――O homem permaneceu imóvel, espalhado sobre o solo rígido.
???: “――――”
Ele não estava nem morto, nem dormindo.
Ele simplesmente fechou os olhos, organizando seus pensamentos em silêncio enquanto ajustava sua respiração instável.
Montando-os, juntando-os, reconstruindo-os――,
????: “Ei, você está vivo?”
???: “――Sim, estou vivo.”
Quando alguém chamou por ele de cima, ele abriu os olhos para ver o rosto de um homem familiar.
Ele sentia que o homem possuía um talento excepcional, já que a impressão rude que ele transmitia persistia mesmo quando olhado de cabeça para baixo. De qualquer forma, isso era completamente irrelevante para resolver a situação atual.
???: “O que aconteceu com aqueles caras?”
???: “Eles conseguiram passar por mim e correram o mais rápido que puderam depois de te jogarem fora. Você… é melhor fazer algo sobre isso. Não consigo evitar sentir dor sempre que olho para isso.”
???: “Isso? …Ah, você quer dizer isto.”
Ele se sentou enquanto coçava a cabeça, olhando para o lado do corpo, onde o outro homem havia apontado com o dedo. Foi então que ele avistou a flecha grossa cravada em seu corpo.
Se a flecha que perfurava seu lado esquerdo estivesse posicionada um pouco mais acima, poderia ter perfurado seu coração.
Embora o ferimento quase tivesse tirado sua vida, ele tinha poucas emoções fortes sobre isso. Não apenas sobre como parecia, mas também sobre o fato de que sua própria carne havia sido perfurada.
Todd: “Não é tão doloroso quanto parece, certo? Embora seja difícil se mover por enquanto…”
Jamal: “Idiota. Quem disse que estava preocupado com você? Eu disse que é doloroso de olhar. Tire isso logo.”
Todd: “Você é meio bruto com companheiros feridos, não é? ――E”
Ouvindo isso de seu parceiro carrancudo, ele relutantemente agarrou a flecha cravada. O problema com ferimentos de flecha era que a flecha precisava ser retirada antes que a carne se fechasse ao redor dela.
Felizmente, ela estava cravada há pouco tempo, então ele conseguiu puxá-la de uma vez com algum esforço.
Para o fluxo de sangue, ele pressionou um pedaço de roupa rasgada na abertura do ferimento e comprimiu com força para estancar o sangramento.
Todd: “Então, aqui está a flecha, como você pediu. E agora, o que fazemos, hein.”
Jamal: “Se for um ferimento profundo, você deve se retirar e descansar. Quanto àqueles caras que fugiram, vou levar algumas pessoas e esmagá-los. Vamos mostrar a esses desgraçados que eles são presas…”
Todd: “――Isso seria um movimento ruim, Jamal.”
Jamal: “O quê?”
O homem que ditava o que fazer a partir daqui―― Jamal, foi contido por sua mão.
Todd entendia por que Jamal queria perseguir os inimigos em fuga que os haviam feito de tolos para se vingar. Mas, se prosseguissem com um movimento ofensivo precipitado, os que teriam uma experiência dolorosa seriam os que estavam aqui.
Todd: “Pense nisso. Por que exatamente, aqueles caras entraram descaradamente em Guaral? Considerando o que eles mesmos fizeram, é óbvio que estaríamos nesta cidade.”
Jamal: “…A menos que sejam idiotas sem cérebro.”
Todd: “――Eles marcharam deliberadamente. Foram tão longe a ponto de esconder uma emboscada fora da cidade.”
Com um olhar, Jamal olhou para a flecha que acabara de ser extraída e limpou a garganta.
Jamal, como um homem militar experiente, tinha a capacidade de perceber a direção de onde uma flecha havia sido disparada e sua precisão, e foi capaz de determinar de quão alto ela havia sido disparada.
Naturalmente, ele chegaria à mesma conclusão que o próprio Todd.
Jamal: “Se isso estiver certo, o objetivo deles é…!”
Todd: “Atrair e caçar nós, Soldados Imperiais que entraram em Guaral. Se os perseguíssemos abruptamente com toda a nossa força militar, ou melhor, se os perseguíssemos com nossa pequena força, estaríamos jogando na palma da mão deles. ――Quem de nós seria a presa, eu me pergunto.”
