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Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu – Arco 7 – Capítulo 20

Imperador/Mercador/Natsuki Subaru

―A queda da Cidade-Fortaleza de Guaral. Esse era o próximo movimento no esquema de Abel.

Enquanto sua mente processava o conteúdo daquela declaração ousada, Subaru chegou instantaneamente a uma conclusão.

Era um plano absurdo.

Subaru: “Embora imperfeita, é uma Cidade-Fortaleza… Ela é cercada por muralhas de todos os lados, e as entradas e saídas pelos portões são monitoradas constantemente. Não é um lugar onde você pode simplesmente dizer algo como ‘rendam-se’ tão casualmente.”

Abel: “Ho, você fala como se já tivesse visto… Ah, é verdade, você viu. Como nada de particularmente útil saiu da sua boca, quase me esqueci disso.”

Subaru: “Esse raciocínio afiado é bem interessante. Mas essa perspicácia só funciona contra oponentes sentados para discussões como esta. Não terá efeito contra inimigos armados.”

No centro do local da reunião, ao redor da fogueira, Subaru e Abel trocavam olhares intensos.

A máscara de oni de Abel não deixava transparecer nenhuma emoção, mas isso apenas tornava impossível para Subaru adivinhar o que se passava em sua mente, deixando-o ao mesmo tempo irritado e confuso.

Nesse momento, Subaru sabia que sua preocupação legítima não era algo que Abel desconhecia.

E, apesar disso, ele propôs algo como a queda da Cidade-Fortaleza――

Rem: “…Você pretende usar um caminho alternativo para invadir a cidade, é isso que está dizendo?”

Enquanto Subaru prendia a respiração, uma voz suave murmurou essas palavras ao lado dele; era Rem.

Sentada com as pernas dobradas de lado, seus olhos azul-claros estavam fixos em Abel. Não era exatamente um olhar ameaçador, mas parecia que ela o estava sondando profundamente.

Recebendo aquele olhar, Abel deu de ombros como se dissesse “Isso é óbvio”.

Abel: “Como Natsuki Subaru mencionou, as inspeções impostas nos portões principais da cidade são o primeiro obstáculo. É imperativo encontrarmos uma maneira de evitá-las para entrar na cidade.”

Rem: “Mesmo supondo que consigamos entrar, parecia haver um grande número de soldados imperiais dentro da cidade. Mesmo ignorando as inspeções, acho que haveria inimigos demais.”

Abel: “Hm.”

Para Abel, que estava listando os obstáculos para a queda de Guaral, Rem apresentou uma objeção bem fundamentada. Ele soltou um resmungo diante daquela atitude, mas, por outro lado, a perplexidade de Subaru apenas aumentou.

A fonte disso, é claro, era o fato de Rem estar discutindo diretamente com Abel.

Quanto ao conteúdo de sua argumentação, a posição de Rem podia ser considerada alinhada com a de Subaru, opondo-se a um ataque a Guaral.

No entanto, sua postura era extremamente precisa. ――Como se, durante seu curto tempo na cidade, ela tivesse compreendido completamente a situação.

Abel: “――Natsuki Subaru, o que você sabe sobre a diferença entre força ofensiva e defensiva em uma batalha?”

Subaru: “Ah? Diferença entre força ofensiva e defensiva, você diz… Tipo, a Lei do Ataque Triplo?”

Abel: “A Lei do Ataque Triplo… De fato, essa é uma frase perfeitamente adequada.”

Quando questionado, Subaru respondeu instintivamente, e Abel assentiu como se estivesse impressionado.

A Lei do Ataque Triplo era uma teoria de combate sobre forças militares, que afirmava que o lado atacante deveria ter três vezes a força do lado defensor.

Isso se devia à diferença nos objetivos entre ataque e defesa. O lado ofensivo precisava derrotar seus oponentes, enquanto o lado defensivo podia derrotá-los, repeli-los ou simplesmente evitar o ataque, o que representava uma vantagem significativa.

Por exemplo, neste caso, para conquistar Guaral, Abel teria que comandar os Surdrakianos para ocupar a cidade, mas os soldados imperiais e guardas poderiam recuar do ataque e se barricar na cidade para alcançar seus objetivos.

Para superar essa diferença e alcançar os objetivos, era necessário um número considerável de tropas, mas――

Subaru: “Três vezes a força da cidade… Não há como reunirmos algo assim. Mizelda-san, quantas pessoas têm nessa vila, mais ou menos?”

Mizelda: “Ao todo, oitenta e duas pessoas. Incluindo Abel e aquele homem… Flop, dá pelo menos cem.”

Subaru: “Não sei como você está contando homens de rosto bonito, mas são apenas cem. E eu calculo que há mais de três vezes essa força na cidade.”

Deixando de lado o método de cálculo de Mizelda, Subaru estimava que a força militar de Guaral estivesse nessa faixa.

O tamanho da cidade provavelmente não chegava a dez mil pessoas, mas deveria haver um número adequado de soldados protegendo a lei e a ordem da cidade. Além disso, os soldados imperiais cujo acampamento foi incendiado se uniriam a eles.

―Aqueles soldados imperiais, incluindo Todd.

Subaru: “――”

Abel: “No mínimo, parece que você possui algum conhecimento fundamental nessa cabeça. Ainda assim, o motivo de você ter se calado parece ser outro medo além da preocupação com a diferença de poder.”

Subaru: “…É verdade que há algo que eu temo, mas também é verdade que a diferença de poder é perigosa.”

Subaru estalou a língua, sentindo o desconforto de ter seus sentimentos internos corretamente adivinhados.

Na verdade, quando Subaru ouviu sobre o plano de capturar Guaral, o primeiro obstáculo que veio à mente foi Todd. Só de pensar em enfrentá-lo novamente, seu estômago já se revirava.

De qualquer forma, se pensassem de acordo com a Lei do Ataque Triplo, não valia a pena discutir.

Subaru: “Quanto a um meio de superar a diferença de força, não consigo pensar em nada além de um guerreiro poderoso se juntar a nós ou o comandante inimigo ser brutalmente incompetente.”

Abel: “Infelizmente, não acredito que possamos contar com nenhuma dessas possibilidades. Com as habilidades dos Surdrakianos, poderíamos dispersar as tropas, mas, se eles usassem seus números para nos cercar, seríamos derrotados. Além disso, ouvi que o comandante inimigo é Zikr Osman. Ele é um estrategista sólido e metódico, mas não possui pontos fracos.”

Subaru: “Zikr… Já ouvi esse nome.”

Ele deve ter ouvido aquele nome de Todd, antes que a relação entre eles tivesse se deteriorado.

O acampamento imperial já tinha sido reduzido a cinzas, mas ele se lembrava de que a pessoa no comando daquela operação militar era chamada de Zikr.

No entanto, como o acampamento havia sido queimado, ele pensou que aquela pessoa também tivesse sido derrotada.

Abel: “Os soldados do acampamento eram comuns. Desde o início, para ocultar o objetivo principal, eles foram instruídos com informações mínimas… Contra uma tribo pequena, um General de Segunda Classe não avançaria até a linha de frente.”

Subaru: “Então, tá dizendo que o oficial comandante ficou na cidade desde o começo?”

Abel: “Na verdade, sem fazer nada, ele deveria ter conseguido um resultado satisfatório. Esse plano saiu dos trilhos sob o meu comando… Ah, e por causa da sua presença, Natsuki Subaru.”

Subaru: “Guh…”

Com malícia, Abel tentou forçar Subaru a encarar a responsabilidade da qual ele desviava o olhar.

Subaru rangeu os dentes e pressionou a mão contra a boca.

De qualquer forma, havia uma alta probabilidade de que o General de Segunda Classe Zikr estivesse estacionado em Guaral.

Dizia-se que as altas patentes do Império eram organizadas como General de Primeira Classe, General de Segunda Classe, General de Terceira Classe, e assim por diante, então dava para entender que o segundo posto no topo significava uma pessoa bem poderosa.

