――Vamos girar o ponteiro do relógio, voltando ao momento anterior à dança vertiginosa da dançarina no Salão Municipal de Guaral.
???: “――Um cerco sem derramamento de sangue, você disse?”
Ao entrar no local da reunião, diante de todos ali reunidos, Natsuki Subaru fez uma declaração poderosa.
A máscara oni que ocultava o rosto foi arrancada à força, e Abel ergueu o olhar em direção a Subaru. Sua voz, fria como o gume de uma lâmina, repetiu o que parecia ser um “devaneio” que havia ressoado em seus ouvidos.
Ele zombou? Não, não havia zombaria ali. Apenas dúvida genuína, um tom que deixava claro que o ouvinte não compreendia a magnitude do que estava propondo.
A intenção era clara.
Subaru: “Você pode até pensar em um plano que minimize os sacrifícios, mas jamais consideraria um que os eliminasse por completo.”
Abel: “Naturalmente. Você queira ou não, o que estamos enfrentando agora é uma guerra. Não importa o que façamos, baixas são inevitáveis. O máximo que se pode fazer é evitar o desperdício de recursos humanos.”
Subaru: “Bom, já começo não gostando desse seu jeito de tratar pessoas como recursos.”
Olhando para Abel, que estava sentado de pernas cruzadas bem à sua frente, Subaru estalou a língua.
O termo “recursos humanos”, a combinação de “pessoas” e “recursos”, era algo que Subaru achava completamente repulsivo.
Essa visão de “humanos”, mantendo-os à distância, soava como uma contagem fria de números, sem alma.
Talvez fosse essa a visão equilibrada que um governante como Abel precisasse ter, mas――,
Subaru: “Bom, eu não aceito isso. O Flop-san pensa o mesmo, não é?”
Abel: “――. E no lugar disso, você propõe esse cerco sem derramamento de sangue? Uma declaração realmente grandiosa. Vindo de alguém que estava tão acabado até um momento atrás.”
Subaru: “Não vou negar que fui uma visão lamentável, desgastada e patética há pouco. Para começar, desde que fui arremessado para este país, é uma desgraça atrás da outra.”
Diante da provocação de Abel, Subaru zombou de si mesmo e olhou para a própria palma.
Sua mão direita, limpa até demais, substituída por uma nova, era um lembrete constante dessas “desgraças”. Apesar de tudo, a substituição do braço poderia ser considerada uma rara sorte, não?
A troca da mão, o despertar de Rem, e o encontro com os irmãos Flop e Medium eram inegáveis pontos de luz em meio à escuridão.
Fora isso, a sorte e a desgraça se entrelaçavam como duas faces da mesma moeda.
Assim era com Abel, com o Povo de Surdrak, e até com os Soldados Imperiais, incluindo Todd――,
Subaru: “Essa sequência de dificuldades tem sugado minha alma. Mas.”
Abel: “――――”
Subaru: “――Quanto maior o atrito, mais forte a chama se acende.”
Fitando o punho cerrado, Subaru declarou com convicção.
Nesse momento, Rem, que vinha logo atrás, chegou à entrada do local da reunião. Com a ajuda de sua bengala, entrou acompanhada de Utakata e Rui.
Ela provavelmente queria testemunhar com seus próprios olhos.
Afinal, foi o pedido desesperado dela que reacendeu a alma de Natsuki Subaru.
Subaru: “Uma estratégia pra entrar na cidade, contando com um caminho secreto indicado pelo Flop-san… Está pensando em um ataque surpresa? Isso não vai funcionar.”
Abel: “Ah, e por quê? É uma cidade fortificada, protegida por muralhas. Você teria algum outro método para atravessá-las?”
Subaru: “Se existe uma muralha, qualquer um pensaria em procurar uma forma de contorná-la. Mesmo que o caminho secreto esteja muito bem escondido…”
Se houvesse um caminho secreto para entrar e sair da Cidade Fortaleza, era de se supor que ele servia para pessoas de reputação questionável e mercadorias de origem duvidosa.
Claro, ele seria ocultado para não ser descoberto pelos guardas. Mas isso só enganaria uma vigilância comum.
Diante de uma vigilância em tempos de guerra, parecia impossível escapar das redes de atenção redobrada.
E, acima de tudo――,
Subaru: “Aquele desgraçado que nos perseguiu na cidade não é do tipo que deixa algo assim passar despercebido.”
Ágil, astuto e implacável na hora de tomar decisões.
Sabendo que Todd estava ciente de sua sobrevivência, qualquer caminho clandestino seria o “ponto fraco” mais protegido. O inimigo não seria tão descuidado a ponto de deixá-lo livre.
Bloqueá-lo era algo óbvio, e ainda havia o medo de que qualquer rota não bloqueada pudesse ter sido transformada em uma armadilha.