Jamal: “――――”
Rangendo os dentes de frustração, Jamal olhou na direção em que seus oponentes haviam fugido.
Por dentro, Jamal parecia estar sendo influenciado por uma fúria fervente, mas Todd conhecia bem esse sentimento doloroso―― isso era algo que ele não diria. Em vez de fúria, era admiração que havia tomado conta de seu coração.
Usando-se descaradamente como isca, aproveitando-se com sucesso da despreparação para atrair um oponente tolo.
Ele era certamente um inimigo formidável, um filho da guerra.
Todd: “Eu realmente estraguei tudo, falhando em te matar…”
Enquanto olhava na mesma direção que Jamal, ele murmurou suavemente isso.
E então, ele respirou fundo, “Ahh” como se tivesse se recomposto,
Todd: “Parece que teremos uma oportunidade de vingança. ――Eles voltarão, não importa o que aconteça.”
Jamal: “Quando chegar a hora, não mostrarei misericórdia alguma.”
Todd assentiu silenciosamente em aprovação ao Jamal sufocando sua raiva.
Então, por enquanto, ele confirmaria esta batalha como uma perda. Além disso――,
Todd: “Jamal.”
Jamal: “Oh. …O que há com essas mãos?”
Todd estava com as pernas esticadas no chão, com ambas as mãos estendidas em sua direção, e Jamal franziu a testa.
Todd inclinou a cabeça diante da incompreensão, “É Exatamente o que parece”, ele continuou,
Todd: “Me carrega nas costas.”
Jamal: “Morra sozinho!”
Ele deu de ombros, realmente, essa não era uma resposta de verdadeira amizade.
Pisando firmemente no chão duro, Subaru marchou com passos largos.
À medida que se aproximava de seu destino, sua inquietação aumentava e sua capacidade de suprimir a necessidade de pular da carroça de boi diminuía. E assim, com o momento da chegada finalmente à mão, seu corpo saltou para frente com vigor.
Ele sentiu como se ouvisse vozes tentando pará-lo, mas todas entraram por um ouvido e saíram pelo outro.
Sacudindo-as, ele seguiu direto para o prédio-alvo. Um edifício de madeira, visivelmente maior que os demais, localizado no centro do assentamento. Ao entrar, ele atraiu os olhares de várias pessoas dentro.
E――,
???: “――Então você voltou. Mais rápido do que eu esperava.”
Um homem arrogante declarou descaradamente, ostentando uma máscara de oni.
Sem dizer nada em relação à sua atitude altiva, Subaru avançou diretamente. Deixando o impulso carregá-lo, ele, sem hesitação, arrancou a máscara do homem que o menosprezava.
Deixando sua máscara ser removida com pouca resistência, as feições graciosas do homem ficaram expostas.
Agarrando a gola daquela pessoa insuportável com seu rosto demoníaco, Subaru o puxou para uma posição de pé. Em seguida, brandiu o punho, pronto para desferir um soco naquele rosto e――,
???: “Subaru, espere.”
Quando Subaru estava prestes a socá-lo até a obliviação, seu braço direito estendido foi forçosamente parado por trás.
Uma figura alta, que tingia as pontas do cabelo de vermelho. Era a líder do clã deste assentamento, Mizelda, que o havia parado. Querendo reclamar sobre sua ação, ele abriu a boca, prestes a dizer “Agora? De todos os momentos?”.
No entanto, mais rápido do que ele poderia objetar, Mizelda antecipou, dizendo “Ouça,”
Mizelda: “No rosto não. Em qualquer outro canto, eu perdoo.”
Subaru: “ORAA――!”
Abel: “――Hk”
Recebendo sua resposta inabalável, Subaru, após um breve momento, desferiu seu punho diretamente no torso esticado de Abel.
Subaru não sabia se Abel esperava ser socado no rosto, mas, tendo sido atingido em um local onde não estava preparado para ser atingido, o homem soltou um grito de dor e deu alguns passos para trás. Nem toda a raiva reprimida de Subaru foi liberada apenas com isso, mas――,
Subaru: “Não pense que estamos quites agora, seu merda…!”
Abel: “――Hmph, que homem ganancioso você é.”