Subaru: “O que você tá tentando dizer? Que, além da nossa força militar ser inferior, o comandante inimigo é um figurão entre a elite. E, como cutucamos o vespeiro, eles vão ficar ainda mais alertas, certo?”

Abel: “Precisamente. Consegue entender o peso da sua responsabilidade?”

Subaru: “Não é isso que eu tô dizendo!”

Abel condenava Subaru por sua imprudência, mas o problema era outro.

Era a postura de Abel, que ainda se recusava a desistir da luta, mesmo com uma chance ínfima de sucesso. Subaru mantinha resolutamente que era inútil tentar.

Afinal de contas――

Subaru: “Eu sou completamente contra lutar. Isso deveria estar bem claro quando eu saí daqui. Eu… Eu só quero ir pra casa com a Rem.”

Abel: “Ainda assim, isso já se mostrou inviável. Acha que os soldados imperiais em Guaral são seus únicos inimigos? Está convencido de que outra vila ou cidade seria segura?”

Subaru: “――――”

Abel: “Não importa para onde vá, sua paz não pode mais ser garantida. Minha intenção era te dar tempo suficiente para perceber isso, para que isso penetrasse até seu sangue. Ou será que o veneno ainda não foi suficiente?”

O olhar zombeteiro de Abel começava a corroer o frágil espírito de Subaru.

Além disso, enquanto sentia uma dor que parecia um grande sofrimento, Subaru soltou um longo suspiro; por mais irritante que fosse, ele não podia negar a verdade nas palavras de Abel.

O tormento que ele havia enfrentado na Cidade Fortaleza havia erguido uma barreira mental dentro de Subaru.

A partir de agora, mesmo que tentasse fugir com Rem para outro lugar, a mesma vigilância e medo não desapareceriam.

O orgulho de Subaru tinha sido perdido em troca de cinco mortes.

Subaru: “――Se é assim, e se eu te entregar pro inimigo?”

Sem saída e após ser repreendido por sua falta de sensatez, Subaru fez a pergunta, com o rosto contorcido.

No instante em que Subaru pronunciou aquelas palavras, o ar na sala de reunião ficou pesado. Pelo canto do olho, ele percebeu claramente Rem ao seu lado, com os olhos arregalados.

Mas aquele que ele ameaçava entregar, Abel, soltou uma risada discreta.

Abel: “Hmm. Finalmente, parece que sua cabeça começou a funcionar direito. E ainda assim…”

Mizelda: “Isso está fora de questão, Subaru.”

Num piscar de olhos, Mizelda sacou sua adaga e pressionou a lâmina contra o pescoço de Subaru.

Subaru engasgou com a velocidade dela e levantou o olhar para o rosto da alta chefe tribal, que tinha se movido num instante. Os olhos de Mizelda transmitiam uma convicção inabalável em seu belo rosto ― eram os olhos de uma caçadora implacável.

Mizelda: “Nós já decidimos lutar junto com Abel. Esse é o resultado do Ritual do Juramento de Sangue, e, se esse é o desejo de alguém que reconhecemos como compatriota, não tem volta.”

Subaru: “…Eu sei que, pra mim, que pedi a força de vocês pra trazer a Rem de volta, isso é audacioso de dizer. Mas, honestamente, vocês estão realmente bem com isso?”

Mizelda parecia resoluta, mas Subaru desviou sua pergunta para além dela.

Como chefe, Mizelda tinha que encarnar o modo como os surdrakianos deveriam ser, e não poderia ser convencida. Mesmo assim, os outros surdrakianos poderiam ter opiniões diferentes.

As opiniões de Taritta, Kuna e Holly.

Subaru: “Há pouco, esse cara também disse isso. A diferença de força militar é evidente, e o inimigo é um General experiente e corajoso. Desde o começo, dá pra ver que vocês não têm chance de vencer lutando contra ele…”

Holly: “Talvez, Subaru, você esteja com a ideia errada~.”

Subaru: “Ideia errada…?”

A primeira a responder foi, surpreendentemente, Holly.

No canto da sala de reuniões, Holly, que ouvia a conversa enquanto mastigava carne seca, fixou os olhos em Subaru, que não conseguia se mover.

Holly: “Se você tá falando de ganhar ou perder, recuar agora também é uma derrota~. Se não podemos lutar pelo nosso compatriota, nosso espírito vai ser manchado~.”

Subaru: “Espírito manchado, você diz… Algo como orgulho, ou o respeito aos ancestrais, é isso?”

Holly: “Sim, sim, você entendeu, Subaru~.”

Com um sorriso, Holly confirmou as palavras de Subaru.

Mas, ao invés de isso ser prova de entendimento mútuo, era a prova de que eles não conseguiam se entender.

Subaru também entendia que havia esse tipo de ponto de vista.

Coisas como orgulho e honra familiar, por assim dizer, eram justificativas invisíveis que não contribuíam diretamente para o corpo físico de uma pessoa. Pensar que essas questões eram de extrema importância certamente revelava atitudes que valorizavam tais ideais acima de tudo.

Ainda assim, até onde isso ia, era uma forma de pensar que não coexistia com a crença de Subaru de que não havia nada mais importante do que a vida.

Subaru: “Kuna! Taritta-san! Vocês duas compartilham dessa opinião também!?”

Kuna: “…Eu não penso tão profundamente sobre isso como a Holly ou a chefe.”

Taritta: “――. Eu sigo a decisão da minha irmã mais velha. Esse é o meu desejo.”

Subaru: “Entendi…”

Tentando pescar alguma informação das outras duas, Subaru não conseguiu a resposta que desejava.

Ele pensou que talvez Kuna, sendo um pouco fora do padrão dos outros surdrakianos, pudesse concordar com ele, mas parecia que sua esperança estava fora de lugar. A completa obediência de Taritta a Mizelda nem precisava ser mencionada.

Como estava, Subaru não tinha aliados, com uma adaga contra o pescoço, e parecia que o impasse continuaria, mas――,

Rem: “…Mizelda-san, por favor, abaixe sua arma. Essa pessoa não tem intenção de entregar Abel ao inimigo.”

Quem pediu para Mizelda abaixar a adaga foi ninguém menos que a própria Rem.

Encontrando o olhar dela, Mizelda estreitou os olhos.

Mizelda: “Está me dando uma ordem, Rem? Você não passou pelo Ritual do Juramento de Sangue. Permiti que você entrasse na aldeia a pedido de Subaru, mas não ache que isso significa que pode me desafiar.”

Rem: “Por isso mesmo você deveria abaixar sua arma. Essa pessoa participou do ritual… do Ritual do Juramento de Sangue, como vocês chamam, e foi acolhida como compatriota. Ferir ele não seria uma boa ideia.”

Mizelda: “Unh…”

Mizelda tentou intimidar Rem com sua percepção aguçada, mas a réplica firme de Rem a deixou sem palavras. No fim, ela rapidamente guardou a adaga na bainha presa à cintura.

E assim, Subaru foi libertado e olhou fixamente para Rem.

Mizelda: “O que você disse agora está correto. Mas, se as opiniões de Abel e Subaru se dividirem novamente, ficarei do lado de Abel. Não se esqueça disso.”

Rem: “É porque os olhos daquela pessoa são os de um vilão cruel com um odor corporal condizente?”

Mizelda: “Um pouco de intensidade no olhar também tem seu charme. Mas eu tenho uma queda por rostos bonitos.”

A situação tensa havia se acalmado, mas o desfecho foi uma conversa fraca.

De qualquer forma, Subaru foi liberado da situação de quase ter sua garganta cortada e esfregou levemente o local onde a lâmina havia sido pressionada. Então, ele olhou fixamente para Rem.

Rem: “――. O que foi?”

Subaru: “…Nada, só estou perdido entre responder ao fato de você ter me defendido ou ao fato de ter insultado meu rosto.”

