“Estamos gratos por ter feito os preparativos para esta reunião apesar do aviso em cima da hora, Periveil-dono,” disse um homem, inclinando a cabeça educadamente.
Esse homem não era um mensageiro da resistência, mas sim o líder do Exército do Renascido Ducado de Sauron, Raymond Paris, que havia vindo acompanhado de uma comitiva de mensageiros.
Ele tinha um rosto bem-apessoado, natural para alguém que era filho ilegítimo do Duque Sauron que caíra em batalha, e o mais importante: havia nele uma aura de elegância.
Em ocasiões anteriores, não havia sido pequeno o número de jovens Scylla que coraram ao vê-lo, tendo ficado cativadas.
“Não é grande coisa; é um tempo de descanso para os agricultores, já que terminamos a colheita do nosso arroz, e uma estação em que não caçamos. Ainda falta algum tempo para o festival de Vida e Merrebeveil. Todos estão surpreendentemente desocupados. No entanto, o fato de o líder estar aqui significa que não se trata de um assunto trivial,” disse Periveil. Ela havia percebido que aquele jovem humano não era uma pessoa comum.
Raymond possuía um carisma cativante, a dignidade especial de alguém que se destacava acima dos outros, algo que fazia Periveil e as demais Scylla quererem concordar com tudo que ele dizia — embora não fosse tão intenso quanto o de Vandalieu.
Raymond talvez fosse capaz de realizar algo. Ele possuía algo que fazia os outros acreditarem nisso.
“De fato, não quero assustá-la, mas vamos rapidamente ao assunto em questão… mas antes disso, quem são eles?” Raymond perguntou com uma expressão confusa.
Ele olhava para Pauvina, que estava sentada ao lado de Privel, e para Vandalieu, sentado em frente a Pauvina.
As pessoas presentes eram as Scylla mais proeminentes da aldeia, incluindo Periveil, seus maridos, Raymond e dois outros membros do Exército do Renascido Ducado de Sauron.
E então havia Privel, Pauvina e Vandalieu. Naturalmente, os três destoavam do ambiente… ou melhor, Pauvina se destacava de maneira impressionante.
Apesar disso, as Scylla não estavam focadas em Pauvina, mas sim em Vandalieu que, aos olhos de Raymond, parecia uma delicada boneca de gênero indefinido.
Raymond sentiu uma atmosfera curiosa ao redor deles e uma estranha sensação de desconforto, mas Periveil fez um gesto com a mão, como se não houvesse nada de anormal.
“Pensando bem, esta é a primeira vez que se encontram,” disse Periveil. “Esta criança é Privel. Ela é minha filha mais nova.”
“Meu nome é Privel. Prazer em conhecê-lo.”
“O prazer é meu,” disse Raymond, desviando o olhar de Vandalieu para Privel. “E quanto à que está ao lado dela, esta–” Ele hesitou, sem saber como se referir à enorme Pauvina.
Considerando seu tamanho, mesmo que fosse uma Titã, deveria ser adulta. Mas, levando em conta o rosto e as proporções da cabeça em relação ao corpo, ela parecia uma garota de cerca de dez anos de idade.
“Prazer em conhecê-lo. Meu nome é Pauvina. Sou a irmã mais nova de Van.”
“Meu nome é Vandalieu. Sou o irmão mais velho da Pauvina.”
“E-Entendo. Prazer em conhecê-lo.”
Raymond ficou desconcertado com o quão desproporcionalmente jovem soava a voz de Pauvina em relação ao seu tamanho, e também pelo fato de Vandalieu, a quem ele havia praticamente ignorado pelos motivos já citados, ter falado.
No entanto, mesmo após as apresentações, o mistério sobre o que crianças estavam fazendo ali permanecia sem resposta.
“Vandalieu-kun ainda é pequeno, mas é um Espiritualista, sabe, e está nos ajudando a investigar os casos de assassinato,” disse Periveil, dando uma explicação que solucionava o mistério por completo.
“Isso é… impressionante,” disse Raymond. “Esses incidentes também têm me preocupado, mas ter a ajuda de um Espiritualista é reconfortante. E por você possuir uma Profissão tão rara como a de Espiritualista em uma idade tão jovem, deve ser um verdadeiro gênio. Estou bastante invejoso.”