O homem pegou a máscara de oni que havia caído ao lado e a colocou de volta. O homem que sempre tinha algo a dizer de volta―― Abel.
Tendo atingido o homem que era a fonte de sua raiva represada, Subaru exalou duramente.
Pois ele havia viajado por mais de três dias, tomando o caminho de volta, apenas para este único golpe.
Flop: “Olha, mana! Parece que essa é a vila do famoso Povo de Surdrak! Fica mesmo nos confins das regiões inexploradas, como dizem os rumores! Que descoberta!”
Medium: “Uau! Incrível, maninho! Olha só! Todo mundo aqui tem abdômen trincado igual o meu! Trincado! Maninho, trincado!”
Flop: “Mega trincado!”
Os pensamentos animados dos irmãos ecoavam pela vila. Eles pareciam tranquilos, não importava onde estivessem.
A dupla que trocava opiniões de forma tão desinibida era formada pelos irmãos O’Connell, Flop e Medium. Levados pela situação, eles tinham sido convidados para o assentamento do Povo de Surdrak.
Estavam no meio da praça, sentados sobre a carroça de boi, cercados pelos Surdrakianos que se reuniram, curiosos. A atitude destemida dos irmãos parecia constante, independentemente de terras ou ambientes. Agindo como se fossem os donos do lugar, não mostravam nenhum sinal de medo, alerta ou ansiedade, mesmo atraindo olhares e atenção de todos ao redor.
Ainda assim, era necessário que se tornassem mais conscientes dos perigos e riscos à vida e ao corpo ao interagir com os outros. Seria mais normal e apropriado sentir medo, afinal, estavam cercados por uma tribo praticamente desconhecida e selvagem.
Abel: “Você trouxe uma companhia bem barulhenta. Essas pessoas eram indispensáveis para sua jornada? Se sim, a maneira como você e eu atribuímos valor é bem diferente.”
Subaru: “Não vou negar que vemos as coisas de forma diferente. Há um grande abismo entre o que você e eu valorizamos. ――Mas, com isso dito, essa sua atitude é algo, hein?”
Abel: “Hoh?”
Sentados no chão da sala de reuniões, Subaru e Abel encaravam-se, como haviam feito alguns dias antes.
Abel já havia recebido o soco de retaliação de Subaru, mas seu tom de voz não demonstrava arrependimento algum. Nem pensar em pedir desculpas; ele sequer cogitava a ideia.
Porém, Subaru não podia ignorar o comentário sobre os irmãos.
Isso porque――
Rem: “Abel-san, acabamos envolvendo essas pessoas sem querer. Eles foram gentis conosco quando ficamos parados do lado de fora da cidade… Apenas por isso.”
Abel: “――――”
A razão da raiva de Subaru foi explicada por Rem.
Diferente da última vez, a sala de reuniões não havia sido esvaziada, então outros membros, além de Subaru e Abel, participavam da discussão.
Ao lado de Subaru estava Rem, sentada em posição seiza, e os companheiros de viagem Kuna e Holly. Próximas de Abel estavam as irmãs Mizelda e Taritta.
Sobre Rui, ela estava sendo cuidada por Utakata, a pessoa mais próxima dela em idade. Provavelmente, naquele momento, estava na carroça de boi na praça, junto com os irmãos O’Connell cercados pelos Surdrakianos.
De qualquer forma――
Rem: “Com a ajuda deles, conseguimos voltar em segurança. Mas, por conta disso, agora estão sendo perseguidos pelos soldados da cidade…”
Abel: “Errado. Deixe-me corrigir. Os que estão nos perseguindo e aos dois lá fora não são soldados da cidade. São os Soldados Imperiais. Os que servem a este país tornaram-se seus inimigos.”
Rem e Subaru: “――――”
Por trás de sua máscara oni, as palavras frias de Abel atravessaram Subaru e Rem.
Ao ouvir sua declaração seca, Rem apenas desviou os olhos azul-claros, cansada. Para ser sincero, era uma verdade inegável. Subaru entendia isso.
Mas, compreender e aceitar a verdade eram coisas bem diferentes.
Subaru: “Atrair a hostilidade dos Soldados Imperiais foi meu erro. A animosidade deles é resultado das minhas escolhas e ações.”
Abel: “Isso é correto. É o destino ao qual você se ligou, antes mesmo de encontrar o Povo de Surdrak.”