Rem: “Eu não falei nada sobre seu rosto. Falei dos seus olhos. Depois do seu cheiro. Meu nariz está enrugando. Por favor, sente-se mais longe.”

Subaru: “De novo isso…!?”

Confrontado com a atitude glacial de Rem, Subaru se sentiu magoado pela distância que ela o fez manter.

Ainda assim, dentro de seu coração, uma confusão mais complicada o atormentava. Na realidade, por que ela tinha falado em defesa dele? Ele não entendia sua verdadeira motivação.

No entanto, talvez ela não gostasse de fechar os olhos para algo ilógico, ou talvez fosse outra coisa. Pensar assim não era um viés de Subaru?

Afinal, ela nem havia desempacotado suas coisas na hospedaria em Guaral, então――.

Abel: “Nossa conversa foi interrompida. No entanto, mesmo supondo que você conseguisse escapar dos olhos dos surdrakianos, a ideia de me entregar ao inimigo é inútil.”

Subaru: “…Bom trabalho trazendo o assunto de volta. Já que estamos nisso, vou perguntar. Por quê?”

Abel: “Você também passou um tempo na cidade, ainda que brevemente. Nesse caso, nenhuma notícia de como a Capital Imperial está sendo governada chegou aos seus ouvidos?”

Subaru: “A Capital Imperial, você diz… Ah! Certo, isso mesmo! Você é…!”

De repente, entendendo, Subaru se levantou no mesmo instante. Então, focando no que estava à sua vista, ele chamou: “Flop-san!”

Sem acompanhar a mudança nos acontecimentos, o perplexo Flop virou-se, perguntando: “Sim?”

Flop: “O-o-o-o que foi, Marido-kun? Sinceramente, estou completamente confuso e perdido agora, minha cabeça está uma bagunça! Não estou entendendo nada dessa conversa, só sei que parece que estamos chegando ao clímax da questão!”

Subaru: “Desculpa te deixar de fora, mas confirme algo pra mim. Em Guaral, você falou sobre o aviso oficial da Capital Imperial… ou melhor, sobre a proclamação do Imperador.”

Flop: “A proclamação do Imperador… Você quer dizer o problema na Capital Imperial?”

Flop estalou os dedos, e Subaru assentiu ao ver que ele havia entendido.

Imediatamente depois, a intensa luta com Todd, repetida seis vezes, estava gravada em sua mente como uma marca, mas ele também havia trocado essas palavras com Flop em Guaral.

Refletindo sobre o assunto, Flop alisou seus longos cabelos,

Flop: “As brasas fumegam no Império, e há algum tipo de distúrbio na Capital Imperial. O atual Imperador reina há muito tempo, e sem sinais de guerra civil, os cidadãos imperiais têm desfrutado de dias pacíficos. Mas aí isso aconteceu.”

Subaru: “As notícias sobre problemas na Capital Imperial se espalharam, e você disse que o próprio Imperador tinha se mobilizado para resolver a situação, certo? Foi um tipo de anúncio bem incomum, mas…”

Flop: “Exato. Na verdade, é a primeira vez que o Imperador atual faz isso desde que assumiu o Trono. Apesar disso, ele tem um histórico impecável administrando o Império até agora. Então, não estou preocupado! Viva Vollachia!”

Levantando as mãos, Flop, sem perceber, cutucou uma ferida antiga de Subaru.

Eram as palavras de exaltação ao Império que Subaru ouvira tantas vezes no acampamento imperial, mas agora ele não tinha ânimo para acompanhá-las de forma inocente.

De qualquer forma, o problema não era o elogio em si, mas sim o fato de o Imperador estar se movimentando para conter os problemas na Capital Imperial – algo sem precedentes.

E, se o Imperador realmente tivesse emitido uma ordem diretamente ao público――,

Subaru: “Você que está aqui agora, quem é e qual é a sua posição? Pode provar que não é algum lunático com parafusos soltos?”

Abel: “Prova, você diz? Onde está a necessidade disso?”

Subaru: “O quê?”

Sentado com o joelho levantado, Abel bufou diante do ceticismo de Subaru. Ao mesmo tempo, ele colocou a mão no peito e, como se quisesse exaltar sua própria existência, declarou:

Abel: “Deixe de lado os tolos que se voltaram contra mim. Considerando que você chegou a um ponto sem retorno, se ainda me tratasse como um insolente que fala asneiras, como explicaria a situação em que se encontra?”

Subaru: “Isso é…”

Abel: “Pare de se apegar a ideias fáceis que nem você consegue enganar para ter paz de espírito. Se você excluir as possibilidades que não se encaixam, o que sobra é apenas a verdade.”

As palavras de Abel eram duras, mas Subaru entendia, com amargura, a lógica por trás delas.

O homem mascarado na sua frente poderia ser um impostor se passando pelo Imperador e Subaru e os Surdrakianos estariam sendo enganados. Essa narrativa levaria a um desastre sem salvação – e era difícil acreditar nela.

Na realidade, Abel havia usado a força dos Surdrakianos e as informações que obtivera de Subaru para enfrentar e vencer o exército imperial. Esses acontecimentos eram fatos concretos, que um mentiroso habitual não poderia justificar.

Subaru: “Então, e quanto à situação da Capital Imperial? Se dizem que o Imperador está diretamente no comando, não tem como ele não aparecer em público.”

Abel: “Acredito que sim. Um impostor notavelmente semelhante a mim… Para evitar comentários sobre a ausência do Imperador, foi colocado um sósia excepcionalmente bem-feito. ――Chisha Gold.”

Subaru: “Chisha…?”

Era um nome que ele nunca ouvira antes, mas referia-se ao sósia do Imperador.

Em uma terra governada pela ideologia imperialista do “A força faz o certo”, era fácil imaginar que o Imperador teria um sósia para se proteger de tentativas de assassinato.

No entanto, o fato de esse sósia ser usado pelo inimigo para usurpar o Trono parecia uma ironia trágica.

Abel: “Silêncio, eu sei.”

Subaru: “Certo, por sua causa, estamos em uma baita confusão. Se ao menos o Império estivesse em paz…”

O único problema de Subaru deveria ser lidar com as interações frias da Rem amnésica.

Para se reunir com Emilia e os outros, sua jornada seria uma luta para escapar do Sacro Império de Vollachia. Era só isso que deveria estar em jogo. Mas agora, por algum capricho do destino, ele estava nesse caos.

Flop: “Hum, hum, ah, sabe, Marido-kun…”

A voz que chamou o distraído Subaru foi a de Flop.

Com a testa franzida em sua face elegante, ele inclinou a cabeça em um ângulo acentuado e disse:

Flop: “Desde que ouvi antes, fiquei pensando… O que vocês estão discutindo, você e o Chefe da Aldeia-kun, é meio misterioso, não é? Pra ser honesto, ainda estou chocado com aquela sua brincadeira sobre a queda de Guaral, mas…”

Subaru: “Uma brincadeira… Não, não se preocupe com isso. Hum, Flop-san, eu queria explicar, mas…”

Flop: “Sim, por favor, explique, se puder! Caso contrário, vou acabar aceitando tudo o que ouço sem questionar.”

Dizendo isso, Flop apontou com firmeza o dedo para Abel.

Então――,

Flop: “Vou ter que concordar com a ideia absurda de que o Chefe da Aldeia-kun ali é, na verdade, Sua Excelência, o próprio Imperador!”

Subaru: “――――”

Flop: “Hohoho? Ficar em silêncio agora me deixa em um dilema, Marido-kun. Felizmente, tenho uma reputação por tirar conclusões precipitadas. É por isso que sou flexível o suficiente para mudar e retirar minha opinião, sabe…”

Abel: “――Você, você fez algo semelhante a transformar a impropriedade em arte.”

Se estavam tentando esconder algo, era uma conversa desprovida de qualquer cuidado para fazê-lo.