A Profissão de Espiritualista dizia-se exigir talento desde o nascimento para ser adquirida, e era muito poderosa na solução de casos de assassinato. Não havia nada de estranho em alguém com essa Profissão estar presente ali, mesmo sendo uma criança.
Mas Raymond ainda acrescentou:
“No entanto, existem muito, muito poucos que realmente possuem a habilidade para adquirir a Profissão de Espiritualista. Não acho que você mentiria, mas não posso acreditar de imediato.”
“Acho isso razoável,” disse Vandalieu.
Ele só havia conhecido um Espiritualista de verdade em sua vida. Mas realmente imaginava que deviam existir impostores nefastos que enganavam pessoas fingindo serem Espiritualistas capazes de ver espíritos.
E, dada a aparência de Vandalieu, mesmo com a introdução de Periveil, não havia como culpar Raymond por não conseguir acreditar de imediato que ele fosse um Espiritualista.
“Agora, vou lhes mostrar uma prova de que sou um Espiritualista,” disse Vandalieu.
“Vai nos mostrar seu Cartão da Guilda?” perguntou Raymond. “Não creio que haja algum posto que os emita neste território –”
“Não, uma prova mais concreta do que isso,” respondeu Vandalieu. “Visualização.”
E então, diante de Vandalieu… ou melhor, ao seu lado, o espírito de Orbia apareceu.
“Um Fantasma?!”
“Líder, dê um passo para trás!”
Os subordinados de Raymond saltaram de seus assentos ao ver o espírito de Orbia, agora visível, mas Raymond ergueu a mão.
“Calmem-se,” disse, e então se voltou para Orbia. “Você é o espírito de uma das vítimas?”
“É a primeira vez que falo assim,” disse Orbia. “Líder-san, eu sou Orbia, e fui morta há exatos onze dias.”
“Prazer em conhecê-la… é meio estranho dizer isso, suponho,” disse Raymond. “Pensar que a Profissão de Espiritualista pode mostrar espíritos aos outros usando uma habilidade… não, é um feitiço? De qualquer forma, fico surpreso que exista um método assim.”
“Eu também fiquei surpresa,” disse Orbia. “Então… houve algo fora do comum recentemente? Como algum membro da resistência sendo atacado ou perdendo contato com eles…”
“… Não, não ouvi relatos desse tipo. Isso tem a ver com os incidentes?” perguntou Raymond.
“Sim, mas se não houve nada, então está tudo bem.”
Orbia parecia aliviada, mas Raymond de repente ficou pálido. Ele manteve a calma por fora, mas a pergunta de Orbia claramente o perturbou.
“Orbia-san não se lembra de nada do que aconteceu quando morreu, exceto pelo fato de que o presente que recebeu de seu amado desapareceu, então ela não sabe como é o criminoso,” disse Privel. “É por isso que decidimos que Van-kun deve nos acompanhar às outras aldeias para encontrar os espíritos das outras vítimas.”
“É por isso que este caso será resolvido em breve,” acrescentou Periveil. “Peço desculpas por ter causado preocupação a vocês que vieram de fora.”
“É reconfortante ouvir isso. Como crentes de Vida, desejo que este caso seja resolvido o mais rápido possível,” disse Raymond. “Agora, nosso assunto é –”
Como líder do Exército do Renascido Ducado de Sauron, ele começou a persuadir Periveil e as outras Scylla a recusarem o plano de paz oferecido pelo exército do Império.
O Império Amid, tendo Alda como seu deus nacional, definitivamente não deixaria a raça Scylla em paz; certamente a trairia algum dia. As Scylla deveriam formar uma aliança com a resistência enquanto ainda houvesse chance, unir-se ao Reino Orbaume e lutar contra o exército do Império juntos. Raymond era capaz de fazer isso.
O argumento de Raymond tinha certo poder de persuasão. Isso não se devia apenas ao seu carisma, mas também à sua confiança por saber que estava em contato com pessoas no Reino Orbaume que o ajudavam.
Havia alguns pontos fracos em seu discurso, mas provavelmente porque ele pretendia culpar o Império pelo caso de assassinato em série das Scylla.