Subaru: “É por isso que um ataque surpresa seria absurdo. É provável que o inimigo que te espera do outro lado esmague sua cabeça com um machado no instante em que você sair do caminho clandestino.”
Flop: “P-p-por que está olhando pra minha cara enquanto diz isso, Marido-kun?! Que pensamento assustador!”
Ele pretendia alertar a todos sobre o perigo, mas seus olhos, sem querer, se fixaram no rosto de Flop.
Subaru se lembrava de quantas vezes, bem diante de seus olhos, a adaga do assassino―― ou melhor, o machado do assassino―― tinha ceifado a vida daquele homem. Não queria ver isso acontecer de novo; mesmo que custasse sua própria vida, ele não deixaria que isso se repetisse.
Abel: “… Se fosse apenas um ataque surpresa, minha opinião sobre a cautela do inimigo seria a mesma.”
Subaru: “O quê?”
Diante de sua concordância inesperada, Subaru o encarou, com os olhos arregalados. Afinal, o endosso à sua opinião vinha de ninguém menos que Abel.
Abel arqueou uma sobrancelha, notando a surpresa de Subaru, e prosseguiu,
Abel: “O que foi? Minha afirmação é tão inesperada assim?”
Subaru: “É, claro que é… Apesar de você agir como se estivesse certo sobre tudo neste mundo, às vezes faz coisas como admitir prontamente seus próprios erros…”
Abel: “Que absurdo. Quando foi que admiti estar errado? Apenas concordei que uma estratégia de usar um caminho clandestino para iniciar um ataque surpresa não teria êxito.”
Subaru: “――? Então, como você planejava usar o caminho clandestino?”
A negação de Abel tinha um tom diferente de alguém derrotado que teve seus pensamentos adivinhados.
Enquanto Subaru pressionava por uma explicação, Abel fechou um dos olhos e respondeu,
Abel: “Não há razão para que sejam humanos entrando e saindo. Se for apenas para paralisar o funcionamento dos soldados confinados na cidade, contrabandear algo já seria suficiente.”
Subaru: “Algo…”
Abel: “――Veneno.”
Subaru: “Eles teriam ainda menos chances de deixar isso passar!”
A maneira impassível com que Abel expôs seu plano apenas reforçava sua determinação inabalável de fazer o que fosse necessário, e Subaru, instintivamente, criticou-o em voz alta.
O uso de veneno ou algo do tipo era inconcebível. ――Na verdade, desde que Subaru experimentara o poder do veneno usado pelo Povo de Surdrak, ele se opunha veementemente ao seu uso.
Aquele sofrimento infernal era mais miserável do que morrer em combate.
Subaru: “De qualquer forma, não estávamos falando em tentar minimizar o sofrimento ou, pelo menos, reduzir os danos para convencer o Flop-san? Como um plano que usa veneno…”
Abel: “Do que você está falando? Uma tática surpresa usando um caminho clandestino também traz a possibilidade de que nossas próprias tropas sejam sacrificadas em caso de ataque. Com veneno, essa possibilidade é eliminada.”
Subaru: “――――”
Abel: “Reduzir as perdas das forças disponíveis. É isso que significa minimizar os danos.”
Abel falou de forma definitiva, e Subaru, à sua frente, prendeu a respiração.
Mais uma vez, Subaru percebeu a diferença abismal entre sua perspectiva e a de Abel, o contraste colossal entre o ponto de vista de um governante e o de qualquer outra pessoa. A lacuna era tão vasta que fugia completamente à compreensão de Subaru.
Resumindo, Abel não levava em consideração o dano causado aos moradores de Guaral. ――Não, mesmo que ele evitasse prejudicar os residentes, não tinha qualquer consideração pelos soldados imperiais.
Isso estava claro desde que o acampamento dos soldados imperiais, que o próprio Abel havia mirado, foi reduzido a cinzas.
Subaru: “Ainda assim, meu pensamento foi ingênuo. Você…”
Abel: “Correto, seu pensamento é ingênuo. Consequentemente, você não tem lugar aqui…”
Enquanto se confrontavam, faíscas voavam entre os olhares desafiadores de Subaru e Abel.
Justo quando seus pontos de vista se chocavam e a discussão começava a se desintegrar――,
Flop: “――Ei, ei, ei, esperem aí, vocês dois! Não precisam se encarar assim e começar a discutir!”
Flop se colocou entre os dois, criando uma distância entre eles.
Um sorriso meio sem jeito surgiu em seu rosto enquanto ele olhava de um para o outro, as expressões duras de Subaru e Abel. “Vamos nos acalmar e conversar!”, disse ele, batendo as mãos na frente do peito.