Por isso, sentado ao lado de Subaru, Flop conseguiu, naturalmente, chegar à conclusão correta. E, sendo capaz de fazer isso sozinho, Abel demonstrava seu descontentamento.

Com desprezo no olhar, o alvo do insulto “impróprio” era Subaru. Ele estava apontando como Subaru não tinha esclarecido nada da situação para Flop, levando-o até o assentamento dos Surdrakianos sem qualquer preparo.

Entretanto, aceitar o desprezo de Abel era difícil para Subaru.

Subaru: “Eu sou impróprio? Como você pode dizer isso? Pra começo de conversa, até eu sei que isso não é algo que se diga assim em voz alta, sem pensar duas vezes.”

Abel: “Então, termine sua avaliação antes de trazê-los aqui. Parece que você ainda não compreendeu a situação atual. Fugindo dos inimigos em Guaral, o tempo que teve para refletir deveria ter sido mais do que suficiente.”

Subaru: “――――”

Abel: “Tendo algo mais importante do que você ao seu lado, por que se rendeu aos seus próprios pensamentos? Se não tinha intenção de colocá-los ao seu nível, trazê-los de volta foi um erro desde o início.”

Algo mais importante do que você mesmo. Ao ouvir isso, Subaru pensou em Rem ao seu lado.

As palavras que se seguiram também o feriram como se sua carne fosse cortada. ――O que Abel queria dizer era claro como o dia. Ele falava sobre como Subaru havia se exposto em um momento em que deveria estar protegendo Rem.

Claro, Subaru não tinha lembrança de ter baixado a guarda ou cedido em qualquer momento.

No entanto, aos olhos de Abel, cujo raciocínio ia muito mais longe e mais fundo do que o de Subaru, o pensamento dele era severamente falho. Nunca era suficiente, nem digno de consideração.

Não traga de volta alguém que não pode ser confiável para entender os detalhes. Era assim que ele estava sendo criticado.

Subaru pensou em não envolver Flop e Medium em nada. Abel expôs o pensamento ingênuo de Subaru e o descartou friamente, dizendo que era idiota e estúpido.

Subaru: “Eu…”

Flop: “――Chefe da Aldeia-kun! Posso interromper essa discussão por um momento?”

Subaru ficou sem palavras; mas, em seu lugar, Flop ergueu a mão energeticamente.

Avançando ruidosamente, ele se sentou de pernas cruzadas com um baque e encarou a máscara oni de Abel diretamente.

Flop: “Ou talvez você não seja o Chefe? Como devo chamá-lo?”

Abel: “Atualmente, não carrego nenhum título. Assumi o nome de Abel, mas pode me chamar como preferir.”

Flop: “É mesmo?! Então vou continuar chamando você de Chefe da Aldeia-kun, porque parece adequado. As soldadas ali não se importam, certo?”

Mizelda: “Ah, você é um homem sexy. Eu permito qualquer coisa.”

Taritta: “Irmã…”

Deixando de lado a interação quase habitual entre as irmãs, Flop riu com um “Muito obrigado!”. Enquanto fazia isso, bateu com força os joelhos com as mãos e disse:

Flop: “Fiquei assustado porque você não negou por muito tempo, mas quero falar sobre o que você disse antes da última coisa que disse. Chefe da Aldeia-kun, você queria saber sobre rotas secretas para entrar na cidade…?”

Abel: “Sim, eu queria. Alguma ideia, mercador?”

Flop: “Tenho! É o que parecia que eu ia responder, mas peço desculpas. Se isso for usado para atacar Guaral, então não posso responder.”

Com a palma da mão estendida, Flop declarou isso com uma expressão alegre.

Ouvindo ao seu lado, Subaru arregalou os olhos diante das palavras simples e resolutas de Flop. Até mesmo Abel estreitou os olhos por trás de sua máscara oni.

Essa era a seriedade que Flop colocava em suas palavras, mesmo que não aparecesse no tom.

Abel: “――――”

A declaração de Flop era bastante ousada e o fazia se destacar, mas não porque era estúpido.

Ele também havia concluído que a verdadeira identidade do homem à sua frente, de Abel, era a de alguém de alta classe e prestígio. Não tinha sido informado se estava certo ou errado, mas supunha que sua conjectura estava próxima da verdade.

Ou seja, ele havia, diante do presumido Imperador, respondido com um grande “NÃO”.

Abel: “… Você compreende o significado do que disse?”

Flop: “Você é só o chefe, não é, Chefe da Aldeia-kun? Claro que compreendo. Se as espadas se cruzassem, eu rejeitaria isso. Quero evitar causar danos a alguém com o conhecimento que possuo.”

Abel: “Isso não passa de um conto de fadas. Na realidade, a malevolência não se preocupa com as circunstâncias de ninguém antes de atacar. Você pretende erguer a mão para cada uma delas e implorar que recuem?”

Flop: “Se for necessário!”

Abel: “Mesmo que o faça, seus esforços não darão frutos. ――Esta é a terra dos lobos.”

Uma aura gélida e assustadora emanando do corpo de Abel atravessou o ar enquanto ele declarava isso.

A sensação terrível de opressão não vinha da diferença de força. Manifestava-se pela diferença de presença. Até mesmo Rem e os Surdrakianos, que poderiam dominar Abel se lutassem, prenderam a respiração e congelaram.

Claro, Subaru também ficou intimidado, a ponto de sua respiração ficar irregular. Flop não foi uma exceção.

No entanto, enquanto Flop era atingido pela aura assustadora do Imperador――,

Flop: “Mesmo em uma terra de lobos, ovelhas também vivem. Se os lobos vierem morder minhas nádegas, vou subir na minha carroça de boi e fugir com minha irmã. Repeti isso várias vezes até hoje, Chefe da Aldeia-kun.”

Abel: “――――”

Mesmo que suas bochechas estivessem congeladas, o sorriso de Flop não desapareceu. Esse era seu protesto.

Ouvindo isso, a aura demoníaca emanando de Abel de repente se dissipou. O ar opressivo que varrera o local do encontro desapareceu de repente, e Subaru recuperou a capacidade de respirar livremente.

No entanto, mesmo que tivesse conseguido algum alívio para respirar, o coração de Subaru não estava em condições de voltar ao normal.

Subaru: “Ahh, Flop-san…”

Subaru chamou Flop com uma voz rouca. O sorriso que Flop mostrou a Subaru, enquanto este o olhava, era brilhante.

Estava perto de um sorriso resignado, mas o perfil lateral de Flop não mostrava nenhum sinal de arrependimento. No entanto, mesmo que ele não se arrependesse, para Subaru, que o trouxera ali em primeiro lugar, o arrependimento apenas crescia exponencialmente.

Pois Flop havia se oposto diretamente ao Imperador de Vollachia.

Usando essa razão para incitar o desagrado de Abel, Abel poderia fazer qualquer coisa com Flop, já que comandava o Povo de Surdrak.

No entanto, ao contrário das preocupações de Subaru――,

Abel: “――. Opondo-se ao meu argumento preguiçoso, vejo que sua crença não vacila. Um homem problemático você é, não é, mercador?”

Flop: “É mesmo? Ainda assim, reconheço que minha aparência é favorável às pessoas, sabe!”

Mizelda: “Concordo.”

Abel, tendo recolhido sua aura intimidante, não direcionou sua fúria para Flop.

Flop reagiu àquilo de um jeito que tornava difícil saber se ele tinha consciência do quão perigosa era a corda bamba na qual estava se equilibrando. Nenhum comentário sobre a observação de Mizelda.

Abel: “Vou retirar meus agradecimentos anteriores, Natsuki Subaru.”

Subaru: “Hã?”

Subaru, incapaz de restaurar a paz interior que havia sentido antes, foi surpreendido pelas palavras de Abel.

Por trás de sua máscara oni, o homem de olhar afiado acenou com a cabeça em direção ao teimoso Flop e continuou:

Abel: “Você não tem noção de si mesmo. Se pretendia trazer alguém, deveria ter escolhido alguém mais alinhado aos meus interesses. Assim, as coisas seriam feitas sem complicações futuras.”