“Entendo o que quer dizer. Mas essas são questões que envolvem todos em nosso território. Lamento, mas não posso decidir isso sozinho,” disse Periveil, evitando dar uma resposta imediata.
“Claro. Mas ouvi dizer que os chefes de todas as aldeias se reunirão para o festival de nascimento de inverno. Se puderem discutir nossa proposta nesse momento, será mais do que suficiente,” disse Raymond antes de se retirar quanto a este assunto.
É provável que ele planeje visitar as outras aldeias para persuadir os outros chefes da mesma forma antes do festival de inverno.
É como uma campanha eleitoral, pensou Vandalieu.
“Então, com licença. Agradeço por nos conceder tempo hoje.” Raymond saiu da sala educadamente, recusando cortêsmente a oferta de Periveil de uma refeição.
Os Fantasmas posicionados do lado de fora observaram Raymond e seus homens deixarem a aldeia.
Enquanto isso, Vandalieu e os outros se reuniram no centro da sala e começaram a discutir as coisas.
“Será que Raymond e seus homens são inocentes, afinal?” disse Periveil.
“Sim, tentei fazê-lo dizer que o presente era um anel, mas ele não caiu na armadilha,” disse Privel. “Acho que ele realmente não sabe?”
“Mas Raymond-san definitivamente ficou perturbado!” disse a Princesa Levia.
“Ficou? Você é bastante perceptiva, não é, Princesa Levia?” comentou Vandalieu.
“Van, você precisa olhar direito para o rosto das pessoas,” disse Pauvina.
“Ele definitivamente ficou perturbado, mas tenho certeza de que foi por minha causa,” disse Orbia. “Quer dizer, eu sou um espírito, então ele provavelmente ficou com medo. Sim, deve ser isso.”
“Definitivamente não é isso,” disseram todos em uníssono.
“Não precisavam dizer tudo ao mesmo tempo!” disse Orbia indignada.
Era possível que o criminoso fosse um membro da resistência. Vandalieu já havia mencionado isso para Privel, Orbia e os outros.
As Scylla conheciam Raymond e o Exército do Renascido Ducado de Sauron há mais de um ano. Normalmente, elas não acreditariam imediatamente que o criminoso estivesse entre eles, mas…
“Eu tive um sonho com uma Mensagem Divina de Merrebeveil na noite passada. Foi surpreendente, mas parece que devemos acreditar em Vandalieu-kun?” disse Periveil.
“Eu também! Recebi algum tipo de proteção como você, mãe, e aparentemente devo ficar perto do Van-kun em troca!”
“Eu também, eu também! Recebi uma proteção divina e parece que me disseram para não retornar ao ciclo de transmigração. Até espíritos podem receber proteções divinas, hein?”
“Obrigada, Merrebeveil,” murmurou Vandalieu.
Parecia que Merrebeveil havia tomado medidas imediatas. Agora que ela não precisava mais suprimir os fragmentos do Rei Demônio, pôde usar parte de seus poderes.
Como resultado de Vandalieu ter adquirido o Título de Rei dos Tentáculos, as outras Scylla também podiam sentir uma presença e carisma impressionantes (embora já tivessem sentido isso em certa medida antes, por causa do Título de ‘Santo Filho de Vida’ e do Trabalho de Usuário de Insetos), então elas não conseguiam negar completamente suas palavras.
Mas não era como se tivessem sido lavadas do cérebro, nem suas memórias anteriores haviam desaparecido. Ver a maneira como Raymond se portava e ouvir suas palavras diretamente tornava impossível acreditar que ele estivesse envolvido em um caso de assassinato tão perverso.
Na verdade, Raymond não deixou escapar nada com a armadilha que Privel havia preparado em suas palavras.
Era típico do criminoso deixar escapar algo acidentalmente em obras de mistério.
“Mas ele sabe algo sobre os incidentes,” disse Vandalieu.
“Você percebeu algo, Majestade?!” disse a Princesa Levia, chocada.
“Van, você está se sentindo bem?!” perguntou Pauvina.