Flop: “Pra ser sincero, minha conversa com o Chefe da Vila-kun não estava levando a lugar nenhum! E aí o Marido-kun voltou todo triunfante. Quero muito ouvir sobre esse ‘cerco sem derramamento de sangue’ que ele está propondo! Se for verdade, seria como um sonho virando realidade!”
Subaru: “Flop-san…”
Diante da expressão esperançosa de Flop, Subaru engoliu sua raiva anterior. De algum jeito, mesmo que relutante, o comportamento de Flop pareceu acalmar também Abel.
Abel soltou um “Hmph” com um pequeno suspiro,
Abel: “――. Muito bem, vamos ouvi-lo. Se sua ideia conseguir enganar este comerciante, e você descobrir a localização do caminho secreto, isso já será suficiente.”
Flop: “Hã!? Marido-kun!? Não me diga que você…”
Subaru: “Não, não, não! Não estamos planejando isso! Só porque parece que sua ideia não vai funcionar, não significa que pode me arrastar pra isso, seu cretino!”
O comentário de Subaru desnecessariamente provocou a desconfiança de Flop. Ainda assim, Abel manteve sua compostura arrogante, como se sequer se importasse. “Você nem precisa dessa máscara de oni…”, Subaru resmungou.
???: “Então…”
Como se deslizasse pelo intervalo criado na conversa, uma voz suave interrompeu.
Parada imóvel na entrada do local da reunião, com os olhos fixos nas costas de Subaru, vinha a voz de Rem.
Sem se deixar enganar pela atmosfera tensa do ambiente, Rem mantinha o olhar apenas em Subaru.
Rem: “Então, o que você faria? Conseguiria encontrar um caminho que não fosse um sonho passageiro ou uma realidade ensanguentada?”
Subaru: “…Até a maneira como você diz as coisas faz meu coração disparar.”
Rem: “――――”
Com os lábios apertados, Rem o encarou, e Subaru respondeu com um sorriso amargo, fortalecendo sua determinação mais uma vez.
Então, ele olhou ao redor, observando os rostos de todos no local. Abel e Flop, junto com os Surdrakianos, liderados por Mizelda. Quando todos os olhares convergiram para ele,
Subaru: “Meu plano não precisa nem de caminhos secretos nem de derramamento de sangue. Mas, ele requer a ajuda do Flop-san.”
Flop: “Mesmo sem precisar de um caminho secreto, ainda precisa da minha ajuda…? Mas Marido-kun, você sabe que eu sou só um mercador desamparado com uma boa lábia, certo?”
Subaru: “Sim, claro que sim. Mas Flop-san não é só um mercador. Você nasceu com uma bênção especial. ――Um rosto bonito.”
Flop: “――Hã? Meu rosto?”
Com os olhos arregalados, Flop levou as mãos ao rosto, surpreso.
Do mesmo modo, todos na sala de reunião inclinaram a cabeça, como se perguntassem “O rosto dele?”.
Mizelda: “Entendo, isso é verdade.”
Taritta: “――! Irmã, você percebeu alguma coisa?”
Mizelda: “Não, só concordei com o que Subaru disse sobre ele ter um rosto bonito.”
Taritta: “Irmã…”
Mizelda assentiu e cruzou os braços, enquanto Taritta abaixava a cabeça com uma expressão desapontada.
No entanto, já que praticamente ninguém tinha captado as intenções de Subaru, uma atmosfera de dúvida começava a se espalhar. Isso incluía Flop e até mesmo Abel.
Ainda assim, o interesse persistente de Mizelda pela aparência dos outros não estava completamente fora do caminho. Sua fraqueza por beleza tinha sido a fagulha que deu a Subaru uma grande ideia para lidar com essa situação.
Porque Mizelda dar muita importância à boa aparência foi o que inspirou esse Plano de Cerco Sem Sangue.
Subaru: “É melhor provar do que debater. ――Flop-san, não dá pra saber até tentarmos, então me siga.”
Flop: “Segui-lo? Isso não é problema, mas o que você está planejando…”
Para o ainda confuso Flop, Subaru insistiu com um “Não se preocupe com isso”.
Então, ele virou o olhar para Mizelda,
Subaru: “Vocês tingem o cabelo e desenham marcas no corpo, certo? Usam cosméticos, né? Poderia me emprestar esses itens por um tempo?”
Todos: “――――”
Quando Subaru retornou ao local da reunião após algum tempo, o silêncio absoluto tomou conta. Era como se as palavras tivessem se esvaído de todos ali, diante do que viam.
No entanto, Subaru sabia que aquele silêncio não vinha de desconforto ou desaprovação. Pelo contrário, era a expressão de um deslumbramento genuíno, talvez até um toque de emoção.
Ele podia afirmar, com convicção, que esperava exatamente esse impacto com seu trabalho.