Subaru: “…Se fosse alguém assim, duvido que teria sido gentil conosco desde o começo.”

Abel: “Hm, acho que esse julgamento está correto. Que irritante.”

Se os agradecimentos anteriores tinham sido pelo fato de trazer Flop, a obstinação dele certamente fazia Abel querer retirar sua aprovação.

Subaru jamais imaginaria que alguém ousaria desafiar diretamente a autoridade de um imperador ―― ou melhor, seria mais apropriado dizer que Flop a desviava como um galho de salgueiro ao vento. Era difícil acreditar que uma pessoa pudesse agir assim.

Sem mencionar que também era inesperado que Abel tolerasse tal atitude vinda de Flop.

Rem: “Eu imaginava que, Abel-san, fosse alguém muito mais obstinado.”

Subaru: “Espera aí, Rem!?”

O breve comentário de Rem parecia refletir os sentimentos de Subaru, e seus olhos se arregalaram involuntariamente.

Na verdade, ele também achava aquilo surpreendente, mas havia preferido não dizer nada, acreditando que não ganharia nada ao fazê-lo. Contudo, vinda de Rem, a observação chamou a atenção de Abel, que voltou sua máscara oni em direção a ela.

O oni e a máscara oni se encararam, e por um momento o espaço entre os dois mergulhou em silêncio.

Abel: “――Pessoas com convicções são preocupantes. Raízes fortes se espalham e reforçam o tronco.”

Rem: “…O que isso significa?”

Abel: “Não consegue entender? Não importa, é algo trivial.”

Rem franziu a testa ao ouvir a resposta tranquila e, de certa forma, atípica de Abel. Demonstrando certo desapontamento com a reação dela, Abel balançou a cabeça lentamente.

Ninguém sabia o motivo de sua decepção. No entanto, Subaru podia ter uma ideia aproximada.

Subaru: “…Você estava aludindo a algo?”

Abel: “Oh, isso foi inesperado. Você não parece alguém que recebeu educação.”

Subaru: “Imaginei que fosse algo do tipo. Você parecia estar citando outra pessoa.”

Ouvir Abel falar inesperadamente de forma casual era surpreendente.

Porém, o próprio Abel não deu importância ao fato de seus pensamentos verdadeiros terem sido revelados e respondeu com um curto “Entendo.”

Abel: “Quanto à sua pergunta anterior, dizer que isso foi inesperado de mim significa que você tem uma certa impressão minha, não é? Primeiramente, o que esperava que eu fizesse?”

Rem: “…Achei que ao menos você os torturaria para obter informações.”

Questionada por Abel, a impressão deixada pela resposta de Rem era de uma honestidade até excessiva.

Dito isso, essa também não era uma possibilidade que Subaru não tivesse considerado. Se Abel quisesse forçar Flop a obedecê-lo, não seria surpreendente que ordenasse aos Surdrakianos que o torturassem ou fizessem algo similar.

Contudo, Abel deu de ombros diante dessas palavras e respondeu: “É inútil.”

Abel: “Certamente há momentos em que a dor é a melhor tática de negociação. No entanto, a veracidade das informações extraídas por esse método é extremamente baixa. Os humanos mentem sem hesitar para se livrar da dor que enfrentam.”

Rem: “――――”

Abel: “E, se estivesse em tal situação, seus olhos me dizem que você os protegeria com sua própria vida.”

Essa foi a avaliação de Abel sobre Rem, que o encarava imóvel.

Olhando o perfil dela, Subaru viu o maxilar cerrado e suas feições delicadas quase sendo consumidas por uma expressão de determinação severa. Aquela imagem deixava claro que a breve avaliação de Abel era verdadeira.

Abel: “Não cometerei uma ação tola que possa reduzir minhas tropas em troca de informações de baixa precisão. ――Portanto, vou negociar.”

Flop: “Negociar?”

Abel: “Mercador, comprarei qualquer conhecimento que possua. Vamos negociar por isso.”

Abel disse, enquanto abaixava o joelho erguido e se acomodava em uma posição de pernas cruzadas. Ao ouvir isso, Flop arregalou os olhos e, com um sorriso no rosto, voltou-se para Abel.

Então――,

Flop: “Quando escuto a palavra ‘negociação’, como mercador, não consigo evitar me empolgar. Mas! Antes de começarmos a negociar, deixe-me deixar uma coisa bem clara: sou muito teimoso. Mesmo que minha cabeça fosse partida e esmagada, não vou aceitar nada com o qual eu não concorde.”

Essa foi sua declaração.


Subaru: “Mesmo que sua cabeça fosse partida, isso não tem graça nenhuma… Não tem graça nenhuma, Flop-san.”

Lembrando-se das palavras cortantes de Flop que deram início à batalha de negociação há pouco, Subaru fez uma expressão amarga.

Flop não havia dito aquilo de propósito, mas, tendo experimentado na pele sua cabeça ser partida e esmagada várias vezes na realidade, as palavras carregavam o peso de um ataque surpresa para Subaru.

Subaru: “――――”

Estreitando os olhos, Subaru olhou para a área de reunião de uma colina um pouco afastada.

Mesmo agora, na área de reunião, as negociações entre Abel e Flop, ou melhor, suas “discussões de negócios”, continuavam.

Abel queria uma base para a conquista de Guaral. Flop tinha o conhecimento necessário para isso, mas se recusava a revelá-lo. Essa era a situação no momento.

O motivo de Subaru ter saído da área de reunião era simples: qualquer um desnecessário para as negociações deveria ser excluído. Basicamente, ele foi expulso por Abel.

E, para ser honesto, Subaru não conseguia pensar em uma razão válida para permanecer lá.

Subaru: “Usar caminhos secretos para entrar na cidade, um ataque-relâmpago para atingir diretamente o general inimigo.”

Expulso da reunião, Subaru sentiu o vento com cheiro de selva enquanto mergulhava em suas memórias.

Pelo que havia ouvido, o plano de Abel era algo nesse sentido.

Embora simples, era difícil pensar em outra estratégia para superar a disparidade numérica. Se algo fosse acrescentado, seria criar uma distração na cidade ou usar pequenos truques para reduzir os guardas do general inimigo.

Quanto aos problemas do plano――,

Subaru: “Planos simples são facilmente antecipados. Pelo menos é o que eu acho… Especialmente se Todd estiver contra nós.”

Se não houvesse outro método de ataque, era lógico que o inimigo tomaria precauções contra esse. Portanto, um plano que o inimigo já previa era, em termos de beisebol, como lançar uma bola reta direto no centro. Do ponto de vista do inimigo, seria uma oportunidade irresistível para atacar.

Imaginar Todd errando esse movimento era algo inconcebível para Subaru.

Subaru: “Ou será que estou sendo paranoico demais? No extremo caso de Todd… Se um soldado médio for como ele, então não há nenhuma chance de vitória.”

Ele não sabia. Havia muitas incógnitas. Mas ele não queria acreditar nisso.

Não queria sequer imaginar um cenário em que inimigos como Todd fossem comuns. Sua afinidade com o Retorno Através da Morte sendo a pior já havia sido comprovada pela dor, acumulando o maior número de mortes no menor tempo possível.

Pensar que isso era a norma no Império de Vollachia―

???: “―As negociações parecem estar se arrastando.”

Subaru: “――”

Em algum momento, Subaru havia coberto o rosto com as mãos, fechando sua visão para o mundo.

Enquanto encarava o vazio negro, a voz de uma garota a que ele já estava acostumado ecoou em seus ouvidos. Apesar de familiar, era uma voz que ele desejava ouvir para sempre.

Mas isso só valia quando seu coração estava em paz.

Subaru: “Rem…”

Abaixando as mãos que cobriam o rosto, Subaru abriu nervosamente as pálpebras. Apoiada em sua bengala, Rem estava ali, parada tranquilamente na suave encosta da colina. Seu olhar atravessava Subaru, deixando-o paralisado.