“… Não precisam se assustar tanto,” disse Vandalieu. “Primeiro, Raymond não mencionou uma única palavra sobre os incidentes durante seu discurso. É um caso significativo, então se ele acreditasse que o criminoso não estava entre seus homens, poderia ter mencionado, mesmo que já tivéssemos pensado em formas de resolver. Além disso, senti sua intenção de me matar.”
Sentido de Perigo: Morte, que detectava qualquer risco de morte, estava constantemente ativo. Mesmo enquanto Vandalieu ouvia um discurso vazio.
A vida é cheia de imprevistos, pensou a ‘Princesa Cavaleira Libertadora’ Iris Bearheart, líder da Frente de Libertação de Sauron.
“Saíam daqui, seus bastardos! Ou jamais terão este corpo!” ela gritou.
Era inesperado o suficiente que alguém que fosse apenas a filha mais velha de uma família humilde de cavaleiros fosse conhecida por um Título exagerado como ‘Princesa Cavaleira’, mas ela nunca esperaria que acabasse fazendo uma ameaça assim.
“Maldita seja, fazendo uma ameaça tão absurda!”
“Não a provoque, seu idiota! O que fará se algo realmente acontecer com o corpo dela?!”
“Por favor, acalme-se, Princesa Cavaleira-san. Vamos conversar; desse jeito, você também não conseguirá salvar nenhum de seus subordinados.”
Iris segurava uma faca do tamanho de uma colher de chá contra a própria garganta. Ela estava cercada por mais de uma dúzia de pessoas em pânico e recuando, vestidas inteiramente de preto. Os companheiros de Iris estavam aos seus pés, cobertos de sangue. Havia dois imóveis que haviam sido queimados completamente, com fumaça branca subindo deles.
Ontem, Iris e seus homens haviam impedido um traficante de escravos ilegal de exportar seus escravos para fora do país, e abrigaram os escravizados em sua base para que pudessem descansar.
Então, foram atacados por essas pessoas vestidas de preto. Elas haviam quebrado os guardas com força, e várias delas haviam voado pelo céu.
A princípio, todos pensaram que eram companheiros do traficante de escravos que havia sido morto no dia anterior, ou assassinos enviados por alguma organização criminosa com a qual o mercador fazia negócios.
Mas ignoraram os ex-escravos que Iris havia ajudado a escapar imediatamente, e mesmo depois de derrotar Debis, o responsável por matar pessoalmente o mercador, não mostraram sinais de querer terminar com ele.
E embora possuíssem habilidade para derrotar um a um os companheiros de Iris, seus movimentos estranhamente pioraram quando enfrentaram Iris.
Debis então viu uma oportunidade e cortou uma das figuras negras, que começou a gritar ao ser queimada pela luz do sol que entrava pela porta de madeira que haviam quebrado. E então Iris percebeu intuitivamente: eram Vampiros, e estavam atrás de seu corpo.
“Vamos ver, nesse ritmo, vocês vão levar alguns restos carbonizados de volta para o mestre de vocês, incurtindo sua ira, e ele então eliminará todos vocês, suponho? Vocês sabem qual é o efeito deste Protetor de Castidade?” perguntou Iris.
A lâmina, que mal era grande o suficiente para ser chamada de adaga, a qual Iris pressionava contra o próprio pescoço, era um Item Mágico conhecido como Protetor de Castidade.
Era um Item Mágico especialmente feito para suicídio, projetado para mulheres de nobre status social. Ele se ativava quando sua dona o cravava voluntariamente no próprio pescoço ou peito, transformando-a em uma tocha viva e depois em um monte de restos carbonizados em questão de segundos.
Era um Item Mágico totalmente especializado em suicídio, impedindo que a dona fosse violada por inimigos, estivesse viva ou morta.
Hoje em dia, eram principalmente relíquias raras, mas este havia sido passado na família de Iris desde a geração de sua bisavó.
“Não se empolguem tanto,” disse um dos Vampiros. “Se quisermos, podemos decapitar você com um único golpe, coletar seu sangue em um frasco e entregar isso ao nosso mestre.”
“Ho, então seu mestre não se importaria se recebesse apenas sangue para adicionar à sua coleção?” perguntou Iris.