Subaru: “Quando se tem diamantes brutos nas mãos, até eu consigo entregar algo decente.”
Todos: “――――”
Subaru coçou o nariz com uma expressão autossatisfeita, mas a reação ao seu comentário foi… inexistente. O mesmo silêncio pasmo permanecia. Foi então que uma voz hesitante, vinda de uma única pessoa aparentemente imune àquele choque, rompeu o momento.
Flop: “Algo está estranho. Eu ainda não vi o resultado final, mas… o que foi que aconteceu? Essa sensação não é nada agradável.”
Subaru: “Ah, qual é, Flop-sa… Não, não, relaxa, Flora. Tá tudo sob controle.”
Flop: “Flora!?”
Os olhos de Flop, ou melhor, de Flora, se arregalaram em surpresa. Mesmo assim, Subaru não pôde deixar de pensar o quão adorável era aquela expressão. Ele assentiu, confiante, enquanto passava a mão pelo rosto da “nova” Flora.
Sem perder tempo, Subaru segurou os ombros esguios de Flora e a girou para que encarasse o resto do grupo.
Ali, sob a cortina de cabelos longos e dourados, estavam olhos realçados pela sombra cuidadosamente aplicada. Os cílios, agora mais longos, davam um ar sedutor. As bochechas rosadas traziam um contraste suave à pele naturalmente clara, e os lábios, tingidos de vermelho, completavam o visual. As roupas, combinando perfeitamente, eram a cereja no topo do bolo.
Com a silhueta delicada de Flop, o esforço para transformá-lo em “ela” foi quase mínimo.
O que significava que――
Subaru: “――Esta é a chave para um cerco sem derramamento de sangue! A melhor estratégia que eu consigo pensar!”
Subaru ergueu o punho no ar, apresentando Flop-Flora a todos ali presentes.
Mesmo com o tempo limitado para preparar tudo, Subaru conseguiu transformar um diamante bruto em algo que reluzia com perfeição. Contudo, ele sabia que aquilo era apenas o começo. Com mais ferramentas e ajustes, Flora poderia atingir níveis ainda mais impressionantes.
Subaru: “A beleza pode ser criada.”
Rem: “Você tá brincando com isso, não tá?”
Subaru: “Hã!?”
A voz fria cortou o ar, atingindo Subaru como uma lâmina. Era Rem, que antes o olhava com uma ponta de expectativa, mas agora lançava um olhar gelado, semelhante ao de quando acordou pela primeira vez.
Engolindo em seco, Subaru estendeu a mão, tentando se defender.
Subaru: “E-eu não tô brincando! Juro, não é brincadeira! Então, por favor, não me olhe desse jeito!”
Rem: “Não está brincando? Não diga absurdos. Eu fui uma tola… por sequer ter depositado um mínimo de confiança em você.”
Subaru: “Você tá tirando conclusões precipitadas! Isso é bem coisa da sua irmã, a propósito!”
Rem: “Hah?”
Embora Rem não tivesse memória, Subaru não pôde deixar de notar como ela era parecida com Ram nesse aspecto de julgar rápido demais. Esse pensamento, por algum motivo, aqueceu o coração dele, lembrando-o da ligação entre as irmãs.
Mas ele precisava, antes de qualquer coisa, reconquistar a confiança de Rem.
Na verdade, Subaru não estava brincando. Ele estava levando tudo aquilo a sério, com o máximo de empenho possível.
O motivo de tanto esforço para transformar Flop em uma mulher chamada Flora era――
Abel: “――O alvo é Zikr Osman, não é?”
Abel foi o primeiro a chegar à resposta, com o queixo apoiado na mão, observando tudo com uma calma surpreendente.
Ao contrário dos outros, que ainda estavam tentando disfarçar o choque ao ver Flop se transformar em Flora, Abel manteve a compostura. Ele parecia avaliar as intenções de Subaru, tentando entender o real objetivo por trás de tudo aquilo.
E assim, ele conseguiu enxergar claramente o que Subaru estava planejando.
――O alvo seria Zikr Osman.
General de Segunda Classe do Império, comandante dos Soldados Imperiais estacionados na Fortaleza de Guaral. Um homem capaz, que preferia táticas de guerra sólidas e seguras, e além disso――,
Subaru: “Ouvi dizer que ele é conhecido como o Mulherengo. Pelo visto, isso é bem sabido entre os Soldados Imperiais.”
Abel: “O fato de ele ser famoso por isso e de ter recebido um apelido por conta disso é de conhecimento comum.”
Rem: “Mulherengo… Isso não me passa uma boa impressão.”
Após ouvir a conversa entre Subaru e Abel, Rem fez uma careta. Subaru não pôde deixar de concordar com a impressão que Rem tinha dele. Quando alguém ouvia que um oficial militar era mulherengo, era natural imaginar um pervertido vulgar, com uma personalidade indesejável. Porém, esse ponto fraco poderia ser uma vantagem estratégica.