Estar diante dela, assim, fazia seu coração disparar.

Durante os dias passados retornando ao assentamento dos Surdrakianos, Subaru havia direcionado sua raiva para Abel, considerando que suas ações eram equivalentes a uma armadilha.

Fazendo isso, pode-se dizer que ele evitava falar com Rem. Na realidade, isso não era errado. Ele estava com medo de conversar com ela e descobrir suas verdadeiras intenções.

Por isso, desviava os olhos do que não queria encarar, buscando soluções improvisadas.

No entanto, havia um limite para quanto tempo ele poderia fugir daquilo que não gostava.

Havia um limite e, a partir daí――,

Subaru: “――――”

Agora, ele não tinha escolha a não ser encarar os olhos dela, cheios de seriedade.

Rem: “Parece que Abel-san está adicionando várias condições, mas Flop-san não está cedendo em nada.”

Subaru: “…É, ele é uma boa pessoa. Não quer ajudar oferecendo conhecimento que possa machucar alguém. Cercado pelos Surdrakianos, ele tem muita coragem pra dizer isso.”

Subaru havia observado o progresso das negociações por um tempo, e a teimosia de Flop era exatamente como ele havia proclamado.

O foco da discussão, como esperado, eram as baixas na Cidade de Guaral. Pessoas e bens materiais――Flop havia deixado claro que não comprometeria nenhum dos dois.

Abel prometeu minimizar ao máximo as baixas humanas, mas isso não era suficiente para decidir o acordo.

Como linhas paralelas, eles não conseguiam se encontrar e chegar a um entendimento.

Diante da atitude obstinada de Flop, Subaru também sentiu alívio.

Rejeitando a guerra, ele confrontava Abel de frente.

Subaru sentia-se aliviado por haver outra pessoa assim, além dele.

No entanto――,

Rem: “Não acho que essa seja uma situação em que simplesmente dá para dizer que ele é uma boa pessoa.”

Subaru: “…O quê?”

Em oposição a Subaru, que elogiava a postura de Flop, Rem revelou calmamente uma crítica contundente.

Surpreso com o tom mordaz de suas palavras, Subaru encarou Rem inconscientemente. Apesar de ser difícil encará-la diretamente, e mesmo desejando evitá-la, em seu campo de visão, Rem o olhava fixamente.

Sem desviar o olhar, ela continuou.

Rem: “Ele não quer machucar os outros com seu conhecimento. Eu entendo esses sentimentos. Mas… se você pensar na situação como um todo, incluindo ele, como ele vai justificar as baixas que surgirem porque ele não compartilhou seu conhecimento? Não dá para dizer que isso também seria machucar os outros com conhecimento?”

Subaru: “Isso é só um argumento pelo argumento. Tentar culpar o Flop por todas as baixas que aconteçam porque ele não falou é só uma acusação injusta.”

Rem: “Talvez você esteja certo. Mas, não acho que seja realista continuar fugindo para sempre.”

Abel havia declarado que aquilo era a Terra dos Lobos. E, contra isso, Flop havia proclamado que as ovelhas fugiriam.

Era um conto de fadas, pensava Rem pessimista――Não, de forma realista, ao dizer. Ela era mais uma pessoa que havia pisado em Guaral. A tenacidade e a impiedade dos Soldados Imperiais haviam se entranhado em seus ossos.

Eles poderiam escapar daquela perseguição opressiva mais uma vez?

Diante de uma oposição determinada, e não de uma intenção maliciosa vaga, Flop, junto a Medium, poderia continuar fugindo até o fim do mundo?

E Subaru e seu grupo, que compartilhavam o mesmo destino, seriam capazes de――.

Subaru: “Pera aí, pera aí, Rem. Isso que você tá falando é uma loucura. Você mesma disse antes que não queria que tivesse uma luta. Mas, do jeito que tá falando agora…”

Rem: “――”

Subaru: “É como se você tivesse aceitado que a gente tem que lutar.”

Sua garganta tremia. Subaru não conseguia colocar as palavras pra fora direito.

Mas, assim como dizem que os olhos podem dizer mais que a boca, na conversa frágil entre Subaru e Rem, não eram apenas as palavras que transmitiam seus sentimentos. Seus olhares também.

A determinação sombria que tingia os olhos dela era a mesma de quando tinha defendido Flop contra Abel. Foi o que Subaru percebeu.

Subaru: “… Me dói não conseguir te entender.”

Vendo aquela postura dela, Subaru deixou escapar o que estava no fundo do coração.

Ela havia criticado Flop por seguir as crenças de Subaru, mas agora olhava para ele com os mesmos olhos que usara ao defender Flop, quando ele expunha suas próprias convicções.

Ela o tinha protegido de Abel, mas não havia sequer desfazido a bagagem na hospedaria em Guaral. As interações entre a Rem desperta e Subaru sempre foram inconsistentes e unilaterais.

Do fundo do coração, ele estava feliz que ela tinha acordado.

A tristeza por suas memórias não terem voltado, ele acreditava que poderiam resolver de alguma forma.

Ainda assim, no Império, onde não havia ninguém em quem ele pudesse confiar de verdade, e onde precisava trazer Rem de volta para Emilia e os outros, a atitude não cooperativa dela era como uma faca cravada em sua perna.

Cada vez que isso acontecia, era como se ele quase caísse, vencido pela dor.

Subaru: “… Você não desfaz as malas na pousada, né? Por causa disso, a gente conseguiu fugir mais rápido, mas sempre achei estranho.”

Rem: “Isso foi…”

Subaru: “A maioria das pessoas, ao chegar numa pousada, relaxa, se acomoda, ou começa a desfazer a bagagem. Pelo menos, é o que eu acho. Claro, sempre há a chance de você não ser esse tipo de pessoa. Mas…”

Ele não queria terminar aquela frase.

Se pudesse continuar desviando o olhar, ele o faria, mas agora que sentia que não dava pra evitar questionar Rem sobre sua atitude inexplicável, não tinha mais como desviar.

E por isso―”

Subaru: “Mas você tentou fugir de mim de novo, não tentou?”

Rem: “―”

O silêncio de Rem era cortante. Subaru sentia o sangue pulsar por todo o corpo.

No entanto, uma ferida já exposta não tem mais serventia. Deixando o sangue escorrer, sem se importar com a carne à mostra, ele só podia encarar a dor de frente.

Subaru: “Se… se você não consegue confiar em mim, tudo bem. É doloroso, mas eu entendo. Você não tem memórias e, pra você, meu cheiro é como o de alguém imperdoável. E eu não tenho nada que prove que você pode confiar em mim. Eu entendo por que você não consegue acreditar em mim e quer se afastar.”

Rem: “――――”

Subaru: “Mas as pessoas que estão esperando por você… as pessoas que te têm no coração, são reais. Se você não gosta de mim, não precisa falar comigo. Eu vou aguentar se você afastar minhas mãos. Mas, por favor, não tente ir embora.”

Rem: “――――”

Subaru: “Eu tô te implorando, então, por favor… Por favor, não me exclua da sua vida.”

Sua voz suplicante tremia, os olhos estavam prestes a transbordar.

Se aquelas lágrimas que começavam a surgir eram fruto de autopiedade ou do pedido sincero para Rem, nem ele mesmo sabia.

Na verdade, ele só estava sendo patético. Era tão absurdo que quase dava vontade de rir.

Mesmo que não fosse rejeitado, não seria surpresa se fosse abandonado por causa daquela súplica desesperada.

――Ele continuava expondo seu eu fraco e lamentável diante de Rem.

Era algo que ele jamais mostraria para Emilia, Beatrice ou seus outros amigos.

Pelo menos, Subaru se esforçava intencionalmente para não mostrar esse lado a eles. Mesmo que não conseguisse evitar completamente, era assim que ele agia agora.