Subaru: “Não posso justificar esse destino, porque quem os tornou inimigos fui eu, sem dúvida. ――Mas quem deveria pagar as consequências disso era só eu.”
Embora a maior parte da culpa recaísse sobre Subaru, o problema ali era a atitude de Abel.
Desde o início, ele deveria ter percebido o perigo que o grupo de Subaru enfrentaria ao entrar em Guaral. Também deveria ter notado a possibilidade de serem atacados ao cruzarem com os sobreviventes dos Soldados Imperiais.
Por isso――
Subaru: “Você ordenou a Kuna e a Holly – com antecedência – que nos aguardassem fora da cidade. Para nos ajudar caso estivéssemos fugindo de perseguidores.”
Holly: “Sério mesmo, vocês estavam numa situação bem complicada, sabiam~? Se eu e a Kuna não estivéssemos lá, Subaru, sua cabeça já teria sido rachada ao meio por um machado~.”
Sentada com as pernas cruzadas, Holly falou casualmente enquanto enchia a boca de dangos. Diferente de Kuna, que exibia uma expressão preocupada ao lado dela, Holly parecia alheia à tensão da conversa.
Claro, Subaru era grato pela ajuda de Holly e Kuna. Sem elas, a possibilidade de sua cabeça ter sido partida naquela hora era bem alta.
Subaru: “Usando os olhos da Kuna para vigiar e o arco da Holly para dar suporte… Um tiro de longo alcance com arco e flecha. É o que se chama de combo de habilidades entre os talentos de vocês.”
Kuna: “… Ninguém me disse que a situação era tão ruim assim.”
O comentário apático de Kuna mostrava claramente que ela carregava um senso de culpa em relação ao grupo de Subaru.
Ainda assim, a culpa de Kuna era inválida. Isso porque as palavras que ela havia dito a Subaru antes de entrarem em Guaral foram a dica de que ele precisava.
Se não fosse pelo aviso dela, a ajuda que Holly mencionou teria sido impossível.
Mas――
Subaru: “Esse tipo de pensamento só se aplica à Kuna e Holly. ――Alguém como você, que previu tudo isso, não vai receber minha simpatia.”
Foi por isso que a primeira coisa que Subaru fez ao voltar foi desferir um golpe de retribuição em Abel.
Se Abel tivesse demonstrado algum sinal de reflexão após receber aquele golpe, talvez os sentimentos de Subaru fossem diferentes. Mas, como era de se esperar, Abel não mostrou nenhum remorso ou qualquer indicação de que achava que havia feito algo errado.
Com sua atitude arrogante e inalterada, ele brincava com a raiva de Subaru.
Mesmo agora, o olhar afiado por trás de sua máscara de oni não mostrava nenhuma sombra de dúvida.
Era como se estivesse prestes a dizer: “E daí?”.
Subaru: “Oi, por que não diz algo em vez de ficar calado?”
Abel: “――E daí?”
Subaru: “…Você realmente disse isso.”
Com a resposta irritante que havia previsto se tornando realidade, Subaru rangeu os dentes diante das palavras de Abel e afiou seu olhar.
Porém, Abel friamente ignorou o olhar acusador de Subaru e,
Abel: “Depois de voltar com vigor e me golpear, tudo o que você pode oferecer são palavras sem brilho de repulsa? Primeiramente, eu o avisei desde o início, não avisei? ―― Que não seria um caminho fácil.”
Subaru: “Ghh…”
Abel: “Agarrando-se à paz e segurança mais próximas que podia encontrar, entenda que esta foi a penalidade por não usar sua cabeça. De todas as ações que qualquer um daqueles soldados derrotados poderia tomar, ir para a cidade mais próxima do acampamento queimado tinha a maior probabilidade de ocorrer. Isso é senso comum.”
Subaru: “Então… Então, você deveria ter dito isso desde o começo!”
Sentado com um joelho levantado, as palavras de Abel cutucavam impiedosamente a pressa excessiva de Subaru.
Ainda assim, desde o início, Subaru compreendia seu erro e o reconhecia. Ele entendia que havia sido sua falta de planejamento e ações anteriores que causaram a explosão e desdobramento da sequência infeliz de eventos.