Subaru: “Lá no acampamento dos Soldados Imperiais, até falavam em apresentar uma mulher capturada ao General Zikr. Ou seja, enquanto a mulher não for uma ameaça, há uma boa chance de ela se aproximar dele.”
Era algo que ele preferia não lembrar, mas no acampamento, Jamal havia chegado a dizer diretamente a Subaru que ele faria algo como oferecer Rem a Zikr.
Rem era uma garota bonita, então era possível dizer que Zikr tinha um senso de beleza comum.
Subaru: “Com o poder de Flora, isso deve ser possível.”
Flop: “M-Marido-kun? Você tem me chamado de Flora com uma expectativa tão intensa, mas… O que eu sou agora? Eu não sei o que está acontecendo e estou com medo!”
Subaru: “Fica tranquila, Flora. Não vou te deixar fazer isso sozinha, claro. Eu também vou lutar ao seu lado.”
Mizelda: “Não importa como você olhe, isso é um absurdo, Subaru!”
Subaru tentou acalmar a Flora perplexa, enquanto Mizelda se levantava com uma expressão dura e determinada. Ela colocou as mãos nos ombros de Subaru, sacudindo a cabeça.
Depois, com uma voz mais suave, como se estivesse revelando uma verdade difícil de aceitar, ela falou:
Mizelda: “Os seus olhos também têm um certo charme. Mas no que diz respeito ao que você nasceu com…”
Subaru: “Ei, ei, Mizelda-san, não ouviu o que eu disse?”
Mizelda: “O que foi?”
Subaru: “――Beleza pode ser criada.”
Subaru afirmou com confiança, colocando a mão sobre a que Mizelda tinha apoiado em seu ombro.
Ao ouvir isso, os olhos de Mizelda se abriram em surpresa, e ela deu uma respirada profunda. Então, olhou para Flora com um olhar atento, como se a maquiagem no rosto fosse algo radiante.
Mizelda: “Você me superou… Vamos ver até onde vai o seu potencial.”
Subaru: “Sim, observe.”
Kuna: “O que está acontecendo? Não tô entendendo nada.”
Mizelda confiou a questão a Subaru, e ele aceitou. Kuna assistia a troca entre os dois com um olhar exasperado, mas sem fazer nenhum comentário.
De qualquer forma, o problema agora era――
Abel: “Quanto a utilizar as preferências de Zikr Osman, qual é a sua intenção? Ele também é um lobo. Não é um cachorro que vai morder uma isca só porque algo bonito foi pendurado na frente dele.”
Subaru: “Bem, não faz sentido ficar apenas mostrando algo sem objetivo. Precisamos bolar uma maneira de fazer ele morder a isca. Por exemplo, atraí-lo para uma festa.”
Abel: “Uma festa? Pois saiba que não vai ser fácil atraí-lo. Não há motivo para ele sair das muralhas até que os reforços da Capital Imperial cheguem. Ele não vai ser tentado por um convite suspeito.”
Subaru: “É, ainda tô filtrando as opções, mas…”
Rem: “P-por favor, esperem!”
Enquanto Subaru e Abel continuavam discutindo, Rem levantou a voz.
Ela olhava entre os dois, com uma expressão de surpresa.
Rem: “Vocês estão falando sério? Não acredito que vão seguir com isso, tudo isso baseado em uma brincadeira com Flop-san.”
Flop: “O quê? Eles estão brincando comigo? Sério, como estou? A Esposa-san está dizendo que estão brincando comigo… Sobrinha-chan, o que está acontecendo?”
Rui: “Auu? Uu! Uu!”
Ao lado da tensa Rem, Flora, que ainda não tinha tido a oportunidade de ver seu reflexo, buscava consolo em Rui. Mas como ela nunca tinha visto Flora antes, Rui entrou em pânico e se escondeu atrás de Rem.
Ou seja, aos olhos de Rui, parecia que Flora e Flop eram pessoas diferentes.
Abel: “Deixando de lado se a reação dessa garota é apropriada como um teste, eu não considero isso uma brincadeira. Finalmente, você apresentou uma ideia que vale a pena discutir.”
Subaru: “Então você também reconhece. A beleza de Flora.”
Abel: “――. Reconheci que sua ideia é algo que eu não havia pensado. Não entenda errado.”
Os lábios de Subaru se curvaram em desagrado diante da resposta teimosa de Abel.
Ainda assim, Abel não deu atenção e, por um momento, levou a mão ao rosto, ponderando cuidadosamente. Então, lançou um olhar cortante na direção de Subaru.
Abel: “Natsuki Subaru, me responda… Esses cosméticos, só o mercador pode usá-los?”