Porque ele havia decidido mostrar sua fraqueza apenas diante de Rem.

No entanto, isso não significava que ele queria que Rem, amnésica, sem ninguém em quem confiar, sozinha em outro país, carregasse o peso que era Natsuki Subaru. Esse jamais foi seu desejo.

Rem: “――――”

Ao ouvir a súplica vergonhosa de Subaru, Rem não disse nada.

Ainda assim, Subaru não desviou seu olhar embaçado e cheio de lágrimas dela. E ela também não desviou o olhar de Subaru.

Um breve silêncio envolveu o espaço entre os dois.

Rem: “――Eu.”

Subaru: “――――”

Rem: “Eu não estava tentando te abandonar.”

Rem falou de forma hesitante, escolhendo as palavras com cuidado.

Aquela era uma emoção que Rem ainda não havia demonstrado a Subaru. Nem uma única vez.

Ela falava com alguém de quem deveria desconfiar, com consideração e cuidado. Falava sem a intenção de ferir os sentimentos dele.

Suas palavras não soavam como se estivesse falando de forma desesperada e sem pensar. Seu tom fazia Subaru acreditar nisso. Ou talvez fosse apenas sua esperança o conduzindo.

Subaru: “Você está…”

Apoiando-se naquele fio de esperança, naquela linha tênue que não deveria estar sustentando, Subaru tentou encontrar as palavras certas.

O que Rem estava pensando? O que ela desejava? No que ela acreditava ao proferir aquelas palavras?

Sem nem saber se deveria conhecer as respostas para essas perguntas, Subaru só queria ouvir mais a voz dela e tentou continuar sua frase.

Mas――,

???: “Aaaa, uuuu!!”

Subaru: “Guoh!?”

Antes que pudesse continuar, uma força se lançou contra sua cintura, e o corpo de Subaru foi jogado para o lado, tombando pela colina. A atmosfera anterior foi despedaçada, e a cabeça de Subaru girou enquanto ele arregalava os olhos para tentar entender o que estava acontecendo.

???: “Ruu! Não se senta no Suu! Isso é errado! Uu tentou impedir ela. Ruu foi quem fez isso.”

Subaru: “U-Utakata…? Quer dizer que isso é…”

Aquela que corria com passos quase cômicos, levemente ruborizada, pele oliva brilhando ao sol, era Utakata. E, puxando pela manga a garota sentada no peito de Subaru, com os longos cabelos dourados presos atrás da cabeça――,

Rem: “Rui-chan, por favor, desça. Ele vai acabar esmagado.”

Rui: “Uuu?”

Trocando a expressão alegre e radiante por uma interrogação, Rui inclinou a cabeça para as palavras de Rem.

Sentada no peito de Subaru, Rui dava tapinhas em suas bochechas, sem se importar com o mundo ao redor. Mas era justamente essa despreocupação que tirava Subaru do sério.

Subaru: “Estamos no meio de uma conversa importante. Sai daí agora.”

Rui: “Aaa?”

Subaru: “Não me venha com aaa. Utakata, por favor?”

Utakata: “Eu vou ouvir porque o Suu pediu. Uu é uma boa esposa e uma boa mãe.”

Ela entendeu o que isso significava? De qualquer forma, Utakata puxou o braço de Rui para afastá-la do peito de Subaru. Com a pressão finalmente desaparecendo, Subaru se ergueu no lugar, ainda atordoado.

Mesmo assim, o olhar insatisfeito de Rui entrou em seu campo de visão imediato, o que só aumentou sua irritação.

Subaru: “No fim das contas, ainda não há uma resposta sobre o que você realmente é.”

A Arcebispa do Pecado, a vil criatura “Gula”, Rui Arneb.

Se ele tivesse que escolher palavras para descrever a garota loira à sua frente, muitas delas seriam cruéis e nada elogiosas. Contudo, mesmo que essas palavras fossem, no passado, perfeitamente adequadas, a garota diante dele agora não se encaixava mais nesse perfil.

Aquela figura maligna não o salvava, não o ouvia, nem sorria para ele de forma descuidada.

Porém―,

Rui: “Uuu?”

Rui inclinou a cabeça, e as ações dela até agora passaram rapidamente por sua mente.

Ela o salvou quando Rem quase o sufocou. Gritou e enfrentou, ao lado dele, muitas das adversidades que apareceram no caminho. Inclusive a mais recente: Todd e seu machado.

A lembrança de Rui recebendo uma cotovelada de Todd e sangrando pelo nariz ainda estava fresca em sua mente.

Seu rosto, no entanto, já não mostrava qualquer sinal do ferimento, e ela agia como se o evento não tivesse deixado nenhuma marca. Isso era irritante de certa forma, mas――,

Rem: “Rui-chan.”

Rui: “Uuu!”

Ao ser chamada, Rui rapidamente mudou sua expressão para uma radiante e correu em direção a Rem.

Como se tivesse aprendido a pular levemente sobre a Rem apoiada em sua bengala, Rui saltou sem muita força. Rem a recebeu e começou a acariciar sua cabeça com delicadeza.

Aquela era a Arcebispa do Pecado, uma das responsáveis pelo estado atual de Rem. Parte da causa estava ali, nos braços dela: Rui Arneb.

Rem: “Esses seus olhos…”

Subaru: “Hã?”

Rem: “Os olhos com que você olha para essa criança. Eu também acho estranho. Ela é tão apegada a você, e mesmo assim você…”

Subaru: “―”

Rem murmurou enquanto abraçava o pequeno corpo de Rui. Subaru ficou em silêncio.

Seria aquilo a continuação das palavras que ela havia deixado incompletas antes? A Rem que não havia desfeito as malas em Guaral… A continuação disso poderia iluminar o resto da verdade.

Mas, mesmo enquanto Subaru esperava, Rem não disse mais nada. Apenas envolveu a sorridente Rui em seu abraço.

Subaru: “… O que você quer que eu faça?”

Olhando para Rem, Subaru finalmente optou por usar palavras conclusivas.

Talvez fosse injusto forçar Rem a lhe dar uma resposta. Contudo, se todas as palavras e ações que ele escolheu fossem rejeitadas por ela, essa era a única alternativa restante.

O que Rem desejava? O que ela queria que ele fizesse? Subaru precisava perguntar diretamente.

E, se a resposta dela fosse algo que ele não pudesse realizar, então seria naquele momento que o elo entre eles talvez se tornasse irremediavelmente quebrado. Ciente disso, Subaru perguntou com receio.

Ela prendeu a respiração por um momento diante da pergunta, e então respondeu:

Rem: “… Eu não quero que isso vire uma batalha.”

Subaru podia entender isso. Na verdade, quando o acampamento do Exército Imperial foi reduzido a cinzas, ela acreditou que Subaru estava por trás do ataque e o confrontou com uma atitude feroz e ameaçadora.

Rem não queria uma guerra. Ela não desejava conflitos. Isso era evidente.

No entanto, justo quando Subaru estava certo dessa convicção, ela acrescentou algo mais.

E isso foi――,

Rem: “Mas não acho que podemos continuar fugindo para sempre. As palavras de Flop-san não são realistas. E…”

Subaru: “Você não consegue concordar com a opinião de Abel.”

Rem: “…Sim.”

Rem assentiu timidamente, confirmando a pergunta de Subaru.

Seu reconhecimento hesitante era um sinal de que ela tinha consciência de quão ousadas eram as palavras que acabara de proferir. E, claro, eram mesmo.

Ela concordava com a postura de Flop, que desejava evitar o conflito, mas também via razão na visão de Abel, que afirmava que lutar era inevitável. Era uma visão que poderia ser considerada a própria encarnação do oportunismo.

Para ser honesto, até mesmo Subaru pensava em como seria bom se uma opinião tão neutra funcionasse.

Ninguém queria lutar. Mas lutar era um desfecho inevitável.