“Você… como sabe sobre Gubamon-sama?”
“Embora nos chamemos de resistência, não passamos de uma organização criminosa para o governo atual. Por isso, tive mais oportunidades de ouvir histórias contadas por nossos aliados ruins.”
Vampiros eram aqueles que assombravam a escuridão nas profundezas do submundo absoluto, mas era impossível para eles continuarem escondendo sua existência perfeitamente.
Rumores sobre os Vampiros de Sangue Puro que adoravam o infame Hihiryushukaka, o Deus Maligno da Vida Alegre, eram particularmente conhecidos entre aqueles que acompanhavam assuntos do submundo.
“O que farão, Vampiros imundos?” perguntou Iris. “Estou completamente séria; prefiro terminar minha própria vida do que ser transformada em um Morto-Vivo. Até Alda, que proíbe suicídio, perdoaria esta ex-crente tola dele.”
Percebendo que Iris falava sério, os lábios dos Vampiros se contorceram de frustração sob as máscaras negras que usavam para se proteger do sol.
Gubamon, que havia enlouquecido de paranoia, havia ordenado que seus subordinados realizassem tarefas difíceis para transformar o máximo possível deles em Mortos-Vivos, sem permitir que escapassem.
Essas tarefas difíceis eram capturar aventureiros famosos, cavaleiros, clérigos, membros da realeza e nobres cujos paradeiros eram conhecidos.
Gubamon, que era usuário de magia do atributo espaço, reuniu seus subordinados, nomeou os alvos e os despachou à força via teletransporte. E então ordenou que ficassem prontos e à espera antes de um determinado horário nos locais para onde haviam sido enviados, junto com os alvos capturados.
O medo de Gubamon estava instilado nesses Vampiros; eles não podiam escolher fugir. Se ele tivesse simplesmente surtado, talvez eles o fizessem. Mas como Gubamon lhes ordenou essas tarefas difíceis, parecia ter retornado a uma versão anterior, relativamente mais estável mentalmente.
Mesmo que eles tentassem fugir, outros seriam enviados atrás deles por meio da magia de atributo espaço; a única forma de obedecer era cumprir seus comandos. Muitos dos subordinados de Gubamon haviam se convencido disso. Mas a realidade era que Gubamon já havia diminuído rapidamente seus números com suas próprias mãos, e eles seriam mortos mesmo que conseguissem cumprir suas ordens.
Enviar Vampiros subordinados e Vampiros de nobre nascimento em grupos mistos de cerca de uma dúzia de indivíduos tornava difícil para eles discutirem uma fuga, o que os forçava a arriscar e torcer para sobreviver se completassem as tarefas que lhes haviam sido ordenadas. E, se tudo corresse bem, a coleção de Gubamon também cresceria.
Se retornassem de forma desonrosa após falhar em suas tarefas, ele os transformaria em Mortos-Vivos na hora. Se morressem, ele não sentiria nenhuma perda por tais idiotas.
Era um plano extremamente imprudente, cheio de falhas, que só um louco poderia conceber.
Esses Vampiros, que estavam sendo obrigados a dançar nesse plano, de fato possuíam conhecimento para lutar contra humanos. Eles não eram estranhos ao sequestro. No entanto, não eram habilidosos o suficiente para capturar viva a líder de uma organização famosa sem causar-lhe ferimentos significativos.
E enquanto eles se atrapalhavam e falhavam em controlar sua força corretamente, Iris já havia percebido o que eles buscavam.
Suprimindo o amargo sentimento de ter que ceder às ameaças de um mero humano, o líder temporário desses Vampiros falou: “Muito bem. Pouparemos a vida de seus companheiros.”
E então ele começou a lançar magia de cura sobre os aliados de Iris.
“Ei, você está falando sério, Matthew?!”
“Pare de reclamar e dê Poções e qualquer outra coisa para ajudá-los. Só precisamos curá-los o suficiente para que não morram. Amber, pare o sangramento da mulher sob seus pés.”
Relutantemente, os Vampiros usaram as Poções que haviam planejado usar para curar os ferimentos de Iris em seus subordinados, e lançaram feitiços de cura sobre eles.
“Ugh, Ojou… você não pode… por favor, corra…” gemia Debis, quase inconsciente.
