— Is-isso… mas que porra é essa…?!

Turian estava olhando para o Administrador da Cidade, que estava incredulamente virando sua cabeça para checar o local dos tiros.

O poder de escapar da morte foi dado por Asura. Pela primeira vez, eles estavam testemunhando algo que já estava  morto e não podia ser morto. E já que suas localizações foram reveladas, eles estavam esperando que o Grupo iria atirar de volta, mas o lugar estava num silêncio de gelar o sangue.

Na hora que todos acreditaram que o Administrador iria resolver a situação.

Ele mirou com sua arma, não na direção onde as crianças estavam se escondendo, mas nos próprios prédios.

*Wi-ii-ii-ing!*

A mini-metralhadora começou a rodar.

*Pa-pa-pa-pa-pa!*

As bombas de 7.62mm foram lançadas.

*Bo-bo-bo-boom!*

Elas não eram bombas comuns. Cada bomba explodiu com um lampejo azul assim que acertaram o prédio.

As bombas na mini-metralhadora eram as mesmas que o chumbo grosso de 7.62mm de Zin. As bombas estavam cheias com pó de casca azul dentro de uma capa de couro e iriam criar uma explosão no nível de uma granada com cada tiro.

Os recursos financeiros do Grupo permitiam uma munição tão cara para uma mini-metralhadora e o Administrador foi dado uma mini-metralhadora monstra junto com chumbo grosso 7.62mm.

Com a mini-metralhadora, até um tiro comum era o bastante para transformar um monstro grande em um favo de mel sangrento.

Esse monstro que atirava 4.000 projéteis por minuto estava cuspindo chumbo grosso não em monstros, mas em prédios e os rasgando como papel.

*Boom!* *Booooom!*

— Ahhhhhh!

— O prédio está desabando!

O prédio, com seus pilares destruídos, ruiu e desabou com as crianças que estavam se escondendo lá dentro. O Administrador da Cidade só apontou sua mini-metralhadora e destruiu os prédios ao redor.

*Bo-bo-bo-boom!*

Em uma explosão massiva, os prédios desabaram um após o outro. Ele só estava balançando sua mini-metralhadora cheia de explosivos. Os arredores foram completamente destruídos e as crianças foram enterradas antes de poderem fugir.

Desde a época das gangues, os prédios ao redor do prédio do governo já haviam sido destruídos como um meio de impedir ataques e ninguém vivia lá perto. Como resultado, não houve perdas civis.

O preço da rebelião das crianças aquele dia foi que elas enfrentaram o poder do Grupo, suas armas e seus recursos financeiros e perderam suas vidas.


As crianças na passagem subterrânea estavam bem cientes dos problemas na superfície. A pressão de ter que cumprir sua missão rapidamente deixaram as crianças impacientes. Felizmente, a passagem subterrânea era conhecida apenas pelo herdeiro aparente da gangue Xerife e parecia que o Grupo nem se incomodou de limpar o porão do prédio, que estava cheio de tranqueiras e lixo.

A tarefa era simples. Instalar explosivos em cada pilar subterrâneo, ligar um pavio longo, acender as bombas e, então, ir embora rapidamente.

O sucessor da gangue Xerife, Jarot Xerife, estava se sentindo relutante sobre o que estava prestes a fazer. Era difícil aceitar que ele destruiria o símbolo do domínio de sua família por eras, mas as crianças estavam carregando muito equipamento e seguindo ele.

— Quando nos livrarmos do Grupo, a primeira coisa que eu vou fazer é espancar Turian. — Não deixava um gosto bom em sua boca que um moleque estava agindo como se fosse o fodão só porque era inteligente e corajoso. Quando essa guerra acabasse, haveria outra guerra.

Ele imaginou que as outras pessoas estavam imaginando a mesma coisa. Inimigos amargos no mesmo barco não durariam para sempre. Era apenas lógico assumir que os líderes se separariam quando expulsassem o inimigo em comum.

Entretanto, Jarot já estava pensando nisso antes mesmo da vitória.

*Bo-bo-bo-boom!*

— Eu acho que as coisas não estão boas, chefe.

— Malditos loucos! Eles não deveriam lutar! Mas por que caralhos estão lutando?

Ele cerrou seus dentes porque sentia como se os outros dois líderes estavam estragando o plano. O subterrâneo era húmido e o ar era grudento. Jarot queria completar sua missão o mais rápido possível e vazar daquele lugar desagradável, húmido.

— Estamos aqui.

Quando Jarot chegou, ele sussurrou para seus homens seguindo ele.

— Nós não sabemos o que está aqui, então peguem suas armas.

— Ok.

*Clunk!*

Com um olhar nervoso, todas as crianças pegaram suas armas a fim de se protegerem contra os Salteadores se escondendo, mas parecia que Jarot tinha outros planos em mente.

*Creeeeak!*

Eles empurraram a estante de livros na fenda estreita bloqueando e desceram até o terceiro andar do porão do prédio central. O espaço, que já foi usado como um estacionamento no passado, agora estava cheio de lixo e subprodutos de concreto.

E na maior parte, havia ossos humanos por todo lugar.

Claro, as crianças ficaram pálidas com a visão de ossos brancos espalhados por aí. Um olhar era o bastante para dizer que havia uma quantidade enorme de ossos brancos na área.

— Hum… que-que lugar é esse?

— Você não pode ver? O Grupo deve ter enterrado as pessoas que eles mataram aqui.

Era uma mentira. Esse era o lugar onde a gangue Xerife se livrava de cadáveres. Esse era o lugar onde eles jogavam aqueles que os desafiavam, deviam muito dinheiro a eles ou eram irremediavelmente viciados em drogas.

Porque a área era geralmente trancada e a entrada completamente bloqueada, só alguns membros sabiam da existência desse lugar.

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