Eles não queriam tirar vidas. Contudo, estavam na linha de frente de um confronto onde tirar vidas era inevitável.

Era preciso encarar essa dicotomia.

Rem: “Você poderia…”

Subaru: “Hã?”

Com o rosto amargo, Subaru concordou com o pensamento contraditório de Rem. Mas, diante do Subaru angustiado, Rem ergueu o olhar em sua direção.

Segurando a cabeça de Rui contra o peito, ela o fitou com olhos azul-claros que transmitiam uma vulnerabilidade inquietante.

Subaru prendeu a respiração. Como se estivesse reunindo coragem, ela finalmente disse:

Rem: “―Você poderia fazer algo a respeito disso?”

Ela perguntou como se estivesse se agarrando a ele, buscando uma resposta.

Subaru: “――――”

No instante em que recebeu aquela pergunta, Subaru ficou paralisado, como se um raio o tivesse atingido.

Aquilo era… uma pergunta… completamente irracional.

Comparado a Subaru, que se via como injusto e covarde, aquela pergunta era infinitamente pior.

O desejo de não lutar, a consciência de que lutar era inevitável. Uma terceira resposta, que não fosse nenhuma das duas opções. ――Era isso o que Rem esperava de Subaru.

Por quê?

Esquecendo tudo e qualquer coisa, a confiança e o afeto que Rem tinha por Subaru haviam desaparecido. Ela também mantinha cautela e repulsa por conta do cheiro repugnante que o cercava. E, mesmo assim, por que ela pediu isso a ele?

Por que Rem olhava para Subaru com olhos que pareciam agarrar-se desesperadamente a ele?

Subaru: “――――”

Aquela pergunta tão unilateral, até egoísta, acendeu uma chama dentro de Natsuki Subaru.

Mesmo que ele se irritasse, a xingasse ou a condenasse por sua ingenuidade naquele instante, sem dúvida seria perdoado.

Porque a opção que Rem escolheu era incrivelmente egoísta.

No entanto, o que surgiu em Subaru naquele momento foi um senso de dever que brotou do fundo de sua alma.

Subaru: “Eu…”

Ele precisava lutar.

Precisava resistir.

Sabia que tinha de romper com o presente, como ele era agora.

Evitar o combate, seguindo o caminho traçado por Flop O’Connell, que se recusava a enfrentar diretamente os desafios. Preparar-se para a batalha inevitável, como Vincent Abellux, que buscava a sobrevivência a qualquer custo.

Mas Subaru não podia escolher nenhuma dessas respostas.

Ele precisava encontrar outro caminho. Uma alternativa diferente. Porque――

Subaru: “Eu sou o herói em quem Rem acreditava.”

E também porque era o homem que continuou lutando neste outro mundo, usando apenas sua obstinação como arma.

Não era apenas sua filosofia ― essa filosofia que não se desmoronava nem mesmo quando ele cruzava fronteiras ― que mantinha Natsuki Subaru caminhando até hoje. Ele acreditava nisso.

Encontrar Emilia, ser salvo por ela e viver os dias correndo para protegê-la. Segurar a mão de Beatrice, tirá-la da Biblioteca Proibida e cumprir sua promessa de ficarem juntos. Salvar Rem, ser salvo por ela, ser amado por ela e decidir retribuir sua fé e amor.

――O sangue de Natsuki Subaru fervia enquanto ele se esforçava para mudar aquela situação constrangedora.

Havia algo, qualquer coisa, que ele pudesse fazer?

Os dias passados no Reino de Lugnica, os dias desde que foi arremessado no Império de Vollachia, as pessoas que encontrou, os inimigos que enfrentou, aqueles que estiveram ao seu lado e aqueles que se opuseram a ele. Tudo isso se tornava combustível.

Pensar, concentrar-se, imaginar, agarrar todas as possibilidades possíveis.

Neste mundo, onde todos pareciam mais bem-sucedidos que ele, a única opção que restava a Natsuki Subaru era uma: ――sua vida cheia de artimanhas e sagacidade.

Então, então, então, então――.

Subaru: “――Ah.”

Atormentado por sua inutilidade, dominado por uma sensação de perda e sem nada mais a fazer, Subaru havia deixado a área da reunião.

Mas, naquele Subaru, naquela mente repleta de dúvidas, surgiu um pensamento como um lampejo.

Agarrando-se a essa possibilidade absurda, Subaru começou a considerar seriamente se aquele pensamento poderia ser transformado em um plano real.

Rem: “――――”S

Com os olhos fixos em Subaru, Rem permaneceu em silêncio.

Segurando Rui, que parecia prestes a causar uma confusão, e mantendo Utakata sob controle, ela inclinou a cabeça, como se não quisesse deixar escapar nenhuma palavra, enquanto observava Subaru.

Apesar de não ter nenhuma memória ― ou não deveria tê-las ―, ela o encarava com o mesmo olhar que tinha antes.

Como se acreditasse que Natsuki Subaru poderia encontrar a resposta que ninguém mais conseguia.

E então――,

Subaru: “――Rem.”

Com a mão no queixo, Subaru chamou por Rem. Ela se endireitou ao ouvir seu nome.

Não havia resposta. De alguma forma, ela entendia que ele não esperava por uma.

No entanto, sem notar sua reação, Subaru prendeu a respiração e continuou.

Subaru: “Se dependesse de mim, o que eu faria? Encontrei a resposta.”


Com passos pesados, avançando com firmeza sobre o solo duro, as portas da sala de reuniões foram abertas.

Ao ver Subaru surgir, o homem com a máscara de oni franziu o nariz, insatisfeito. Sua postura deixava claro que ele não achava que a presença de Subaru fosse necessária.

Abel: “O que é isso, Natsuki Subaru? Uma pessoa como você, que não consegue oferecer uma opinião construtiva, não tem razão para aparecer.”

Na realidade, ele já tinha sido informado de que não era necessário, mas mesmo assim, as pernas de Subaru não pararam.

Embora tivesse perdoado a falta de respeito de Flop, provavelmente Abel não faria o mesmo com Subaru, que não demonstrava reverência alguma. Sentindo os olhares dos outros presentes na sala de reuniões, Subaru avançou com firmeza.

Ficando bem ao lado de Abel, olhando de perto para sua máscara de oni,

Subaru: “Alguma novidade? Seu imbecil arrogante.”

Abel: “――――”

Estendendo a mão, Subaru arrancou a máscara de oni do rosto de Abel com força.

Mizelda e os outros Surdrakianos arregalaram os olhos surpresos com a ação sem hesitação de Subaru. Não é preciso dizer que Flop também estava chocado, olhando para o verdadeiro rosto de Abel pela primeira vez.

No entanto, as reações dos outros não foram percebidas por Subaru.

Em resposta à pergunta de Subaru, Abel trocou sua expressão demoníaca por uma cruel, que faria qualquer um tremer de medo. Ele balançou a cabeça de forma brusca e disse “Não.”

Abel: “As negociações estão progredindo, mas de forma grosseira. Contrariando as expectativas, este mercador é difícil de convencer.”

Subaru: “É mesmo? Então, já que você é tão péssimo em persuadir, eu vou convencer ele por você.”

Abel: “O quê?”

Abel franziu as sobrancelhas com um olhar de desconfiança. Ao ver sua expressão, Subaru sorriu satisfeito.

Em seguida, Subaru se virou para encarar Flop.

Como uma conclusão ainda não havia sido alcançada, Flop estava no meio de uma discussão direta com o que se supunha ser o Imperador. Surpreso com a mudança de expressão e atitude de Subaru, Flop chamou por ele, dizendo: “Marido-kun?”

Então, diante dos dois, que tinham dúvidas de formas diferentes, Subaru fez sua declaração.

O conteúdo dessa declaração foi――,

Subaru: “――Eu tenho um plano para a queda sem sangue de Guaral. Se conseguirmos lutar sem derramamento de sangue, então os dois podem chegar a um acordo, não acham?”

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