“Não posso fazer isso,” disse Iris sem nem olhar para ele. “Diga a todos para cumprirem o que precisa ser feito no caso da minha morte.”
O motivo pelo qual Iris carregava o Protetor de Castidade era para que ela não deixasse um corpo morto para trás, e que um de seus aliados pudesse assumir seu lugar como a Princesa Cavaleira após sua morte.
Ela não passava de uma filha de uma das muitas famílias de cavaleiros quando o Ducado de Sauron prosperava, e mesmo durante suas missões para a resistência, usava uma máscara. Poucos conheciam seu rosto.
Ninguém perceberia se a pessoa por trás do símbolo da resistência, a Princesa Cavaleira Libertadora, fosse substituída.
“Com isso, seus companheiros não morrerão, por enquanto,” disse o líder Vampiro. “O resto depende de você.”
“Muito bem,” disse Iris. “Mas primeiro, suponho que vou fazer você sair da base comigo. E então entregarei a mim mesma e o Protetor de Castidade sob sua custódia.”
O Vampiro estalou a língua. “Pare de enrolar. Você acha que não vamos mudar de ideia?”
“O mesmo vale para você,” disse Iris. “Não posso permitir que você termine de eliminar meus companheiros pelo caminho para me retribuir por isso, entende?”
“… Muito bem,” disse o Vampiro. “Mas não mude de ideia. Se mudar, voltaremos para massacrar todos os seus amigos e até aqueles que não são seus amigos.”
Os Vampiros saíram da base, com Iris no centro. Debis rastejou desesperadamente atrás deles, mas só encontrou um rastro de pegadas que parava em certo ponto e os fragmentos caídos e quebrados do Protetor de Castidade.
Vandalieu e seus companheiros comeram um almoço leve e depois partiram da vila como haviam informado a Raymond, acompanhados por Privel e dois guardas Scylla (os que haviam conduzido Vandalieu para sua autópsia) para escoltá-los.
E por volta do momento em que estavam longe o suficiente da vila para que os gritos e sons de batalha não a alcançassem, os homens apareceram.
“Vandalieu-kun, não é? Não vai vir conversar comigo?” disse Raymond.
Ele próprio não estava armado, seus homens se espalharam para bloquear o caminho à frente, mãos nas empunhaduras das espadas. Atrás do grupo de Vandalieu, havia outros cinquenta homens bloqueando o caminho de fuga.
Era provável que arqueiros e magos estivessem posicionados em locais distantes também. Vandalieu podia perceber sinais de vida indicando isso.
“Você não parece surpreso,” observou Raymond.
A situação era bastante anormal, mas Vandalieu e seus companheiros não estavam abalados. Vandalieu permanecia constantemente sem expressão, mas nem Privel nem os guardas Scylla se incomodaram com a aparição repentina de Raymond e seus homens. Eles lhe deram um olhar de dor e desapontamento.
“Eles são muitos, mesmo,” disse Pauvina enquanto olhava ao redor, parecendo muito despreocupada.
“Sim, já que eles esperavam por isso,” disse Vandalieu.
E embora fosse fácil seguir Vandalieu, ele era impossível de ser emboscado por causa de seu Perigo Detectado: Morte constantemente ativo, não importando quão bem qualquer intenção de matar fosse escondida.
Mesmo sem isso, Vandalieu havia feito com que Lemures e Fantasmas seguissem Raymond e seus homens, então seus movimentos já eram completamente conhecidos.
“Entendo. Então, realmente era mentira que ela não se lembrava,” disse Raymond, supondo que essa fosse a razão pela qual Vandalieu e seus companheiros não estavam surpresos.
Essas palavras e essa emboscada eram tão boas quanto uma confissão de que ele e seus homens eram responsáveis pelo caso dos assassinatos em série dos Scylla.
“Ainda assim, vocês agiram muito rápido, e de uma forma bastante ousada, não foi?” comentou Vandalieu.
“Fui movido pela necessidade, veja,” disse Raymond. “E se não fôssemos capazes de ações ousadas, não estaríamos lutando como uma força de resistência.”