A pergunta veio.
Subaru: “――――”
Por um instante, a indagação de Abel o deixou sem reação.
Mas Subaru rapidamente refletiu sobre a intenção por trás da pergunta e balançou a cabeça.
Subaru: “Já disse antes. Se seguirmos com essa operação, eu estou no mesmo barco que vocês!”
Abel: “Tolice. Quem confiaria em você? Olhe-se no espelho antes de falar.”
Subaru: “Cuidado com o que diz!”
Com as sobrancelhas franzidas, Abel despejou seu desprezo com toda a intensidade. Ignorando o incômodo evidente de Subaru, ele pressionou a mão contra o peito.
Abel: “Lidar com isso sozinho está além das capacidades de um mero mercador. ――Portanto, eu mesmo participarei.”
Mizelda: “A-Abel também!?”
Ao ouvir essa autoproclamação ousada, o clima na sala de reunião mudou imediatamente, com sussurros correndo ao redor de Mizelda.
É claro, Subaru também ficou surpreso com a proposta de Abel. De fato, nunca imaginara que ele mesmo sugeriria algo assim.
Subaru: “…Pra ser honesto, achei que o maior problema seria convencer você.”
Abel: “Em tempos normais, seria uma ideia idiota, algo que nem valeria considerar. Mas, dadas as circunstâncias, temos poucas cartas para jogar e opções limitadas. Se isso realmente for eficaz, é uma situação necessária à qual devemos nos rebaixar.”
Subaru: “Você tem um jeito péssimo de se expressar. É por isso que caras carismáticos me irritam…”
Mesmo tendo sido expulso do trono, Abel não mostrava nenhum indício de hesitação quanto ao fato de ainda ser o Imperador.
Essa era a essência de sua crença, algo que ele jamais cederia. Ao perceber isso tão claramente, Subaru não teve escolha a não ser reconhecer genuinamente a força de Abel.
Se fosse alguém inepto no poder, já teria cometido um erro por se preocupar demais com a própria segurança.
Desde o primeiro encontro com Subaru na selva, Abel havia apostado tudo em grandes jogadas, usando-se como moeda de troca, incluindo o Ritual do Juramento de Sangue.
Dessa vez não seria diferente, e ele provavelmente não tinha intenção alguma de recuar.
Abel: “Uma estratégia engenhosa só surte efeito quando executada de fora das expectativas do inimigo. Explorando as preferências do ‘General’ e ocultando-se na negligência inevitável, há valor em considerá-la.”
Subaru: “Isso também está escrito num livro chamado ‘Kojiki’. Lá diz que se disfarçar de mulher é a melhor opção para alcançar o pescoço do General inimigo.”
Rem: “Você não pode simplesmente aceitar o conteúdo de um livro tão suspeito assim…”
Era uma referência a um antigo livro de origem honrosa. Mas, mesmo que tentasse explicar a confiabilidade do Kojiki para Rem agora, ele sabia que não receberia uma resposta da Rem atual. Ele não conseguia pensar em uma forma rápida de recuperar a confiança que ela um dia teve nele.
Temia ser rejeitado antes mesmo de poder se explicar, então sentia-se grato, mas também surpreso, por Abel ter aceitado sua proposta.
Subaru: “Quando você mencionou veneno, pensei que fosse o tipo de pessoa que executaria qualquer um que se opusesse a você, mas…”
Abel: “[Se necessário, eu o faria. No entanto, emoções não são essenciais para decisões futuras. Afinal, o que devo conquistar vai além da cidade de Guaral.]”
Subaru: “――――”
Abel: “Se conseguirmos subjugar o ‘General’ Zikr Osman, podemos traçar um plano para obter o que desejamos sem derramamento de sangue. E se for possível reduzir o risco de insurreições internas, melhor ainda.”
Subaru: “…Certo. Realmente há valor nas palavras de alguém que perdeu o trono justamente por causa de uma insurreição interna.”
A provocação veio de forma instintiva, mas a expressão de Abel permaneceu inabalável.
Seria esse nível de sarcasmo e desrespeito insignificante para irritá-lo? ――Ou talvez, como o próprio Abel dissera, ele não era tão cabeça-dura a ponto de não reconhecer suas próprias falhas.
De qualquer forma――,
Subaru: “Se você está disposto a colaborar, então não tenho do que reclamar. Seu nome… Abel, Vollachia… Bianca serve?”
Abel: “Não tenho particularidade com meu nome falso. Me chame como preferir. Mais importante, há pouca mão de obra com apenas você, eu e o mercador. Vamos ver…”
Cruzando os braços, Abel percorreu os rostos presentes na sala de reuniões.
Então, fechando um olho, soltou um “Hm”,
Abel: “Podemos usar Kuna e Taritta, e isso seria suficiente.”