No entanto, Abel estava ciente de que o perigo espreitava e deixou passar. Suas ações beneficiaram diretamente o inimigo ―― Se ser aliado ou inimigo fosse um detalhe irrelevante, então o que ele havia feito era equivalente a armar uma armadilha para Subaru.
Subaru: “Você sabia de tudo desde o início. As chances de encontrarmos os sobreviventes do Exército Imperial, as chances de termos que fugir freneticamente. Como, em todo aquele caos, Rem poderia…”
Abel: “――――”
Subaru: “De qualquer forma! Você sabia de tudo. Mas ficou de boca fechada.”
Falando sem pensar, palavras que não deveriam ser ditas quase escaparam. Rápido em se conter, Subaru concentrou sua raiva em Abel, evitando olhar para o rosto da pessoa sentada ao seu lado, Rem.
Subaru estava se inflamando em sua raiva crescente. Diante disso, Abel, friamente ―― não, de forma gelada, olhou para ele.
Quão profundamente esse homem enxergava o mundo com seu olhar penetrante?
E, para uma pessoa capaz de ver tanto, com que propósito ele brincava com Subaru e os outros?
Subaru: “Me responde, seu merda. Por que você nos deixou…”
Abel: “Para me poupar de trabalho extra. Nada mais, nada menos.”
Subaru: “Trabalho extra..?”
Em resposta ao olhar raivoso de Subaru, Abel soltou um som indistinguível de um suspiro.
Quando Subaru piscou diante de sua resposta, Abel gentilmente esfregou o chão da sala de reunião e pegou a terra ressecada na palma da mão.
Abel: “Pessoas como você valorizam o que é visto com seus próprios olhos tolos mais do que as palavras dos sábios. A intensidade das gotas de chuva caindo é mais eloquente do que qualquer coisa que poderia sair da minha boca.”
Subaru: “――――”
Abel: “Graças a isso, você deve sentir isso intensamente. ―― Que para você, não há para onde fugir.”
Enquanto falava, ele espalhou a terra de sua palma.
Com apenas essa ação, Subaru teve uma ilusão óptica de estar terrivelmente e claramente bloqueado em todas as direções, como se isso estivesse sendo imposto a ele.
Como o Imperador do Sacro Império Vollachiano, era simples manipular os outros com palavras habilidosas.
Diante do astuto imperador, a reclamação de Subaru não era diferente dos gritos de um macaco enjaulado.
Então, na realidade, Subaru estava simplesmente sem saída.
Subaru: “…No fim das contas, o que você quer fazer?”
Abel: “Eu já disse minhas intenções. Recuperar o que foi roubado. Para isso, o Império atual é meu adversário. Também é seu inimigo.”
Subaru: “――. Você está me dizendo para cooperar com você?”
Abel: “Por enquanto, eu expliquei que não tenho motivos para lhe fazer mal.”
Para o atormentado Subaru, as palavras de Abel entraram como veneno.
A arte da conversa de Abel era como um enigma envenenado, recusando-se a oferecer respostas claras, enquanto desafiava Subaru a decifrá-lo. Parecia haver um propósito oculto, como se Abel estivesse testando sua capacidade de pensar por si mesmo.
Mais uma vez, Abel não impôs nada a Subaru, mas continuava falando, sugerindo que ele refletisse e escolhesse o que tirar de cada palavra. E agora, como antes, Abel o provocava, exigindo que Subaru alcançasse seu nível caso quisesse argumentar.
Subaru, no entanto, ainda não estava à altura.
E Sua Excelência, o Imperador, não era tão gentil a ponto de esperar pacientemente que Subaru subisse ao seu nível.
Subaru: “…Então, tudo está na palma da sua mão? Não gosto disso.”
Abel: “―― Infelizmente, eu controlo apenas algumas pessoas na palma da mão. É justamente por conta da parte que escapou do meu controle que, no momento, estou aqui, sentado na terra.”
Subaru: “――――”
A resposta de Abel ao que Subaru havia cuspido soou como autodepreciação.
Seu rosto não era visível, e o tom de sua voz não mudou. Ainda assim, parecia autodepreciação. Era algo incomum―― Não, era a primeira vez que Subaru ouvia Abel zombar de si mesmo.
Isso era a prova de que ele aceitava a realidade incontestável.