Como ele disse, essa emboscada havia sido necessária para que ele e seus homens a realizassem. Ele e seus homens eram os verdadeiros culpados pelo caso dos assassinatos em série dos Scylla, pelo qual haviam continuamente culpado os extremistas de Alda. Era absolutamente impossível evitar que esse fato fosse revelado.
Raymond não tinha provas concretas de que Orbia realmente havia perdido suas memórias de quando morreu. Mesmo que tivesse, ele não podia ter certeza de que ela não as recuperaria mais tarde.
Eles haviam usado um veneno que causava morte instantânea nas vítimas, mas seus olhos permaneceram bem abertos até o fim. Não havia como saber se elas tinham visto algo ou não.
E ele não podia imaginar que os espíritos das outras vítimas também tivessem convenientemente perdido suas memórias. A verdade era que era questionável se os espíritos das vítimas ainda estariam ali, mas como não havia Espiritualistas entre os homens de Raymond, eles não tinham como saber.
Foi por isso que Raymond precisava deter Vandalieu antes que ele chegasse às outras vilas.
“Então, quando você disse ‘conversa’, quis dizer que ia me silenciar?” perguntou Vandalieu.
“Não seja tão precipitado,” disse Raymond. “Você parece muito esperto, com a capacidade de pensar profundamente para sua idade, e é por isso que quero sugerir isto. Não quer se tornar nosso aliado?”
Vandalieu ficou surpreso com a proposta de Raymond.
“N-não se engane!” gritou Privel. “Por que Van-kun se tornaria seu aliado?! E mais importante, diga-nos por que você matou Orbia-san e os outros!” Ela tentou avançar contra ele, mas os guardas Scylla a seguraram.
“Calma, estamos cercados!” disse um deles.
“Como eu pensei,” sussurrou Raymond enquanto olhava para Privel e os guardas. “Vandalieu-kun, o que eu valorizo em você, ainda mais do que o fato de ser um Espiritualista, é a maneira como conquistou os corações dos Scylla muito mais do que eu jamais consegui, em tão pouco tempo.”
O desconforto que Raymond sentiu diante dos Scylla era pela forma amigável com que eles trataram Vandalieu.
Ao contrário das outras crianças do Duque Sauron e de seus outros parentes que já haviam fugido para outros ducados, aqueles que possuíam o direito de suceder ao trono, Raymond era um filho ilegítimo que fora forçado a renunciar ao direito de sucessão. Mas possuía não apenas habilidade bruta, mas também um carisma que encantava as pessoas. Isso foi precisamente o motivo pelo qual assumiu a liderança do Exército do Ducado de Sauron Renascido.
Mas durante a reunião com Periveil e os outros Scylla mais cedo naquele dia, ele havia notado que a atenção deles estava voltada para Vandalieu, apesar de ele ter falado muito pouco.
Ele e seus homens não sabiam o que era, mas havia algo em Vandalieu que havia cativado os Scylla.
“Não é como se tivéssemos feito coisas horríveis aos Scylla porque quisemos,” continuou Raymond. “Tudo isso foi com o propósito de retomar o Ducado de Sauron – para libertar todas as pessoas do Ducado de Sauron. Se você os persuadisse, tenho certeza de que a raça Scylla perceberia mais uma vez que eles também fazem parte do Ducado de Sauron, e se juntariam a nós na batalha.”
Raymond e seus homens haviam conduzido os assassinatos em série dos Scylla e culpado os extremistas de Alda por isso. Isso não era apenas para impedir que os Scylla aceitassem os termos oferecidos pelo exército do Império, mas também para fazê-los se juntar à resistência.
Embora tivessem se chamado de Exército do Ducado de Sauron Renascido, sua força militar estava longe de ser equivalente a um exército de verdade. Mas se eles conseguissem a força de combate da raça Scylla, composta por cinco mil indivíduos, não seria impossível lutar contra o exército do Império.
E se ele tivesse o exército do Reino de Orbaume mobilizado por aqueles que o ajudavam de dentro do Reino, derrotar o exército ocupando o Ducado de Sauron não seria apenas um sonho.