Subaru: “Quê?”
Abel: “É uma preparação necessária. Mesmo se conseguirmos atrair Zikr Osman, será preciso pessoal suficiente para detê-lo. Dito isso, qualquer um facilmente reconhecível como parte do Povo de Surdrak deve ser evitado.”
Enquanto falava, apontava com o queixo. Ouvindo isso, Subaru também compreendeu o raciocínio de Abel.
Repentinamente colocadas no centro das atenções, Taritta e Kuna ficaram perplexas. Embora fossem do Povo de Surdrak, comparadas às outras, não tinham uma aparência tão selvagem.
Mizelda, à primeira vista, parecia uma lutadora feroz e impetuosa. Da mesma forma, Holly, com sua aparência única, causava uma impressão marcante. Elas não se encaixavam na situação que exigia ocultar a identidade Surdrakiana.
No fim, o que era necessário para não levantar suspeitas no inimigo era um toque de charme feminino――,
Subaru: “Acho que esse é o limite do que minha maquiagem e roupas podem fazer. Não consigo dar a elas um charme feminino só com esses cosméticos.”
Rem: “――Eu também.”
Subaru: “Rem?”
Então, quem ergueu a mão prontamente foi Rem.
Era a mesma Rem que não escondia sua desconfiança em relação a Subaru após o caso de Flora. No entanto, como se tivesse reconsiderado ao ver o rumo sério que a discussão tomava, sua expressão também ganhou um tom de seriedade.
Com determinação brilhando nos olhos azul-claros, Rem declarou com firmeza:
Rem: “Por favor, me deixem participar. Eu prometo ser útil.”
Subaru: “Rem… Desculpa, mas isso não é possível.”
Rem: “――Hk! De novo, você tá tentando me afastar do perigo sem necessidade…”
Sua resolução estava à beira de ser esmagada, e o olhar de Rem parecia perfurar Subaru como adagas.
De fato, havia em Subaru um sentimento de superproteção que provavelmente a deixaria furiosa. Ele desejava afastá-la do perigo, permitindo que ela vivesse em paz, como se estivesse em um berço seguro. Esse desejo, sem dúvida, era genuíno.
Mas essa não era a única razão para impedi-la de participar da missão.
Subaru: “É verdade que eu me preocupo com sua segurança. Mas a razão de eu rejeitar sua participação é simples: a chance de sucesso do plano vai diminuir… Rem, os soldados do Império já viram seu rosto.”
Rem: “――Ah.”
Subaru: “Te viram quando você foi capturada no acampamento e também quando estávamos fugindo da cidade. Não podemos usar a Medium pelo mesmo motivo. Fizemos muito alarde.”
Depois de causarem tanto alvoroço, era certo que os guardas na barreira de segurança não esqueceriam os rostos de Rem e Medium. E o mesmo valia para Rui.
A operação desta vez era uma batalha de estratégia, tentando enganar o inimigo e passar despercebido. Colocar Rem no meio disso comprometeria o plano.
Rem: “Mas… Mas, se a questão é ter o rosto conhecido ou não, isso também vale pra você!”
Subaru: “Sim e não. Porque quem vai passar pelo portão principal de Guaral não sou eu. Vai ser Natsumi Schwartz.”
Rem: “Hah?”
Como se achasse que estava sendo enganada de novo, os olhos determinados de Rem agora queimavam de indignação. Mas, nesse caso, palavras não bastariam para explicar.
Assim como Flop havia se transformado em Flora, Natsuki Subaru precisava se disfarçar como Natsumi Schwartz. ――Ele precisava mostrar na prática, não apenas falar.
Subaru: “De qualquer forma, já expliquei porque você não pode vir. Mas Taritta, Kuna, isso também vai ser perigoso, então preciso convencer vocês duas primeiro antes de…”
Mizelda: “Não, isso é interessante. Eu permito. Levem as duas.”
Enquanto Subaru tentava confirmar a intenção das duas Surdrakianas, Mizelda interrompeu com essas palavras.
Surpreso, Subaru virou a cabeça e viu os olhos brilhantes de Mizelda cravados nele, cheios de curiosidade. Ela olhava com a intensidade de uma caçadora, como se quisesse arrancar sua pele e ver o que havia por baixo.
Por um momento, Subaru sentiu um medo intenso tomar conta dele.
Subaru: “Mizelda-san?”
Mizelda: “Subaru, você e Abel já provaram sua coragem. Os Surdrak respeitam aqueles abençoados com bravura. Mas isso não significa que desprezamos a inteligência como um valor sem importância. Força e sabedoria, quem se destaca em ambos se torna o guerreiro supremo… Vão e provem isso.”