Permitiu que seus próprios subordinados se rebelassem, tornando-se um imperador sem coroa, destituído de seu trono.
Nas profundezas da selva, sentado sobre a terra da aldeia dos Surdrakianos, aquela situação em particular era uma evidência de um erro tolo, sem desculpas possíveis.
Subaru: “――――”
Fixando seu olhar em Abel, Subaru ponderava silenciosamente.
Ainda não entendia as verdadeiras intenções de Abel, nem seus próprios planos de ação dali em diante. Não queria ser novamente manipulado pelos cálculos de Abel e acabar sofrendo a mesma desgraça.
Na verdade, o que diabos Abel estava pensando?
Subaru não achava que Abel teria interesse em fazer grandes esforços para atraí-lo ao seu lado. Não parecia plausível que ele enxergasse tal valor em Subaru.
Ainda assim, se havia uma razão para Abel mantê-lo por perto, talvez não fosse por Subaru em si, mas por algo ou alguém relacionado――
??? : “――Marido-kun! As pessoas daqui são realmente incríveis e generosas! Estou impressionado!”
Subaru: “Uwah!?”
Subaru se sobressaltou no meio de suas reflexões.
Perdendo o equilíbrio ao entrar na clareira da aldeia, Flop apareceu, com sua voz melodiosa ressoando alto. Ao olhar para os rostos reunidos na clareira, ele sorriu largamente.
Flop: “Ah, perdão pela demora! Parece que as pessoas aqui são representantes da aldeia. Oh! Senhorita Kuna e senhorita Holly! Estou vendo dobrado ou são vocês mesmo?”
Kuna: “Somos nós.”
Holly: “É~”
Flop: “Oh, que rude da minha parte!”
Alisando os cabelos com as mãos, Flop caminhou até o centro do grupo, inclinando-se em um cumprimento animado.
Flop: “Permitam-me me apresentar! Sou Flop O’Connell! Trabalho como comerciante itinerante com minha irmã Medium e nosso fiel Botecliffe. Por razões variadas, acabamos nos juntando ao Marido-kun, Esposa-san e Sobrinha-chan nesta jornada cheia de incidentes. Conto com vocês!”
Taritta: “Ele está sendo educado ou não…”
Diante da saudação entusiástica de Flop, Taritta franziu o rosto, lançando um olhar para Mizelda ao seu lado.
Taritta: “Irmã, o que faremos? Os estrangeiros devem permanecer afastados…”
Mizelda: “É verdade… Bem, ele é um homem sexy. Vou deixá-lo no meu quarto.”
Taritta: “Irmã…”
Com os braços cruzados, Mizelda decidiu o destino de Flop com base em sua aparência.
Embora seu julgamento simples fosse fácil de entender, era visivelmente perturbador para Taritta, que apoiava a irmã mais velha como chefe da aldeia. Claro, se esse fosse o único critério, Subaru não teria sido aceito no vilarejo, então algo mais deveria pesar na decisão.
Subaru: “Certo, Mizelda-san, preciso confirmar uma coisa. O Flop-san é meu convidado, ou talvez eu tenha decidido trazê-lo por conta própria. Mas, sobre fazê-lo passar pelo Ritual do Juramento de Sangue…”
Flop: “Ritual do Juramento de Sangue? Isso seria algum tipo de cerimônia tradicional desta aldeia!? Certamente, adoraria passar por essa experiência também!”
Subaru: “É uma cerimônia tradicional, mas é um pouco extrema para ser chamada de recepção.”
Flop estava animado com a ideia do ritual, mas Subaru temia que ele mudasse de opinião ao saber que enfrentaria uma Majuu. Mesmo assim, Subaru preferia evitar que ele passasse por isso.
Abel: “――Já sabia desde que fomos separados por esta fina parede, mas eles são um grupo barulhento.”
Agora, quem não apreciava a atitude de Flop era o implacável Imperador, com sua máscara de oni.
Era um contraste claro entre o calor radiante de Flop e o sangue frio de Abel. Pelo menos, a evidente falta de simpatia de Abel por Flop deixava Subaru inquieto.
Flop: “Nossa! Que máscara interessante… Ele seria o chefe da aldeia, talvez? Li em algum lugar que pessoas com aparências marcantes geralmente ocupam posições especiais!”