“E, mais importante, você é um Dhampir,” disse Raymond. “Não temos objeções a que você se torne nosso símbolo. Tenho certeza de que sua existência moverá os corações da facção pacífica dos adoradores de Alda no Reino de Orbaume, que recentemente comemoraram um grupo de heróis matando um Vampiro de Sangue Puro.”
Raymond olhou nos olhos de Vandalieu, observando-os se moverem rapidamente como se ele estivesse hesitando. Continuou pressionando-o por uma resposta.
“Nessa situação, nossa pátria se tornará uma nação vassala do Império que trata vocês, Dhampirs, como monstros. Quero que você lute conosco.”
Apesar de ser muito esperto e composto para sua idade, ele ainda era, no fim das contas, uma criança. Raymond certamente acreditava que poderia persuadi-lo. Ou assim pensava, mas a resposta que recebeu de Vandalieu não foi boa.
“Tenho uma pergunta. Por que você está tentando envolver a raça Scylla?” perguntou Vandalieu.
Pauvina estava segurando um bocejo, e os Scylla assistiam com atenção, esperando para ver como Vandalieu responderia.
“Isso é –”
Imperturbável, Raymond tentou responder com a resposta que havia preparado anteriormente. Era fácil imaginar que Vandalieu pensasse favoravelmente sobre os Scylla, assim como eles o amavam.
Mas ele havia adquirido o Trabalho de Espiritualista em uma idade tão jovem. Embora seus olhos mostrassem hesitação, sua expressão e voz não revelavam emoção ou desconforto; ele demonstrava mais autocontrole do que qualquer adulto.
Se Raymond não cometesse um erro, certamente conseguiria persuadir Vandalieu. Acreditando nisso, deu sua resposta:
“Porque eu queria a força de combate dos Scylla e este território que é uma fortaleza natural. Sou um filho ilegítimo que uma vez abriu mão do direito de suceder ao trono. Para que alguém como eu governasse o Ducado de Sauron, eu precisava vencer o exército inimigo através de um plano que eu comandasse. Por isso pedi ao meu irmão mais novo que fizesse o trabalho sujo. Não acredito que tenha feito algo de errado. Orbia, foi? Eu realmente não acredito que tenha feito algo de errado com ela ou com as outras vítimas. Eles foram sacrifícios necessários para vencer esta guerra.”
“Você achou que seríamos enganados por –” Privel começou a gritar, mas de repente parou. “Eh?” Ela olhou fixamente para Raymond, piscando várias vezes.
“C-Comandante? O que está dizendo?”
“O que há com você, Comandante Raymond?!”
Os subordinados de Raymond estavam calmos até então, mas agora estavam confusos e aflitos.
O quê? O que acabei de soltar?!
Pelas reações ao redor, Raymond percebeu, em choque e pânico, que havia dito palavras impensáveis, mas sua boca continuou falando fora de seu controle.
“O filho legítimo do duque, que oficialmente tem o direito de suceder ao trono, fugiu para o Reino. Não posso esperar que ele ganhe poder e inicie um plano para recuperar o Ducado de Sauron. Se isso acontecer, não poderei me tornar duque, não importa o que nós, membros da resistência, consigamos. Para tornar o Ducado de Sauron um lugar melhor, devo me tornar duque e governá-lo! É por isso que eu precisava de soldados, um exército comigo no centro, para lutar contra o inimigo!”
Essas eram as verdadeiras intenções de Raymond.
Ignorando o fato de que os Scylla não se envolviam em assuntos políticos ou militares desde que o Ducado de Sauron ainda era o Reino de Sauron, ele havia conspirado para forçar a raça Scylla, que havia perdido completamente o interesse pelo mundo fora de seu território, a se tornar seu exército.
Mas ele não tinha intenção de dizer isso em voz alta.
“Sim, por favor continue respondendo a ela e às minhas perguntas,” disse Vandalieu. Ele movia os olhos inquietamente, atacando a mente de Raymond e implantando sugestões com a habilidade Intromissão Mental.
E antes que Raymond e seus homens pudessem dar qualquer tipo de resposta, ‘ela’ apareceu.
“Me diga, aquela pessoa… Rick me matou?”
Raymond e seus homens estremeceram quando essa pergunta gelada chegou aos seus ouvidos.