Havia um brilho de satisfação em seu rosto, como se a ideia de explorar a fraqueza do inimigo fosse tão atraente para ela quanto para Abel.
Subaru havia presumido, sem questionar, que Mizelda e os outros Surdrakianos não gostariam de um esquema como esse. Por isso, ele planejava perguntar a Taritta e Kuna se elas queriam participar.
Mas, depois da resposta de Mizelda, Taritta e Kuna concordaram como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Kuna: “Se a Chefe disse, não tenho muuuito o que dizer.”
Taritta: “Vou seguir as instruções da minha irmã… Também estou curiosa sobre essa coisa de maquiagem.”
Com as mãos cruzadas atrás da cabeça, Kuna aceitou com uma atitude despreocupada. Taritta parecia concordar, mas olhava de soslaio para Flora.
Pelo visto, ela havia ficado interessada nas habilidades de Subaru com maquiagem. Apesar da cena parecer um tanto descontraída para a preparação de uma missão de vida ou morte,――
Abel: “Se não há objeções, vamos nos preparar rapidamente. Precisamos resolver isso antes que os covardes da Cidade Fortaleza recebam reforços da Capital Imperial.”
Subaru: “… Certo, entendi. Se todo mundo concorda… Rem, está tudo bem assim pra você?”
Rem: “――. Não importa o que eu diga, você não vai ouvir, vai?”
Com o rosto ainda tingido de frustração pelo que havia dito antes, Rem lançou um olhar intenso para Subaru. Ele sentia muito por rejeitar sua determinação, mas, pensando na segurança dela e no sucesso da missão, não havia como ela participar.
Foi por isso que Subaru abaixou os olhos, resignado a suportar a ira de Rem.
No entanto――
Rem: “Mas quem pediu pra você fazer algo a respeito disso… quem te pediu isso, fui eu.”
Subaru: “Rem?”
Rem: “Eu, que sou a responsável por isso, não tenho o direito de interferir… Por favor, faça com que seja um sucesso.”
A frustração ainda não havia desaparecido, e também não era como se ela tivesse perdoado Subaru. No entanto, ela respeitaria a decisão tomada, algo que ficou claro pelo olhar que ela desviou.
Só com isso, as nuvens sombrias dentro de Subaru começaram a se dissipar.
Subaru: “Só a Rem consegue fazer isso, mas, nossa, como é reconfortante… Espera, isso não tá certo, né?”
Bastou aquela pequena demonstração de aprovação para que Subaru se sentisse leve como o ar, como se pudesse sair voando a qualquer momento.
Mas também, quando a Emilia sorria, parecia que ele podia tocar o céu só com aquele sorriso. E quando Beatrice explicava algo com aquela expressão orgulhosa, seu peito ficava aquecido e confortável.
“Hã?”, Subaru pensou. Só agora percebeu que era mais simples de agradar do que imaginava.
Abel: “Qual é o problema? Está só agora ficando com medo?”
Subaru: “Não, não é isso… É só que eu tô ficando animado.”
Abel: “Hoh? Mostre isso com todo o seu empenho, então.”
Recebendo coragem das palavras de Rem, Subaru respondeu enquanto Abel fazia um gesto de aprovação com o nariz.
Era desnecessário dizer que esse era exatamente o plano. ――Quando esse “cerco sem sangue” fosse bem-sucedido, talvez o caminho de volta ao Reino de Lugnica se abrisse.
Mesmo que não fosse o caso, Subaru não permitiria que nenhuma tragédia ocorresse diante de seus olhos. Ele não deixaria isso acontecer.
???: “――Heeey, mano! Não é justo com a Bote-chin se a gente não deixá-la descansar, então eu queria saber onde posso deixá-la.”
Então, na área de reunião onde a animação crescia, Medium enfiou a cabeça sem hesitação.
Mesmo quando comparada aos musculosos Surdrakianos, Medium era uma cabeça mais alta, tornando-se facilmente perceptível por sua altura. E essa pessoa chamativa olhou ao redor da área de reunião com seus grandes olhos redondos e,
Medium: “Ei, cadê o mano?”
Flop: “Ohhh, querida irmã! Perder seu irmão de vista é bem cruel da sua parte. Estou bem aqui!”
Medium: “――?”
Diante da confusa Medium, Flora levantou-se para deixar sua presença clara. E às palavras de Flora, Medium franziu as sobrancelhas, pensativa.
Permanecendo em silêncio por um tempo, ela então gritou, como se tivesse chegado a uma conclusão.
Medium: “Mano, esse tempo todo você era, na verdade, minha mana!”
Flop: “Marido-kun!? O que está acontecendo aqui!? Isso é realmente assustador!”
Se até os olhos de uma irmã de sangue podiam ser enganados, esse seria certamente um ponto forte para o sucesso dessa operação.