Para Beyn, era difícil enxergar o que acontecia na batalha devido ao dilúvio de lágrimas que lhe turvavam a visão. Sufocado pela emoção, ele até mesmo teve dificuldade para realizar a única função na qual se destacava: falar.
Ver o Grande se lançar ao perigo, ser atacado e sofrer a indignidade de lutar contra aqueles muito inferiores a ele, o comoveu profundamente. Quão nobre o sacrifício! Quão benevolente o coração da sabedoria! Verdadeiramente, o Grande havia alcançado um estado de transcendência tal que lutaria e sofreria em nome dos outros, mesmo correndo o risco da morte. Quão altruísta! Quão generoso de espírito!
Como Beyn poderia suportar ficar parado assistindo?! Não, seria melhor sacrificar o braço que lhe restava, ambas as pernas e todos os seus órgãos para que a personificação divina do Novo Caminho não tivesse que sofrer dessa maneira!
Só que… só que ele, egoisticamente, pediria que lhe fosse concedido o direito de contemplar a majestade d’Ele, e também de falar da Sua glória.
Infelizmente, essa escolha não lhe fora dada, então Beyn não teve outra opção senão observar e suportar.
‘Exceto que isso não é bem verdade, é?’
Ele era apenas um homem, uma existência frágil e corruptível que simplesmente estivera no lugar certo e na hora certa para vivenciar uma revelação. Beyn nunca se considerou especial ou merecedor. Aliás, a primeira coisa que fez após se deparar com o milagre do Novo Caminho foi negá-lo! Um pecado pelo qual pagou com um membro.
No entanto, ele tinha talentos, ele sabia disso. Ele tinha devoção, um coração de servo e um espírito de fé ardente. Ele também, pela graça do Novo Caminho que trilhou, era um orador público excepcional.
Resolvido, enxugou as lágrimas dos olhos com a manga e se levantou dos joelhos sobre os quais havia caído sem perceber. Segurando firmemente o cajado com desenho de uma cabeça de formiga, voltou-se para os dois batalhões, com milhares de humanos e dezenas de seus companheiros Sacerdotes, e ergueu a cabeça.
“TESTEMUNHEM!” ele rugiu, sua voz tão poderosa que ecoou pelas paredes distantes do túnel e preencheu todos os ouvidos, mesmo acima do fervor da batalha. “Testemunhem o serviço e o sacrifício do Grande!”
Com seu cajado, ele apontou para o grande monstro, cercado por todos os lados e lutando bravamente diante deles. Beyn sabia que não podia se virar e olhar ele mesmo, para não ser tomado pela emoção a ponto de não conseguir continuar falando.
“Vejam como ele sofre em nosso lugar! Vejam como ele assume o fardo e a luta que eram para nós. Esta é a luta do novo contra o velho, do passado contra o futuro! Ao seu lado estão os membros da Colônia que nunca os traíram, que nunca os rejeitaram, mas sim os acolheram como membros de sua família!”
“Vejam ali os servos da velha ordem! Vejam aqueles que os desprezaram, que os oprimiram e os subjugaram!”
“Digo-vos a verdade: foi-nos mostrado um Novo Caminho! Uma nova forma de existir dentro da Masmorra! Recebemos uma salvação que ultrapassa o que merecemos e uma graça muito maior do que jamais poderíamos retribuir!”
Nos olhos dos fiéis, Beyn podia ver o mesmo tipo de fervor que tinha certeza que ardia nos seus próprios. Muitos de seus seguidores choravam abertamente, lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto erguiam as mãos em direção ao teto do túnel ou em direção ao Grande. Outros usavam seus estaladores de mandíbula para pontuar suas frases, o som estacado quase como rajadas agudas de aplausos e aprovação.
As formigas acharam um pouco confuso, mas não estavam realmente prestando atenção.
A emoção tomou conta do padre e ele sentiu sua voz se elevar ao máximo, num poder estrondoso, enquanto os ouvintes se deixavam cativar por sua oração.
“NÃO TEMAM!” ele bradou. “A ÚNICA COISA QUE DEVE NOS ATERRORIZAR É A NOSSA PRÓPRIA RECUSA EM ABRAÇAR O NOVO CAMINHO!”
“VOCÊS JÁ VIRAM ATÉ ONDE O GRANDE FOI, O MÁXIMO QUE ELE PODERIA IR POR VOCÊS. ESTÃO DISPOSTO A RETRIBUIR ESSA MESMA DEVOÇÃO?”
“SIM!” rugiu o povo.
Em meio à multidão, alguns começaram a se perguntar aonde aquilo ia dar. Eles não deveriam estar envolvidos na luta ainda; todos haviam sido informados do plano, e um ataque fanático ao meio do combate não fazia parte do retorno. Apesar de suas reservas, as palavras do padre eram tão persuasivas e poderosas que eles não puderam evitar serem arrebatados pela onda de emoção que tomou conta dos ouvintes.
Beyn olhou para os dois batalhões, celebrando o fervor que o encarava. Exceto pelas formigas, que pareciam apenas um pouco confusas. Mesmo que ele pudesse se comunicar por meio de feromônios, aquelas palavras não eram dirigidas a elas, mas sim aos devotos.
Ele abriu bem o braço.
“Vamos orar.”
De cabeça baixa, Beyn voltou-se para encarar a batalha e ajoelhou-se mais uma vez, a pedra cravando-se no tecido macio de sua túnica.
“Grande Ser. Doador de esperança. Que suas antenas sempre busquem verdadeiramente a luz do Novo Caminho. Que suas mandíbulas para sempre cortem as mentiras e os enganos deste mundo. Que sua carapaça nos proteja do mal e da injustiça. Nosso pedido é simples: que nos seja permitido abrigá-lo como você nos abrigou. Que possamos LUTAR para alcançar A VERDADE e deixá-la se MANIFESTAR, AQUI, DIANTE DOS INCRÉDULOS.”
Embora tentasse reprimir sua paixão, a voz de Beyn elevou-se a um crescendo estrondoso ao final de sua oração, trovejando de sua garganta e abafando completamente o som da batalha.
Antes que ele pudesse continuar, uma mensagem do sistema apareceu diante dele.
[Parabéns, você alcançou o nível máximo da sua Classe: Orador das Formigas.]
[Você pode optar por avançar esta Classe para a seguinte: Profeta da Colônia.]
O coração de Beyn parou de bater no peito. Ele aceitou a sugestão imediatamente, mas não conseguiu assimilar nenhuma das informações que se seguiram, enquanto seus pensamentos se agitavam e seus olhos se enchiam de lágrimas.
Como se ele precisasse de mais provas da justiça de sua causa! Mas elas vieram mesmo assim.
Ele se levantou e ergueu o cajado com cabeça de formiga.
“PELA COLÔNIA!” ele rugiu.
“PELA COLÔNIA!” bradaram as tropas em resposta.
Então, transbordando de justiça e fúria, eles atacaram… deixando para trás suas aliadas formigas, chocadas e perplexas.
…