Na primeira interação entre os dois, Flop começou comentando sobre a aparência distinta de Abel.
Sua dedução sobre a máscara fazia sentido, mas era difícil imaginar Abel como parte do povo Surdrakiano. Culturalmente e visualmente, ele estava longe de se encaixar.
Abel: “Não é um pensamento errado, mas carece de atenção e prudência. Há pouco, mencionou que sua ocupação é o comércio itinerante…”
Flop: “Ah, sim! Minha irmã Botecliffe puxa a carroça de boi que transporta nossas mercadorias, e viajamos por todo o Império… Somos irmãos nômades que vagam ao sabor do vento!”
Com a mão sobre o peito, Flop respondeu como se estivesse cantando.
Do lado de fora, uma voz ecoou da praça dizendo: “Esse é meu irmãozão!” Mesmo separados por uma parede fina, o vínculo entre os irmãos era profundo.
No entanto, nem mesmo essa prova de uma relação tão saudável parecia suficiente para derreter o coração de Abel.
Após ouvir a resposta de Flop, Abel soltou um breve “hmph”.
Abel: “――Natsuki Subaru, você disse que os pegou na cidade.”
Subaru: “Não trate as pessoas como objetos. Para ser mais preciso, fomos nós que fomos acolhidos pelo Flop-san.”
Abel: “A essência é o que importa. Não tenho tempo para me preocupar com detalhes insignificantes. Ainda assim, devo parabenizá-lo por retornar dessa forma. Foi um grande feito.”
Subaru: “Não parece um elogio… O que diabos você está tramando?”
Para Subaru, Flop e Abel eram como água e óleo.
Ele havia planejado pedir a Flop que aguardasse na praça até surgir a oportunidade de apresentá-lo, mas a reação de Abel foi inesperada.
No entanto, o interesse de Abel não estava na humanidade de Flop, nem na presença chamativa de Medium. Assim, a resposta era evidente.
Abel: “Comerciante, até que ponto está familiarizado com Guaral?”
Flop: “Ótima pergunta, Senhor Chefe da Aldeia-kun! Posso dizer com orgulho que sou bem conhecido em Guaral. Afinal, nossas vidas dependem de não nos afastarmos demais. Mesmo os comerciantes precisam de pontos fixos para se acostumarem ao vai e vem das viagens!”
Kuna: “Parece uma linha tênue entre cautela e covardia, né…”
Kuna soltou um suspiro exasperado diante da autoconfiança sempre positiva de Flop.
Mas, ouvindo a resposta de Flop, Abel permaneceu em silêncio atrás de sua máscara de oni. ――Não, os ouvidos de Subaru captaram um som fraco no meio daquele silêncio.
Era um pequeno ruído vindo da garganta de Abel.
Abel: “Que sorte. Uma descoberta valiosa, Natsuki Subaru. ――Um comerciante íntimo da cidade provavelmente conhece um ou outro caminho alternativo.”
Subaru: “Ei, espera aí, Abel. Um caminho alternativo? O que você tá sugerindo?”
Abel: “De novo busca respostas em outro? Parece que você não compreende o propósito do meu interrogatório repetido. Faltam-me palavras para nomear tamanha ignorância.”
Subaru: “――――”
Cada palavra dita por ele era irritante, mas Subaru não tinha como rebater.
Natsuki Subaru estava isolado e desamparado demais para simplesmente interromper a conversa e virar as costas. Por isso, mesmo que fosse frustrante, ele precisava pensar com cuidado.
――Não, mesmo sem pensar muito, ele já tinha uma boa ideia da intenção de Abel.
Agora há pouco, ficou claro pelo interrogatório feito a Flop.
Subaru: “Abel, você… você tá falando sério…?”
Abel: “Até mentes lentas podem chegar à resposta se forem utilizadas. Ahh, como esperado de sua capacidade de raciocínio.”
Com os lábios tremendo e as bochechas rígidas, Subaru encarou Abel. O olhar penetrante por trás da máscara de oni transmitia a frieza do plano cruel que tramava.
Então, Abel falou, dirigindo-se a todos, exceto Subaru.
Abel: “――A Cidade-Fortaleza de Guaral cairá. Aquela cidade é necessária como nossa próxima base.”